É a sexualidade sobrevalorizada na cultura? Uma escritora brilhante, Patricia Highsmith escreveu alguns dos mais célebres livros policiais, entre os quais a saga do psicopata carismático Mr.Ripley (hoje em dia seria considerado homem “queer”). Os seus livros tiveram inúmeras adaptações cinematográficas dirigidas por grandes nomes da sétima arte: Strangers on a Train (1951), por Alfred Hitchcock e em 1969 por Robert Sparr; de Réné Clément, Plein Soleil (com o belíssimo Alain Delon), The American Friend por Wim Wernders, The Talented Mr.Ripley (1999) por Anthony Minghella, Ripley’s Game (2002) por Liliana Cavani, Ripley Under Ground por Roger Spottiswoode e Carol por Todd Haynes — este último a história de uma relação homossexual entre duas mulheres, baseado num encontro fugaz entre a escritora e uma companheira interessante, com a singularidade de ser o primeiro romance homossexual com um final feliz na América; um livro que deu esperança às jovens lésbicas, tendo a escritora recebido imensas cartas de agradecimento. Seria de esperar que o documentário sobre esta grande escritora fizesse justiça ao seu génio, mas incorre em mediocridade e chega a ser vulgar na abordagem à vida íntima da Patricia Highsmith. Somos informados de que frequentava bares gays, que era lésbica (com ênfase excessivo na influência da orientação sexual da escritora na sua obra), informação maioritariamente irrelevante para a conhecermos enquanto artista e até mesmo pessoa. A relevância da orientação sexual de um artista manifesta-se quando este se vale da sua experiência biográfica para a criação da obra de arte (como o exemplo acima referido de Carol), ou o exemplo polémico da visita de Thomas Mann a Veneza, inspiração para a sua famosa novela Morte em Veneza. A sexualidade (onde se integra a pluralidade LGBTQ) é uma parte da identidade do ser humano, mas não é o traço dominante do Homem. Entende-se por identidade o “conjunto de características (físicas e psicológicas) essenciais e distintivas de alguém, de um grupo social ou de alguma coisa”. Estes movimentos identitários a nível sexual, reflectidos neste tipo de produção cultural, vendem à audiência a ideia de que o sentido das suas vidas é a descoberta, afirmação e imposição da sua sexualidade à sociedade, uma disposição limitativa e tendenciosa. Descrever a vida de uma mulher que, como descreveu no posfácio da reedição de 1990 de Carol (´If I were to write a novel about a lesbian relationship, would I then be labelled a lesbian-book writer? That was a possibility, even though I might never be inspired to write another such book in my life. So I decided to offer the book under another name.´), nem queria ser rotulada de escritora de policiais e menciona a sua oposição a esse rótulo, é reduzir o artista a uma espécie de penduricalho de categorias sociais, o que de modo geral rejeitamos.
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