Albatrozes — As Enfermeiras Pára-Quedistas na Guerra Colonial

Também há quem diga que dá azar matar um albatroz. Sempre a superstição! Por isso, das quarenta e seis mulheres enfermeiras pára-quedistas que vão prestar serviço na guerra colonial portuguesa, nas três frentes, durante treze anos, apenas duas perderão a vida, Maria Celeste Ferreira da Costa, na Guiné, ao ser atingida pela hélice de um Dornier 27, quando se prepava para embarcar, e Maria Cristina Justino da Silva, ferida em combate, na região de Mueda, em Moçambique, ambas em missão de evacuação de feridos dos campos de batalha.

Na verdade, as mulheres-albatrozes sabem mover-se de maneira muito eficaz quando voam, e nunca se cansam, ainda que os vôos sejam demorados. Por outro lado, levam nas cabeças as boinas verdes – coroas de serafins e querubins que as «cobrem com o seu manto» e lhes iluminam as decisões, para que se façam «sempre úteis e agradáveis para todos, como flores belas e perfumadas e sem espinhos», providenciando «êxito nos seus trabalhos, projectos e destinos de vida.»

Quanta simbologia está associada às boinas verdes! Quantas fotografias nos mostram militares pára-quedistas regressados de uma operação, «com os rostos marcados pelo cansaço, camuflado sujo, barba de dias, mas usando orgulhosamente a boina verde!»

A enfermeira Ivone foi uma das primeiras enfermeiras pára-quedistas. A guerra colonial na Guiné consta do seu currículo como um torvelinho de cinzas que ela ajudou a transformar em áurea reminiscência.

Foi em 1961 que se instruíram as primeiras mulheres pára-quedistas e, desse primeiro grupo, apenas seis ficaram apuradas. «Naquele tempo era uma audácia extraordinária, em relação às tradições, em relação aos costumes e ao estatuto cultural efectivo das mulheres na vida portuguesa.» Sim, «acho que foi uma bofetada que o Salazar deu a muita gente porque quando o coronel Kaúlza lhe apresentou na reunião de Conselho a proposta para admitirem enfermeiras, num concurso de páraquedismo para acudir aos feridos de guerra, os outros desataram logo a dizer – isso é utópico! Salazar calou-se, não disse nada, nem sim nem sopas. Quando saíram da reunião, chegou-se ao pé do Kaúlza e disse-lhe: venha cá que eu preciso de discutir aí uma coisa consigo e chamou-o lá para o gabinete: mostre aí essa proposta que apresentou lá dentro. E acrescentou: avance.»

Em Tancos, foram fazer o curso. Os exercícios físicos não eram tão intensos quanto os dos homens, mas, realizavam a totalidade da instrução, «desde o arnês, ao salto da torre, aos rolamentos, porque nessa altura o páraquedismo ainda não era tão seguro, a instrução da dobragem do pára-quedas e como se trabalhava com o pára- quedas no ar, fazer face a maus funcionamentos do material, foi feito exactamente como o dos homens, e responderam perfeitamente.»

É muito interessante verificar que, só em 1992, mais de trinta anos depois, é que as mulheres vão poder voltar a ingressar nas Forças Armadas em Portugal!

É deveras envolvente também escutar os depoimentos:

«- O mais marcante foi o primeiro salto. Todo aquele barulho dentro do avião e depois a gente encontrar-se naquele silêncio absoluto, que é maravilhoso… é uma coisa maravilhosa, é única!»

«- Na Guiné achei que aquilo era muito difícil, havia guerra por todos os sítios.»

– «Enquanto que a gente estava lá, naquele sofrimento, notava que aqui havia uma indiferença, só se incomodavam com a guerra aquelas pessoas que tinham lá familiares.»

«- Assim que a gente levantava a cabeça um bocadinho, as balas assobiavam e eles só me diziam: minha alferes, baixe a cabeça!»

«- Será que eu tenho os conhecimentos suficientes para poder fazer tudo aquilo que deve ser feito e não me vou enganar em nada? Depois chegava lá, e a estupidez desaparecia.»

