O Mal, Michel Lacroix: leitura comentada

“Foi bom ver-te hoje. Muito feliz por isso. E amanhã a sentença. Ponho tudo nas mãos de Deus.”

Edwald von Kleist-Schmenzin

No seu livro O Mal, Lacroix encaminha-se pelas veredas nebulosas da maldade e das suas manifestações, bem como pelas tentativas que o Homem foi forjando para do mal se libertar, lidando com o seu tremendo poder. O objetivo deste breve texto é apresentar uma leitura comentada da obra e daquilo que ela abarca, destacando os seus aspetos mais relevantes.

Logo no prefácio, Lacroix começa por salientar uma questão decisiva: qual será a definição correta para aquilo que chamamos Mal? Haverá diferentes tipos de mal, uma vez que este parece abarcar fenómenos muito distintos? Caberá o mal numa definição precisa ou será uma realidade escorregadia para a razão humana?

A primeira distinção posta em cima da mesa divide o mal em dois tipos: o mal moral (causado) e o mal natural (suportado). O primeiro é resultado de uma ação livre; o segundo, pelo contrário, não depende da ação de ninguém — um terramoto não ocorre por maus humores da terra — e, como tal, apenas pode ser suportado, não evitado.

O autor não fica de todo satisfeito com esta distinção simplista, salientando que, por vezes, estes dois males surgem misturados (toda a narrativa ecológica, ou as políticas de saúde sanitárias, vivem desta mistura), sendo que as linhas que os separam não são assim tão claras. Além disso, sublinha que esta distinção pode conter um vazio, uma vez que apenas contempla o maligno no plano da ação ou da natureza, não acautelando outras possibilidades.

Ainda que o mal nos surja com contornos indefinidos, a necessidade de o combater é bastante antiga. Michel Lacroix apresenta as armas que o Homem tem usado para se bater, como São Jorge contra o dragão.

Uma das primeiras premissas que o autor coloca — e que pode suscitar apreensão a alguns leitores — é a de que o mal deve ser situado na História, sendo que, ao longo do livro, são assinaladas datas marcantes e eventos traumáticos com alguma regularidade.

Antes de mais, Lacroix fala-nos de onde chegámos. Para ele, a contemporaneidade é um momento de sobre-exposição ao mal, o que promove um dos fenómenos que Hannah Arendt tornou célebre: a banalidade do mal. Os meios de comunicação e a tecnologia recreativa usam e abusam do poder de influenciar os espectadores com um feroz e interminável repertório de violência. O globalismo produziu uma fábrica de pânico e terror em tempo real inédita na História. A fria contabilização do número de mortos, a conversão destes em números, ainda que promova o pânico, promove também a banalização da morte do outro, que aparece sem rosto, sob a forma de número mediático.

Vivemos, segundo Lacroix, mergulhados naquilo a que eu chamaria um cocktail fatal: a par desta exposição incansável ao mal, assiste-se a uma falência da crença em todos os sistemas explicativos capazes de o domesticar. O homem relativista vive desamparado e à mercê do terror. A ideia profética de que o progresso científico e tecnológico colocaria um ponto final no mal encontra-se fortemente descredibilizada, encaminhando-nos, em muitos aspetos, mais para uma distopia.

Segundo o autor, é importante relembrar as velhas interpretações do mal que existiram antes de termos chegado aqui e, ainda que a sua apresentação não seja suficientemente exaustiva, oferece pontos relevantes. Lacroix evoca a tradição bíblica, que admite a existência do mal e defende que este pode ser justificado pelo bom uso que Deus faz dele. São frequentes as ocasiões em que Ele castiga as infidelidades do Seu povo. Em função disso, o mal deixa de aparecer como absurdo e passa a ser entendido como instrumento do tribunal divino. O temor a Deus é justamente a vivência humana em função deste enquadramento. Pode afirmar-se, com uma pitada de neoplatonismo, que os Homens estão cegos para o que é o Justo em si e necessitam das mãos divinas capazes de transformar o mal em bem.

Como é sabido, a tradição escolástica desenvolveu teses sobre Deus baseadas sobretudo nos Seus atributos, tendo grandes dificuldades em conciliá-las com a existência do mal. Surgem, por isso, as famosas teodiceias, que visam compatibilizar três proposições:

  • Deus é omnipotente;

  • Deus é bom;

  • o mal existe.

Formular o problema nestes termos já é, em si, motivo para discussão, pois referimo-nos a realidades que nos são desconhecidas. Apenas através de uma imaginação aguçada podemos ter uma ideia muito vaga do que seja a omnipotência ou a bondade divina. Como escreveu Ricardo Reis num dia de outubro:

“Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza que eles
Sabem que há o Universo.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses;
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores (…)”

Uma das tentativas de resolução deste quebra-cabeças consiste em fazer cair, qual peça de xadrez, uma destas proposições, nomeadamente equacionando a inexistência do mal. Na presença de um Deus único, bom e omnipotente, parece impossível encontrar para ele uma raiz plausível. Se hoje muitos relativistas negam a existência do mal de forma concreta, relegando-o para o campo da subjetividade — ainda que nunca de modo claro e explícito —, Santo Agostinho e outros autores defenderam que o mal não é algo que exista, mas antes uma falta, uma ausência.

