Ceuta: o erro estratégico da direita ibérica

Em Julho de 2026, cerca de 72 mil pessoas entraram irregularmente em Ceuta. Partidos de direita chamaram-lhe “invasão” patrocinada por Marrocos. Aqui sustenta-se que o episódio é mais complexo — redes sociais, decisão judicial espanhola e política de Sánchez — e que Marrocos coopera no controlo migratório. Defender fronteiras não exige transformar um vizinho estratégico em inimigo.

Denunciar a invasão

No final de Julho de 2026, cerca de 72.000 pessoas entraram irregularmente em Ceuta, um enclave espanhol em Marrocos, num período de 24 horas. Segundo o ministro da administração interna espanhol, Fernando Grande-Marlaska, cerca de 70.000 já terão regressado a Marrocos. Tenhamos em conta que 83.000 pessoas habitam em Ceuta.

Em Portugal, o partido político Chega exigiu “fronteiras controladas” e que a Europa cumprisse o dever de “travar a imigração ilegal” e de “recuperar imediatamente o controlo das suas fronteiras”. Em Espanha, o partido político Vox insistiu que a chegada de migrantes a território espanhol constitui “ataques extremamente graves à soberania nacional” e à “integridade territorial”. O presidente do Chega, André Ventura, recusou-se a chamar imigração ao que aconteceu num dos dois enclaves espanhóis no Norte de África, optando por classificá-lo como uma “invasão”. Em nome da “segurança das suas nações”, defendeu que a Europa não podia permitir que algo semelhante voltasse a acontecer. O presidente do Vox, Santiago Abascal, também sustentou que não se deveria ser relutante em chamar ao episódio uma “invasão”.

No dia 7 de Agosto, Ventura publicou um post em que escreveu que “Marrocos está a patrocinar ativamente a imigração ilegal para a Europa e a sua islamização”. No dia 6 de Agosto, o líder do Vox apelou, juntando-se ao partido de esquerda Sumar, a que Marrocos não organize o Mundial 2030 ao lado de Portugal e Espanha. Para Abascal, não há dúvida de que Espanha estivera “perante um ato de guerra promovido por Marrocos”, para além de ter sido “permitido e tolerado por Pedro Sánchez de diversas formas (…) através de propostas de regularização em massa que enfraquecem as nossas fronteiras”.

O Chega e o Vox, os dois principais partidos civilizacionistas (recordando o conceito de Daniel Pipes) da Península Ibérica, sabem que imigrantes provenientes do Magreb e da África Subsariana são, na sua perspetiva, muito menos assimiláveis do que, por exemplo, imigrantes provenientes da Europa ou da América do Sul, e que trazem consigo uma amplitude de problemas, tais como a criminalidade, a resistência ao ensino dos idiomas dos seus países de acolhimento (português e espanhol, neste caso) e uma contribuição que consideram desproporcional para os sistemas de saúde e de previdência social desses países. Estes partidos também estão atentos à suscetibilidade dos imigrantes muçulmanos serem atraídos por narrativas islamistas, que incitam à poligamia, ao taharrush (assédio sexual), aos assassínios por honra, à mutilação genital feminina, à obrigatoriedade do uso das burqas e dos niqabs por mulheres e que promovem uma visão favorável do jyzia e de outras manifestações de dominação dos muçulmanos sobre os kafirs (ou infiéis).

Não obstante, ao terem esta postura ofensiva diante do país africano vizinho, podem estar a avaliar uma fatia de um bolo e confundi-lo com o todo. Se é verdade que existem atores políticos e ideológicos dentro de Marrocos dispostos a fragilizar a imagem do seu próprio país e a desestabilizar os países europeus, tornando-os até perigosos, o país talvez atualmente mais importante do Magreb não tem demonstrado interesse, ao longo dos últimos anos, em estimular fenómenos que coloquem em causa a sua imagem de paz e desenvolvimento no contexto do Norte de África e do Médio Oriente.

Combater a erosão civilizacional não tem de significar criar atritos desnecessários com países vizinhos. Aliás, o líder do Vox chegou a afirmar, em Maio deste ano, que Marrocos não é inimigo de Espanha e que é uma nação vizinha com quem “devemos tentar ter uma boa relação baseada no respeito”. A viragem pode não fazer sentido.

