A Heróica Tomada de Badajoz pelas Tropas do Senhor D. João I, aos doze dias de Maio da Era de 1396.

Excerto da Crónica de D. João I retratando a tomada de Badajoz pelas tropas portuguesas no século XIV.

“[…] Ficando este feito assi concertado [Gonçal’Eanes Cão expulso de Badajoz por suspeitas de querer dar a cidade a Portugal], foi Gonçal’Eanes falar a Martim Afonso de Melo, dizendo-lhe que prestes tinha a porta [dissera ao porteiro que ia ao arrabalde buscar trigo, pedindo ao dito que deixasse a porta aberta], e que fosse prestes quando quisesse; e vendo passados tantos perigos e que Martim Afonso o punha em vagar, escreveu uma carta a El-Rei, que já viera de Bragança e estava em Santarém, como tinha tudo prestes segundo lhe escrevera, e pois Martim Afonso a ello tardara, que lhe não posesse culpa se se o ligar perdesse e o não cobrasse. E El-Rei escreveu logo ao Condestável, que estava em Arraiolos, e ele mandou chamar Martim Afonso que fosse a ele de noute encobertamente. E falando sobre esto, perguntaram a Gonçal’Eanes Cão onde se ajuntaria a gente pera fazer esta obra; e ele disse que na lentisca no azinhal d’Arronches, e que levariam a ribeira a fundo, e ir-se-iam ao vau do Mouro, e dali iriam a pé até o lugar. Esto concordado, partiu Martim Afonso pera Campo Maior, e levou uma noute consigo Rodrigo Afonso, seu tio; e foi-lhe mostrar per onde havia d’escalar o Castelo de Albuquerque e Albaçar. E como tornaram, fez em Campo Maior armar as escalas, presente ele, avisando e mostrando como as havia de pôr, ordenando-lhe logo quais haviam de ir primeiros e segundos e terceiros; uns que tomassem as velas; outros que fossem à porta do castelo que estava aberta, e que posessem senhos cantos às portas, que se não cerrassem; outros que se fossem à porta d’Albaçar que ia pera a vila. E dada esta ensinança foi falar a Vasco Lourenço, meirinho a Odiana, dizendo como tinha ordenado de tomar Badalhouçe e Albuquerque, ambos juntamente, e que lhe rogava por serviço d’El-Rei e boa amizade que fosse em esto seu companheiro; e que a noute que se houvesse de poer em obra, que ele lho faria saber, e que não levasse consigo outros, salvo seus criados de que muito fiasse, assinando-lhe o lugar onde descavalgasse, quando visse seu recado. Então se tornou Martim Afonso, e avisou os que consigo havia de levar, que fossem prestes. Gonçal’Eanes, que não sonhava em outro feito, aos onze dias do mês de Maio, uma 4.ª-feira véspera d’Ascensão, foi falar ao porteiro, dizendo que ao outro dia de madrugada tivesse a porta aberta, e fosse por as carregas de trigo onde ele soía de trazer. E cedo na vela da manhã foi Gonçal’Eanes de pé à porta, e achou-a aberta e o porteiro alevantado; e disse-lhe: “Andai por aqui e trares as bestas com o pão”. E como foram ambos na cerca velha, onde soía ir pelo trigo, disse então Gonçal’Eanes: “Aguardai aqui e não vos partis per nenhuma guisa, e irei às bestas, onde ficou o meu homem com as carregas”. E então se foi ao vau do Mouro, onde deixara Martim Afonso que já tinha mandado Rodrigo Afonso de Brito a Albuquerque com XXX homens darmas e besteiros e homens de pé, e certos escudeiros aos caminhos que todollos que achassem ir ou vir pera estes lugares, que os detivessem por não irem dar novas; e também recado a alguns seus a Elvas que, como tangessem às matinas, fezessem repicar rijamente, bradando que Badalhouçe era entrado, que fossem todos apressa lá. E esto fazia per duas razões; a uma, se filhassem o lugar, que o ajudassem, por a pouca gente que levava; a outra, se o não filhasse, e viessem a ele os Castelãos, que o achassem acompanhado. E disse mui ledo: “Aberta temos a porta, e o porteiro fora, onde soía a dar o pão. Dai-me apressa dez homens darmas que se vão comigo, e tomarei a porta enquanto vos fordes; ca se formos todos juntos, poder-nos-iam sentir e seremos descobertos”. Então foi diante com aqueles dez, e entrou pela porta do rio, da cerca velha. E deixou-os ao pé da torre de fora, e foi à porta, e achou uma sobre a outra; e pôs-lhe os ombros e abriu uma delas. E a mulher do porteiro estava detrás em pé; e quando o viu, falou primeiro e disse: “Senhor, Gonçal’Eanes, nora boena vemgaees. E que es de mi marido?” – “Lá vem – disse ele – com as bestas carregadas”. E em dizendo esto, abriu a outra porta. E ela disse que não abrisse mais. E ele disse que as bestas eram muitas, e não caberiam per uma. Então consentiu ela no que ele fazia; e ele tomou quatro cantos e encostou dous a cada porta; e pôs-se sobre o rebato em pé, e a Castelã junto com ele. Em esto descobriu-se detrás da torre Afonso Fernandes Rabelo, escudeiro d’Afonso Pires o Negro que ia por Capitão destes dez, e um homem de pé de Gonçal’Eanes. E ela, quando os viu, apertou as mãos e disse: “Hy hui que nora malla es esta, Gonçal’Eanes?” Então lhe lançou ele mão na garganta rijo, de guisa que a fez pousar ante si. E disse logo ao seu homem: “Trazes tu punhal ou adaga?” – “Si trago”, disse ele. “Pois degola esta p*ta; não brade”. “Senhor Gonçal’Eanes, disse ela, no me matees. Yo me callarey”. E ele houve dela dó, e meteu-a na casa, e apagou a candeia, e deu-a em guarda ao seu homem. E ali vieram todos dez, e puseram-se antre as portas; aos quais ele disse que a não desamparassem por cousa que haver pudesse. E ele se foi rijo chamar Martim Afonso que andasse tostemente [rápido]  e achou-o que entrava já por a porta do rio, da cerca velha, e trigando-os que se não detivessem. Nenhum lhe falava com a pressa que levavam; e ele tomou um que conhecia por trombeta, e foram-se diante sós. E eles que iam diante sós junto com a porta, começaram a dizer de cima: “Armas! Armas! Castilla, Castilla!”. A este apelidar acudiram alguns à porta, e a trombeta começou a tanger, embrulhando-se já uns com os outros, de guisa que ficou a porta só e os dez forom-se acima do muro. Em esto chegou Martim Afonso com os que levava, sem achando empacho nenhum, e entrando rijo com suas gentes, fazendo cada um o que lhe mandaram, assi no subir do muro e guarda da porta como na prisão dos melhores. “Oh São Jorge!” era tanto com “Portugal!” na mistura, que dava-lhe temor grande nos que o ouviam, e esforço muito aos que cobravam a cidade. E logo chegou Álvaro Coitado com o Concelho de Elvas, assi de pé como de cavalo, e gentes de Olivença e de Campo Maior. E todos se apoderaram do lugar sem mais peleja que aí houvesse, salvo duas torres que se quiseram defender; mas não prestou nada. E foi esto dia d’Ascensão do ano de iiii, xxxiiii, havendo nove meses que se este segredo andava guardado. E prenderam aí Garcia Gonçalves de Grisalva, Marechal de Castela, e Afonso Sanches e o Bispo dessa cidade; e aos outros não faziam nenhum nojo, nem lhe tomavam cousa do seu […].”

 – Crónica de D. João I.

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