Por: Ernesto António Mubango Hoguane[1]
Resumo
O presente artigo científico debate em torno do seguinte tema: Idealismo Alemão: Nietzsche, Existencialismo, Hermenêutica e Desconstrutivismo. Para o desenvolvimento do presente tema, definimos o seguinte objetivo geral: fazer uma reflexão filosófica sobre o niilismo. Para a concretização deste objetivo geral, definimos os seguintes objetivos específicos: (i) debater sobre o idealismo alemão; (ii) apresentar o pensamento do Nietzsche e o niilismo; (iii) discutir a relação entre existencialismo e niilismo, e por fim, (iv) debruçar sobre a hermenêutica e desconstrutivismo. Ora, o niilismo foi de facto protagonizado por Nietzsche, na última metade do séc. XIX para século XX. Porque ele reagiu ao facto de o homem estar submetido a valores desenhado pelos mestres da filosofia desde a antiguidade até ao mundo contemporâneo, aprisionando assim a consciência dos homens no Nada existencial. Assim sendo, podemos assumir que o fundamento da filosofia de Nietzsche serviu de ponte para emergência de várias leituras e interpretações sobre a condição humana. Desta feita, os existencialistas, os hermeneutas e a desconstrução desencadeada por Derrida reagiram de forma crítica aos discursos carregados de certezas sobre a vida dos homens na terra. Por exemplo, os existencialistas acreditavam que o homem é um ser atirado para existência e depois deve definir-se a si mesmo criando a sua própria essência (Sartre) e deve ser um Ser responsável de si mesmo, pelo outro (Ser-com-outro) e pelo mundo (Ser-no-mundo) em volta dele (Heidegger); por outro lado, a hermenêutica tentou dar resposta a cultura ocidental por meio da afirmação da possibilidade da verdade advinda da experiência de outras instâncias, como da obra de (i) arte e da (ii) historicidade. Por fim, desconstrutivismo se apresentou como um exercício interrogativo, de decomposição, crítico e de reorganização, dos alicerces estruturantes do pensamento abstrato ocidental desde Platão na antiguidade, até Freud passando por Hegel e demais teóricos da modernidade, considerados niilistas.
Abstract
Introdução
O presente artigo científico debate em torno do seguinte tema: Idealismo Alemão: Nietzsche, Existencialismo, Hermenêutica e Desconstrutivismo. Para o desenvolvimento do presente tema, foi preciso a definição do seguinte objetivo geral: fazer uma reflexão filosófica sobre o niilismo. Para a concretização deste objetivo geral, definimos os seguintes objetivos específicos, que são aliás, a estruturação do presente artigo: (i) debater sobre o idealismo alemão; (ii) apresentar o pensamento de Nietzsche e o niilismo; (iii) discutir a relação entre existencialismo e niilismo, e por fim, debruçar sobre a hermenêutica e desconstrutivismo.
É relevante salientar que havia de facto, certeza de que a razão (especulativa) cobriria e resolveria os anseios da humanidade e traria progresso. Assim desenvolveram-se várias correntes e até sistema (Hegel e o auge do idealismo alemão) filosóficas [o] que acreditavam na supremacia da razão, da ciência e da história humana. Ora, podemos até assumir que de certo modo tinham razão, porque graças ao uso da ciência e da racionalidade que condicionou o desenvolvimento da ciência e técnica, a medicina, a biologia, a física, a química, a arquitetura, a engenheira, etc., evoluíram significativamente. Mas, pela negativa, graças a razão e a técnica desenvolveram as bombas nucleares com capacidade assustadora para pôr fim a raça humana na terra; assistimos o 1914 e 1939: Duas guerras que geraram grandes reflexões críticas sobre o sentido da vida e a suspeita na grandeza da razão, por um lado.
Por outro lado, não tardou muito até que Nietzsche se cansasse de suportar aquilo que ele chamou de tortura psicológica criada pelos homens desde a antiguidade grega até modernidade: todas, as leis através das quais a vida dos homens na terra devia ser guiada. Daqui a história do niilismo emerge e desencadeia uma rotura com tudo que é considerado tradicional na filosofia: idealismo, discursos metafísicos, humanismo ético e, principalmente contra a divindade ou a religião. Ao lado do niilismo que considerou vazia toda uma tradição filosófica, outros movimentos de pensamento foram desenvolvidos por filósofos que reagiram também de forma crítica face a primazia e a crise da razão e da cultura ocidental. Estamos falando do existencialismo, hermenêutica e do desconstrutivismo. Portanto é, em torno do niilismo e destas correntes que o nosso debate gira em volta.