«- Havia muito stress, toda a gente andava muito stressada, os ataques eram muitos na Guiné, a Guiné era uma província muito atacada, era uma guerra mesmo, mesmo acesa, e havia dias em que saíam as aeronaves todas, e todo o pessoal que prestava assistência saía para as evacuações.»

«- Durante oito dias não apaguei a luz do quarto, não a conseguia apagar, tinha aquela imagem, sempre.»

«- Eu acho que fiquei diferente, acho que sim, fiquei diferente.»

«- Demos um passo bastante grande em relação à emancipação da mulher.»

«- Eu sentia-me bem porque aquilo para mim era uma sensação maravilhosa, ir buscar feridos, trazê-los e tratá-los. Eu era feliz e foi formidável. Adorei a vida que eu tive, a minha vida profissional como pára-quedista foi algo que eu iria novamente enfrentar.»

«- Chorávamos com as outras pessoas, com os familiares, cá. Eu chorava com eles, aquela dor.»

«- Para mim o mais chocante era ir reconhecer os pára-quedistas mortos, esfacelados, rebentados.»

«- O que mais me custava era ver chegar, constantemente, companheiros mutilados, jovens que ficavam sem pernas e sem braços, com a vida transformada para sempre. Ou pior ainda: os que chegavam sem vida, que trazíamos de helicóptero para o Hospital Militar de Bissau.»

«- Muitas pessoas que hoje estão vivas podem agradecer às enfermeiras pára- quedistas e aos pilotos.»

«- Quando a gente salvava alguém era uma felicidade!»

«- A gente tem mais capacidade do que aquela que pensa ter.»

«- Recuperavam-se os feridos todos. Os feridos, mesmo os do inimigo, que eram tratados exactamente como os nossos.»

«- Em situações de enorme tristeza rezávamos a Deus e a Nossa Senhora, por aqueles que tratávamos. Quem nunca fez a guerra não sabe o que é a oração.»

É nos últimos anos de guerra colonial, que as enfermeiras pára-quedistas exercem funções mais activas, precisamente na Guiné-Bissau, por ser o território em que a luta armada é mais violenta.

A violência, com a sua boca de monstro, em forma de porta misteriosa, abre-se e fecha-se ininterruptamente. De cada vez que se abre, a ciência dos encaixes e dos entalhes aplica a sua lógica – engolir as presas. De cada vez que se fecha, mastiga as presas, saliva e arrota. Apesar disso, a violência observada e vivenciada pelas mulheres pára-quedistas, mesmo sendo truculenta, não conseguia penetrar-lhes dentro do Vverão que as habitava. Elas tinham um regaço redondo, onde não cabiam cômoros,

nem silvados, ou domínios políticos, ou… qualquer outra coisa. Elas cantavam com as suas vozes de moças e a sua ideia era só uma – não há menstruação que impeça as mulheres de se transmudarem em militares e voarem, como os albatrozes. Elas são elas, com a sua coragem e o seu medo o, misturados, estruturalmente misturados e sensorialmente gravados no lenço que lhes limpa o suor do pescoço.

Sim, há quem diga, que dá azar matar um albatroz. Falham as tentativas, quase sempre, e ainda bem. As asas deles que são as asas delas, têm poemas inscritos, poemas heteronicamente pessoanos. Um mistério, que as protege, um escudo de ranger os dentes de noite, um bruxismo que nunca pára de procurar o sentido da vida. Claro que o sentido da vida é um reportório antagónico ao sentido da guerra. O reportório do sentido da guerra é uma personagem cega que caminha pelo bosque adentro, cheio de objectivos concretos, enquanto que o sentido da vida utiliza um guião aberto e, de certa maneira, inclui muitos improvisos.

As mulheres pára-quedistas simbolizam o sagrado desse sentido da vida, com a sua natureza delicada. A sua atitude no cenário de guerra é mansa, altruísta, clemente e maternal. O desafio é socorrer, sem grande hesitação. A única questão que as aflige faz-se notar na frase-questão de uma canção dos Moonspell: «então é este o estilo de morte exemplar sobre o qual me falaste? E queres a minha semente nessa canção de cisne fatal?»