Como foi o Conde Andeiro morto

Como foi o Reino de Portugal salvo da opressão: excerto da Crónica de D. João I, cap. IX.

“Em outro dia pella manhã partiu o Mestre daquela aldeia onde chamam Santo António, onde dormira, e começou d’andar seu caminho, sem trigança alguma desacostumada; e no caminho dizem que descobriu o Mestre esta cousa [o plano] a alguns seus, convém a saber: ao Comendador de. Jurumenha, e a Fernand’Álvares, e a Lourenço Martins de Leiria, e a Vasco Lourenço que depois foi Meirinho, e a Lopo Vasquez que depois foi Comendador-mor, e a Rui Pereira que depois o foi receber. E disse a um deles: “I-vos deante quanto poderdes e dize a Álvaro Pais que. se faça prestes, que eu vou por fazer aquilo que ele sabe”. O Escudeiro andou a pressa e deu-lhe o recado e tornou-se pera o Mestre homde vinha. E ele uma cota vestida e até vinte consigo com cotas e braçais e espadas cintas como homens caminheiros; e chegou ao Paço a hora. de terça ou pouco mais, sem deter porem em outra parte. E quando descavalgou e começarom de subir acima, disserom huns aos outros mui manso: “Seede todos prestes, ca o Mestre quer matar o Conde Joham Fernandes”. A Rainha estava em sua Câmara e Donas algumas assentadas no. estrado, e o Comde de Barcelos seu irmão, e o Comde Dom Álvaro Pires, e Fernand’Afonso de Çamora, e Vasco Pires de Camões e outros, estavom em huu banco; e o Comde Joham Fernandes que dante estava em cabeçeira delles, estava emtonce ant’ela e começava de lhe falar. passamente. E em lhe seendo assi falando, baterom à porta, e o Porteiro como entrou o Mestre, quis çerrar a porta por nom entrar nenhu dos seus, e disse que o pergumtaria à Rainha, nom por delles aver nenhuã sospeita, mas porque a Rainha estava com dó, e nom era costume de. nenhuu entrar, salvo esses senhores, sem lho primeiro fazer saber. E o Mestre respondeo ao Porteiro: “Que as tu assi de dizer”? E em esto entrou de guisa que entrarõ os seus todos com elle; e elle moveo passamente contra honde estava a Rainha; e ella se levantou, e todollos. outros que eram presentes. E depois que o Mestre fez reveremça à Rainha e mesura a todos, e elles a ell recebimento, disse a Rainha que sse assentassem, e fallou ao Mestre dizendo: “E pois, irmão, que he isto a que tornastes de vosso caminho”? “Tornei, Senhora”, disse elle,. “porque me pareço que nom hia desembargado como compria. Vos me ordenastes que tevesse carrego da comarca d’Antre Tejo e Odiana, se per vemtuira elRey de Castella quisesse viir ao regno e quebrar os trautos dantre vos e elle; e porque aquella frontaria he grossa de gemtes e. gramdes senhores, assi como do Mestre de Santiago, e do Mestre d’Alcãtara e doutros e boõs fidalgos; e aquelles que vos assinastes pera a guardarem comigo, me pareçem poucos; por emde tornei pera me dardes mais vassalos, pera vos eu poder servir, segundo compre a minha. honra e vosso serviço”. A Rainha disse que era mui bem, e mandou logo chamar Joham Gonçallvez seu Escripvam da Poridade, que visse o Livro dos Vassalos daquela comarca, e que lhe desse quamtos e quais o Mestre requeresse, e que fosse logo desembargado de todo. Joham. Gonçallvez foi chamado à pressa e foisse assentar com seus escrivães a prover os livros para desembargar o Mestre. Em esto começarom de o comvidar os Comdes cada huu per si; e isso mesmo o Comde Joham Fernandez se aficava mais que comesse com ele que os outros. O Mestre nom. quis tornar convife de nenhu, escusandosse per suas palavras, dizemdo que já tiinha prestes de comer que mandara fazer ao seu Vedor; porem dizem que disse mui escusamente ao Comde de Barcelos que o nom sentiu nenhu: “Comde, hiivos daqui, ca eu quero matar o Comde Joham. Fernandez”. E que ele respondeo que sse nom hiria, mas estaria hi