Outros argumentos foram lançados sobre o problema, nomeadamente o de que o mal resulta do livre-arbítrio. Muitos repararam que os Homens só poderiam amar verdadeiramente o seu Deus se tivessem também a possibilidade de não o fazer. Além disso, haveria em Deus um poder transformador: a Queda de Adão seria o princípio de uma História que culminaria em Cristo.

Leibniz levará esta ideia às suas últimas consequências, defendendo que Deus criou o melhor dos mundos possíveis, sendo este aquele em que os ingredientes — bem e mal — estão distribuídos da forma mais justa. É, de facto, possível imaginar mundos substancialmente piores do que este, e talvez por isso a ficção de terror ainda tenha um longo caminho a desbravar. Na tese leibniziana, o mal coincide com as sombras de uma bela pintura que, apenas vista à distância, revela a harmonia das suas cores. Deus é, no fundo, um pianista capaz de extrair de um aglomerado caótico e dissonante de notas uma majestosa harmonia.

Várias críticas foram esgrimidas contra esta posição, procurando demonstrar a incapacidade da criatura para desempenhar o papel de advogada do seu Criador. O Homem não pode falar a partir desse ponto de vista absoluto, pois não tem acesso a ele; como tal, não pode subscrever um juízo fidedigno sobre a totalidade do real. As teodiceias acabam por cair, segundo Lacroix, numa astuciosa vaidade.

Vendo-se paulatinamente privado desta fonte de estabilidade, o Homem não desistiu e procurou socorro batendo a outra porta — a da História. Esta surge, daí em diante, sob a forma de providência laica. Autores como Bernard Mandeville defenderam que é na sociedade que reside o poder “mágico” de converter vícios privados em benefícios públicos. Muitos pensadores modernos viram o mal como combustível da locomotiva do progresso. Lacroix sublinha que os iluministas, ao escarnecerem da noção de Providência, acabaram por produzir algo semelhante, ainda que pintado com as cores do ateísmo.

A canonização desta abordagem encontra-se, segundo o autor, na obra de Hegel, que apresenta a História como manifestação do Weltgeist (espírito do mundo), num percurso dialético. Os povos erguem-se e ruem como castelos de areia, sendo apenas embaixadores provisórios desse espírito. Para clarificar esta visão, imagine-se uma viagem espacial com a duração de vários séculos: os primeiros astronautas não chegariam ao destino, mas incorporariam provisoriamente a viagem. Assim, para Hegel, o cidadão romano ou persa contribuiu para que o Homem chegue a Marte ou, de forma mais radical, ao fim da História. Contudo, há aqui uma agravante: embora sejam os Homens a fazer a História, não sabem que História estão a fazer. Daí o peso simbólico do herói ou do vidente, figuras que parecem suspender essa cegueira perante o destino.

Esta confiança na capacidade da razão para metabolizar o mal é hoje alvo de grandes reservas. Lacroix reitera que a chave de leitura da História mudou: “Da história-absolvição passa-se à história-acusação” (p. 47). Este movimento é o reverso do otimismo do século XIX, saturado de profecias de triunfo. Marx surge como figura visionária, empenhada em se distinguir dos socialistas utópicos, oferecendo uma cartilha que acabaria por desencadear inúmeras distopias.

Marx identificou a luta de classes como motor da História; os liberais, por seu turno, defenderam a mão invisível, segundo a qual a soma dos egoísmos individuais se traduz num bem comum. Lacroix aponta semelhanças entre marxismo e liberalismo, entendendo-os como ramos distintos da árvore do progresso económico.

Outros autores referidos como “máquinas” de metabolização do mal são Nietzsche e Darwin. Em ambos, não há lugar para a piedade: a espécie deve progredir através da sobrevivência dos mais fortes e da eliminação dos mais fracos. Poderiam ter sido mencionados outros nomes, como Jeremy Bentham, para quem a meta da Humanidade seria a maximização da felicidade do maior número possível de pessoas — ideia profundamente dissonante da de Kant, segundo a qual o Homem não tem direito à felicidade, mas o dever de se tornar digno dela.

Surge então a postura revolucionária, que Lacroix compara à do protagonista de Crime e Castigo. Trata-se não apenas de colocar-se em bicos de pés para entrever o destino, mas de acreditar ser possível manobrar o mundo em nome de um bem maior. Deste impulso emergem figuras como Estaline ou Pol Pot, que varreram todos os corpos que se atravessaram no seu caminho: “Assim sendo, o revolucionário coloca-se numa postura de omnipotência e omnisciência (…)” (p. 53).

Aqui já não estamos perante o visionário, mas perante aquele que quer ser como um deus: o projeto fáustico. Em vez de História e Deus atuarem de forma independente, emerge a ideia de que o Homem é capaz de alcançar a Justiça sozinho. Contudo, o mal concreto — vivido e cometido — surge como pedra de tropeço destas construções ideológicas.

