Tesouros encontrados em Tempos Passados

Alguns tesouros descobertos nas edições da feira de relojoaria vintage Tempo Passado: peças que o tempo filtrou com rigor, relógios que conquistaram a admiração de todos, exemplos que continuam a brilhar na memória dos coleccionadores.

Texto de Nuno Lopes Margalha, em parceria com o Instituto Português de Relojoaria. Actualmente surgem relógios novos todos os dias.  Esta realidade não pertence só ao nosso tempo: sempre existiram lançamentos diários e, tal como dantes, alguns modelos permanecem enquanto outros se perdem no tempo. A diferença actual está no volume e na velocidade da comunicação. Avisar o mundo sobre o lançamento de um relógio tornou-se simples, quase imediato, e cada novidade ecoa muito mais longe do que acontecia no passado.

O Salão de Relojoaria Vintage Tempo Passado actua como uma verdadeira peneira, deixa passar apenas os relógios que conquistaram lugar no coração dos coleccionadores — aqueles que, de facto, resistiram ao tempo.

Hoje recordamos alguns tesouros descobertos nas edições anteriores do Tempo Passado. São peças que o tempo filtrou com rigor, relógios que conquistaram a admiração de todos. Estes são apenas alguns exemplos entre muitos que continuam a brilhar na memória dos coleccionadores.

Longines Nonius e Pedro Nunes

Longines Nonius

Entre os relógios que marcaram presença no Tempo Passado, poucos despertam tanta curiosidade como o Longines Nonius. Esta peça ocupa um lugar singular na história da relojoaria por ter transportado para um cronógrafo mecânico uma invenção portuguesa do século XVI: o nónio de Pedro Nunes, o maior matemático português do seu tempo. A Longines reinterpretou o princípio original — uma escala móvel capaz de permitir medições extremamente precisas — e aplicou-o a um ponteiro de décimos de segundo que continua a ser um dos mais engenhosos já criados. O resultado foi um cronógrafo ousado, tecnicamente desafiante e profundamente marcado pela época em que nasceu.

Longines Nonius
Longines Nonius

A sua evolução não foi linear. Diferentes calibres, com frequências incompatíveis entre si, obrigaram a ajustes sucessivos até se alcançar uma leitura correcta dos décimos de segundo. Só com a adopção de um movimento a 5Hz (10 alternâncias por segundo) foi finalmente possível garantir o alinhamento perfeito entre o ponteiro-Nónio e a escala fixa do mostrador. Mesmo o próprio desenho do ponteiro levantou desafios mecânicos pouco comuns, desde o peso acrescido no reset até à necessidade de evitar erros de paralaxe — questões que a patente de 1967 descreve de forma minuciosa.

É precisamente esta complexidade — histórica, técnica e conceptual — que faz do Longines Nonius um dos grandes favoritos dos coleccionadores que visitam o Tempo Passado. É um relógio que não só resistiu ao tempo, mas que continua a representar uma das mais criativas adaptações de uma invenção científica portuguesa ao mundo da relojoaria.

Os dois Omax do Tempo Passado e a linhagem do design Space-Age

OMAX
OMAX

Os dois relógios da Omax que surgiram no Tempo Passado pertencem a um capítulo muito específico da história do design relojoeiro: o período space-age, no qual várias marcas suíças procuraram traduzir o entusiasmo pela conquista espacial em objectos do quotidiano. A Omax, embora não tenha sido uma das criadoras originais do conceito Spaceman, seguiu de perto a linguagem introduzida pelas quatro marcas que de facto lançaram esses modelos: Catena, Fortis, Zeno Watch e Tressa.

Entre finais dos anos 60 e início dos 70, estas marcas produziram relógios com caixas futuristas, muitas vezes em fibra de vidro, formas inspiradas em capacetes de astronauta ou naves espaciais e mostradores minimalistas com contrastes fortes. A estética não era apenas ousada — era declaradamente futurista, alinhada com o imaginário tecnológico da época, do programa Apollo à ficção científica que influenciava arquitectura, mobiliário e moda.

É dentro deste universo que se inserem os dois Omax encontrados no Tempo Passado.

O primeiro, o diver de barras verticais, revela a aproximação da marca ao experimentalismo gráfico da década: índices em bloco, ponteiros laranja de alta visibilidade e um mostrador que parece mais um instrumento técnico do que um relógio convencional. Apesar de não ser um Spaceman formal, respira o mesmo optimismo visual — a ideia de que o design podia romper com todas as convenções.

