“Rebecca”, um ensaio fotográfico de Joana Fontinha

Sobre Rebecca, um ensaio fotográfico de Joana Fontinha, projecto que cultiva a alma espectadora com a lição do amor – do amor não correspondido, por exemplo, ou dos amores em que num par um se sobressai do outro nos afetos, nas carícias, nos desejos.

~ Para ti, minha querida, que me inspiras.

A mulher, o seu tacto e finura, as sedas que lhe cobrem o corpo e a taça de vinho que segura com uma mão, ou, mais tarde, de espumante ao ar livre, um livro, um papel, uma coligação de objetos que lhe imprimem potência – e está reclinada na sua cadeira, hirta, pensativa, melancólica, ou de pernas traçadas para o teto, talvez céu, deitada numa cama da sua chambre, verdadeira maîtresse, evocando o sóbrio e o sublime, as tonalidades brancas e cremes, os verdes pálidos do interlúdio, o contraste com os seus cabelos longos e encaracolados, reluzentes, e os olhos azuis de safira… Rebecca!…Sim, “Rebecca”, um ensaio fotográfico de Joana Fontinha [insta: joanasfontinha], uma artista da lente, da objetiva, desde o plano mais diminuto até à angular mais lata.

Tripartido, inspirado num romance de título homónimo de Daphne du Maurier, este projeto empreendido por Joana Fontinha E“Rebecca” tem o seu começo num quarto burguês, imponente, e oprimeiro golpe de asa de sensações que nos inspira é de complacência com a figura feminina, com a mulher que ama louca e profundamente e que, por infortúnio da glória, se vê trocada, rebaixada – e rebaixa-se com ela o seu esplendor, a sua sedução, instala-se a melancolia, as pupilas dilatadas pela falta de luz, o modesto candelabro acende-se para evitar a escuridão total. Depois, num piquenique, num pequeno apartado metafórico para alhures, guia-nos para a busca do autoconhecimento, da autossuficiência, e do eterno retorno ao mesmo ponto: porque não consegue “Rebecca” atiçar o fogo da sua alma e esquecer a figura idealizada, esse amante perfeito experimentado e odiado que, no fundo, é reconduzido de novo ao seu espírito numa absolvição? Por fim, uma junção de cores mornas, tons de vermelho esbatido no horizonte, e os azuis celestes, quase noturnos, onde “Rebecca” vem repousar a sua alma doce e amargurada, desconte, nunca infeliz, e fluem-lhe os últimos pensamentos – alguns trá-los na cabeça, outros num papel singelo que segura com a sua mão pálida e fria –; será que?… o fim deste projeto fotográfico não pode ser propiamente apelidado de final: a questão inicial do amor volta a ser levantada – será que o amor que se teve não era, enfim, o amor necessário?

Pouco consegue mexer com as emoções. Vários livros, músicas e fotografias tentaram e, sobremodo, falharam. Mas este projeto, orquestrado na égide mais profunda do âmago de Joana Fontinha, obriga o espectador a vivenciar uma jornada e a extenuar-se por não saber lidar com a beleza, a doçura e a finura. Digno de lágrimas cristalinas e de palmas estridentes, “Rebecca” ficará para sempre na memória como O ProjetoA Obra, que Joana empreendeu e com ela triunfou: conseguiu fundar sobre si um novo império: o império da imagem que roça o Adágio.

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

A Evolução Demográfica e Sociocultural de Alfama no Século XX e Início do XXI

Baseados num estudo de 1985, analisamos a origem rural maioritária da população de Alfama no séc. XX, via migrações em cadeia e articulações urbano-rurais, em contraste com a actualidade: perda de 80% dos residentes, envelhecimento, gentrificação e turistificação, segundo Censos 2021 e Diagnóstico Social 2025.

A Anatomia de um Salário Baixo

Os baixos salários em Portugal resultam da estagnação da produtividade, não de má vontade patronal. Numa economia de baixo valor que compete por preço, com elevada fiscalidade sobre o trabalho e pressões migratórias, reformas estruturais são essenciais para crescer a riqueza antes de redistribuir.

J.D. Bernal (1929) sobre Transhumanismo, Ciborgues e Colonização Interplanetária

Algumas observações do cientista, historiador e marxista John Desmond Bernal, em 1929, sobre transumanismo, ciborgues e colonização interplanetária.

Uma Casa Portuguesa

Insatisfeito com o emprego, um indivíduo cria uma comissão para "preservar a casa portuguesa", que rapidamente incha em Instituto com dezenas de funcionários, viagens e altos custos, satirizando a burocracia estatal parasitária. Texto de Vasco Pulido Valente publicado originalmente no Diário de Notícias, a 5 de Fevereiro de 1984.