Milagre da Batalha de Ourique: Incursão pela Literatura Portuguesa

“Que em Ourique o Senhor ao Rei primeiro Mostrou do Céu o amparo verdadeiro.”

Poemas da coletânea A Fénix Renascida

Introdução

A Batalha de Ourique tem um papel preponderante na narrativa histórica portuguesa e, por muito que seja assolada por grandes dúvidas e incertezas acerca do confronto, os seus efeitos foram da maior importância para a afirmação do Reino de Portugal. É por meio de um conjunto de batalhas — como a Batalha de São Mamede (Junho de 1128) e a Batalha de Ourique — que se concretiza a afirmação da vontade independentista do Condado Portucalense em tornar-se Reino de Portugal. A par de toda a “mesquinhice” de um filho que se opõe veemente, e até fisicamente, contra a mãe (D. Teresa) e a nobreza, torna-se mais importante, a meu ver, realçar dois feitos associados à Batalha de Ourique.

O primeiro e indiscutível do ponto de vista histórico: a vitória em Ourique atribuiu uma autoridade e confiança a D. Afonso Henriques para ser “rei dos portugueses”, como assim começou a (auto)designar-se. Pode-se considerar como fruto desta batalha a sua proclamação como Rei em 1139, estatuto que seria reconhecido pelo Papa em 1179, na Manifestis Probatum. Nesta mítica batalha, providencialmente, Portugal recebeu um Rei. O segundo feito, que não pode ser olvidado, recupera a visão de Jesus Cristo crucificado e rodeado de anjos, que profetizou a vitória e a formação do reino a D. Afonso Henriques na véspera da Batalha de Ourique. Pouco se sabe sobre esta visão, mas tenho-a como verdadeira; não fosse ela causa eficiente para que o Rei seja, também, objecto de devoção católica, conhecido como Beato D. Afonso Henriques. O nosso primeiro Rei confiou e, de facto, concretizou-se que, no dia 25 de Julho (dia de Santiago) de 1139, em número claramente inferior, as tropas cristãs portuguesas venceram o largo exército de cinco reinos mouros. Perante tamanha vitória, torna-se possível e necessário fazer-se a história de Portugal.

Onde existe História, existe Literatura. A Literatura e a História nem sempre são reconhecidas como as melhores parceiras no estudo das humanidades; contudo, estabelecem uma relação de interdependência entre si. Neste trabalho não pretendo desmistificar esta relação complexa. Pretendo, sim, apresentar a forma como o Milagre de Ourique se repercutiu nas diversas transformações dos códigos que regem o discurso. Ou seja: através de uma incursão pela Literatura Portuguesa, proponho perceber como é que a batalha, a formação de Portugal e o Milagre estão na consciência social e literária dos portugueses.

Compreender o que pode ser considerado literatura portuguesa é uma tarefa árdua, pois a história da literatura portuguesa, efetivamente, é uma história dura e difícil de migrações[1]. Simplificando, utilizarei para esta digressão na literatura textos produzidos em português ou em galego-português e compreendidos entre os séculos XII e XX. Espero que o presente artigo não se torne no mero índice de obras ou citações autorais que remetam para Ourique — seja no sentido terreno da batalha, seja no sentido religioso. Proponho uma visão crítica e consciente das limitações epocais. Assim, os exemplos que apresento são os casos mais paradigmáticos e não esgotam, certamente, todas as referências que grandes homens e mulheres dotados para as letras puderam fazer ao longo da História da Literatura, pois a afirmação do Reino Português nunca será um facto indiferente!

