Sobre o ciclo anual de atividades rurais e comunitárias em uma vila medieval portuguesa

Excerto de José Mattoso sobre o ciclo anual de atividades rurais e comunitárias em uma vila medieval portuguesa, alinhado ao calendário litúrgico e às estações, com tarefas como matança de porcos, troca de ofícios, reparos no castelo, celebrações e gestão de recursos agrícolas e judiciais.

“No começo do inverno, quando se inicia o ano litúrgico, preparando o Natal com o tempo introdutório do Advento, os homens e as mulheres recolhem-se em casa e ocupam-se das tarefas domésticas, que asseguram o funcionamento da produção familiar. Efetivamente, no Santo André (30/Nov), terminada já a engorda, substituem-se, se é preciso, os encarregados dos porcos. Provavelmente faz-se, pouco depois, o grande ritual doméstico da matança e salga-se a carne, que fornece um importante meio de alimentação, na altura em que os frutos da terra são poucos. No Natal mudam-se os hortelãos, o que permite provavelmente recolher frutos secos, e reorganizar a administração dos quintais e das capoeiras. Depois da festa do Sol invicto, vem o longo inverno, com a redução das atividades públicas e o consumo dos alimentos acumulados no outono. Quando os dias começam lentamente a crescer, aumentando a renovação do ciclo vegetativo, e renasce a esperança de ver aparecer a primavera, prepara-se também a reorganização da comunidade, mudando os alcaldes e os aportelados do concelho no dia de Nossa Senhora das Candeias (2/Fev). Os novos magistrados iniciarão as suas funções com vigor novo, mas os chefes de família devem vigiá-los atentamente durante os dias de inverno que ainda continuam, para não perturbarem a vida da comunidade com inovações excessivas. Em Março começam as obras no castelo, preparando-o para os ataques mouros que raramente faltavam no período quente. Quem nele trabalha são os peões e os lavradores, roubando algum tempo às atividades agrícolas, que nesta época não são ainda muito intensas, mas prolongando as obras e a vigilância das muralhas por todo o verão quando elas vão ficando cada vez mais pesadas. Não sabemos se o começo da Quaresma dá lugar a festividades populares do género do Carnaval. Mas a intensificação progressiva da vida pública e comunitária e a contenção que a liturgia impõe, com o seu ambiente austero, têm o seu paralelo na vida civil, com a redução da atividade judicial. Adiam-se para depois da Páscoa os processos de crime, e despacham-se apenas os que resultam de prejuízos nos prados, vinhas, moinhos, azenhas, etc. É preciso guardar e cuidar dos instrumentos de produção na época crucial da germinação primaveril. E se a energia que então se apossa das pessoas dá lugar a abusos, convém, talvez, esperar que o tempo apazigue os ânimos para julgar os processos pendentes, ou confiar no ambiente de pacificação que a primavera traz consigo. A renovação da natureza celebra-se com a grande festividade da Páscoa, a partir da qual se começam também as lavras dos terrenos em pousio ou as “póvoas” nos montes. Desde a Páscoa até ao São Miguel (29/Set) proíbe-se a caça ao coelho, para deixar crescer as crias e permitir a renovação das reservas animais, nas matas e nas charnecas. Em Maio, iniciam-se as expedições de pilhagens na fronteira, que se prolongarão até Agosto. Entretanto, os peões e os jugueiros dedicam-se aos trabalhos da sacha e da monda ou levam o gado a pastar ao monte. Pelo São João (24/Jun) mudam os pastores. Como, por esta altura, deve começar a escassear o cereal entregue aos moleiros para moer, aumenta a proporção da maquia que eles cobram (de 1/16, passa a 1/12), mantendo-se assim até ao São Miguel (29/Set). Nesta data pode também começar a vender-se o vinho produzido no concelho. O solstício é, portanto, marcado por mudanças importantes, que as festas populares não deixariam de acentuar. Pouco depois, no São Pedro (29/Jun), podia começar a vender-se lenha no açougue, e no princípio de Julho dava-se o gado de parceria, renovando-se assim os acordos para a organização dos rebanhos, que em breve deviam partir para as pastagens de verão. Estas não seriam, talvez, demasiado longínquas: podiam dirigir-se à Serra da Estrela ou à de Montemuro, ou, então, aos montes das Astúrias [adaptado do Foral da Vila de Alfaiates, atenção]. No São Cristóvão (10/Jul) começavam a reunir-se semanalmente, às terças-feiras, as parcerias dos moinhos e das azenhas, decerto para vigiar as reparações a fazer nos engenhos, eventualmente estragados pelas águas do inverno e da primavera. Entretanto, continuavam as expedições na fronteira, e vigiava-se atentamente no castelo e nas atalaias, para correr ao apelido se se aproximavam os ginetes mouros, e proteger o gado e as searas. Em Agosto, intensificando-se a vigilância das searas e chegando o tempo de ceifa, reduz-se novamente, como durante a Quaresma, a atividade judicial. Os jugueiros que têm de se ocupar das colheitas entregam os bois a alguém por sua conta e confiam o trabalho da eira (trilho) às mulheres. A partir do fim do mês, cessam ou diminuem as azarias e os fossados, afrouxa a vigilância no castelo, preparam-se as sementeiras do outono. No São Cipriano (14/Set) havia um feriado judicial, e os ferreiros entregavam as relhas dos arados novos que tinham feito, para com elas lavrarem a terra antes das sementeiras. Pelo São Miguel (29/Set) tabela-se o preço do mosto do vinho, diminui a maquia dos cereais cobrada pelo moleiro e pode recomeçar a caça ao coelho. Dispondo já de cereal novo, podia semear-se o trigo e o centeio em outubro. No São Martinho (11/Nov) cessavam os trabalhos de reparação no castelo e regressavam os rebanhos das pastagens longínquas, pois nessa altura deviam entrar in extremo. Com os rebanhos, recolhem-se também os homens e as mulheres a suas casas, passando a dedicar-se mais às atividades domésticas para, em consonância com a natureza, adotarem os seus ritmos mais lentos e ocultos.”

 – “Identificação de um País”, de José Mattoso.

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