Porque não se Deve Estudar Humanidades: Carta do Pai de Ted Turner 

Carta publicada pelo magnata da comunicação social Ted Turner em 2008 na sua autobiografia Call me Ted. A carta data originalmente de 1957, quando Turner estava no primeiro ano da Brown University, e foi enviada pelo seu pai quando este descobriu que o filho pretendia seguir estudos clássicos.

Meu querido filho,

Estou chocado, até horrorizado, por saber que escolheste Estudos Clássicos como área principal. De facto, quase vomitei no caminho para casa hoje. Suponho que sou antiquado o suficiente para acreditar que o objectivo de uma educação é permitir a alguém desenvolver uma comunidade de interesses com os seus semelhantes, aprender a conhecê-los e aprender a conviver com eles. Para isso, claro, tem de aprender o que os motiva e como levá-los a sentirem-se satisfeitos com os seus objectivos e desejos.

Sou um homem prático e, pela minha vida, não consigo compreender por que raio haverias de querer falar grego. Com quem vais comunicar em grego? Tenho lido, nos últimos anos, as deliberações de Platão e Aristóteles, e achei interessante perceber que aqueles velhos sacanas tinham mentes que funcionavam de forma muito semelhante às nossas de hoje em dia. Fiquei espantado com o tempo que tinham para deliberar e pensar, e interessado no tipo de civilização que permitiria uma deliberação tão inútil. Depois comecei a pensar que afinal não era assim tão espantoso — eles pensavam como nós porque as minhas vacas Hereford de hoje são muito semelhantes às de há dez ou vinte gerações. O que me espanta é que adoptes Platão e Aristóteles como vocação durante vários meses, quando poderiam muito bem ser uma leitura agradável e prazerosa, como relaxamento, numa fase posterior da tua vida. Pela minha vida, não consigo perceber porque haverias de te interessar, logo à partida, por te informares sobre a influência dos Clássicos na literatura inglesa. Não é necessário saber fabricar uma arma para saber usá-la. Parece-me que bastaria estudar literatura inglesa sem entrar na influência que esta ou aquela mitologia antiga possa ter tido sobre ela. Quanto à literatura grega, à história das igrejas romana e grega e à arte dessas épocas, parece-me que estarias muito melhor servido se aprendesses algo sobre literatura contemporânea, escritos e assuntos que possam ter algum significado para ti e para as pessoas com quem te irás relacionar.

Estas matérias poderão dar-te uma comunidade de interesses com uns poucos sonhadores impraticáveis e com um grupo selecto de professores universitários. Deus nos livre!

Parece-me que aquilo que deverias querer fazer é estabelecer uma comunidade de interesses com o maior número possível de pessoas. Com pessoas que se mexem, que fazem coisas e que têm uma visão interessante — não decadente — da vida.

Suponho que toda a gente tem de ser snobe de algum modo, e suponho que sentirás que te distingues da manada ao tornares-te um snobe dos Clássicos. Consigo imaginar-te a entrar num bar, a mandar abaixo uns copos, a virar-te para o tipo sentado no banco ao lado — um magnata contemporâneo dos outdoors de Podunk, Iowa — e a dizer: “Então, o que acha do velho Leónidas?” O teu amigo, o magnata dos outdoors, vira-se para ti e diz: “Leónidas quem?” Tu respondes: “Ora, Leónidas, o proeminente grego do século XII.” Ele, por sua vez, dir-te-á: “E quem raio era esse?” Tu dirás: “Oh, não sabe quem foi Leónidas?” — e descartá-lo-ás, recusando-te a falar de qualquer outra coisa com ele durante o resto da noite. Ele achará que és um snobe estúpido e um falhanço; tu acharás que ele é um labrego de Podunk, Iowa. Suponho que isso fará ambos felizes e, como resultado, acabarás por comprar a empresa de outdoors dele.

Não há dúvida de que este tipo de informação inútil te distinguirá, te separará dos fazedores do mundo. Se eu te deixar dinheiro suficiente, poderás retirar-te para uma torre de marfim e contemplar, pelo resto dos teus dias, a influência que os hieróglifos do homem pré-histórico tiveram sobre os escritos de William Faulkner. A propósito, ele foi meu contemporâneo no Mississippi. Falamos a mesma língua — putas, rameiras, palavrões e actos fortes.

Não é realmente importante o que eu penso. O que é importante é o que tu desejas fazer com a tua vida. Apenas gostava de poder sentir que a influência desses professores excêntricos e das torres de marfim te está a formar no tipo de homem de que ambos possamos orgulhar-nos. Tenho a certeza de que ficaremos ambos muito satisfeitos e encantados quando eu te apresentar a algum amigo meu e disser: “Este é o meu filho. Ele fala grego.”

Jantei, durante as férias de Natal, com um especialista em eficiência, conselheiro económico da nação da Índia, membro do Conselho de Regentes da Universidade de Harvard, que possui cerca de 80 mil acres de valiosa floresta aqui na região, entre outros activos. O filho e a família estavam a visitá-lo. Ele apresentou-me ao filho e depois disse, em tom de desculpa: “Ele é matemático teórico. Eu nem sequer percebo do que ele está a falar. Vive num mundo diferente.” Passado algum tempo, comecei a conversar com o filho, e a única coisa de que ele falava era do seu trabalho. Eu também não percebia do que ele estava a falar, por isso fui-me embora cedo.

Se vais ficar em Brown e tornar-te professor de Clássicas, os cursos que escolheste servir-te-ão para uma associação vitalícia com Gale Noyes. Talvez ele te ensine a fazer geleia. Na minha opinião, isso não fará grande coisa para te ajudar a aprender a lidar com as pessoas neste mundo. Acho que te estás a tornar rapidamente um asno, e quanto mais depressa saíres desse ambiente imundo, melhor para mim.

Oh, eu sei que toda a gente diz que uma educação universitária é indispensável. Pois bem, consolo-me dizendo que toda a gente dizia que o mundo era quadrado, excepto Colombo. Tu vai lá e segue o mundo; eu seguirei sozinho.

Espero estar errado. Estás nas mãos dos filisteus e, raio, fui eu que te mandei para lá. Lamento.

Devotadamente,
Pai