Atípico, no mínimo

Na verdade, as entradas em massa em Ceuta e Melila, o outro enclave espanhol no Norte de África, não são incomuns, mas costumam ocorrer através de travessias transfronteiriças terrestres. Os espanhóis que residem nesses territórios estão relativamente habituados a que estrangeiros pulem cercas ou portões de fronteira. Aliás, foi assim que os pais do jogador de futebol Nico Williams, atual extremo do clube Atlético de Bilbau, alcançaram Espanha. Em Fevereiro de 2014, mais de 200 pessoas saltaram simultaneamente uma cerca em Melilla. Em Outubro do mesmo ano, cerca de 50 imigrante ilegais, a maioria proveniente do Mali, saltaram por vários pontos da vala fronteiriça . Em 2022, aproximadamente 2.000 pessoas fizeram o mesmo através da mesma fronteira.

Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol e um dos principais responsáveis pela erupção de passagens transfronteiriças entre Marrocos e Espanha (já vamos aí), referiu-se à chegada de mais de 70.000 pessoas a Ceuta como inédita: em primeiro lugar, pela quantidade de pessoas; em segundo lugar, pelas circunstâncias e pelas dúvidas que suscitou. Sem dúvida que o episódio de Ceuta reacendeu o debate político europeu relativo à imigração, ao controlo de fronteiras, à cidadania e à disputa territorial entre Espanha e Marrocos. A gravidade do ocorrido é reforçada por uma das suas consequências: uma onda de crianças e jovens a serem abandonadas nas ruas e nas praias da cidade espanhola.

A responsabilidade do PSOE e dos seus aliados

Segundo o Centro Nacional de Inteligência Espanhola (CIE), dependente do Ministério de Defesa espanhol, Marrocos conformou-se com uma mobilização convocada nas redes sociais por conta de uma decisão judicial de Madrid, tomada a 8 de Julho deste ano, em que o Supremo Tribunal de Justiça de Espanha interpretou a disposição da Lei dos Estrangeiros sobre a rejeição de imigrantes ilegais na fronteira como aplicável apenas quando o migrante transpõe “elementos de contenção” físicos, como uma vedação. Ou seja, segundo o tribunal mais elevado de Espanha, se as pessoas atravessarem a fronteira pelo mar, já não podem ser devolvidas ao seu país de origem através do mesmo procedimento sumário. Como não existem barreiras físicas no mar, a quem entra a nado em Ceuta e Melilla aplica-se o procedimento de devolução ordinário: com direito a entrevista e possibilidade de pedido de asilo, sem procedimento sumário de rejeição na fronteira. A perspetiva dos serviços de inteligência espanhol é partilhada pela Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Refugiados.

De qualquer forma, devemos partir do princípio de que Sánchez sabia o que estava a fazer quando aprovou, a 14 de Abril de 2026, um decreto que permitiu o início imediato do processo de regularização extraordinário de meio milhão de imigrantes, anunciado pelo seu governo em Janeiro. Portanto, o governo espanhol optou por implementar uma “amnistia” em massa e não pode esquivar-se à acusação de ter encorajado um aumento da imigração, também com base na expectativa que criou de que haverá mais amnistias ou regularizações extraordinárias de estrangeiros em Espanha. Uma lei destas deteriora a capacidade de Marrocos em controlar as suas fronteiras com o Espaço Schengen.

Igualmente, Marrocos poderá ter relaxado o controlo das suas fronteiras com Espanha na sequência da visita do primeiro-ministro espanhol à Argélia, em Julho de 2026, com o suposto objetivo principal de terminar uma crise diplomática aberta em 2022, quando Espanha declarou apoio ao plano de autonomia marroquino para o Saara Ocidental, o que entra em colisão com a Frente Polisario e o estado argelino. Tendo chamada à Argélia “parceiro estratégico”, o executivo argelino disse que o governo espanhol quer aumentar o consumo de gás, nomeadamente através do gasoduto Medgaz, e reforçar o fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) vindo da Argélia. Não nos esqueçamos que a Argélia também se deve deleitar com as acusações de “genocídio” dirigidas a Israel pela Espanha na guerra na Faixa de Gaza e com o seu reconhecimento da Palestina como Estado, juntamente com outros países como França e Reino Unido.