Contudo, no que tange ao método para a materialização do trabalho, recorremos a hermenêutica, ela é que nos permitiu a interpretação dos vários textos que nos deparamos durante a realização do trabalho. Quanto à técnica, nos valemos da heurística, ela é que nos teria auxiliado na recolha dos dados bibliográficos para a materialização do trabalho.
1. Sobre o idealismo Alemão e seus representantes
É comum entre os estudiosos a visão de que o idealismo (ou então idealismo metafísico) enquanto corrente filosófica que pode ser lida sob ponto de vista (i) gnosiológico (Kant) e (ii) romântica (Fichte e Schelling), que consistia na afirmação da existência do carácter espiritual de toda realidade, é moderna e contemporânea. Todavia, o termo idealismo foi inicialmente usado e/ou introduzido na linguagem filosófica por volta do século XVII, quando se fazia referência ao pensamento platônico no tocante a existência de dois mundos (ideal-perfeito e real-sensível ou imperfeito) (Cf. Abbagnano, 2007: 523).
Ora, é do idealismo gnosiológico (Kant) que vai surgir o idealismo romântico (Fichte e Schelling), tentando tomar uma distância ao pensamento kantiano, surgindo assim o pós-kantismo e o Idealismo Alemão. Assim sendo, Danilo Marcondes, escreve que existem duas saídas para o desenvolvimento do idealismo alemão pós-kantiano. De um lado, temos a saída sistemática que toma distância e se opõe a Crítica do Juízo de Kant, e de todos os filósofos que ainda creem no absolutismo ou omnipotência da razão, como alias o fez Fichte, levando deste modo, a um ressurgimento da metafísica especulativa, bastante interrogada por Kant. Por outro lado, há uma outra segunda saída que Marcondes prefere chamar de irracional, que refuta a razão abrindo espaço para a sensibilidade e a emoção humana; esta posição tem sua inspiração em Schelling (Cf. Marcondes, 2004: 238).
Ora, mais adiante o autor refere que, de um lado, o objetivo principal de Johann Fichte foi de,
Formular uma doutrina de ciência, que começa a elaborar desde o início do século consistindo em uma filosofia teórica e especulativa, procurando superar a dicotomia sujeito-objeto. Fichte parte de uma teoria do conhecimento que pretende unificar o mundo do sensível e o mundo inteligível. Seu objetivo final, uma pretensão que terá forte influência sobre Hegel, é atingir o saber absoluto. O modo de acesso ao absoluto é uma intuição que resulta basicamente um ato de vontade, anterior ao saber e ao próprio pensamento. Fichte rejeita assim a dicotomia kantiana entre objeto e coisa em si e a inacessibilidade à essência, revalorizando o pensamento especulativo. Este recurso à intuição como modo privilegiado de acesso ao real terá grande influência nos pensamentos românticos e é uma das características centrais do idealismo transcendental (Marcondes, 2004: 239).
Como sabemos, no pensamento gnosiológico de Kant, é impossível o homem ter acesso ou conhecer a coisa em si, ou seja, a essência do objeto, mas homem conhece apenas aquilo que se apresenta a sua frente, o fenômeno. Ora, é esta inacessibilidade ou a incapacidade do homem de conhecer a essência do objeto defendida por Kant nas suas críticas da razão que Fichte dispensa, abrindo assim, o espaço ou a possibilidade para o pensamento metafísico especulativo.
Assim sendo, tanto para Fichte assim como para Schelling, a intuição intelectual capacita o homem a superar os seus limites do conhecimento teórico e alcançar assim o absoluto. Entretanto, o pensamento de Schelling é quase romântico pelo facto de dar maior valor a sensibilidade e a relação com a natureza, centrando assim suas reflexões na estética. É de facto por isso que para ele “a arte tinha uma missão de tornar uno o que está disperso; superando assim a oposição entre sujeito e objeto, espírito e natureza” (Cf. Marcondes, 2004: 240). Ademais, encontramos em Schelling a visão de que “a história humana é como um progresso na direção da consciência de si, por conseguinte, do absoluto, e considerava a arte como estágio essencial na revelação do absoluto aos seres humanos” (Hamlyn, 1990: 224).
