Contos engraçados de Marcos Mendes, Cidadão da Lisboa de Quinhentos

Contos engraçados de um Cidadão da Lisboa de Quinhentos chamado Marcos Mendes sobre o seu quotidiano e conversas com outrem. 

Contos engraçados de um Cidadão da Lisboa de Quinhentos, chamado Marcos Mendes, sobre o seu quotidiano e conversas com outrem. 

[I] Este Marcos Mendes dizem que, indo uma madrugada para uma quinta sua, viu cousa que o assombrou e endoideceu. E daí a pouco tempo, alugando umas casas suas a um homem, disse a mulher de Marcos Mendes ao que lhas alugara que seu marido não sabia o que fazia, que ela achavaquem lhe dava mais dinheiro pelas casas. E o homem indo-se a Marcos Mendes com aquela queixa, disse-lhe ele:

 – A minha mulher, com esta minha doença, nasceu-lhe um esporão e cuida que é galo. Mas não vos agasteis, que eu vos faço boas as casas [alugo-as a bom preço -trocadilho com o facto de Marcos não estar bom de saúde, mas as casas estarão].

[II] Entrando uma vez na Casa da Índia e começando a apanhar da terra, perguntou-lhe um Oficial daí para que a queria. E ele respondeu-lhe:

 – Para ir fazer uma quinta em Alvalade.

E isto disseporque muitos da Casa tinham lá quintas.

[III] Chegando-se uma vez Marcos Mendes ao Cais da Pedra, começou a bradar rijo depressa, dizendo:

 – Nada, homem, nada!

E, acudindo muita gente a ver, cuidando que se afogava alguém, disse-lhe Marcos Mendes:

 – Homens, que quereis?Eu não disse que não era nada?

[IV] Vendo um homem a Marcos Mendes em uma Rua estar olhando para umas casas muito formosas muito pronto [atento], as quais um Alcaide ali fizera, perguntou-lhe que fazia. E Marcos Mendes respondeu:

 – Estou vendo estas casas, que, sendocomeçadas por depois do sino, se acabaram tão depressa [isto é, os Alcaides cobravam multas às pessoas que encontravam na Rua depois de corrido o sino de recolha – ele está a insinuar que as casas começadas com dinheiro cobrado por se andar tarde, se acabaram cedo][V] Andando em Lisboa um Judeu chamado Abraão Benzemerro, a quem El-Rei D. João III, por ser mercador mui rico e discreto, deu licença que andasse sem sinal [as Ordenações obrigavam os Judeus a andar com uma estrela vermelha de seis pontas no traje], disse-lhe um dia MarcosMendes que tinha necessidade de algumas cousas de África para uma filha que queria casar; se lhas queria mandar trazer. E o Judeu respondeu-lhe que sim. Depois de ambos acordados na sorte e nos preços, foram-se ao Paço dos Tabeliães e mandaram fazer uma escritura pela qualse obrigaram um a mandar trazer as cousas e o outro a mandar pagar a quantia delas. E, depois que ambos assinaram e as testemunhas nela nomeadas, disse Marcos Mendes ao Judeu:

 – Se tu dás crédito a esta escritura que aqui temos feita, no princípio da qual dizemos que foiescrita aos tantos anos andados do Nascimento de Jesus Cristo, porque não crês Nele? E se não crês Nele, como posso ficar eu seguro que me cumprirás o a que nela te obrigas? Pois ele é o que aqui faz mais força na verdade desta escritura!

[VI] Um Oficial de El-Rei queentrou no Ofício pobre, depois que o serviu alguns anos, fez uma quinta. E Marcos Mendes, passando por junto dela, começou a bradar rijo:

 – Aqui d’El-Rei!

E, acudindo-lhe gente que lhe perguntou que lhe queria, respondeu:

 – Quero que prendam este homem porque, escondendoos outros ladrões os seus furtos, põe este os seus na estrada.