Literatura Medieval

A primeira “não-paragem” a apresentar é a poesia trovadoresca. Apesar de longas pesquisas, não encontro nenhuma referência ao Milagre de Ourique na lírica medieval. Ansiava ler uma cantiga sobre o Milagre de Ourique, pois parecia concretizável do ponto de vista cronológico e tendo Portugal um Rei poeta: D. Dinis. Também não consta nada nas Cantigas de Santa Maria, escritas por Afonso X, tio do nosso monarca poeta. Esta ausência nos cancioneiros da Biblioteca Nacional e da Ajuda não deve deixar de proporcionar algum espanto ao leitor que tenha algum conhecimento sobre a sua Pátria. Por isso, na falta de respostas a esta pergunta — Será que se produziu algum registo literário entre os séculos XII e XIV sobre a origem de Portugal? — as parcas fontes historiográficas parecem corroborar uma resposta negativa para esta questão. Contudo, gostava de apresentar algumas teses ou, melhor, hipóteses plausíveis a meu ver. A primeira, e que me parece uma premissa essencial para compreender a dificuldade do estudo desta época, pauta-se com a dificuldade de preservação dos registos. Muitas fontes históricas medievais não sobrevivem até à atualidade devido à degradação natural dos materiais ou ao extravio físico dos documentos, interrompendo assim a transmissão do conhecimento histórico através do tempo. Posto isto, o argumento principal é que a ausência seja justificada pela razão óbvia de não se encontrarem os pergaminhos ou outros suportes de escrita; não exclui que não tenham sido redigidos.

As outras teses partem de uma premissa oposta: pretendem apresentar uma justificação para o facto de não se ter escrito, efetivamente, nenhuma cantiga. A primeira ideia — que, com muita pena minha, ainda subsiste na Academia — justifica essa ausência pela origem árabe da lírica trovadoresca. A génese da arte de trovar não é consensual e, segundo as pesquisas do Professor Rodrigues Lapa, apresenta quatro caminhos distintos: a tese arábica, a tese folclórica, a tese mediolatinista ou a tese litúrgica/paralitúrgica. O enfoque da tese que aqui apresento alega que seria contestável, quase imoral, que se produzisse uma lírica que enaltecesse um episódio ocorrido durante a Reconquista Cristã recorrendo à métrica árabe, uma vez que ambos os povos podiam ser vistos como “irmãos” territoriais. Não concordo, de todo, com esta teoria, pois acredito que o Trovadorismo, de alguma forma, impulsiona a nossa identidade. Tendo a concordar mais com a que apresento de seguida, ainda que parcialmente e apesar de esta possuir uma argumentação frágil: esta proposta tem como argumento principal a forte marca que a Batalha, o Milagre de Ourique e a afirmação do primeiro Rei português devem ter provocado na memória dos portugueses. Supõe-se que tal impacto terá marcado a época com tamanha intensidade que não se sentiu a necessidade de realizar grandes registos líricos.

De certa forma, o Milagre tornou-se um facto e um conhecimento intrínseco dos portugueses. Não o sei contestar; o que é claro é que, com o surgimento de tantos movimentos literários, o Milagre deixou de ser inquestionável. No entanto, surgiu a necessidade de o perpetuar e de o conseguir transmitir às gerações seguintes. O registo prosseguiu com um tom administrativo, através das Crónicas, e no quotidiano através dos jograis e da poesia, que auxiliavam na memorização destas narrativas.

Ainda nesta incursão pelo Medievo, não seria despropositado colocar a questão: existirá uma épica que cante os feitos de D. Afonso Henriques? Sim, é a resposta que António José Saraiva defende no livro A Épica Medieval Portuguesa (1991). O propósito da obra é dar continuidade a um estudo iniciado, em meados de 1950, por Lindley Cintra, de forma a perceber se havia em Portugal uma épica medieval do tipo da castelhana, como o Poema de Meu Cid. A conclusão é que existe, de facto, um poema jogralesco, provavelmente em língua portuguesa, que remonta possivelmente ao último quartel do século XII e que tem como herói o primeiro rei de Portugal. Por isso, este poema cumpre a função de ser a primeira afirmação nacional portuguesa face ao Reino de Leão.