O segundo, o Omax de caixas facetadas, aproxima-se muito mais directamente da linhagem space-age. Embora a forma exacta mude de marca para marca, reconhecem-se imediatamente os traços do movimento iniciado por Catena (o Spaceman original, desenhado por André Le Marquand), posteriormente seguido por Fortis, Zeno e Tressa: volumes esculturais, superfícies angulares, proporções ousadas e um mostrador reduzido ao essencial, apenas marcado pelo ponteiro dos segundos em laranja — um toque cromático característico da época.

OMAX - Spaceman
OMAX – Spaceman

Estes dois Omax são produtos do seu tempo, testemunhos de um momento em que a relojoaria decidiu olhar para o espaço e imaginar o futuro. E é precisamente essa mistura de audácia estética, cultura visual e história industrial que faz com que estas peças atravessem décadas e permaneçam vivas no Tempo Passado. São relógios que não existiriam noutra era — e que, por isso mesmo, resistem com distinção.

Hebdomas — oito dias de corda e mais de um século de carácter

Hebdomas
Hebdomas

Entre as descobertas mais marcantes das edições do Tempo Passado encontra-se este Hebdomas, um dos relógios de bolso mais reconhecíveis da relojoaria suíça. Criado originalmente no final do século XIX, o Hebdomas tornou-se célebre pelo seu escape exposto e, sobretudo, pela capacidade de oferecer:

oito dias de autonomia — uma façanha verdadeiramente notável para a época e um pesadelo para os relojoeiros.

O exemplar da fotografia apresenta todas as características clássicas da família Hebdomas:

– a grande abertura inferior, que revela o balanço, o rubi central e a inscrição “8 Jours”, marca distintiva da série;

– a presença do mostrador dividido em três zonas;

– o aro canelado e a caixa dourada, frequentemente associados às versões mais ornamentadas.

Os Hebdomas combinam duas coisas que, por vezes, coexistem num relógio de bolso popular: engenharia funcional de alta durabilidade e um design teatral, pensado para mostrar ao proprietário — e a quem estivesse por perto — a dança do escape e a generosidade do tambor de corda. Talvez seja por isso que continuam a aparecer em feiras, leilões e colecções privadas: porque nenhum outro relógio se parece verdadeiramente com um Hebdomas.

Quando um exemplar destes surge no Tempo Passado, a reacção é sempre a mesma: entusiasmo, reconhecimento e, quase sempre, uma história para contar — porque cada Hebdomas atravessou décadas, e muitos passaram por várias mãos, oficinas e cidades antes de chegarem à luz do dia.

Três interpretações da precisão — da complicação suíça ao rigor alemão

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Na mesa, lado a lado, surgem três relógios que representam três visões diferentes do que significa medir o tempo com precisão. É raro vê-los juntos, e talvez por isso tenham sido um dos conjuntos mais fotografados das últimas edições do Tempo Passado.

O relógio de mesa da esquerda é um BUBEN & ZORWEG, uma das casas alemãs mais prestigiadas no fabrico de relógios de mesa, cofres de luxo e objectos horológicos concebidos para coleccionadores exigentes. Fundada na década de 1990, a Buben & Zorweg ficou conhecida por unir engenharia mecânica de precisão, acabamentos de luxo, e design contemporâneo. Produziu peças que se situam entre a relojoaria e a arte decorativa.

O exemplar da fotografia apresenta um calendário completo com fases da Lua, dividido em quatro sub-mostradores: data, dia, mês e indicação lunar às 6h. A construção do mostrador, com discos prateados escovados, ponteiros azulados e escala limpa, reflecte o estilo técnico e elegante característico da marca. A caixa em madeira, polida e envernizada, reafirma o posicionamento da Buben & Zorweg no segmento alto da relojoaria doméstica — onde cada peça é tanto um instrumento como um objecto de design.

No contexto do Tempo Passado, a presença de um Buben & Zorweg acrescenta uma dimensão rara: não é apenas uma complicação tradicional — é uma expressão contemporânea da relojoaria de mesa de luxo, produzida com materiais nobres, mecanismos fiáveis e um cuidado absoluto com a apresentação.

Ao centro destaca-se o mais imediatamente reconhecível: um Erwin Sattler, fabricado em Munique. A marca alemã é uma referência absoluta na arte da relojoaria de precisão de interior, conhecida pela construção meticulosa e pela pureza dos seus mostradores. O exemplar da fotografia apresenta segundos pequenos, submostrador de reserva de marcha e uma assinatura estética característica: linhas rectas, algarismos austeros e um equilíbrio geométrico que remete directamente para a tradição alemã de cronómetros de oficina e reguladores de parede.