Por fim, foi com Hegel que o idealismo alemão ganhou seu auge. Ora, o núcleo conceitual de todo o sistema hegeliano, desde o seu desenvolvimento até a sua plena realização, pode ser referido em três pontos fundamentais: (i) a realidade enquanto tal é espírito infinito; (ii) a estrutura e a própria vida do espírito e o procedimento com o qual se desenvolve o saber filosófico é a dialética e (iii) a peculiaridade desta dialética, diferentemente das precedentes, é o elemento especulativo.
Segundo Reale e Antiseri (2005: 99) “um ponto fundamental do pensamento hegeliano é o de entender a verdade não como substância fixa e imutável, mas como sujeito, como espírito, isto é, como atividade, processo, auto movimento”. Entretanto, os autores referem que, para Hegel, o espírito se autogera; o espírito é infinito porque se atua e realiza sempre como infinito que põe e supera, ao mesmo tempo, o finito. O espírito infinito hegeliano é como um círculo em que princípio e fim coincidem de modo dinâmico; como um movimento em espiral em que o particular é sempre posto e dinamicamente resolvido no universal. Esta é a novidade que Hegel ganha em relação a Fichte, no qual a cisão entre o Eu e o não Eu, entre o sujeito e o objeto, infinito e finito permanecia não superada.
Ademais, em relação a identidade originária discutida por Schelling, parece vazia para Hegel, artificiosa e injustificada, pois “o espírito infinito hegeliano é um unumatque idem que se plasma de novo em figuras sempre diversas: o absoluto é uma igualdade que, continuamente se diferencia para se reconstruir” (Reale e Antiseri, 2005: 99). Isto quer dizer que cada momento do real é momento necessário do absoluto. O real é, portanto, um processo que se auto-cria enquanto percorre seus momentos sucessivos.
Entretanto, o movimento próprio do espírito é o de refletir-se em si mesmo, de modo circular, em três momentos distintos: (i) o ser-em-si; (ii) o ser-outro ou ser-fora-de-si e (iii) o retorno a si ou ser-em-si e por-si. Ora, o movimento auto produtivo do absoluto tem um ritmo triádico que se repete estruturalmente em todos os momentos do real e que o próprio absoluto dá lugar a três momentos originários e paradigmáticos: (i) a ideia em si, que é o logos como racionalidade pura (objeto da lógica); (ii) a natureza, que é a ideia fora de si, isto é, alienada (objeto da filosofia da arte) e (iii) o espírito em geral, que é a ideia que, a partir da alienação, retorna a si e se torna em si e por si (objeto da filosofia do espírito).
Tudo é, no entanto, o desenvolvimento da ideia, que suporta e supera a sua negação; e a famosa frase que ilustra isso é: “tudo aquilo que é real é racional e tudo aquilo que é racional, é real” (Hegel citado por Reale e Antiseri, 2005: 104). Esta máxima indica justamente que a realidade é o próprio desenvolver-se da ideia e vice-versa. Assim sendo, em Hegel o único método em grau de garantir o conhecimento científico do absoluto e de elevar assim a filosofia à ciência, é o método dialético, em virtude do qual, a verdade pode finalmente receber a forma rigorosa do sistema da cientificidade. Os momentos do movimento dialético são, portanto, três: (i) Tese; (ii) Antítese e a (iii) Síntese.
No tocante a ideia da história e sua compreensão, é preciso mencionar que a razão é determinada em si e o que é a sua relação para com o mundo, coincide com a questão: qual é o objetivo final do mundo? Desta forma, duas coisas devem ser levadas em consideração em primeiro lugar o conteúdo deste objetivar final e sua determinação como tal; em segundo lugar, a sua compreensão. “Para início da conversa, deve-se observar que a história do mundo está no domínio do Espírito” (Hegel, 2004: 61). Desta feita, a palavra mundo inclui a natureza física e a natureza psíquica. A natureza física desempenha um papel na história do mundo, mas o espírito é o rumo do seu desenvolvimento são matéria da história, pois “não devemos contemplar a natureza como um sistema racional em si, em seu domínio particular, mas apenas em sua relação para com o espírito” (Hegel, 2004: 61).