com elle pera o ajudar. “Nom sejaaes”, disse o Mestre, “mas rrogovos todavia que vos vades daqui, e me aguardees pera o jantar; ca eu Deos queremdo tamto que isto for feito, logo hirei comer com vosco”. A. ventura por melhor aazar a morte do Comde Joham Fernandes, começou de lhe fazer reçear a vinda do Mestre; per tal guisa que lhe pos em vontade, que mamdasse a todollos seus que sse fossem armar e se vehessem pera ele; e de qualquer jeito que foi, partiromsse os seus todos. do Paço, assi fidalgos que o acõmpanhavom come os outros, e foromsse armar pera se viirem per ele; e esta foi a razom por que ell ficou só de todos eles, e nenhu estava hi quamdo morreo. A Rainha isso meesmo pos femença nos do Mestre; e veendoos assi todos armados, nõ lhe. prougue em seu coraçom, e disse falando contra todos: “Santa Maria vall! como os Ingreses ham mui bom costume, que quamdo som no tempo da paz, nom tragem armas, nem curam dandar armados, mas boas roupas e luvas nas mãos come donzellas; e quamdo ssom na guerra, entom. costumam as armas e husom dellas como todo o mundo sabe”. “Senhora”, disse o Mestre, “he mui gram verdade. Mas isso fazem elles porque ham mui a meúde guerras, e poucas vezes paz, e podem-no mui bem fazer; mas a nos he pollo contrairo, ca avemos mui a meúde paz e poucas. vezes guerra; e sse no tempo da paz nom husarmos as armas, quamdo viiese a guerra nom as poderiamos soportar”. E fallamdo em isso e em outras cousas, chegavomsse as horas do comer, e espediu-se o Conde de Barcelos, e dessi os outros, ca os mais delles dava a vontade aquilo. que sse depois fez. Ficamdo assi o Comde Joham Fernandez, gastavasse lhe o coraçom, e tornou a dizer ao Mestre: “Senhor, vos todavia comerês comigo”. “Nom comerei”, disse o Mestre, “ca tenho feito de comer”. “Si comerês”, disse ele, “e em quamto vos fallaes, hirei eu mamdar. fazer prestes”. “Nõ vades”, disse o Mestre, “ca vos ei de fallar hua cousa amte que me vá, e logo me quero hir, ca ja he horas de comer”. Entom se espediu da Rainha, e tornou o Comde pella mão e sahirom ambos da Câmara a huã grande sala que era deamte, e os do Mestre todos. com ele, e Rui Pereira e Lourenço Martins mais açerca. E chegamdosse o Mestre com o Comde acerca dhuma fresta, semtirom os seus que o Mestre lhe começava de fallar passo, e esteverom todos quedos. E as pallavras foram ant’eles tam poucas e tam baixo ditas, que nenhum por. emtonçe emtemdeo queguendas eram; porem afirmam que forom desta guisa. “Comde, eu me maravilho muito de vos serdes homem a que eu ben queria, e trabalhardesvos de minha desonra e morte”. “Eu, Senhor!”, disse ele, “quem vos tall cousa disse, memtivos mui grande mentira”. O. Mestre que mais vontade tinha de o matar que d’estar com ele em razões, tirou logo huu cuitelo comprido, e envioulhe huu golpe à cabeça; porem nom foi a ferida tamanha que della morrera, se mais nom ouvera. Os outros que estavam de arredor, quando virom esto, lamçarom logo. as espadas fora pera lhe dar, e ell movendo pera sse colher à Câmara da Rainha com aquela ferida, e Rui Pereira que era mais açerca, meteo huu estoque d’armas per elle de que logo cahiu em terra morto. Os outros quiseromlhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estevessem. quedos, e nenhu foi ousado de lhe mais dar; e mandou logo Fernand’Álvares e Lourenço Martins que fossem çerrar as portas que nom entrasse nenhu, e dissessem ao seu Page que fosse a pressa pella vila bradamdo que matavom o Mestre, e elles fezeromno assi. E era o Mestre. quamdo matou o Comde em hidade de 25 anos, e amdava em 26; e foi morto seis dias de dezembro, era já escripta de quatro çemtos e viinte e huu [-38=1383]”.

 – Crónica de D. João I, cap. IX.

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