À direita, está um cronómetro de precisão montado numa caixa circular, com mostrador de leitura fina e ponteiros longos e delgados — um instrumento típico de laboratório, oficina ou navegação. A escala subdividida e a forma da caixa evocam os modelos usados para calibração e ensaio de movimentos, onde a leitura clara dos segundos e sub-segundos era essencial. O acabamento metálico e a janela ampla sugerem que se trata de um instrumento pensado mais para rigor do que para decoração.

Quando observados em conjunto, estes três relógios revelam uma narrativa curiosa: complicação suíça, precisão alemã e instrumentação técnica convivem lado a lado. São expressões distintas da mesma busca — a busca pela medição exacta do tempo — e mostram porque o Tempo Passado continua a atrair objectos que sobrevivem muito para além da função para a qual foram criados.

Edox Geoscope — o mundo inteiro no mostrador

Edox Geoscope
Edox Geoscope

Este é o grande Edox Geoscope! Um rasgo de criatividade sem paralelo da Edox que entretanto fez uma reedição muito aquém do modelo vintage. Viajou directamente dos anos 70 para o Tempo Passado. Lançado no auge da criatividade relojoeira pós-Apollo, é um relógio que traduz directamente o fascínio pela geografia, pela aviação comercial intercontinental e pelo imaginário da exploração global.

O elemento central é o mostrador-mapa visto a partir do Pólo Norte, representado em projecção azimutal. Este tipo de representação permite visualizar todos os continentes a partir de um ponto fixo e facilita a leitura simultânea das horas em múltiplas regiões do globo — uma escolha que mostra até que ponto a Edox estava disposta a arriscar no desenho e na funcionalidade.Edox Geoscope

A escala interior de 24 horas — alternando claro/escuro — funciona em conjunto com o mapa rotativo para apresentar um sistema de hora mundial contínua, sem necessidade de janelas, anéis múltiplos ou nomenclaturas de cidades. É um worldtimer puro, gráfico e intuitivo, onde o planeta todo participa na medição do tempo.

O ponteiro das horas, o ponteiro dos minutos e o indicador de 24 horas, todos com detalhes em laranja, reforçam a herança estética dos anos 70 e garantem contraste sobre os tons pastel e oceânicos do mapa. A caixa em aço maciço, com forma típica da era — integrada, larga, ergonomicamente curvada para o pulso — completa o carácter da peça.

Tal como o Tissot Navigator, o Zodiac Astrographic ou o Omega Dynamic, o Edox Geoscope tornou-se um dos símbolos da relojoaria experimental deste período.

Mas, entre todos, é talvez o mais marcante: não se limita a evocar uma época, apresenta literalmente o mundo no mostrador.

Encontrar um Geoscope em estado original, com bracelete integrada e cores vivas no mapa (que muitas vezes desvanecem com a luz), é cada vez mais raro. Por isso, quando aparece no Tempo Passado, transforma-se imediatamente num ponto de encontro: coleccionadores aproximam-se, apontam continentes, discutem projecções cartográficas e revisitam uma era em que a relojoaria não tinha medo de pensar — e desenhar — em grande escala.

Universal Genève Tri-Compax — “o Senhor Vintage”!

Universal Genève Tri-Compax
Universal Genève Tri-Compax

Este é o vintage dos vintage — o Universal Genève Tri-Compax. Trata-se de um dos grandes clássicos da relojoaria mecânica do século XX, um relógio que combina três complicações maiores — cronógrafo, calendário completo e fases da Lua — num mostrador equilibrado, legível e profundamente elegante. É exactamente essa combinação que lhe deu o nome: Tri-Compax, três complicações reunidas numa mesma arquitectura.

Universal Genève Tri-Compax
Universal Genève Tri-Compax

O cronógrafo assegura a medição precisa de intervalos de tempo, o calendário completo apresenta dia, mês e data em janelas e sub-mostradores dedicados, e a fase lunar acrescenta a dimensão astronómica que define as grandes complicações históricas. Esta síntese técnica tornou o modelo um dos mais admirados da relojoaria clássica e um dos mais procurados pelos coleccionadores de cronógrafos vintage.

