
“Enquanto nas operações ofensivas o Concelho de Lisboa estava representado essencialmente através de milícias, já os cercos de 1373 e de 1384 envolveram todos quantos nesses momentos se encontravam na cidade, apanhados por uma situação da qual dificilmente conseguiriam sair; o cidadão comum, os nobres, o clero regular e secular, os grupos dirigentes da cidade, homens, mulheres, velhos e novos, uns guerreiros por vocação e outros por obrigação. Quando Henrique II de Castela se dirigia para Lisboa com o objetivo de a tomar, as milícias concelhias, que se encontravam próximas da Azambuja – em trânsito para se juntarem em Santarém à hoste régia -receberam ordens para regressar de modo a procederem à defesa da principal cidade do Reino. Organizadas, bem armadas e psicologicamente preparadas para o combate, constituíram, supomos, a linha da frente da resistência ao invasor. Todavia, a Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopes, não as refere – assim formadas – como tendo participado na resistência contra o inimigo Castelhano, isto apesar de os seus membros – segundo a mesma fonte – se encontrarem na cidade. O mesmo sucede relativamente ao cerco de 1384, sobre o qual as crónicas são ainda menos explícitas no tocante à participação das milícias concelhias na defesa de Lisboa. Contudo, é muito natural que, à semelhança do sucedido onze anos antes, tal tivesse ocorrido. Veja-se, por exemplo, o caso da pavesada com que os Castelhanos se defrontaram à chegada, composta por “homens darmas e beesteiros, e isso mesmo homeens de pee”. A constituir essa formação defensiva estariam, muito provavelmente e entre outros, aquantiados e besteiros do conto. Porém, o Cronista nada adianta a esse respeito. Quanto à presença dos comandantes das milícias (coudéis e anadéis), as Crónicas são, uma vez mais, omissas. Todos estes laconismos levam-nos a pensar que, no decurso dos cercos, as milícias do concelho não estariam constituídas como tal, devendo tanto os seus efetivos como as suas chefias ter sido dispersos por grupos, cujo comando estaria entregue a cidadãos e membros da nobreza que tinham a seu cargo atribuições específicas, tais como a vigilância das portas, das muralhas e das torres da cerca. Daí as milícias não serem mencionadas por Fernão Lopes. Porém, não foram apenas aos aquantiados e besteiros do conto de Lisboa que coube a missão de defender a Cidade. Pelo contrário, as fontes revelam o envolvimento de toda a população, de tal modo que, durante o cerco de 1373, chegou mesmo a ser sugerido que os Frades e Clérigos deveriam armar-se para defrontarem as tropas castelhanas, utilizando para isso as armas que se encontravam guardadas no arsenal régio, o que, tudo o indica, acabou por acontecer, repetindo-se esta situação durante o Cerco de 1384. A corrida aos arsenais parece ter sido usual em situações de perigo iminente, tal como em 1382, durante a Terceira Guerra Fernandina, quando uma Frota castelhana, proveniente da Biscaia, estacionou no Tejo, lançando o pânico entre os lisboetas. Registe-se que este armamento não chegou nunca a ser pago ou devolvido. Para a defesa da cidade, D. João recorreu também a um interessante expediente, que consistia na libertação de todos os criminosos cujos delitos tivessem sido cometidos até 1/Dez/1383 – data do assassínio do Conde de Ourém, João Fernandes Andeiro -, com a condição de ingressarem nas fileiras dos defensores da cidade, pelo que seriam remunerados. A defesa de Lisboa não passava apenas pela tomada de armas. Era necessário impedir, de outras formas, o avanço das hostes inimigas, o que, em 1373, foi feito através da construção de barricadas em algumas das ruas que partiam do interior da cerca moura e desembocavam no rossio de S. Domingos. Em 1384 também foram erguidas barricadas, desta feita na faixa junto ao rio, uma em cada extremo da cidade, para evitar que o inimigo ocupasse a praia e cortasse o acesso dos sitiados ao rio, de onde poderiam vir reforços e abastecimentos. Para tal devem ter sido utilizadas madeiras retiradas dos armazéns do rei e de particulares e cujo pagamento não chegou nunca a ser efetuado. É possível que nessas barricadas tenham também sido utilizadas portas de casas e outros objetos de madeira, tal como sucedeu durante o cerco de Ciudad Rodrigo, em inícios de 1370. Mas não eram apenas os homens a colaborar nas tarefas de defesa e no reforço das estruturas fixas. Quando a hoste de Juan I cercava a cidade de Lisboa, às mulheres da cidade cabia o papel de acartar cestos cheios de pedras até aos adarves para que os homens as lançassem contra os inimigos que se aproximassem dos muros Também as moças davam o seu contributo, neste caso apanhando pedra para a construção da barbacã localizada do lado do arraial castelhano, entre a Porta de S. Catarina e a Torre de Álvaro Pais, numa extensão de 300 a 400m. A defesa não ocupava de forma igual e constante todos os lisboetas. Os mesteirais, por exemplo – aqueles que não faziam parte dos grupos permanentes de guarda -, continuavam na sua atividade laboral. Todavia, sempre que soava o alerta, pegavam em armas e dirigiam-se para o local onde esse alarme (geralmente o repicar de um sino) tivesse sido tocado. Sendo a defesa uma tarefa que deveria envolver todos os que, de uma forma ou de outra, para ela pudessem contribuir, era natural encontrar-se “nom soomente os homeens mancebos, mas as velhas cabeças cubertas de cãas, que se guarneciã darmas pera pellejar”. Os fidalgos e cidadãos mais destacados da cidade, além de muitos outros oriundos de outras localidades do reino, por seu lado, tinham um importante papel na organização da defesa, tendo a seu cargo atribuições cruciais, tais como a guarda das portas e das torres da cerca, para o que eram auxiliados por homens de armas e besteiros, alguns deles – imaginamos – membros das milícias do concelho. Mas não eram apenas lisboetas que se encontravam na cidade. Tanto num cerco como no outro registou-se a entrada de muitos refugiados, oriundos dos arredores, que buscavam a segurança conferida pelas muralhas. Porém não eram só estes a afluir a Lisboa. Ao confirmar as intenções do rei castelhano, D. Fernando, em 1373, decidiu reforçar a defesa da cidade enviando desde Santarém – onde se encontrava a reunir contingentes para a constituição da hoste – diversas barcas, as quais transportavam D. Álvaro Pires de Castro, Alcaide de Lisboa, Lançarote Peçanha, Vasco Martins de Melo e João Focim, capitão da frota (…)”.
– “Lisboa e a guerra (1367-1411)”, de Miguel Gomes Martins.