2. Nietzsche e o niilismo: a transmutação dos saberes
Nietzsche define a moral como máquina construída pela elite com intuito de dominar os pobres, os indefesos, um navio construído pelos grandes arquitetos da humanidade que pretende carregar o homem para além deste mundo. Esta foi a missão da Igreja católica com seus dogmas e doutrinas alienadoras que dominaram a sociedade oriental, permitindo que esta acreditasse para além da vida aqui na terra, no transcendental, entidades sobrenaturais. Na sua genealogia, ele examina as raízes da moral tradicional e descobre que ela é a moral dos escravos, dos fracos, dos vencidos, dos ressentidos contra tudo o que é nobre, belo e aristocrático.
Ademais, o super-homem não deve se configurar com tais conveniências; tomar a consciência que existe outro mundo fora deste é condição sine qua non de aceitação da escravatura proposta pela elite. Nietzsche defende uma moral mutável, circunstancial em que a distinção do bem e do mal, liberdade e opressão, respeito e desrespeito, lealdade e deslealdade, honestidade e desonestidade, equidade do justo e injusto é relativa e circunstancial.
Nesta perspetiva, Nietzsche faz transmutação dos valores. Isto é, a transmutação é questionamento dos valores transmitidos pelos antigos como absolutos; uma revisão mais consistente; despir a visão sagrada dos valores. Transmutação é rompimento com o homem ideal pela tradição para que tenha o homem real que não segue, não sofre os efeitos de não aderir aos valores impostos. Ora, o niilismo concebido como sistema filosófico cético radical no que concerne as interpretações da realidade; atinge um alto grau de sua teorização com Nietzsche que, pelo método genealógico, desmorona valores morais e convicções; os valores tradicionais depreciam-se e os princípios e critérios absolutos dissolvem-se; com Nietzsche, toda moral e religião cristã são sacudidas.
No entanto, pela origem etimológica, a expressão niilismo deriva do latim “Nihil”, que significa “Nada”, ou então, Coisa Nenhuma. Niilismo significa aquilo que se baseia sobre o Nada, que valoriza o Nada. Valorizar o Nada significa não valorizar a vida, significa não valorizar o tudo, que é a vida. Assim, niilismo é valorizar o que está fora da vida.
E eis que o niilismo apresenta aspetos, gradações. Primeiro, o de um niilismo negativo, momento da consciência judaica e cristã. Aqui, a ideia de Deus exprime a vontade de nada, a depreciação da vida. O centro de gravidade da vida é colocado não na vida, mas no além, no nada. Depois, o de um niilismo reativo, momento da consciência europeia, o do homem que mata Deus e se coloca, com culpa, em seu lugar. Finalmente, o de um niilismo passivo, momento da consciência búdica. Aqui, trata-se de toda e qualquer supressão da vontade. Não se trata mais de uma vontade de nada, mas de um nada de vontade (LUCARINY, 1998: 22)
Deus não morreu agora, sempre está morto, o Deus foi criado do nada e a consciência agora tornou-se capaz de desmascarar este nada. Por isso, nada é tão doentio “como a piedade cristã” que aborto de falsidade deve ser o homem moderno, para não se envergonhar de se chamar ainda cristão. No fundo só existiu um cristão e esse morreu na cruz. O evangelho morreu na cruz. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada, tira a vida o seu centro de gravidade.
Para nascer o novo, é necessário que o velho morra. Primeiro, é necessário destruir os valores tradicionais. O niilismo é uma passagem obrigatória. Se é a transmutação de todos os valores, só pode ser superado através da criação de novos valores. A deficiência dos antigos valores está em seu carácter metafísico, de se terem sobreposto à realidade da vida. O fundamento dos novos valores só pode ser a vida, a natureza. A moral deverá ser naturalista. Condição para nova ordem de valores é a aceitação radical da vida e do mundo (Cf. ZILLES, 2009: 177).
