Sobre a androginia de David Bowie

Sobre como a androginia de Bowie não nasce de um gesto progressista, mas de um gesto aristocrático, quase retrógrado — e como se inspirou na moda masculina neo-barroca do estilista Michael Fish.

Eu tenho ideias profundamente impopulares a respeito da estética adotada por David Bowie.

E todas, para mim, partem do princípio de que a maior parte das leituras consagradas sobre ele são historicamente rasas.

Uma delas diz respeito à sua fase inicial de androginia, que começa em The Man Who Sold the World e se estende até Hunky Dory (Ziggy Stardust é outra parada).

Costuma-se repetir, quase como um mantra, que essa estética representaria uma feminilização revolucionária de Bowie, uma antecipação visionária da “fluidez de gênero” e das pautas contemporâneas.

Essa leitura é confortável, anacrônica e, sobretudo, equivocada.

A androginia de Bowie não nasce de um gesto progressista, mas de um gesto aristocrático – quase retrógrado.

Quem realmente moldou a estética andrógina do rock nos anos 1970, não apenas em Bowie, mas também nos Rolling Stones e em Jimi Hendrix, foi o estilista Michael Fish.

Fish liderou o movimento conhecido como Peacock Revolution, a Revolução dos Pavões, cuja proposta era simples e radical: devolver ao homem o direito à ostentação. E “devolver” aqui não é força de expressão.

Ao fundar a Mr. Fish, em Londres, em 1966, ele resgatou deliberadamente a moda masculina pré-industrial, inspirada na aristocracia europeia dos séculos XVIII e XIX.

Antes da modernidade, o homem não era visualmente econômico. Ele era excessivo.

A ideia de que masculinidade é sinônimo de sobriedade, funcionalidade e apagamento estético é um produto tardio da Revolução Industrial e do moralismo burguês. A economia de adornos na estética masculina é recente. O terno cinza é moderno. O minimalismo masculino é histórico, não natural.

A aristocracia europeia masculina era ostensivamente glamourosa. Bordados, estampas florais, maquiagem, perucas, saltos altos. Nada disso era visto como feminilização.

Michael Fish não queria feminilizar homens. Queria, curiosamente, restaurar uma masculinidade perdida.

Quando Bowie aparece na capa de The Man Who Sold the World, ele não se apresenta como mulher, mas como príncipe.

A imagem não remete a uma desconstrução da masculinidade, mas à sua versão anterior à modernidade industrial. A aristocracia europeia era extremamente Glam Rock.

A mulherada roubou nosso DRIP.

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

Ehrlich vs Burlaug: Techno-Optimism’s Triumph

As opposed to population boom doomers such as Paul Ehrlich, meet Norman Borlaug, the Iowa farm boy who launched the Green Revolution and quite literally saved a billion lives: a story of human ingenuity triumphing over scarcity.

Publicações Online em Portugal: Quando é obrigatório registar um website na ERC?

Em Portugal, a maioria dos websites não requer registo na ERC. Mas a entidade adopta critérios formais (edições regulares, linguagem de revista, estrutura editorial) que podem sujeitá-los à obrigatoriedade. O caso da Revista Minerva Universitária expõe a aparente arbitrariedade: a qualificação parece depender mais da forma de apresentação do que da regularidade ou substância dos conteúdos.

A Evolução Demográfica e Sociocultural de Alfama no Século XX e Início do XXI

Baseados num estudo de 1985, analisamos a origem rural maioritária da população de Alfama no séc. XX, via migrações em cadeia e articulações urbano-rurais, em contraste com a actualidade: perda de 80% dos residentes, envelhecimento, gentrificação e turistificação, segundo Censos 2021 e Diagnóstico Social 2025.

A Anatomia de um Salário Baixo

Os baixos salários em Portugal resultam da estagnação da produtividade, não de má vontade patronal. Numa economia de baixo valor que compete por preço, com elevada fiscalidade sobre o trabalho e pressões migratórias, reformas estruturais são essenciais para crescer a riqueza antes de redistribuir.