António José Saraiva acredita que a variante da Quarta Crónica Breve de Santa Cruz, completada com lições da Crónica de Vinte Reis, é a forma mais antiga que possuímos da nossa tradição épica. Contudo, esta crónica apresenta algumas problemáticas que discutirei ao longo do artigo, em diálogo com outras obras literárias. A primeira — e a que mais gostaria de salientar pela sua transversalidade — pauta-se pela quase inexistência do Milagre de Ourique na literatura; isto é, as escassas referências que se fazem à Batalha raramente se fazem acompanhar pela visão beatífica de D. Afonso Henriques. Na Crónica existe apenas uma referência à Batalha de Ourique, no original está entre parenteses, assemelhando-se a uma interpolação entre a compilação de uma ou mais crónicas. Esta compilação é fundamental na Crónica para justificar o título de “El-Rei” a D. Afonso Henriques. Cito como li na transcrição do estudo de António José Saraiva:

“ (E depois houve a Batalha em nos campos de Ourique e venceu-a. E desali em diante se chamou el-rei D. Afonso de Portugal e entom tomou por armas as cinco quinas.) “ (Saraiva, 1991, p 38)

A professora e prestigiada medievalista Teresa Amado (UL) realizou um estudo intitulado “Ainda Sobre o Milagre de Ourique” (2002) que, a meu ver, oferece contributos fundamentais para esta análise do Medievo, ainda que se trate de um trabalho marcadamente historiográfico. Faço a nota prévia de que o presente artigo não se foca na historiografia, mas sim na vertente literária. Como defende António José Saraiva, no estudo já citado, os relatos dos jograis nasciam dos próprios acontecimentos; a sua proximidade aos factos produzia tradições poéticas bem conservadas, capazes de registar a psique e a sensibilidade da época com tal eficácia que acabaram incorporadas pelas crónicas.

No seu trabalho transcreve-nos parte dos Anais, Crónicas e Memórias Avulsas de Santa Cruz de Coimbra (p.29):

El Rey Dom Afonso primeiro Rey de purtugal Em lide E em campo veençeo . v . Rex mouros . s . em o campo dourique . / . Onde lhe apareçeeo noso Señor Ihesu Christo posto em cruz por cuja Semelhança do diujnall mjsterio pos en seu escudo as armas em cruz . / . as quaaes ora trazem os Rex de purtugal. E so este pendom E sinall da cruz que auante delle andaua Em todalas Batalhas E escaramuças que emtraua elle era Vençedor. O quall Rey ante da dieta Batalha se chamou Rey dos portugueses jectando fora os emfiees E poborando o rreino E terra dos bõos catollicos e fíees . /. E por onrra da Virtuosa cruz E mjsterio que lhe asy apareçeo fundou o moesteiro de Sancta Cruz. E por onrra da cruz escolheo em elle seer supultado.

No mesmo estudo, a autora desenvolve um trabalho comparativo entre várias cópias e manuscritos para concluir que será difícil encontrar qualquer outro texto original que recupere ou relate o Milagre de Ourique. A hipótese que sustenta o seu estudo fundamenta-se no seguinte argumento: Aires Nascimento, no artigo sobre o “Milagre de Ourique” publicado no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, apelida-o, muito corretamente, de “motivo literário”, dando-o como existente “pelo menos desde a segunda metade do séc. XIV”. Esta conclusão parece corroborar o trabalho desenvolvido por Lindley Cintra e continuado, recentemente, por António José Saraiva.

Tal como nos explica Teresa Amado, o mais antigo relato completo do Milagre terá aparecido na Crónica de 1419 (ou Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal), que tem como fonte a Vida de São Teotónio. Nela, D. Afonso Henriques procura animar os portugueses, afirmando que Deus os ajudaria e que Santiago — cujo dia se celebrava — seria o seu “conde”. Contudo, a narrativa prossegue atribuindo o Milagre exclusivamente a Cristo; a versão de 1419 é a génese das posteriores, mas nestas últimas a intervenção de Santiago acaba por ser omitida. E, não poderia, contudo, terminar esta incursão pelo período medieval sem transcrever o relato da vivacidade de D. Afonso Henriques contra os Mouros, segundo a Crónica dos Godos[2]:

Era de 1177 [= 1139]: A 25 de Julho na festa de S. Tiago Apóstolo, no undécimo ano do seu reinado, o mesmo rei D. Afonso travou uma grande Batalha com o rei dos Sarracenos, de nome Esmar, num lugar que se chama Ourique. Efectivamente aquele rei dos Sarracenos, conhecendo a coragem e a audácia do rei D. Afonso, e vendo que ele frequentemente entrava na terra dos Sarracenos fazendo grandes depredações e vexava grandemente os seus domínios, quis; se fazê-lo pudesse, travar Batalha com ele e encontrá-lo incauto e despercebido em qualquer parte. Por isso uma vez, quando o rei D. Afonso com o seu exército entrava por terra dos Sarracenos e estava no coração das suas terras, o rei sarraceno Esmar, tendo congregado grande número de Mouros de além-mar, que trouxera consigo e daqueles que moravam aquém-mar, no termo de Sevilha, de Badajoz, de Elvas, de Évora, de Beja e de todos os castelos até Santarém, veio ao encontro dele para o atacar, confiando no seu valor e no grande número do seu exército, pois mais numerosos era ainda pela presença aí das mulheres que combatiam à laia de amazonas, como depois se provou por aquelas que no fim se encontraram mortas. Como o rei D. Afonso estivesse com alguns dos seus acampado num promontório foi cercado e bloqueado de todos os lados pelos Sarracenos de manhã até à noite. Como estes quisessem atacar e invadir o acampamento dos cristãos, alguns soldados escolhidos destes investiram com eles (Sarracenos), combatendo valorosamente, expulsaram-nos do acampamento, fizeram neles grande carnificina e separaram-nos. Como o rei Esmar visse isto, isto é, o valor dos Cristãos, e porque estes estavam preparados mais para vencer ou morrer do que para fugir, ele próprio se pôs em fuga e todos os que estavam com ele, e toda aquela multidão de infiéis foi aniquilada e dispersa quer pela matança quer pela fuga. Também o rei deles fugiu vencido, tendo sido preso ali um seu sobrinho e neto do rei Ali, de nome Omar Atagor. ​Com muitos homens mortos também da sua parte, D. Afonso, com a ajuda da graça de Deus, alcançou um grande triunfo dos seus inimigos, e, desde aquela ocasião, a força e a audácia dos Sarracenos enfraqueceu muitíssimo.

Literatura Renascentista e Moderna

Como se pode verificar pelos trabalhos desenvolvidos por conceituados medievalistas, os primeiros registos e referências ao Milagre de Ourique datam das crónicas quatrocentistas. Este “mito” seria, mais tarde, objeto de registos testemunhais por parte de frades, em pleno século XVI, servindo para inspirar a resistência popular durante o domínio filipino, mas surge também como uma referência central na epopeia magna portuguesa.

O Canto III d’Os Lusíadas constitui o espaço poético para narrar a História de Portugal, desde a sua fundação — de Luso a Viriato (Est. 22) — até ao reinado de D. Fernando, não descuidando o celebérrimo episódio de Inês de Castro. A narração da história do herói luso é introduzida de forma propositada através da personagem do Rei de Melinde, que pede a Vasco da Gama que relate a história do seu país. Este é um recurso literário para legitimar e apresentar o herói que Camões se propõe cantar, revelando-se pertinente e de extremo interesse para a nossa incursão literária. A Batalha de Ourique aparece descrita entre as estâncias 42 e 52, mas é nas estâncias 45 e 46 do mesmo canto que se descreve, especificamente, o Milagre de Ourique:

A matutina luz, serena e fria,

As estrelas do Polo já apartava,

Quando na cruz, o filho de Maria,

Amostrando-se a Affonso o animava.

Elle adorando quem lhe aparecia,

Na fé todo inflammado, assi gritava:

“Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,

E não a mi, que creio o que podeis.”

Com tal Milagre os ânimos da gente

Portuguesa inflamados, levantavam

Por seu Rei natural este excelente

Príncipe, que do peito tanto amavam;

E diante do exército potente

Dos imigos, gritando, o céu tocavam,

Dizendo em alta voz: – «Real, real,

Por Afonso, alto Rei de Portugal!