O tema central de toda a obra de Nietzsche é a luta contra o cristianismo, atacando o Deus cristão, a Igreja e sobretudo os sacerdotes como inventor dos dogmas para dominar o povo. Jesus era judeu rebelde que, na maturidade pregoou a rebelião, foi delinquente político e morreu por sua própria culpa. O cristianismo é responsável de toda a degeneração e de toda a decadência do mundo moderno. É verdadeiro niilismo porque “quando não se coloca o centro de gravidade de vida na vida, mas sim no mais além, portanto no nada, tira-se a vida o seu centro de gravidade” (Nietzsche, 2008: 43).
Enfim, o cristianismo é o centro de espíritos doentes, é a maior desgraça da humanidade, é vergonhoso hoje ser cristão. “O niilismo que ascende em teoria e na prática. Derivação viciosa deste (pessimismo, suas espécies: prelúdio do niilismo, embora inútil) O cristianismo que sucumbe ante sua moral. “Deus é a verdade”; “Deus é o amor”; “Deus justo”. O maior acontecimento — “Deus morreu” — surdamente pressentido” (Nietzsche, 1987).
Deste modo, se Deus é invenção da debilidade humana, sua negação será a superação do próprio homem. É preciso que Deus morra para nascer o super-homem. É necessário matar Deus para que o homem possa realizar sua liberdade, portanto a morte de Deus é a aurora de humanidade nova. Portanto, agora este Deus está morto. Homens superiores, esse Deus era vosso maior perigo. Só desde que ele jaz na tumba voltaram a ressuscitar. Só agora chega o grande meio-dia, só agora o homem superior se converte em senhor.
Com a morte de Deus morreram todos os valores que giravam em torno do conceito Deus. Proclama Zaratustra:
Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de supra-terrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não. São menosprezadores da vida, moribundos que estão, por sua vez, envenenados, seres de quem a terra se encontra fatigada; vão-se por uma vez! Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfêmias. Agora, o mais espantoso é blasfemar da terra, e ter em maior conta as entranhas do impenetrável do que o sentido da terra (NIETZSCHE, 2002, Zaratustra, secção 3).
“Deus morreu” é o centro de toda a crítica religiosa de Nietzsche e que considera a vida o valor supremo; a religião é destruidora da vida, uma categoria da negação teórica e prática da vida; a religião é autodilapidação institucionalizada do homem, Nietzsche golpeia a instituição eclesial; considerando-a um “manicómio”, ou seja, tipo de estado mais mentiroso, “a cidade de ruína” (ZILLES, 2009: 178).
O cristianismo apoia-se no ressentimento dos humildes e débeis, sendo uma manifestação da decadência. Elevou a ignorância à categoria de virtude. O cristianismo defendeu tudo quanto é fraco, baixo, pálido, fez um ideal da oposição aos instintos de conservação da vida potente; até corrompeu a razão das naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que os valores superiores da intelectualidade não passam de pecados, extravio e tentações.
A morte de Deus não só é a ausência de apoio e o niilismo absoluto da existência humana, também é o desaparecimento de Deus como princípio de tudo, assim termina a opressão e ameaça que limitava o homem. A morte de Deus leva a uma transmutação de todos os valores tradicionais. Agora viver é inventar valores, e a história de Deus é o último acontecimento histórico que já acabou.
A “morte de Deus” corresponde a um acontecimento histórico, é um facto da civilização do século XIX e ele considera-a o último acontecimento da história do cristianismo. O clima cultural dos séculos XVII e XIX permite nos compreender a desaparição de horizontes humanos. O iluminismo lutou contra a intolerância e obscurantismo da Igreja: o progresso científico, herdeiro legítimo das luzes, deu ao homem confiança no seu poder, levando-o a julgar-se medida de todas as coisas; as revoluções sociais e políticas destruíram a ideia de que certos governos humanos eram direito divino, o que significa que eram representantes de Deus na terra e que o seu governo era um mandato de Deus (RODRIGUES & SAMEIRO, 1999: 301).
Outrossim, é o Velho Deus Judaico que morre nessa história. E o Filho refaz um Deus no lugar do Pai do Antigo Testamento que nos metia medo, agora está o Filho que exige apenas que Nele creiamos, e que o amemos, como Ele nos ama e nos tem amado. Pede-nos que tornemos reativos para evitar o ódio. Na medida em que a vida reativa se estabelece, um estranho resultado ocorre: somos nós culpados! Matamos Deus e nos colocamos em seu lugar! A vontade de nada não tolera sequer Deus. Impede-o de ressuscitar, senta-se sobre a tampa do túmulo e grita: sou Deus! Eis aí o homem-deus, não mais o Deus-Homem, o homem europeu, o homem ocidental moderno e contemporâneo. Eis aí o homem culpado por natureza, culpado em tudo. Eis que essa culpa se interiorizou de tal modo em nós que nos sentimos culpados por viver. Não é assim que nos fazem sentir desde criança (Cf. LUCARINY, 1998: 22).