O papel das redes sociais

Segundo um relatório da startup de inteligência estratégica Golden Owl, sediada no Parque Científico da Universidade de Alicante, pode considerar-se que travessia em Ceuta não se deveu a um movimento popular espontâneo ou a um contágio social acidental. Ao invés, terá sido obra de uma operação sem hierarquias claras, mas coordenada, pré-planeada e publicitada através de cerca de 25 grupos do Facebook com aproximadamente um milhão de utilizadores. As pessoas que atravessaram a fronteira terão vindo, na sua maioria, de Fnideq e Belyounech.

O movimento que impulsionou a travessia não conta, aparentemente, com nenhum líder ou organização principal, dando visibilidade apenas a lemas e códigos partilhados, como, por exemplo, o cansaço com o governo marroquino ou a inevitabilidade da migração para os magrebinos. Essas mensagens são partilhadas em vários grupos do Facebook e replicadas em plataformas como o Whatsapp, o que constitui uma estratégica comum no recrutamento de “lobos solitários” por células jihadistas.

A cautela de Marrocos

Por seu lado, até porque é discutível se as forças de segurança marroquinas efetivamente não se terão esforçado para conter o movimento de pessoas entre a sua própria fronteira e a do Espaço Schengen, a que Espanha pertence, Marrocos também tem as suas próprias razões para não enviar quantidades maciças da sua população para a Europa.

Em primeiro lugar, e como aponta Zineb Riboua, do Instituto Hudson, o estado mais a noroeste de África enfrenta uma forte pressão migratória, especialmente proveniente do sul. Só no ano passado, as autoridades marroquinas obstruíram 73.640 tentativas ilegais de passagem da fronteira, desmantelaram mais de 300 redes de tráfico de migrantes e salvaram 13.595 migrantes que se deslocavam de barcos frágeis para a Europa. Segundo dados do Alto Comissariado para o Plano de Marrocos, cerca de 60% (59.9%, para sermos mais rigorosos) dos estrangeiros residentes no país são originários da África Subsariana. Diante daquilo que se tem passado e daquilo a que assistimos em Ceuta, Marrocos tem razões para temer uma perceção de falta de controlo de fronteiras, que é uma das origens do aumento do número de refugiados.

Em segundo lugar, algo que a investigadora assistente do Instituto Hudson também refere, é que o estado do Magreb tem colaborado com a Europa em matéria de imigração. Na sequência da visita da então ministra alemã da defesa do interior e da comunidade Nancy Faeser, em Outubro de 2023, ao país africano, a Alemanha e Marrocos alcançaram uma parceria compreensiva sobre migrações, com o objetivo de reduzir a migração “irregular” e fortalecer a migração legal laboral. Em Abril de 2025, o então ministro do interior Bruno Retailleau francês visitou o seu homólogo marroquino, Abdelouafi Laftit, para discutir migrações, o combate ao crime organizado e a cooperação de segurança entre os dois países. O encontro resultou na criação de um grupo de trabalho bilateral para identificar imigrantes marroquinos que estão em França sem as devidas autorizações, de modo a facilitar deportações. Visto isto, Marrocos tem sido cooperativo na travagem de movimentos irregulares de seres humanos.

Islamismo e a coragem do Rei Maomé VI

Em 2020, sob os auspícios dos Acordos de Abraão, Marrocos foi o quarto país árabe a normalizar relações com Israel, a seguir aos Emiratos Árabes Unidos, ao Bahrein e ao Sudão. As consequências imediatas da adesão ao acordo foram o reconhecimento diplomático, o estabelecimento de voos diretos, a cooperação económica e a abertura de embaixadas. Se, para o estado marroquino e para as suas elites políticas, comunidades empresariais e principais aliados, esta normalização das relações com o Estado israelita foi um avanço pragmático, que trouxe consigo vários benefícios em termos de comércio, investimento e tecnologia, os movimentos islamistas dentro de Marrocos não ficaram, na sua generalidade, satisfeitos.

Historicamente, vários grupos islamistas marroquinos, como o principal partido islamista de Marrocos, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), que chefiou o antepenúltimo governo do país (2011-2016) e o penúltimo (2016-2021), opuseram-se consistentemente a qualquer forma de cooperação com Israel, justificando essa posição pela histórica e contínua luta do povo palestiniano. Para estes grupos, a presença de Israel em território palestiniano é uma afronta à identidade árabe e aos valores islâmicos. É por se convencerem de que o Estado marroquino traiu as aspirações palestinianas e empoderou o governo israelita a continuar a sua imersão na Faixa Ocidental e as suas operações militares na Faixa de Gaza que organizam protestos e manifestam críticas ensurdecedoras à posição oficial de Marrocos.

