Sobre o assassinato do Conde Andeiro

Sobre o assassinato do Conde Andeiro: mais do que uma mera exposição, uma análise das características por detrás deste acontecimento que passam despercebidas aos olhos de muita gente. Fernão Lopes é, nesse aspeto, muito minucioso a descrevê-lo.

Hoje vou falar sobre o assassinato do Conde Andeiro, mas não meramente expondo-o, e sim analisando as características por detrás deste acontecimento (algo que passa despercebido aos olhos de muita gente). Fernão Lopes é, nesse aspeto, muito minucioso a descrever. Veja-se. 

A conjuntura política portuguesa desde o falecimento de D. Fernando é sabida, não interessa aqui ao caso. O que interessa é, isso sim, analisar o feito concreto. E ele passou-se desta forma.

No período que percorre o intervalo entre 22/Out (morte de D. Fernando) e 6/Dez (assassinato do Conde Andeiro), há certamente intrigas que pulseiam a cidade de Lisboa. Uma delas, a que encabeça o nosso problema, era a conspiração para matar o Conde (sabemos que, ainda era D. Fernando vivo, o próprio o tentara matar, mas sem sucesso). Segundo Fernão Lopes, a tentativa bem-sucedida desta vez nasce de Álvaro Pais, que servira na chancelaria de ambos D. Pedro I e D. Fernando sendo, aquando da data, certamente muito velho (era “doente de gota”), visto D. Fernando haver atribuído a este uma carta de pousada (ou seja, uma reforma, a bem dizer), com o privilégio de intervenção direta nos assuntos discutidos na Assembleia de Lisboa (tanto que, como ele teria dificuldades de locomoção, muitas das Assembleias realizavam-se na sua casa). Este é o homem que, em primeiro lugar, vai falar com o Conde de Barcelos, D. João Afonso Telo (tio da Rainha), acerca de um eventual assassinato ao Conde. O Conde acha bem, mas recomenda-o a falar com o Mestre de Avis, dizendo que, tanto que visse o Mestre a cavalgar nas ruas de Lisboa, que o encomendaria para Álvaro Pais, facto que aconteceu, possivelmente em fins de Novembro, quando o Mestre vai visitar Álvaro Pais a sua casa, e este lhe conta sobre o plano, falando sobre a desonra acometida a D. Fernando e, por feitos de linhagem, a ele também. No entanto, segundo conta o Cronista, “eram-lhe presentes tais e tão grandes dúvidas que todos os caminhos para o pôr em obra eram a ele escusos como grandes empachos”, perguntando o Mestre se o teria “ajuda alguma do Povo, por azo do cajom [motim] que se podia recrescer” depois da morte dele. E, finalmente, depois de assegurar ao Mestre que o Povo estaria do seu lado, o Mestre aceita avançar com o plano. É nesta ocasião que Álvaro Pais, chorando aos pés do Mestre, diz-lhe a famosa frase “Ora vejo eu, filho senhor, a diferença que há dos filhos dos Reis aos outros homens”. O Mestre, nesse dia, seguiu a sua vida. Entretanto, ocorreu o cortejo fúnebre de D. Fernando [o cronista diz-nos que foi trinta dias depois da sua morte, ou seja, a 1/Dez] e, suspeitando o Conde Andeiro da má vizinhança que os moradores de Lisboa lhe queriam, decidiu aceitar o pedido da Rainha em comparecer, e veio até Lisboa, passando primeiro por Santarém, onde recebe estalagem do Alcaide local, Gonçalo Vasques de Azevedo, “muito seu amigo”. Fernão Lopes diz-nos que Gonçalo recomendou ao Andeiro que NÃO fosse a Lisboa, mas parece ter ignorado o conselho, muito embora também nos diga o Cronista que, se o Andeiro temia alguém, era o Mestre de Avis, que estaria no cortejo. Eis o indício trágico. Quando chega a Lisboa, parece que governou os feitos do Reino com a Rainha, que lhe deu pousada no seu Palácio – diz-nos o cronista isto: “E bem recebido de todos, foi em grande privança e agasalhado da Rainha, desembargando com ele todos os desembargos do Reino”. Logo feito o cortejo [ou seja, entre os fins do dia 1 e o dia 2/Dez], o conselho régio juntou-se para discutir os assuntos de guerra, pois já se suspeitava, tão cedo quanto isto, que o Rei de Castela queria violar o Tratado de Salvaterra e invadir o Reino – por isso, acordaram em estabelecer fronteiros com homens de guerra em cada uma das comarcas fronteiriças. Sabendo D. Leonor a ameaça patente em Lisboa enquanto o Mestre lá estivesse, enviou para defender as terras fronteiriças da sua Ordem de Avis [o Cronista especifica: foi enviado para Riba do Guadiana]. À data, já Álvaro Pais havia falado com alguns particulares (não somente o Conde susodito, mas também Rui Pereira, tio de D. Nuno Álvares Pereira) para realizar o feito, acordando-se em, e matando-o, Álvaro enviaria o seu pajem, Gomes Freire, pelas ruas de Lisboa a cavalo a exortar as gentes a ir para o Palácio ajudar o Mestre – no entanto, isto deveria ser mantido em segredo, pois, tanto quanto havia despeito à Rainha e ao Conde, também muitos Nobres estacionados em Lisboa tinham-lhe afeição. Aqui, vemos o Mestre novamente indeciso – numa primeira instância, parece aceitar as ordens da Rainha e sai de Lisboa: o Cronista diz-nos que, depois de comer, foi dormir a uma aldeia a três léguas de Lisboa chamada Santo António, “sem levando já nenhuma tenção de matar o Conde”. Mas meditando sobre o assunto, decidiu prosseguir e, ainda na aldeia, chamou Fernando Álvares de Almeida, cavaleiro da Ordem de Avis, para ir imediatamente a Lisboa para, primeiro, arranjar-lhe pousada para dormir e, segundo, para dizer à Rainha que ele queria falar com ela. Chegou a Lisboa “alto serão” [ou seja, à noite], e ambos a Rainha e o Conde aceitaram as solicitações de lhes falar. No dia seguinte, eis o dia 6/Dez, o Mestre parte de S. António com alguns homens (Fernão Lopes menciona o Comendador da Jurumenha, Lourenço Martins de Leiria, Vasco Lourenço, Lopo Vasques, além dos ditos Rui Pereira e Fernando Álvares), ordenando-os que fossem dizer a Álvaro Pais que era a hora do dito. Chegando ao Paço, a Rainha estava na sua câmara com algumas donzelas e o Conde de Barcelos [que, como já dissemos, queria o Conde morto], Fernando Afonso de Zamora e Vasco Pires de Camões [dois galegos], além do Andeiro. O Mestre entra com os seus homens, dizendo o cronista que o escudeiro encarregado de lhe abrir a porta queria fechá-la logo passando o Mestre, mas este impediu que se a fechasse, entrando todos. O Mestre fala à Rainha: diz-lhe que, para defender aquela fronteira a que fora ordenado, precisa de mais lanças do que aquelas que lhe tinham sido ordenadas, precisando de outro despacho, o que a Rainha acede, chamando o seu escrivão da puridade, João Gonçalves (que guardava o livro dos vassalos) para, ambos, assinalar as lanças para o Mestre. Enquanto isso, sabemos que o Conde, suspeitoso, enviou os seus escudeiros para chamar os seus vassalos com armas, razão pela qual, quando ele foi morto, não havia ninguém no Paço que o acudisse. O que é certo é que, estando de parte ambos o Mestre e o Andeiro (com os outros à espreita, vendo ambos por uma fresta de uma janela) e, logo que a primeira facada aparece, todos correm em direção a ele, sendo Rui Pereira quem dá o golpe mortal, na cabeça.