Enfim, sobre as cinzas de Deus, construir-se-á a ideia do super-homem, do homem novo impregnado do ideal dionisíaco que ama vida, repugnante das realidades metafísicas e se entrega a contribuir para o progresso do mundo terreno e apregoa o retrocesso do mundo supra terreno. Nasceu o super-homem que é dono da sua própria existência e do seu próprio intelecto.
3. Existencialismo e Niilismo
É unanime a ideia de que o existencialismo foi inspirado nas reflexões filosóficas de (i) Arthur Schopenhauer, (ii) Soren Kierkegaaard e nos filósofos alemães (iii) Friedrich Nietzsche, (iv) Edmund Husserl e (v) Martin Heidegger e foi particularmente popularizado em meados do século XX com as obras do escritor e filósofo francês (vi) Jean-Paul Sartre e a escritora e filósofa (vii) Simone de Beauvoir.
Olhando para o existencialismo como estudo da condição humana, Nicola Abbaganano considera que, “deve-se entender por existencialista qualquer filosofia que seja concebida e se exerça como análise da existência, sendo “, existência” uma palavra que designa o modo de estar do homem no mundo” (ABBAGANANO, 2001: 179). Ora, após a humanidade ter experimentado vários distúrbios civis, guerras locais e duas guerras mundiais, algumas pessoas na Europa sentiram-se forçadas a concluir que a vida é inerentemente Niilista; Nada; miserável; irracional. No entanto, foi neste período que o existencialismo alcançou o seu apogeu após a II Guerra Mundial, nas décadas de 50 e 60, com Heidegger e Jean-Paul Sartre.
Entretanto, o existencialismo pode ser entendido como sendo uma corrente do pensamento filosófico que faz análise sobre o modo de Ser do homem no mundo. Isto é, análise sobre a existência humana. Como toda a filosofia, o existencialismo tem o seu enfoque na crítica das circunstâncias da sua época (época que coloca a razão humana como sinal de perfeição, a partir do qual tudo se pode criar. A razão aparece como a solução dos problemas do homem). Mas, como sabemos, a razão e/ou a racionalidade humana foi muito mais longe quando inventou a metralhadora e as bombas atómicas, colocando em ameaça todos os seres vivos na terra.
Ora, João Ribeiro Júnior afirma que,
Surgindo como uma reação contra o racionalismo, idealismo e kantianismo, e ainda contra o materialismo e positivismo, que não deram uma resposta satisfatória aos problemas fundamentais da filosofia; […] o existencialismo brotou na Alemanha, com Husserl e na França com Bérgson que rompeu com os liames do materialismo evolucionismo do século XX (JÚNIOR, 2003:34).
Por exemplo, correntes como idealismo, o positivismo e o marxismo são filosofias otimistas, que presumem ter captado o princípio da realidade e o sentido progressivo absoluto da história. O existencialismo, porém, considera o homem como ser finito, “lançado no mundo”. Ora, notemos que, o existencialismo é livre da filosofia idealista que vinha dominando o mundo. Assim, a análise da existência ou do existencialismo não se limitará simplesmente ao esclarecimento ou interpretação das formas como o homem se relaciona com o mundo, nas suas possibilidades cognitivas, emotivas e práticas, mas incluirá simultaneamente a elucidação (esclarecimento) dos modos como o mundo se manifesta ao homem e determina ou condiciona as suas possibilidades. Mas ainda percebemos que a relação homem-mundo apresenta-se como o tema central de toda a filosofia existencialista (Cf. ABBAGNANO, 2001: 45).
Portanto, a corrente existencialista tomou como objeto principal de consideração do homem na individualidade da sua existência. É a existência, com efeito, o modo de ser do homem: é um poder ser, um sair fora (ex sistere) para a decisão e a auto – plasmação e da autointerpretação. As coisas e os animais são aquilo que são, mas o homem será aquilo que decidir ser. Portanto, a possibilidade é o modo de ser construtivo da existência.