O episódio descrtito por Camões foi alvo de algumas críticas ao longo dos anos por parecer engrandecer ou intensificar o irracional do Milagre; mas José Maria Rodrigues (teólogo do Século XIX) defende Camões, argumentando que o poeta apenas seguiu fontes históricas e cronistas anteriores, como a Crônica de D. Afonso Henriques de Duarte Galvão. Segundo Galvão, D. Afonso Henriques, ao avistar a visão divina antes da Batalha, teria afirmado que tal aparição não era necessária para ele, que já possuía fé, mas sim para os descrentes:

E quando foy hua mea hora ante manhã… o príncipe syosse fora de sua tenda… uiu nosso senhor em cruz … e adorouho muy deuotamente com lagrimas de grande prazer, confortado & animado cõ tal enleuamento & confirmaçam do spiritu sancto, quesse afirma, tanto que uio nosso senhor, auer antre outras palauras fallado alguas sobre coraçam & spiritu humano, dizendo: Senhor, aos herejes, aos herejes faz mester apareceres, ca eu sem nenhua duuida creo e espero em ti firmemente (fl. XXII).

A narrativa do Milagre e a reação do monarca já eram conhecidas e aceitas muito antes de Os Lusíadas, e foram citadas por figuras como Vasco Fernandes de Lucena e o cronista Olivier de la Marche. Este último, nas suas Mémoires, escritas entre 1435 e 1488, reforça que o príncipe português pediu a Deus que demonstrasse o Seu poder aos inimigos infiéis e não aos seus próprios olhos, já crentes:

“Mon Dieu Jesu-Christ, j’ay ferme foy en toy et en ta passion douloureuse. Monstre ta croix à tes ennemis infideles, qui en toy ne veulent croire.”

O texto sustenta que a atitude de D. Afonso Henriques não deve ser vista como uma audácia imprópria contra Cristo, mas como uma expressão de humildade com raízes bíblicas. A estrutura da súplica assemelha-se ao Salmo 113B, sugerindo que o autor original da lenda se inspirou nas Sagradas Escrituras e no lema dos Templários para justificar a devoção do rei: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai glória… Porque diriam as nações pagãs: ‘Onde está o Deus deles?'”

A ideia de perpetuidade está profundamente enraizada na figura do nosso primeiro Rei, como se observa no Juramento de D. Afonso Henriques — «Quero em ti e na tua descendência estabelecer o meu Império» —, registado no tomo III (p. 127)[3] da Monarchia Lusitana. Esta obra de Frei António Brandão, publicada originalmente em 1632 por Pedro Craesbeeck, cobre a história nacional desde o Conde D. Henrique até ao reinado de Afonso Henriques e foi escrita num período de transição entre o Renascimento e o Barroco, sob o domínio filipino. A Monarchia Lusitana, iniciada por Frei Bernardo de Brito em 1596 e continuada por outros cronistas da Ordem de Cister, funciona como um compêndio de exaltação nacionalista que mergulha na narrativa bíblica desde Noé, afirmando que o seu filho Tubal iniciou o seu périplo pelas nossas costas e colocou a primeira pedra em Setúbal, depositando assim os maiores contributos para o perfil virtuoso e heróico do monarca. Importa notar que, a par do “Juramento de Ourique”, e apesar de ter sido aceite durante o Renascimento e o Barroco como prova histórica absoluta da eleição divina de Portugal, hoje acredita-se, devido à análise crítica de Alexandre Herculano, que o documento seja uma falsificação, provavelmente forjada no Mosteiro de Alcobaça.

