O Vulgar, o Alegórico e as Mulheres em Três Peças de Aristófanes

Sobre dimensões pouco conhecidas para o leitor comum presentes em peças dramáticas da antiguidade: o uso de tropos boçais, uma alegoria com proto-comunismo e esboços de feminismo anti-patriarcal.

Tocamos hoje num dos mais notáveis dramaturgos da antiguidade, Aristófanes (446 – c. 386 AC), e em três das suas peças, cujo conteúdo não só contém todos os tropos da comédia que ainda hoje reconhecemos como vulgares, mas também alegorias muito curiosas e prescientes. São unidas pelo tópico da mulher, a que Aristófanes deu particular atenção cómica, e que pode ser observada de duas formas: se, por um lado, a natureza imprevisível e a tendência para o caos cósmico pode ser detectada como uma associação pejorativa, por outro a forma como o autor pinta a destreza e a inteligência implacável das suas personagens femininas, mesmo que o enredo acabe por não favorecer os seus intentos, o que nem sempre acontece, revela um respeito sólido pela magnificência própria da psique da mulher.

Começamos com Mulheres na Assembleia, uma sátira extraordinária a uma forma de proto-comunismo, também envolvendo a associação da figura da mulher ao instinto maternal, transformado em medidas pródigas e ruinosas para o estado. Nesta série de peripécias, as mulheres da cidade trocam as voltas aos patriarcas e apoderam-se do governo, instituindo medidas altamente radicais como a abolição da propriedade privada e a igualdade no acesso às interacções sexuais, de forma forçada. Se, por um lado, a golpada inicial podia ser interpretada como uma iniciativa de um feminismo embrionário, depressa se nota que o ridículo em que toda a situação decai representa mais concretamente uma extraordinária menorização de regimes colectivistas e das ideias utópicas que lhes dão origem.

Noutra obra, Lisístrata, encontramos uma greve de sexo, proposta pela protagonista, que dá nome à peça, em que todas as mulheres dos dois lados do conflito entre Atenas e Esparta, na guerra do Peloponeso, se escusariam a dar satisfação sexual aos seus maridos, os combatentes, com o propósito de terminar a guerra. Temos mais uma vez uma proposta de inversão da ordem patriarcal, em que a população feminina tenta ser agente principal das acções colectivas, tomando em seu próprio controle aquilo de que dispunham; no caso, a dependência sexual dos homens em relação às suas dádivas. Mas, mais uma vez, a proposta fenece parcialmente: embora efectivamente cesse a guerra entre homens, as tensões são desviadas desse cenário para uma guerra entre sexos, assim como uma guerra de cada uma dessas partes consigo própria — já que não só os homens mas também as mulheres começam a comportar-se erraticamente devido à falta da sua satisfação. No final, porém, tudo se resolve.

Na terceira obra que aqui abordamos, Mulheres que Celebram as Tesmofórias, encontramos alguma metaficção, já que cabe à personagem de Eurípides, também um dramaturgo contemporâneo de Aristófanes, servir de bode sacrificial para uma série de mulheres que pretendem matá-lo, cansadas de serem ridicularizadas nos seus textos. Reunindo-se como numa assembleia de homens, as mulheres decidem como levar a cabo essa empresa — mas Eurípides tinha pedido a um afilhado para se disfarçar de mulher e espiar os planos, mas é descoberto. Daqui nascem todo o tipo de peripécias de algo teor alegórico e metaficcional, em que o dramaturgo se disfarça de várias personagens das suas peças para tentar libertar o afilhado do jugo feminino, o que consegue.

Em todas estas peças encontramos elementos que perduram através dos tempos e das culturas: a guerra entre os sexos, a descrição dos homens como bélicos e manipuláveis e das mulheres como irracionais e dependentes, as tensões cómicas que advém dessa dialéctica, e a capacidade de todas as pessoas, de todos os sexos, de se rirem disto, sem julgamentos morais que almejem transformar a sociedade numa tábua rasa em que todas estas diferenças substanciais fiquem aplainadas.

Desengane-se também quem pense que o obsceno, o ordinário, o humor popular e labrego relacionado com buracos, pilas, porcarias, cópula, mau cheiro, narizes compridos e pessoas nuas com cuecas na mão se remete apenas à revista à portuguesa, ao vaudeville e aos bas-fonds das más companhias. Está presente na mui afamada comédia grega em doses cavalares, em particular nestas três peças e na maior parte do trabalho de Aristófanes. O leitor que passar os olhos por muitas destas passagens encontrará pouca diferença de uma rábula no parque Mayer ou de uma canção de Quim Barreiros. Atente-se À seguintes:

Terminamos por recomendar uma pertinente obra académica dedicada precisamente ao papel, ou melhor, aos vários diferentes papéis das mulheres nestas peças de Aristófanes, Aristophanes and Women (Routledge Revivals), de Lauren Taaffe, que podem encontrar aqui.

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