Sabemos que o corpo ainda ficou lá uns dias, até D. Leonor enterrá-lo às escondidas. Eis um contexto abreviado, que podia ser acrescido.

Share post:

Mais Artigos

J.D. Bernal (1929) sobre Transhumanismo, Ciborgues e Colonização Interplanetária

Algumas observações do cientista, historiador e marxista John Desmond Bernal, em 1929, sobre transumanismo, ciborgues e colonização interplanetária.

Uma Casa Portuguesa

Insatisfeito com o emprego, um indivíduo cria uma comissão para "preservar a casa portuguesa", que rapidamente incha em Instituto com dezenas de funcionários, viagens e altos custos, satirizando a burocracia estatal parasitária. Texto de Vasco Pulido Valente publicado originalmente no Diário de Notícias, a 5 de Fevereiro de 1984.

Marcas Portuguesas de Relógios: Entre a Técnica e a Identidade

O conceito de “marca portuguesa” está longe de ser linear. Quando observamos um relógio com um nome português no mostrador, o que estamos verdadeiramente a ver? Um produto concebido em Portugal? Um objecto fabricado cá? Uma marca registada em território nacional? Ou apenas uma ideia portuguesa produzida no estrangeiro?

Os inéditos bens do Concelho de Óbidos na Era de c.1391 – 1420

Lista com os inéditos bens do Concelho de Óbidos, na era de c.1391 - 1420, do Tombo do Concelho de Óbidos, na coleção Documentos dos Concelhos Medievais Portugueses.