Para além da épica camoniana, outras epopeias fazem referência ou alusão ao Milagre de Ourique. Uma das mais relevantes, situada nos primórdios da modernidade, é da autoria de Vasco Mouzinho de Quevedo: Afonso Africano (1611). Este poema heroico centra-se em D. Afonso V, rei conhecido pelas suas campanhas em Marrocos, e narra a conquista de Arzila e de Tânger. Mouzinho utiliza estes feitos como uma alegoria para a luta espiritual cristã, destacando a complexidade de um reinado dividido entre os ideais medievais e a realidade expansionista. Considerada uma das melhores obras do género após Os Lusíadas, assinala uma mudança estilística e ideológica. Embora ainda influenciado pela forma camoniana, afasta-se do realismo histórico e recorre à alegorização da ação em termos moralistas e religiosos. O poema abre com uma recapitulação da história nacional, na qual Ourique surge, uma vez mais, como o marco fundador da realeza portuguesa:[4]

E porque outras razoes as mais appliquc ,

Mova-te, que são Armas próprias tuas ,

Que à outro Affonso Deos no Campo Ourique

Abrindo os Ceos , lhe deu por Armas suás. Para que em succelsão a mercê fique,

Como próprias as tenhas , e as possuas ,

Se cauia, que he tão justa, não defendes.

O período Clássico da literatura portuguesa é rico em epopeias e poemas heroicos. Num contexto de crise política, motivado pela governação filipina, imperava a necessidade de recuperar os valores da fundação da nacionalidade. Assim, algumas epopeias preferem fazer uso de Ourique para fins políticos imediatos, enquanto outras reinscrevem o episódio da visão beatífica na História nacional.

Parece-me, então, que nesta incursão literária — e antes de nos adentrarmos na próxima etapa — cabe fazer um ponto de situação. O registo deixa de ser meramente cronista, focado na justificação da historicidade ou da veracidade, para passar a ser utilizado como ferramenta política e como galvanizador de uma esperança patriótica. Portanto, a segunda conclusão a que chego é que o período entre os séculos XVI e XVIII é o momento em que o Milagre de Ourique assume o seu maior esplendor literário. Como procurei demonstrar neste artigo: enquanto o episódio fazia parte da consciência coletiva como uma memória presente, sentia-se menos necessidade de o narrar; todavia, ao tornar-se uma memória distante, a nação passou a encontrar segurança e apoio ao evocá-lo.

Literatura das Revoluções[5]

O período Romântico e todas as correntes literárias sucessoras do Iluminismo revolucionaram o pensamento e fraturaram a normalidade vigente — esta tem sido a premissa da minha compreensão do mundo e a base da minha argumentação. Posto isto, o modo de interpretar a Batalha de Ourique e o seu Milagre sofreu mudanças profundas, fruto do revisionismo histórico romântico. Para esta tarefa, destacam-se duas figuras que foram também escritores de relevo: Alexandre Herculano e Teófilo Braga.

A desmistificação do Milagre foi iniciada por Luís António Verney, em 1746, na obra Verdadeiro Método de Estudar; contudo, ganhou uma repercussão muito mais ampla com o lançamento do segundo volume da História de Portugal de Alexandre Herculano (1850). Ao qualificar o Milagre como uma “fábula”, Herculano desencadeou uma violenta e duradoura polémica, alimentada pelo clima de confrontação cultural que se seguiu à implantação do Liberalismo no país. Curiosamente, enquanto rejeitava Ourique, o historiador acolhia o cerco de Guimarães e a façanha de Egas Moniz como “um dos factos mais poéticos da nossa história”. Por sua vez, Teófilo Braga considerava que o suposto Milagre de Ourique resultara da adaptação de outra lenda eclesiástica, também ela nascida com intuitos políticos: a aparição de uma cruz brilhante no céu ao imperador Constantino, acompanhada da frase In hoc signo vinces. Permanece a dúvida — com a qual alguns historiadores concordam — sobre se o Milagre de Ourique seria uma construção de origem galega e não a causa direta da fundação de Portugal. Esta dúvida foi introduzida por Herculano, mas a resposta dada ao longo dos séculos pela tradição poética é consistente e distinta: Ourique é a causa primária para que hoje exista Portugal.