A Universal Genève, fundada no século XIX e responsável por alguns dos cronógrafos mais importantes da primeira metade do século XX, vive hoje um momento de renovação: a marca foi adquirida pela Breitling em Dezembro de 2023 e prepara um regresso aguardado, com planos para recuperar a identidade que a tornou célebre. O Tri-Compax, naturalmente, está no centro dessa herança.

Universal Genève Tri-Compax
Universal Genève Tri-Compax

Poucos relógios representam tão bem o espírito de “Senhor Vintage” como este. O desenho harmonioso, os sub-mostradores bem proporcionados, a escala taquimétrica ao redor do mostrador e o conjunto de ponteiros clássicos criam uma presença que resume o melhor da relojoaria mecânica tradicional. É um ícone da elegância técnica, uma peça que carrega décadas de história e que continua a inspirar a relojoaria contemporânea.

Um voltímetro de bolso — quando a forma do relógio servia outras ciências

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À primeira vista, parece um relógio de bolso. Mas o mostrador denuncia imediatamente a verdade: trata-se de um voltímetro portátil, construído em formato de relógio de bolso para permitir medições rápidas no terreno, numa época em que a instrumentação eléctrica ainda não era compacta.

O princípio é simples: em vez de ponteiros para horas, minutos e segundos, vemos uma escala semicircular graduada em volts, de 0 a 6, com um ponteiro fino extremamente leve — típico dos galvanómetros e voltímetros analógicos de precisão. A parte inferior alberga a bobina e o mecanismo de medição, visíveis através de uma abertura circular, com dois pequenos parafusos de ajuste.

Este tipo de instrumento era usado por electricistas, técnicos ferroviários, oficinas de telegrafia e laboratórios durante a primeira metade do século XX. O formato “bolso”, herdado directamente do relógio tradicional, facilitava o transporte e protegia o mecanismo numa caixa metálica resistente. A coroa superior servia apenas para segurar e abrir o estojo, não para dar corda — aqui não há movimento mecânico relojoeiro, mas sim uma bobina, um íman e um sistema de deflexão.

Peças como esta são testemunho de um período em que a relojoaria influenciou o design dos instrumentos científicos: caixas robustas, mostradores limpos, ponteiros de leitura fina, tudo pensado para precisão e portabilidade. Hoje são encontrados sobretudo em mercados de velharias, colecções técnicas e — naturalmente — nas mesas do Tempo Passado, onde lembram que a história da medição do tempo cruza muitas vezes a história da medição de tudo o resto.

Yema Worldtime — o espírito do Airflight e a génese da relojoaria “dinâmica”

Yema Worldtime
Yema Worldtime

Escondido entre muitos outros encontrámos este raríssimo Yema Worldtime que pertence a uma linhagem muito particular: a dos relógios com mostrador perfurado que se transformam num instrumento mutável, feito para reorganizar informação em vez de apenas a exibir. A Yema, que sempre oscilou entre ousadia técnica e espírito aventureiro, criou aqui uma das suas peças mais inventivas. Tal como no Gruen Airflight, encontramos a ideia de tempo dinâmico — não um mostrador fixo, mas um sistema que muda com o dia, com a posição do utilizador e com a necessidade de leitura.

Gruen Airflight
Gruen Airflight

No Airflight, são os discos que alternam entre 1–12 e 13–24 horas; neste Yema, são as cidades e o anel de 24 horas que permitem ao utilizador viajar entre fusos com um simples gesto, num verdadeiro relógio de navegação civil.

A outra referência inevitável é o Vincent Calabrese Day & Night, onde o mestre independente reinventa a forma como o tempo se revela, alternando representações gráficas conforme a fase do dia. Tal como em Calabrese, este Yema exige participação: obriga o utilizador a “dialogar” com o mostrador, a alinhar cidades, a compreender o planeta inteiro num espaço circular. A filosofia é a mesma — o tempo deixa de ser linear e torna-se conceito, interpretação, cartografia.

Vincent Calabrese Day & Night
Vincent Calabrese Day & Night

É essa tríade — Airflight, Calabrese, Yema — que faz deste modelo uma peça tão especial. O Yema Worldtime é a interpretação francesa de uma ideia universal: quando a relojoaria abandona a rigidez e passa a explorar o movimento, os discos, os anéis e a geografia como parte da função. Ao contrário de tantos worldtimers clássicos, este Yema não quer apenas mostrar horas; quer mostrar o mundo.

Por isso, quando aparece num Tempo Passado, é sempre aquele relógio ao qual os coleccionadores regressam — não só pela raridade, mas porque encapsula a audácia de três eras diferentes da relojoaria dinâmica.

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