[VII] Estava um Cristão-novo comprando berbigões e Marcos Mendes chegou-se a eles e perguntou-lhe como os abria; e ele respondeu-lhe que abria um com o outro. Disse-lhe o Mendes:

 – Bri, bri [pronúncia populardo berbigão na época, “bribigão”]… Assim Brivia [Bíblia] de baixo e Testamento Novo de cima, abri um com o outro [alusão ao criptojudaísmo: por cima uma coisa, por baixo outra].

[VIII] Um Escrivão dos Contos [contabilidade] de Lisboa, à sombra do Ofício, comprava tudobarato às pessoas que de seus tratos e Ofícios pagavam sisa [±o atual IVA] a rendeiros, por que os favorecesse com eles. E Marcos Mendes perguntando-lhe se lhe queria vender o Ofício, o Escrivão respondeu-lhe que sim, se o Contador-mor o houvesse por bem. Começou MarcosMendes a ir com ele, fingindo que ia saber do Contador-mor se daria licença, e, detendo-se, disse-lhe se sabia ele que Ofício era o que lhe comprava; e o Escrivão respondeu-lhe que ele não tinha nem vendia outro Ofício senão o de Escrivão dos Contos. Disse-lhe MarcosMendes:

 – Não, eu compro-vos o Ofício de não pagardes, que por essoutro não vos darei um ceitil [moeda].

[IX] Vindo Marcos Mendes um dia de Belém, viu passar um Cristão-novo sobre uma mula e um Clérigo nas ancas [atrás]. E, fingindo que lhes queria dizer alguma cousaimportante, disse-lhes que se apeassem para um negócio muito grande. E, depois que ambos se desceram, disse-lhes:

 – Ora tornai a subir, mas mudai-vos, porque a Lei Velha [Antigo Testamento] há-de ir atrás e a Lei da Graça [Novo Testamento, não reconhecido pelos Judeus]há-de ir diante.

[X] Trazendo ele dó por sua mulher, viu a um Cristão-novo com um vestido muito loução; e pondo-se a olhá-lo, perguntou-lhe o outro que olhava. E Marcos Mendes respondeu-lhe:

 – Olho que trazemos os vestidos trocados, porque esses golpes e galantarias sãode meus avós, e estas choças [trapos pobres] dos vossos.

[XI] Correndo Marcos Mendes uma Quinta-feira de Endoenças as Igrejas e topando uns poucos de Cristãos-novos que conhecia, perguntou-lhes aonde iam e eles [disseram] que corriam as Igrejas. Disse-lhes Marcos Mendes:- Mas parece-me que lhe ides correr a folha [requerer certidão de serviços prestados – na ideia que ele achava que os Cristãos-novos visitavam as Igrejas para exibirem provas do seu Catolicismo].

[XII] Passando Marcos Mendes por S. Nicolau, viu um ajuntamento de odreiros[produtores de odres] em debate com um Almotacé [homem responsável pela fiscalização dos preços], que era filho de um Castelhano confesso [Judeu Castelhano] e lhes pusera certa pena se não fizessem todos os odres de um tamanho. E disse Marcos Mendes ao Almotacé:

 – Senhor,não tendes razão. Se todos os bodes [referência à sua origem Judaica] fossem de um tamanho, então seria justo que se fizessem os odres de um tamanho; mas se uns bodes são grandes e outros pequenos, como se pode fazer isso que vós mandais?

[XIII] Pousando um Cristão-novojunto dele, trazia uns poucos de patos em um quintal, que com seu grasnar lhe davam moléstia, e ele mandou-o citar. E, indo ambos à audiência [Tribunal], disse Marcos Mendes ao Juíz que mandasse a aquele homem que tirasse uns porcos que trazia num quintal, porque lhe faziammá vizinhança. Respondeu a isto o réu que ele não trazia porcos, senão não sei quantos patos. Disse Marcos Mendes:

 – Pois esses patos, que são os vossos porcos, peço eu ao Senhor Juíz que vos mande que os não tragais aí, porque me não deixam dormir de noite [Judeus nãocomiam carne; o sentido do dito é, pois, chamar o vizinho de Judeu – além disso, o estratagema de Marcos Mendes ao chamar os patos de porcos, porque as Posturas Municipais proibiam os porcos dentro da cidade, embora se podesse ter patos].

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