11 de Setembro, 25 anos depois

Visto em direto, o 11 de Setembro chocou pela escala e simultaneidade. Depois, o terrorismo tornou-se banal e, na Europa, falta de integração e obsessão identitária enfraqueceram a coesão. O Ocidente perdeu centralidade. A foto das Torres metaforiza certezas frágeis: a História não caminha sozinha.

Lembro-me exatamente de onde estava.

Trabalhava algures no Marquês de Pombal. No escritório havia um plasma permanentemente ligado à Bloomberg. Era quase religioso, cotações, índices, gráficos e outras m@rdas a correr no rodapé do ecrã. O ruído de mais um dia no sobe e desce. Normal.

De repente, Nova Iorque.

Uma das Twin Towers estava a arder. A primeira reação foi quase absurda na sua normalidade, olha, uma avioneta espetou-se ali. Foi isto. Uma avioneta. Porque o meu cérebro, perante o impossível, procura primeiro uma explicação que caiba dentro do mundo que conhece.

Depois comecei a perceber a escala. Aquilo não era um prédio qualquer. Aquela pequena ferida negra que víamos no ecrã tinha dezenas de metros. As janelas eram pisos. Os pontinhos que mal distinguíamos eram pessoas. E a avioneta já não cabia na explicação.

Continuei a olhar. E então apareceu o segundo avião.

Durante uns segundos ainda pensei que alguém tivesse conseguido filmar o primeiro avião e que a televisão estivesse finalmente a mostrar as imagens. Era isso que fazia sentido. Tinha de ser isso.

Não era. Era mesmo o segundo avião. E estava a acontecer naquele momento.

É difícil explicar hoje o significado daqueles poucos segundos há 25 anos quando vivemos hoje num mundo em que uma explosão, um atentado ou uma guerra aparece no meu Redmi e no teu iPhone quase antes de acabar. Em 2001 não era assim. Naquele dia, à escala planetária, milhões de pessoas assistiram praticamente em simultâneo a uma atrocidade de proporções inimagináveis enquanto ela ainda estava a acontecer.

E talvez tenha sido isso que tornou o 11 de Setembro tão profundamente perturbador. Não houve tempo para jornalistas explicarem, historiadores contextualizarem ou políticos escolherem as palavras. Primeiro vieram as imagens. Um avião. Depois o outro. Pessoas nas janelas, algumas a atirar-se no vazio. Fumo e fogo. E finalmente, aquelas torres enormes, aparentemente indestrutíveis, a desaparecerem verticalmente dentro de si próprias.

O terrorismo que naquela manhã apareceu monumental, organizado e cinematográfico tornou-se entretanto mais pequeno, mais disperso e, por isso mesmo, paradoxalmente mais banal. Já não precisa necessariamente de aviões, organizações gigantescas ou planos capazes de alterar o curso da história. Pode aparecer numa rua, num concerto, num mercado, numa escola, num qualquer comboio. Pode caber numa faca, num carro ou num gajo radicalizado, sozinho, diante de um ecrã.

Hoje, cada atentado ganha imediatamente a sua pequena gaveta explicativa. A doença mental. A perturbação pessoal. A exclusão social. A biografia difícil. A responsabilidade estritamente individual. 

Nos últimos 25 anos milhões de pessoas mudaram de país, construíram vidas, trabalharam, casaram, tiveram filhos e fizeram das sociedades europeias também as suas sociedades. Essa realidade existe e seria absurdo negá-la.

Mas existe outra camaradas. Comunidades que vivem lado a lado sem viver verdadeiramente juntas. 2

e 3 gerações que continuam a sentir-se estrangeiras no país onde nasceram. Sociedades de acolhimento que confundiram durante demasiado tempo tolerância com ausência de exigência. E Estados que imaginaram que colocar culturas diferentes no mesmo território produziria automaticamente uma cultura comum.

Não produz.

A convivência não é química espontânea. Precisa de regras, identidade partilhada, deveres comuns e vontade de integração de ambos os lados.

Entretanto fizemos ainda outra experiência. Começámos a dividir obsessivamente as sociedades em identidades cada vez mais pequenas, convencidos de que sublinhar permanentemente aquilo que nos diferencia acabaria, por algum milagre sociológico, por nos unir.

Talvez tenha acontecido precisamente o contrário.

Falámos tanto de diferenças que começámos a esquecer aquilo que devia ser comum.

E enquanto o Ocidente discutia consigo próprio, frequentemente com uma impressionante vocação para a culpa, o mundo lá continuou a mexer-se.

A China cresceu. A Ásia ganhou peso económico, tecnológico e político. Países periféricos acumularam riqueza, conhecimento e influência. Milhões de pessoas saíram da pobreza fora do eixo tradicional europeu e norte-americano. O centro de gravidade económico do planeta mudou! Isso não é necessariamente uma tragédia. Em muitos aspetos é uma extraordinária história de desenvolvimento humano, mas obriga-nos a aceitar uma coisa desconfortável, a de que o domínio ocidental não é uma lei eterna.

Os mapas que aprendemos na escola têm a Europa convenientemente perto do centro. Um dia talvez a nossa cartografia mental deixe também de a colocar lá. Não porque alguém redesenhe os continentes, mas porque o centro do mundo é, no fundo, o lugar onde estão o dinheiro, o poder, a tecnologia, a população e a capacidade de decidir o futuro.

Impérios descobriram isso antes de nós. Normalmente tarde demais. Talvez seja por isso que esta fotografia me impressiona tanto.

Há uma cruz imóvel em primeiro plano. Atrás dela, uma torre desaparece no meio do pó, do aço e de milhares de fragmentos. Podemos ver apenas uma fotografia do 11 de Setembro.

Ou podemos ver uma metáfora involuntária dos últimos vinte e cinco anos.

Coisas que julgávamos permanentes revelaram-se frágeis. Fronteiras, hegemonias, certezas, equilíbrio internacional, até a convicção profundamente ocidental de que a história caminhava inevitavelmente sempre na nossa direção.

Não caminha. A História nunca caminha para lado nenhum. Somos nós que caminhamos dentro dela.

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