Por exemplo, na obra de Sartre “O Ser e o Nada”, Sartre caracteriza o homem como o ser que se define por consciência em que existir e refletir são, o mesmo, que se define portanto por sua autoconsciência. O ideal dessa consciência é atingir a plena identidade consigo mesma. É nesse sentido que, suas palavras, “o homem é ser cuja existência precede a essência”. O homem não tem portanto uma essência determinada, mas ele se faz em sua existência interpretando-se a si mesmo (Cf. MARCONDES, 2004: 259).
4. O Esvaziamento da Razão e de Discursos Metafísicos: Hermenêutica Desconstrutivismo
Não é novidade para os estudiosos de filosofia que na última metade do séc. XIX e o século XX, períodos que sucederam o século das Luzes, surgia no mundo ocidental europeu um grande debate crítico sobre a crise dos fundamentos da modernidade e da primazia da razão humana pois parecia que além de trazer luz à história dos homens, a razão arrastava consigo as trevas, guerras-violentas, mortes, e desesperos à humanidade. Uma vez mais, a crença na racionalidade humana enquanto fator primordial para a resolução dos problemas do mundo entrou em crise, tornando-se vazia e Nada.
Foi neste momento que surgiu também a corrente hermenêutica, apesar de o termo hermenêutica ter existido séculos antes (c. do séc. XVI e XVII para alterar a expressão latina interpretativo). Derivando do deus Hermes na história da mitologia grega, que era intérprete das mensagens ocultas, ambíguos e com falta de clareza, a hermenêutica é entendida como sendo a arte de explicar, de tornar claro o obscuro, de traduzir e de interpretar textos, isto é, ler o que está nas entrelinhas de um texto ou de uma realidade qualquer. Ora, foi com Hans Gadamer que temos o desenvolvimento da hermenêutica enquanto corrente do pensamento filosófico. Vattimo, defende que Gadamer teria buscado o termo no pensamento de Heidegger, na tentativa de dar uma explicação e/ou interpretar o niilismo/vazio que assolava a cultura ocidental no período que seguiu pós-guerra duas guerras.
Vattimo defende ainda que o golpe desferido à primazia da razão pelos chamados mestres da suspeita também compõe este cenário. Ou seja, os mestres da suspeita (Nietzche, Karl Marx e Freud) contribuíram sobremaneira para a emergência da hermenêutica, por terem colocado em causa a primazia da razão, de um lado, e dos dogmas religiosos, por outro lado. A filosofia hermenêutica intenta também, responder a tal crise da razão e da cultura ocidental por meio da afirmação da possibilidade da verdade advinda da experiência de outras instâncias, como da obra de (i) arte e da (ii) historicidade (Vattimo, citado por Sales, 2015: 07).
Recordemos, a expressão “mestres da suspeita” foi postulada por Paul Ricoeur para indicar os filósofos críticos à religião. Destaca-se (i) Friedrich Nietzsche, (ii) Karl Marx e (iii) Sigmund Freud. Esses suspeitaram a consciência humana, algo incorreto nela se desenrola concernente a religião. Como dissemos antes, Nietzsche entende Deus como sendo uma ilusão, invenção humana, delírio dos fracos, que inventam um mundo além desse com intuito de condenar, enfraquecer deste mundo. Assim, ele declara que sede amantes e fiéis a terra. Por outro lado, Karl Marx entende a religião como uma consciência errónea do mundo. Ela é “ópio do povo, porque engana o homem induzindo-o a pensar que deve aceitar com mansidão o seu presente estado de vida”. A religião hipnotiza os homens com falsa superação da miséria e assim destrói sua forma de revolta. Por fim, Freud define-a como uma farsa que trata aspetos de puerilidade. A religião acontece devido ao reconhecimento do ser humano que não pode ficar desamparado e que seria tipo de neurose obsessiva das crianças que na vida adulta se manifesta como religião. A ideia de Deus surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai. Ser supremo surge da fraqueza da criança faz sentir a necessidade de proteção, isso lhe induz a criar um outro Pai poderoso. O cristianismo é a religião que melhor expressa esse drama de pai e filho.
