As 3 burcas do café do Tavares

Era fim de tarde, a hora melancólica em que o sol se despede dos telhados. O Tavares, dono do café ExStasi, já tinha fechado a caixa. Foi então que dois agentes da PSP, em patrulha, detetaram três figuras imóveis, envoltas em negro, postadas ali, mesmo à porta do café.

🧕🏿🧕🏿🧕🏿 As 3 burcas do café do Tavares

Era fim de tarde, a hora melancólica em que o sol se despede dos telhados. O Tavares, dono do café ExStasi, já tinha fechado a caixa e ido para casa cumprir com o ritual sagrado do bagaço morno em chavená de chá com um pingo de leite. A receita para uma boa noite de sono.

Foi então que dois agentes da PSP em patrulha, detetaram três figuras imóveis, envoltas em negro, postadas ali, mesmo à porta do café.

“Três mulheres de burca”, murmurou o agente Lacerda, com a solenidade de quem descobre uma célula terrorista, provavelmente a quadrilhar um ataque.

O Silva, mais prudente mas não menos zeloso das suas funções, também achou estranho o imobilismo das 3 suspeitas.

O agente Lacerda pediu-lhes identificação. Elas permaneceram mudas, imóveis, altivas debaixo do seu silêncio de pano.

O agente Silva, que sempre teve o faro apurado para o perigo invisível, concluiu que das 2,1, ou não percebem português, ou estão a provocar a autoridade. O Lacerda alinhou por um misto dos dois.

Por isso, diante de tamanha insolência, os agentes carregaram as três mulheres para a carrinha, entre olhares curiosos, e conduziram-nas à esquadra, onde ficaram alinhadas na parede como santas penitentes.

Chamaram um tradutor de árabe. Só podia vir de manhã. Passaram a noite em vigília, os dois agentes, um a pensar na promoção, o outro a imaginar comunicados oficiais e louvores em Diário da República, com direito a condecoração e selfie com o Marcelo.

Nisto, ainda não eram 8 da manhã do dia seguinte, entra o Tavares porta adentro, desgrenhado, com o avental ainda manchado com “branquinho do inferno”, aquela mistela de bagaço com leite.

“Senhores agentes, venho apresentar queixa de furto. Levaram-me três chapéus de sol pretos da esplanada! Todos iguais!”

O Lacerda ficou amarelo. O Silva arregalou os olhos. Olharam para a sala ao lado. Lá estavam as três detidas, na sua dignidade têxtil, perfeitamente idênticas aos chapéus descritos pelo Tavares.

O tradutor, entretanto chegou. Aproximou-se das suspeitas, pigarreou, disse umas palavras em árabe para cumprir o protocolo. O silêncio foi absoluto.

Agarrou uma das figuras e, com gesto decidido, puxou-lhe o véu. O ferro tombou com estrondo.

“São chapéus de sol”, declarou, entre o pasmo e o riso contido.

Seguiu-se um silêncio tumular. O comandante, atraído pela comoção, saiu do gabinete. Leu o auto de ocorrência:

Detenção preventiva de três cidadãs não identificadas, trajando burca integral.

Alguém me explica isto?

O Lacerda tentou: “chefe, à noitinha… parecia gente.”

O comandante fitou-o, suspirou e
mandou arquivar o caso “por erro de percepção cultural”.

O Tavares, satisfeito, levou de volta os seus três chapéus, instalando-os à porta do café ExStasi com a mesma dignidade de antes. O vento, cúmplice, soprou ligeiro, e o pano negro ondulou. Por um instante, pareciam mesmo três mulheres, caladas, oprimidas.

E é isto.

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

Resistir à Sedução Tecnológica: O Caso da Inteligência Artificial

A IA dá respostas imediatas, mas o capitalismo da vigilância extrai dados íntimos e gera um “sujeito algorítmico” incompatível com o desejo humano. Urge resistir eticamente à sedução das máquinas para preservar o equilíbrio entre técnica e humanidade.

Consequences of Acceleration: Generational Schisms

Modernity accelerates time, progress and crises. Catastrophism and relativism both miss this shift in speed. Distinct generations now coexist amid digital disruption; pre-internet elites fail to govern the internet. We need intergenerational dialogue and modular institutions that adapt without stagnation.

Ainda a caricatura com IA: plausibilidade, decoro e o abuso da palavra «sexual»

A reacção à montagem gerada por inteligência artificial envolvendo as autoras do podcast Lei da Paridade não alterou o essencial do que escrevemos. A peça pertence à tradição da caricatura. Não induz o espectador em erro. E as normas pensadas para deepfakes íntimos não se aplicam a um conteúdo tão inócuo.

Ceuta: o erro estratégico da direita ibérica

Em Julho de 2026, cerca de 72 mil pessoas entraram irregularmente em Ceuta. Partidos de direita chamaram-lhe “invasão” patrocinada por Marrocos. Aqui sustenta-se que o episódio é mais complexo — redes sociais, decisão judicial espanhola e política de Sánchez — e que Marrocos coopera no controlo migratório. Defender fronteiras não exige transformar um vizinho estratégico em inimigo.