Memórias de um processo: Notas sobre a politização de uma vida
Nasci com Ramalho Eanes como presidente. Não sei se o gosto por fardas começou nessa altura ou se já trazia na memória ancestral do meu ADN.
O homem do saco, a recolher lixo, era usado para atemorizar crianças para controlar comportamentos muito “ativos”. Aproximava-se do slogan: “comunistas comem criancinhas”.
Era uma ambiguidade esquisita. Pois quando se organizavam almoços de domingo, com amigos de família que eram de esquerda, uma criança fica apreensiva se depois da refeição alguém lhe iria comer um braço ou uma perninha.
Em simultâneo, nos trajetos da margem Sul para os arredores da capital, havia umas festas na zona de Corroios que sempre achei que eram as festas do Avante.
Afinal, os comunistas com quem nessa altura convivia moravam todos por ali. Só quando a festa passou a ser vizinha do quintal da minha avó — que tinha um esquema montado para despachar visitas dos Jeovás com uma mangueira — é que tomei consciência da sua dimensão.
Fui uma vez. Bem organizado. Até houve um curto-circuito num poste de eletricidade, que foi rapidamente controlado, sem dar tempo para que a multidão entrasse em pânico e provocasse algum dano maior.
A tragédia de Camarate foi vivida com intensidade por casa. Uma angústia que se entranha na memória de uma criança, que leva o seu tempo a desmembrar da sua construção cognitiva.
Num ambiente que integrava retornados das ex-colónias, que tratavam de manter a sua dignidade numa sociedade que apontava o dedo para um problema difícil de resolver, o apoio político por casa aclamava por Freitas do Amaral. Cruzar-me com Mário Soares, depois de ser eleito, deixou-me registado o detalhe de uma pele pálida. Meio amarelada. Mas a quem tive a oportunidade de deixar um parágrafo no seu livro de condolências porque, é um facto: “As mudanças que queres para a tua vida estão nas decisões que não tomas”. E sempre lhe reconheci caráter para enfrentar as suas decisões. Com as consequências que acarretavam.
Quis a vida que vivesse a experiência de conhecer o processo de transição da ditadura brasileira. Nunca tinha visto uma cidade com tantos militares na rua nem um tanque a “varrer pessoas” com jacto de água, nas ruas do Rio de Janeiro. Vivi a história da mudança de 5 moedas e das notas carimbadas:
Cruzado (Cz$): Criado em 1986 para cortar três zeros do Cruzeiro antigo. Cruzado Novo (NCz$): Lançado em 1989 com o corte de mais três zeros. Cruzeiro (Cr$): Retornou em 1990, mantendo o valor da moeda anterior. Cruzeiro Real (CR$): Adotado em 1993 com o corte de três zeros. Real (R$): Implementado em 1994, com a transição feita através da Unidade Real de Valor (URV).
Até o Real estabilizar. Comprei a minha primeira t-shirt com dinheiro próprio, a prestações, com a mesada. Também queria entender a desvalorização de um objecto e o que significava “inflação diária”:
Foi ainda no Brasil que lidei diretamente com o início da (re)organização política em Angola. O merchandising nessa época chegava ao continente africano por muitos lados.
Ver as contas da família congeladas em simultâneo quando se discutia o escândalo das milhares de calcinhas (cuecas) da mulher do presidente, com dinheiro público, foi um cenário estranho. Na mesma altura em que liguei uma televisão para ver a primeira guerra da vida a “rebentar”, no Kuwait 1991. Foi uma sensação similar à do episódio de Camarate só que, neste caso, alterou todo um modo de (sobre)vivência que se instalou em casa; implicava fazer contas regulares em USD, Escudos e Cruzeiros.
De resto, longe do caos dos grandes centros urbanos, em Itajaí a vida continuava com alguma normalidade.
De regresso a Portugal, o primeiro voto eleitoral deu-se em 1995. A cruz do boletim foi para Manuel Monteiro (CDS-PP). A opinião sobre a pessoa e a sua integridade mantém-se intacta até hoje.
E chegando à fase universitária, onde há todo um mundo de certezas com dinheiro fácil, todo um mundo de ideologia liberal fazia sentido. Até o crédito se tornar numa dor de cabeça, e a ilusão de que o sucesso é a melhor forma de se ser melhor pessoa mostrar outra realidade.