Contudo, ao lodo do existencialismo, da hermenêutica que se mostraram contra os grandes discursos metafísicos ocidentais, temos o desconstrutivismo (com Derrida), que se apresentou como um exercício interrogativo, de decomposição, crítico e de reorganização, dos alicerces estruturantes do pensamento abstrato ocidental desde Platão na antiguidade, até Freud passando por Hegel e demais teóricos da modernidade. Assim, fica evidente que a força característica da desconstrução é a de questionar com radicalidade as oposições binárias ou dualistas com as quais estamos habituados a refletir e pensar sobre, por exemplo “a realidade ou aparência, sobre a causa ou efeito, sobre a natureza ou cultura, sobre o significado ou significante, sobre homem e mulher, etc.” (Cf. Rajagopalan, 2000: 121).
Conclusão
Realizado o presente artigo científico chegamos a conclusão de que o niilismo foi de facto protagonizado por Nietzsche. Porque como vimos, ele reage ao facto de o homem estar submetido a valores desenhado pelos mestres da filosofia desde a antiguidade até ao mundo contemporâneo, aprisionando assim a consciência dos homens no vazio existencial.
Assim sendo, podemos assumir que o fundamento da filosofia de Nietzsche serviu de ponte para emergência de várias leituras e interpretações sobre a condução humana; os existencialistas, os hermeneutas e a desconstrução desencadeada por Derrida reagiram de forma crítica aos discursos carregados de certezas sobre a vida dos homens na terra. Por exemplo, os existencialistas acreditavam que o homem é um ser atirado para existência e depois deve definir-se a si mesmo criando a sua própria essência (Sartre) e deve ser um Ser responsável de si mesmo, pelo outro (Ser-com-outro) e pelo mundo (Ser-no-mundo) em volta dele (Heidegger); por outro lado, a hermenêutica tentou dar resposta a cultura ocidental por meio da afirmação da possibilidade da verdade advinda da experiência de outras instâncias, como da obra de (i) arte e da (ii) historicidade. Por fim, desconstrutivismo se apresentou como um exercício interrogativo, de decomposição, crítico e de reorganização, dos alicerces estruturantes do pensamento abstrato ocidental desde Platão na antiguidade, até Freud passando por Hegel e demais teóricos da modernidade, considerados niilistas.
Na filosofia da pós-modernidade, onde é crescente o debate sobre o Vazio/niilismo dos valores (pensa no Lipovetsky e Bauman, por exemplo) a influência de Nietzsche reside no facto de ter defendido a racionalidade humana e toda atividade intelectiva ou psíquica deve estar ao serviço da vida humana positivamente. Por ter superado o niilismo que valorizava o Nada e não valorizar a vida, e também por fazer a transmutação dos valores transmitidos pelos antigos dito absolutos, propondo o relativismo axiológico, Nietzsche e sua crítica filosófica combateu a ideia a história universal (Hegel) como protótipo e espelho da humanidade, ele admite a significância da história ao homem, ajuda-o a conhecer e compreender o passado para viver bem o presente e perspetivar o futuro. Mas, a história se encontra cheia de acontecimentos insignificantes que não podem servir de espelho para reedificação do mundo atual.
Bibliografia
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___________________. Dicionário de Filosofia. 5ª ed., São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2007.
Hamlyn, David. Uma História da Filosofia Ocidental. Trad., Ruy Jungmann, Rio de Janeiro,
Zahar Editor, 1990.
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- Ernesto António Mubango Hoguane, é Mestrado em Ética e Filosofia Política na Universidade do Porto (Portugal), Licenciado em Ensino de Filosofia com Habilitações em Ética pela Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique). Professor de Filosofia e Ética, Pesquisador de Filosofia Africana afeto ao Grupo de Estudos de Filosofia Africana e Relações de Género coordenada pelo Professor Catedrático José P. Castiano no Departamento dos Estudos Filosóficos e Culturais da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da Universidade Pedagógica de Maputo. Pesquisador no Instituto Filosófico da Universidade do Porto em Philosophy Public Space.Autor da obra Em busca da Felicidade Perdida: Da Felicidade Individual à Felicidade Colectiva, pela editora moçambicana Inter Escolas Editores publicada em 2021. Vários artigos publicados em revistas científicas e jornais de opinião.E-mail: netohoguane@hotmail.com ↑