Herculano é o exemplo máximo das multifacetadas funções de um romântico: autor, historiador e, sem exceção, a escrita de romances históricos, geralmente focados no período medieval. Para a nossa discussão, destaco duas obras emblemáticas: Eurico, o Presbítero (1844) e, especialmente, O Bobo (1843, edição em fascículos). Esta última, cuja ação decorre no interior da corte de D. Afonso Henriques e narra a Batalha de S. Mamede, é fundamental por procurar apresentar uma génese racional, terrena e secular para a origem de Portugal. A épica medieval, já apresentada neste artigo, narra o episódio do Bispo Negro e um possível conflito com o Papa — acusação que o Padre Gonzaga de Azevedo considerou “uma tradição caluniosa que durante séculos desonrou a memória do nosso monarca”. É provável que Herculano se tenha sentido atraído pelo lado insólito de uma épica do século XII introduzir um bispo de tez mais escura do que os seus confrades, o que terá servido de inspiração para a sua obra Lendas e Narrativas (1851).

Na visão romântica, era imperativo desmistificar tudo o que contivesse elementos sobrenaturais, especialmente se fossem sustentados pelo catolicismo. Não obstante, é também do Romantismo que surge o revisionismo dos mitos com um sentido messiânico; sempre que emergem momentos de crise, o Romantismo, com a sua habilidade paradoxal, utiliza-os em favor das ideias políticas vigentes. Muitas vezes através de interpretações anacrónicas, o movimento (re) interpreta os mitos para dar voz ao povo, e não necessariamente para o nobilitar, como fizera Camões.

O período seguinte ao Romantismo é, consensualmente, o do Realismo-Naturalismo, que não se isenta da crítica social, embora o faça de modo mais subtil. O exemplo pleno deste período histórico é o ilustre Eça de Queirós, amplamente reconhecido pela sua perspicaz ironia e pela talentosa caracterização das suas personagens. É precisamente na intersecção destes dois elementos que se insere a alusão a Ourique na obra Os Maias, logo no capítulo inicial:

“E esses santos lá o consolavam, afirmando-lhe que Deus, o velho Deus de Ourique, não permitiria jamais que um Maia pactuasse com Belzebu e com a Revolução!”/ “Oh! Deus de Ourique, manda-nos o castelhano!”

Estas referências são extremamente interessantes para caracterizar Afonso da Maia como alguém dotado de uma profunda integridade moral e de uma retidão de princípios que se tornaram raras no país — algo que, como se sabe, terá consequências determinantes na narrativa. Embora não saibamos com que intuito exato Eça de Queirós optou por esta caracterização, os dados permitem-nos concluir que a possibilidade de uma visão beatífica permanecia latente na memória e no espírito português.

Por fim, a última grande revolução literária que importa referir é o Modernismo, que se desenvolve e explora as suas múltiplas vertentes ao longo do século XX. O vulto central deste período é, sem dúvida, Fernando Pessoa, autor de Mensagem (1934) — uma obra singularmente patriótica para um poeta com o pendor ocultista de Pessoa. Apesar deste paradoxo, comum nos movimentos literários de rutura, aquele que se autodesignou “Super-Camões” não menciona D. Afonso Henriques nem o Milagre de Ourique nos seus poemas mais emblemáticos sobre a pátria. A meu ver, esta ausência fica aquém das expectativas: para que a comparação com Camões fosse plena, Pessoa deveria ter evocado as batalhas fundadoras da nação, como São Mamede ou Ourique. Face a este aspeto, e com algum lamento, Pessoa revela-se um “Infra-Camões”.

Ainda na mesma linha cronológica, mas num âmbito ideológico distinto, proponho uma reflexão sobre o Integralismo Lusitano — movimento tanto político como cultural. Encerro esta última paragem, mencionando o poema “Manhã de Ourique” da autoria de António Sardinha que recupera, a meu ver, a tradição camoniana.

