Contra os Abraços

Sobre a sobrevalorização dos abraços, que criam um escape às emoções, dando uma resposta pronta que inibe o seu processamento e impedindo que sejam autosuperadas, trivializadas e apreendidas. Criam pessoas mimadas e emocionalmente dependentes, prontas para se encostarem a alguém para suporte, validação e aconchego, justificando qualquer sentimento.

Os abraços? Pessoalmente nunca fomos desses gestos aqui em casa. E sou das pessoas mais tranquilas, simpáticas e queridas que conheço. E sim, também um quasipsicopata em simultâneo.

Mas entrando mais a fundo nesse acto aparentemente tão banal mas ao qual hoje em dia è prestado uma espécie de culto de raiz feminina que pretende impô-lo como solução para mil e um males, é necessário refletir melhor. 

Os abraços criam um escape às emoções, dão uma resposta pronta a tais estímulos e inibem que essas sejam correctamente processadas, interrompendo-as. Isso faz com que não sejam autosuperadas, logo consequentemente trivializadas e apreendidas (de modo a que se possam perceber os “gatilhos” e falhas e corrigi-las). É um gesto cuja repetição absorvente cria pessoas mimadas e emocionalmente dependentes, sempre prontas para se encostarem a alguém para lhes dar suporte, validação (tanto validação pessoal quanto validação de um dado comportamento ou reacção), aconchego e justificação para um sentimento ou emoção (sendo normal a pessoa sentir-se insegura ou afectada). 

Além disso, cria também divisões na sociedade, já que esse tipo de pessoa formada por essa cultura tende a associar-se a quem lhe possa assegurar certo tipo de conforto, rejeitando companhias menos envolvidas, ou frias e relativamente insensíveis, devido à sua diferença de ver esse campo das coisas. Os abraços dão a ilusão que os problemas se resolvem ou aliviam com soluções práticas, simples e livres (ou seja, sem esforço), desincentivando muitas vezes o combate e o trabalho, em situações mais complexas, para evitar frustrações, vazios e sentimento de inutilidade e insuficiência. 

Deste modo, os abraços criam distorções nas relações sociais, pois:

1. As pessoas buscam sempre maximizar o retorno das mesmas (que passaria por esse excesso de carinho e atenção que o abraço proporciona, fora o aconchego);

2. Desequilibram-nas porque se espera que o outro perceba, se preocupe e atenda as nossas necessidades (muitas vezes sem considerarmos retribuição);

3. Enviesam as características procuradas no parceiro, muitas vezes idealizando pontos irrealistas;

4. Exigem uma reciprocidade forçada (se eu sou mais físico o outro também o deve ser, “se realmente me amar”);

5. Obrigam a mais cuidados e atenções constantes, saturando e esgotando o parceiro;

6. Por último, e no fundamental: falsificam o afecto, encenando-o e representando-o. O excesso de abraços cria uma ilusão de empoderamento, criando uma falsa ideia de importância e de elevação que não corresponde a uma realidade objectiva e observável.

Os abraços criam ainda outros problemas, como a necessidade constante e crescente de uma presença alheia, levando as pessoas a maior necessidade de integração e expansão do seu ego social, diminuindo a absorção das experiências mas aumentando a dissipação do eu – torno-me algo por fusão com algo maior e não o contrário, e assim cresce-se por assimilação de algo externo, invertendo a ordem e reduzindo a identidade a algo exterior. Isso explica a atração por todo o tipo de colectivismos, obediência e submissão a grupos que orientem o indivíduo, dando um sentimento de pertença, guia e acompanhamento (ou seja, o dito aconchego tão próprio do abraço) e por último uma direcção, tornando os indivíduos mais dependentes, necessitados e menos críticos. É deste modo, já que a necessidade de conforto supera todas as outras, como o de autocompreensao, que passa pelo afastamento ou rejeição do outro, por comparação e “contraste” (maior ou menos aproximação).

Diria que essa repetição de hábitos entre pais e filhos é perniciosa e nociva com consequências trágicas e um pouco imprevisíveis. Ao contrário do que se possa pensar, na verdade torna os indivíduos mais despreocupados com o próximo (já que as suas necessidades egoistas são prioritárias), mais reactivos, exigentes, violentos (facilmente provocados), menos entusiasmados, dependentes, manipuláveis, embirrentos e infantis. Alguns diriam: pequenos monarcas.

O desenvolvimento da sociedade passa por menos abraços nas fases de desenvolvimento do indivíduo e não o contrário.

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