Como os Sebastianistas e os apologistas do Quinto Império não são bons Portugueses, um excerto

Uma passagem da Crónica de D. Fernando, cap. LXXIX, de Fernão Lopes., explicando Como os Sebastianistas e os apologistas do Quinto Império não são bons Portugueses.

“Ora vamos miudamente desconjuntando as pedras do edifício Sebástico, e comecemos pelo juramento dado por D. Afonso Henriques nas Cortes de Coimbra, pois se julga peça autêntica e anterior a Fr. Bernardo de Brito, pelo Padre António Vieira. Vamos à atenuada 16.ª geração; e vejamos se é o Encoberto Sebastião, ou quem é? Costumam-se nas altercações bem ordenadas concederem-se certos postulados necessários e razoáveis; eu tenho que estabelecer dois que não podem ser negados pelos mais teimosos Sebastianistas: I – Que uma geração se entende de pai a filho pela ordem da natureza; II – Que enquanto se podem entender as Profecias no sentido literal e óbvio, não é lícito recorrer ao acomodatício, ou figurativo. Ora, isto não é pedir muito, e é preciso que um Sebastianista seja também um sovina, ou catinga para o negar, e até pode passar por axioma, que um pai gerando um filho constitui uma geração. Vamos ao juramento, eu o julgo autêntico, e incontestável a aparição de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques. Que ouviu o Monarca ao Senhor? Que ouviu a Leovigildo Peres de Almeida, porque é preciso distinguir estas duas cousas. Jurou pois o Rei desta maneira: Nesta Cruz de cobre e neste livro dos Santíssimos Evangelhos, em que ponho as minhas mãos, juro que eu miserável pecador vi com estes meus indignos olhos o verdadeiro Senhor Nosso Jesus Cristo estendido na Cruz. Diz pois que lhe ouvira estas palavras: – Eu sou o Edificador e Dissipador dos Impérios, e dos Reinos, quero em ti, e na tua descendência estabelecer um Império para mim, para que por ele o meu nome seja levado a Nações estrangeiras, e para que os teus descendentes me reconheçam por Autor e Doador do teu Reino; formarás o escudo das tuas armas, comporás a tua bandeira do preço com que eu remi o género humano, e daquele com que fui vendido pelos Judeus, e será um Reino santificado para mim, puro na Fé, e amado por sua piedade. Eis aqui o juramento, eis aqui as palavras, que o Rei escutou na sua visão, e mais nada. Eu vi todos os livros, todos os tratados em que vem este grande passo, que nós acreditamos, e uma contínua tradição entre nós, autoriza: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus. Nestas promessas não vem Encoberto, não aparece Sebastião algum, não se determina, ou a decadência, ou o termo da Monarquia Portuguesa, o que ali se prometeu, é o que se tem cumprido até agora, é um Reino amado de Deus, levou seu nome às extremidades da terra, e o ensinou a muitas Nações estranhas, tem conservado a sua Fé intacta, e é respeitável pela sua piedade e Religião, conservando-a na sua maior pureza e integridade. Agora não o juramento do Rei, é uma passagem de pura fé histórica; D. Afonso fortalecido com a visão falou aos Soldados aqui ponho em bom romance: Senhor, estai de bom ânimo, vencereis, vencereis, e não sereis vencido: sois amado do Senhor porque pôs sobre vós, e sobre a vossa geração os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, na qual se atenuará; mas nela atenuada tornará a pôr os olhos e verá – Estas palavras não são de Jesus Cristo, não jurou o Rei que as ouvira, não se acham incluídas no juramento, são palavras de Leovigildo Peres de Almeida, que assim se chamava o Ermitão. Este é pois o grande Palladium dos Sebastianistas. Este grande homem é o seu homem, este é o Arquiprofeta da Seita Sebástica. Ora pois falou o Profeta primeiro dos Sebastianistas, é preciso entrar no conhecimento do Oráculo, e é preciso distinguir duas coisas; primeira, que na 16.ª geração se atenuaria a descendência de D. Afonso Henriques. Segunda, que nesta mesma 16.ª geração atenuada poria Deus os olhos de sua misericórdia. Vejamos nós agora quem é esta 16.ª geração atenuada, abatida, e sem prole, de que fala o Ermitão. Contemos com sinceridade e rigor, sem nos apartamos do sentido literal da Profecia, primeiro alicerce Sebástico. Qual é a 1.ª geração de D. Afonso Henriques? É seu filho D. Sancho gerado por ele: bem está, a geração é de pai para filho (grafismo na imagem). Não há outro modo de contar gerações: Pai – Filho. Logo, D. Sebastião não é a 16.ª geração…

…Mas sendo o Peres de Almeida tão grande Profeta, não pode mentir. Ele não falou no 16.º Rei de Portugal, falou na 16.ª geração. Se ele fala no número dos Reis Portugueses, e quer dizer que se atenuou no último, que cumpre o número dos dezesseis, piora um pouco, porque acaba no Cardeal Rei, que fazem dezessete (grafismo na imagem). Aqui se acabou, e aqui se atenuou, logo os Sebastianistas devem esperar por D. Henrique, não D. Sebastião, e por isso se devem chamar Henriquistas, e não Sebastianistas. Se contam Reis, sobeja um, se contam…

…gerações, faltam três. Se querem tirar deste número de pleno poder D. Afonso Henriques, então fica D. Sebastião sendo 15, e o Cardeal 16, e é este o atenuado e o Encoberto, e é mentira também estar enterrado em Belém, não morreu em Almeirim, está na Ilha dos Capuchos. Meus Sebastianistas, aqui há mistério, o Profeta Almeida não é homem de carambolices, ele fala em gerações sucessivas de Pai a Filho na linha masculina sem interrupção até a 16.ª, para a qual já bem atenuada o Senhor olhou. Vamos à conta, que posto seja Jesuítica, é vossa, e é declarada pelos vossos Profetas, e por seus comentadores, e corroborada pela História e Genealogia (grafismos na imagem). Aqui tendes vós testarudos Sebastianistas 16 gerações sucessivas sem interrupção em linha masculina e reta, e sabei que este é o caminho único que há…

…para salvar a verdade do vosso primeiro Oráculo. D. João IV é a 16.ª geração por varonia, e como se vê, atenuada por D. Felipe IV a ponto de o querer arrancar de Portugal e mandá-lo para Catalunha. Assim fica em pé, e na sua natural e óbvia inteligência, o oráculo do Profeta Peres de Almeida, porque ainda que queiramos dizer que em ElRey D. Sebastião se atenuou a prole dos Reis, não sendo ElRey D. Sebastião a 16.ª geração expressa no Oráculo, não se pode entender que nele atenuado, o Senhor começava logo a engrandecer o Reino, pondo nele os olhos de sua misericórdia. Lembremo-nos também que o Oráculo do Peres admite um sentido moral muito próprio, porque se pode chamar atenuação de prole régia o estado de Duque a que foram passando os filhos de D. João I e até esta dignidade estava atenuada no Duque D. João II pela política de Castela. Vós Sebastianistas, se vos aparecesse ElRey D. Sebastião, lhe devíeis dizer: Vá Vossa Majestade com Deus, porque não é a 16.ª geração atenuada que nos promete o nosso Peres, já cá temos no Trono a 16.ª geração atenuada e exaltada, que foi ElRey D. João IV”.

 – “Os Sebastianistas”, de José Agostinho de Macedo, dois volumes.

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