Contudo, algumas fações do movimento islamista, incluindo dentro do PJD, reconhecem, aparentemente, os benefícios estratégicos da solidificação das relações entre Marrocos e Israel, não descartando a sua simpatia pela causa palestiniana e a concretização do reconhecimento de um estado palestiniano no Médio Oriente, mas tendo em consideração o contexto geopolítico mais amplo e as dinâmicas pouco estáticas do Magreb e do Médio Oriente. Em 2020, o executivo liderado pelo PJD terá, certamente, pensado na opinião pública do país magrebino: por um lado, muitos marroquinos são indiferentes à normalização diplomática, vendo-a como parte de uma mudança geopolítica mais larga, e não como uma traição aos palestinianos; por outro lado, as gerações mais jovens tendem a ver o assunto da perspetiva de mais vantagens económicas e de uma comunicação menos estreita com Israel. Face a isto, ainda que pressionados pela base islamista para se distanciarem de qualquer normalização das relações com Israel, optaram por acompanhar o panorama geopolítico e assegurar o que poderão ter visto como regalias económicas e diplomáticas. Um dos principais atores chave da política externa marroquina, o PJD também foi constrangido pelo ambiente político do país, em particular pelas atitudes e tomadas de posição do Rei Maomé VI, que é, desde há muito tempo, um defensor de uma relação de boa qualidade entre Marrocos e Israel. Aliás, em Janeiro deste ano, num discurso num comício em Fez para comemorar o 82º aniversário da independência de Marrocos, Abdeliah Benkirane, secretário-geral do PJD, não deixou de relembrar que defende o “boicote a empresas que cooperam com os sionistas”.

Nesse mesmo discurso, o político defendeu que os marroquinos devem “trabalhar diligentemente pelo regresso de Ceuta e Melilla à pátria”, insistindo que a exigência obedece à lógica e legitimidade históricas e que jamais declararia guerra a Espanha. Ainda no mesmo discurso, o secretário-geral do PDJ falou da excecionalidade de Marrocos durante o período da expansão e manutenção dos impérios europeus: apesar de ter avançado pelo Egipto em 1798, Napoleão Bonaparte nunca chegou a Marrocos; antes de 1844, ano em que ocorreu a Batalha de Isly, os franceses nunca tinham entrado em Marrocos; até essa altura, a presença estrangeira em Marrocos limitava-se a Ceuta, Melilla, El Jadida (ou Mazagão) e Mehdia. Benkarine também recordou o Tratado de Fez, que estabeleceu o protetorado francês em Marrocos, e a insurreição indubitavelmente sangrenta que lhe seguiu, sublinhando que só soube da revolta através de fontes francesas. Isso serviu de argumento para sustentar duas teses: primeiro, a de que a educação histórica nas escolas de Marrocos é inadequada; segundo, que os espanhóis e os franceses só puderam reforçar a sua presença no país magrebino depois de um episódio marcadamente violento.

O líder político aproveitou também para apontar para o que vê como um abandono de princípios e valores por parte dos marroquinos, descrevendo a sua sociedade como cada vez mais consumista, reflexo de um estilo de vida subjugado ao dinheiro, cada vez mais comum, que “destrói indivíduos e corrompe famílias”.

Marrocos, tal como escreve Riboua, é uma monarquia semi-constitucional em que o rei é o chefe de estado e que tem de respeitar um parlamento em que estão presentes deputados de partidos, islamistas, nacionalistas, conservadores e seculares. O calculismo de um partido como o PDJ, que perdeu as eleições legislativas de 2021, não constitui um problema maior do que os colocados por outros movimentos islamistas que desafiam a legitimidade do monarca, principalmente porque o rei vai de encontro à interpretação da lei e da governança islâmica defendida por estes movimentos. Apesar de não ser legal, o Al Adl Wa Al Ihssane (“Justiça e Caridade”) é tolerado pelas autoridades marroquinas, é assumidamente contra o regime e afirma que a “monarquia hereditária vai contra a vontade do povo”. Esta convicção de que a monarquia é antidemocrática é um reflexo da posição do fundador do movimento, Abdessalam Yassine, que via a queda dos califados e o sucessivo nascimento das monarquias como uma trajetória histórica favorável às elites e prejudicial para o povo e o bem comum. O Al Adl Wa Al Ihssane já organizou muitos protestos pró-Palestina e costuma recorrer à retórica islamista para criticar a “normalização com o sionismo”, prometendo uma “solução de Deus para breve” e tendo conseguido obter apoio de antigos simpatizantes do PDJ.