Ao estudar Direito, as regras da lei mostraram-me que manda quem controla. E se quem controla tiver valores enviesados, é uma chatice para a sociedade…
Mudei para gestão de marketing. Não o da publicidade nem da comunicação. O de pensamento sistêmico na lógica do pensamento estratégico que vê o cenário como um todo..
A preocupação com a relevância da política era um lugar distante. A fase do mundo à volta do umbigo ainda era uma crença.
E como Deus lá tem os seus planos, em 1996 visitei a realidade da história que ouvia dos “retornados”.
Da vista que tinha da Ilha para a cidade de Luanda havia uma pergunta que não me saía da cabeça era: “Como é que se vão organizar para construir a sua nação?”.
Um bónus que a vida me deu, poder regressar mais tarde, “ao abrigo da reconstrução do país”. Aquele carimbo de expatriada no passaporte, que me permitiu assistir com detalhe como se constrói uma Nação. Porque falar é fácil. Fazer tem os seus grandes e muitos desafios.
E por motivos de trabalho, um dia acabei sentada numa mesa de comício, com cachecol e bandeira na mão, com pessoas de pensamento astuto e interessante, onde ouvi a resposta mais digna à questão das quotas de mulheres na política daquele lugar: “A mulher merece o seu lugar por mérito!” Fez-me todo o sentido.
No final, acabei a levantar o braço no ar de punho em riste num género de grito partidário, para não ser deselegante. Foi estranho. Mas “bateu”!
E de regresso a Portugal, nos vários cruzamentos na via pública com António Costa, quando deslocou o seu gabinete para o Largo do Intendente, aquele “bit” de politização em país alheio ressoou e estimulou a ação de o apoiar.
A única vez que fui militante de um partido. Foi interessante e construtivo.
Os partidos são pouco diferentes das conflituosas reuniões de condomínios. Pequenos poderes que fazem parte da evolução do indivíduo.
Ter tido a oportunidade de lidar com alguns sindicatos teve a sua graça. Mas não muda a minha opinião sobre a sua responsabilidade pelo atual salário mínimo.
E numas presidenciais, conheci o Vitorino Silva. Gozado por muitos mas respeitado por outros, que conhecem a sutileza intelectual que esconde uma boa metáfora. Um exemplo que mostrou ao país que qualquer cidadão pode exercer o seu direito constitucional de querer mudar algo no país e que é possível fazer política sem agressividade.
A forma genuína como sempre se apresentou cruzou-nos caminho. E pela primeira vez participei numa lista de candidatos nas legislativas com o RIR. Uma experiência gratificante que mostrou a complexidade que é gerir a burocracia para se sustentar um partido. Pessoas também!
Mas empolgada a forma banalizada de se fazer política, apontando o erro dos outros sem soluções incluídas, a lufada de ar fresco que Rui Tavares trouxe ao eco da assembleia aos ouvidos dos contribuintes, levou-me a participar na lista do LIVRE por Castelo Branco, na fase em que tomei outra consciência sobre a importância de refletirmos os comportamentos urbanos, assentes em complexos rurais herdados de outras vidas.
Hoje, fascina-me o humor inteligente do Gonçalo Capitão do PSD. Levou-me à memória as corridas de bicicleta que fazíamos na rua, gastando o giz do jogo da mata que desenhavamos no alcatrão, em que o miúdo com a bandeira do CDU pendurada, ganhava sempre.
Hoje, gosto muito do presidente da minha junta de freguesia e sou grata a todos os outros anteriores. O mesmo se aplica ao executivo camarário e seus antecessores. Vivo num concelho onde um movimento de cidadãos, de diversas ideologias políticas, procura resolver os problemas da população.
Cidadãos que se uniram, focados no mesmo objectivo, que ganharam as últimas autárquicas com maioria absoluta: sem manifestações nem lutas, com o voto nas urnas como está no direito do eleitor, defendido na Constituição.
Este foi o meu processo: não linear, nem ideologicamente puro. Feito de alertas de infância, de moedas que mudavam de nome, de perguntas lançadas sobre uma parte da história do colonialismo, de punhos erguidos por educação e de votos depositados com a mão tranquila. A política começa, afinal, em cada um de nós — nas pequenas contradições que habitamos, nas perguntas que não conseguimos silenciar, nas escolhas que fazemos mesmo quando ainda não lhes damos o nome de política.
