Retórica e Dialéctica: a Má Reputação

Sobre a retórica e a dialética e como estas duas artes fundamentais na antiguidade para a robustez do pensamento e do discurso são hoje encaradas com desconfiança como meros artifícios de forma e não como substancialmente importantes.

Presentemente, duas artes do discurso absolutamente fulcrais para a vida cívica e intelectualmente superior nas sociedades clássicas de outrora, como a da Grécia, a de Roma antiga ou até mesmo na China imperial — seguramente sob outros termos — são hoje sujeitas a uma reputação plena de conotações negativas e, lamentavelmente, de raiz mal-informada.

Parte da má reputação dessas duas artes já tinha origem na antiguidade. Na contemporaneidade, porém, o seu papel original absolutamente fulcral tanto na forma como no conteúdo do pensamento e do discurso foi em absoluto secundarizado e quase esquecido em prol de uma ética moderna que concebe a linguagem como literal. Por retórica entende-se commumente nos dias de hoje figuras de estilo de uso excessivo, soterrando um eventual conteúdo literal do discurso com floreados com vista à distração do interlocutor; e por dialéctica entende-se o desfoque do argumento principal em prol de argumentos e contra-argumentos em redor do mesmo, com vista a um carrossel niilista que também teria por fim distrair o interlocutor da substância discutida. Ora nada disto é necessariamente assim e procede principalmente de maleitas e mal-entendidos contemporâneos quanto à natureza da linguagem, da realidade e dos seres humanos.

Apesar da teoria de correspondência aristotélica — a ideia de que a linguagem, e, em última instância, a percepção e sua interpretação, corresponde, mais ou menos bem, aproximadamente, às coisas tal como elas são — ser um princípio razoavelmente admissível tanto na antiguidade como na modernidade, embora seguramente também discutível, não parece certo que seja encarado hoje de modo igual a ontem devido a diferenças fundamentais de como a linguagem e a realidade são concebidas. Apesar de tudo, não existe, na antiguidade ocidental, subjectivismo: crê-se na realidade objectiva das coisas independentemente da sua mediação, e a partir daí também não se possui nenhuma vergonha quanto ao carácter volátil, maleável, poético da mesma. Na modernidade, confunde-se esse mesmo carácter transitório com a própria natureza da realidade, habituado que foi o homem moderno a reduzir a fé na mesma a uma série de provas empíricas sujeitas ao calibre do método, e todas elas saindo falhadas.

Perante tais confusões, que aliás acabam por negar completamente qualquer via de substanciação das coisas através da filosofia, já que a maldição do meio e da subjectividade do mesmo acaba por contaminar qualquer ensaio de certezas, é natural que as duas artes do discurso se tenham aputalhado, digamos assim: a retórica como floreado, lipstick on a pig, e a dialéctica como círculo vicioso niilista.

É preciso sublinhar que o significado original destas duas artes não representa nada disto: a retórica é derivada dos instrumentos precisamente materiais e substanciais que o discurso nos proporciona para fazermos argumentos, e não inviabiliza a lógica nem lhe dá um disfarce, mas antes é através dela que a lógica encontra expressões. É evidente que o grande mal-entendido por detrás disto é a ideia de que existe uma linguagem literal que nos diz exactamente como as coisas são, ou seja, um totalitarismo de uma tendência histórica muito redutora pertencente a homens efeminados do Iluminismo. A dialéctica, por seu lado, permite, através dos argumentos e contra-argumentos, o mercado livre das ideias, ver o que sobra no final, ver o que mais fortemente se aguenta. Ambas as práticas são processos, e é através desses processos que o esclarecimento surge. Rejeitá-los e crer, de forma ateia e devota, numa linguagem literal incorrompida por essas perversões, é de uma inocência falida.

Deixamos aqui o lembrete para o reequacionar destes termos e a sua recuperação para o âmbito das práticas nobres e necessárias à vida intelectual e à vida meramente coloquial do dia-a-dia. São práticas que estão muito mais perto de nós do que parece, e mesmo o homem mais obsessivamente próximo da ideia da correspondência aristotélica, da linguagem representando as coisas tal como elas são, sem intermediação, não será completamente alheio a qualquer uma destas indispensáveis artes.

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