Como se pode ver, os atores islamistas, que acham que Marrocos é comandado por traidores subjugados a “sionistas”, impuro e falhado, têm conseguido mobilizar o descontentamento para enfraquecer as instituições do país. Assim, os marroquinos são encorajados a declarar guerra aos infiéis (“jihad”) e a atingirem o Ocidente através de ataques terroristas, criminalidade, oportunismo e traição. Combinando isto com a disseminação, tanto por governos de centro-esquerda à extrema-esquerda como pelas redes sociais, da ideia da Europa enquanto “terra prometida” e disponível para acolher uma quantidade praticamente incontável de estrangeiros, uma das características básicas da civilização, que é a existência de fronteiras claras e protegidas, é posta em causa.

Conclusão

As eleições legislativas em Marrocos decorrem a 23 de Setembro de 2026 e o decorrer de um caos fronteiriço e a sua chamada de atenção pelas redes sociais são umas das formas mais eficazes de sujar a imagem do atual governo marroquino e de embelezar a imagem daqueles que o acusam, em conjunto com Israel, de orquestrarem tudo.

O Chega e o Vox têm razão numa coisa: o que aconteceu em Ceuta não deve ser banalizado. A entrada de dezenas de milhares de pessoas num território europeu em apenas 24 horas constitui um problema sério de segurança fronteiriça e merece uma resposta política firme. Mas é precisamente na tentativa de explicar o episódio que ambos parecem ter dado um tiro ao lado. Ao apresentarem Marrocos como responsável por uma espécie de “invasão” deliberadamente organizada contra Espanha e a Europa, ignoram que o próprio estado marroquino tem fortes incentivos para combater a migração irregular e que coopera com os países europeus no controlo das suas fronteiras.

O episódio de Ceuta é, portanto, mais complexo do que a narrativa de uma agressão marroquina à Europa. As redes sociais, as decisões da justiça espanhola, a política migratória de Pedro Sánchez, as tensões internas de Marrocos e a disputa histórica em torno de Ceuta e Melilla ajudam a explicar o que aconteceu. Ao transformar Marrocos no inimigo, Chega e Vox podem estar a combater a ameaça errada. Defender fronteiras controladas não exige transformar um vizinho estratégico num adversário.

Referências:

https://partidochega.pt/index.php/2026/07/31/chega-quer-fronteiras-controladas-com-espanha-apos-invasao-de-migrantes-em-ceuta-temos-de-proteger-o-pais-diz-ventura/

https://www.democrata.es/pt/politica/abascal-reclama-militarizar-de-forma-permanente-a-fronteira-de-ceuta-e-acusa-marrocos-e-sanchez-de-permitir-uma-invasao/

https://www.dn.pt/internacional/partidos-espanhis-vox-e-sumar-concordam-em-pedir-a-excluso-de-marrocos-da-organizao-do-mundial-2030

https://cnnportugal.iol.pt/geral/entraram-72-mil-pessoas-em-ceuta-em-24-horas-quase-todas-ja-regressaram-a-marrocos/20260804/6a71d9d0d34ed0733ba7e159

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/lider-da-ultradireita-da-espanha-chama-migrantes-em-ceuta-de-invasores/

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/06/crise-em-ceuta-por-que-os-imigrantes-chegam-em-ondas-entenda-a-tatica.ghtml

https://www.publico.pt/2014/02/28/mundo/noticia/mais-de-200-imigrantes-entram-no-enclave-espanhol-de-melilla-1626556

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https://blogs.timesofisrael.com/are-islamists-in-morocco-really-against-normalization-with-israel/

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https://www.facebook.com/AndreAmaralVentura/posts/pfbid08LKRd3v4SgNjKyLbVZkGJZ9ktEfst2FgtM7EmLWkY9Ypiuc75oqV8oPDVY543Q5Rl

https://diariosocialista.net/2026/05/15/abascal-marruecos-no-es-el-enemigo/

https://pt.euronews.com/my-europe/2026/08/10/ceuta-relatorio-dos-servicos-secretos-denuncia-campanha-organizada-e-divulgada-para-facili

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