O Mal reaparece, então, não como não-ser, mas como algo vivo, feroz e concreto. O maniqueísmo reencarna no imaginário humano, no cinema, na narrativa histórica: oprimido/opressor, carrasco/vítima. O mal surge sem véu e sem rosto, instalado, segundo muitos contemporâneos, em todas as estruturas do mundo.

Lacroix assinala a crescente popularidade do Diabo, convertido em emblema de um Ocidente espiritualmente exausto. O temor antes reservado a Deus é canalizado para esta figura reabilitada. O Diabo surge como força autónoma, capaz de enfrentar o Bem de igual para igual. Daqui decorre uma leitura catastrofista da Humanidade: inverno nuclear, colapso ecológico, invasões alienígenas. Quando nada de elevado subsiste, a sobrevivência e a saúde tornam-se os únicos ideais.

O Homem deixou, de forma generalizada, de contar com o auxílio direto de Deus — visão que, enquanto Deus-funcionário público, caiu felizmente em descrédito. Contudo, no seu lugar instalou-se um vazio. Cabe agora ao Homem lutar contra o mal, o que explica o triunfo das ideologias enquanto secularização da religião. Ainda assim, depressa se revela a fragilidade dessa força isolada: a própria ideia de luta coletiva contra o mal contém já anticorpos.

Apesar de todos os horrores — ou talvez por causa deles —, Lacroix apresenta o século XX como um tempo de mobilização generalizada contra o mal. Substitui-se a bandeira da Divindade pela da Humanidade ou do Novo Homem. Porém, trata-se também de um século de ceticismo, em que intenção e ação se separam. Volta a colocar-se a questão do que é uma boa ação e da sua possibilidade. Hannah Arendt sublinhou que a bondade não sobrevive no espaço público.

A crença no progresso esbate-se gradualmente. A era pós-industrial revela o seu lado sombrio; instala-se a perceção de que há um preço a ser pago, ainda sem contornos nítidos. Lacroix descreve este niilismo com palavras que evocam Baudelaire: “(…) a prosperidade, o conforto e a paz entre as nações, esses bens obtidos a custo, provocam nos povos que beneficiam deles um estado de tédio e uma forma latente de depressão” (p. 76).

Os projetos megalómanos empreendidos contra o Mal, armados com a técnica, revelaram-se incapazes de resolver o problema e criaram perigos inéditos — o nuclear é filho das Luzes. Os antigos já sabiam que o Homem não pode alterar o rumo da História a seu bel-prazer; o que distingue os contemporâneos é a perda da noção de providência. Lacroix fala mesmo de antiprovidencialismo: uma mão oposta à de Adam Smith, capaz de transformar boas intenções em ações más.

Mas regressando à questão das intenções: será que o Homem tem realmente boas intenções? Ou será o mal constitutivo da sua natureza? A tradição judaico-cristã responde afirmativamente, através da noção de pecado original.

Lacroix prefere recorrer à psicanálise, sublinhando a dicotomia amor-ódio nas pulsões passionais, que por vezes desembocam em crimes. Existe em todos nós um lado sombrio, sofisticado e multifacetado; Hitler tentou fundar um império sobre o ressentimento.

Imaginemos, como experiência mental, que todos os pensamentos se tornam públicos. Quantas amizades ou casamentos sobreviveriam?

Foi a I Guerra Mundial que levou Freud a integrar a pulsão de morte no seu sistema, propondo a dança entre Eros e Tanatos. O “não matarás” surge como freio ancestral do ímpeto destrutivo humano.

A agressividade entra também na esfera pública, desfazendo o idealismo democrático ingénuo. A sociedade constitui-se num campo onde convivem sociabilidade e violência.

Lacroix analisa ainda a figura do Homem-Vítima, escudado na biologia, na sociedade ou na metafísica. Kant antecipou que um Homem sem sentido religioso teria de ser juiz de si próprio; tal sucedeu sem o correspondente fortalecimento do dever, resultando numa justiça moldada pela conveniência.

Como alternativa ao dualismo freudiano, Lacroix recupera Sócrates, para quem ninguém quer o mal deliberadamente: a ignorância seria a sua única origem.

A redução sociológica e biológica do mal dissolve culpa e arrependimento, pilares da convivência humana, conduzindo ao niilismo.

No último capítulo, surge a caritas: o amor oferecido ao sofredor. Num mundo urbanizado e mercantilizado, este amor enfraqueceu. Restam o silêncio, as lágrimas, o abraço. Escutar é uma arte rara. Palavras simples como “obrigado” ou “peço desculpa” conferem dignidade ao outro.

Nos momentos de falência total, como no velório, os Homens juntam-se para partilhar a impotência. Lacroix distingue a companhia vertical (Deus) da horizontal (o outro). Jesus, acrescentaria, inaugurou uma compaixão que une ambas no amor ao Altíssimo.

Bibliografia

REIS, Ricardo. Obra Completa de Ricardo Reis. Tinta da China, 2016

LACROIX, Michel. O Mal. Instituto Piaget