Conclusão

No percorrer desta incursão literária já foi possível consolidar algumas ideias que me parecem interessantes de fixar. A primeira – e, cujo alertei desde logo na introdução- a dicotomia História e Literatura afirmou-se, mas para o estudo enriqueceu com preceptivas que se complementam. Do ponto de vista histórico, descrito através das Crónias medievas há uma forte preocupação em narrar os feitos bélicos, as cruzadas, mas em menor dimensão o Milagre de Deus de Ourique. É apenas na Literatura que surgem as primeiras referências e alusões a «Deus de Ourique».

O papel da Literatura, neste caso, é bastante meritório e devemos louvá-lo por garantir a perpetuação sólida entre várias gerações da Visão Beatifica em Ourique e legitima a Beatificação de Afonso Henriques na alma e mente dos portugueses atentos. Contudo, e não é demais relembrar que, a Literatura pela necessária mestria artística do autor tende a ser mais sensível a questões que podemos designar ideológicas. Por isso, a veracidade do Milagre – ainda que não seja contestada – não deverá ficar ao serviço dos interesses políticos para enfrentar épocas de crise. Quero eu dizer, o Milagre deve ser cantado, narrado, louvado, agradecido porque aconteceu e é Bom; mas nunca deve ser uso de uma interpretação saudosista ou Messiânica, como parece acontecer no período da Literatura das Revoluções.

Por fim, e não menos importante, todas as referências que aqui apresentei tendem a corroborar para legitimar o Rei D. Afonso Henriques como Rei que cumpre providencialmente a vontade divina. Assim, Portugal é um desígnio divino. De tal modo, o esforço para provar a santidade de D. Afonso Henriques baseia-se na convicção de que ele foi um “eleito de Deus”, cuja legitimidade era sustentada pela visão beatífica no Milagre de Ourique. Esta tese é defendida em obras fundamentais como o Apparatus Historicus de Argumentis Sanctitatis Regis Alfonsi Henrici (1728), de José Pinto Pereira, que apresenta dez argumentos para comprovar a sua santidade, e o estudo contemporâneo A Saga da Santidade de D. Afonso Henriques (2017), publicado pela Fundação Lusíada. Ao lado de títulos como a Crónica de Cister e a Monarquia Lusitana, estes textos reforçam a imagem do “Pio e Beato” fundador, “, sustentando que o Milagre de Ourique não foi apenas uma lenda, mas uma manifestação divina real onde Cristo lhe prometeu o império para a propagação da fé, pois Afonso I esteve sempre empenhadíssimo no combate aos Mouros . Esta aceitação da Igreja, especialmente visível nas várias tentativas de canonização junto da Santa Sé — incluindo o apoio do Papa Bento XIV, que se ofereceu para ser advogado da causa —, demonstra que a sua figura não era vista apenas como um herói militar, mas como um cruzado cuja legitimidade política derivava de uma unção espiritual, sendo o milagre a prova documental e mística dessa predestinação.

Beato Dom Affonso Henriques, Rogai por nós.

Bibliografia:

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«1152 – Juramento d’ElRei D. Affonso Henriques». Estudos Portugueses. Acedido a 20 de janeiro de 2026. https://www.estudosportugueses.com/1152—juramento-delrei-d-affonso-henriques.html.

QUEVEDO, Vasco Mousinho de. Afonso africano: Poema heróico da presa de Arzila e Tânger; dirigido a D. Álvaro de Sousa, Capitão da Guarda Alemã de S. Majestade, etc..Lisboa, Portugal: António Álvares, 1611.

Teixeira, J. P. S. “Processo de canonização de D. Afonso Henriques na historiografia portuguesa.” Público, 18 de setembro de 2018. https://www.publico.pt/2018/09/18/culturaipsilon/opiniao/processo-de-canonizacao-de-d-afonso-henriques-na-historiografia-portuguesa-1844356.


  1. Parafraseando Alves, “Prefácio”



  2. https://www.estudosportugueses.com/1139—a-batalha-de-ourique-segundo-a-croacutenica-dos-godos.html



  3. https://www.estudosportugueses.com/1152—juramento-delrei-d-affonso-henriques.html



  4. Segundo a Edição de 1786, em Lisboa, pela Oficina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno



  5. Alves, “1.2 Os Períodos Literários ” 29