Publicado originalmente numa série de três partes em jazz.pt. Texto de Sofia Alexandra Carvalho.
“De la musique encore et toujours!”
Verlaine
O que acontece quando se combinam as forças magnéticas de um escultor de formas, o título acidental de um filme para adultos[1] ou quiçá de um film noir[2], duas cores (laranja e preto) retratadas a sons, sons percorrendo uma paleta de cores puras, um telefone vermelho e uma visão de estilo inconfundível? Impulse! ou o salto para o inevitável.
A história pulsátil da editora inicia-se com um visionário, nascido em 1929, na “Commonwealth of Virginia”: Creed Taylor (1929-2022). Encantado com as ressonâncias de um trompete antigo que lhe fora oferecido e o efeito reverberante desse som nas montanhas circundantes, o sonho começa a desenhar-se nessa atmosfera, confessa o produtor em “Creed Taylor: The Music came first”.
A mãe, naturalmente, não acreditara no sonho do filho, mas cabe ao filho retificar os pais: Virginia será rapidamente substituído por Nova Iorque, lugar que lhe oferece as mais recentes e vibrantes cenas musicais do bebop, não sem antes passar por North Carolina, mais especificamente, pela Duke University. Aqui, Taylor dedica-se não apenas ao estudo da pré-medicina e da psicologia, com altas classificações a psicocinese, aspeto saliente de um temperamento direcionado para as faculdades mentais superiores, como lembra Jonathan Bewley, mas também à sua íntima vocação: a música e, neste caso, o jazz.
A par das aulas, as académicas e as musicais (vide “Five Dukes”, 1949), Taylor compulsa fervorosa e obsessivamente os discos do dia, adquirindo a série inteira de Norman Granz, “Jazz at the Philharmonic”. Mas oiça-se o que diz o produtor a esse respeito:
«I listened to those records that just went on and on—the tenor battles and the drum battles and da-da-da-da. I loved jazz but I said, ‘Who needs this?’ So I decided I’d like to get involved with that sort of thing and put together some carefully planned sessions and allocate free blowing space, but not interminable solos.» (Kahn, 2006: 14)
O sonho, não perdendo amplitude, adquire contornos e contextos concretos. A Impulse! será o espaço de eleição para sessões de gravação ímpares, cujas força e distinção assentarão na reprodução dos verdadeiros sons musicais, distantes dos “sounds for sounds sake”, tal como fixado em nota final no álbum “The Sound of New York” (1958). Aliás, será justamente este álbum, um music-sound portrait de Kenyon Hopkins interpretado pela Creed Taylor Orchestra, que marcará a concepção da Impulse!: “high concept, high quality, and in no sense low budget.” (Kahn, 2006: 26)
Impulse! nasceu inteira, e por inteiro, da cabeça prodigiosa de Taylor. Mas antes de dar a última e exquisite forma ao seu sonho, Creed Taylor passa pela Bethlehem Records (1954), fundada por Gus Wildi, espaço onde se cruza pela primeira vez com Rudy Van Gelder, o exímio engenheiro que mixava o som de maneira distinta e inovadora. A marca histórica da passagem de Taylor nesta editora pode ser recordada com a referência ao LP-hit “Chris Connor Sings Lullabys of Birdland”, que vendeu inesperadamente vinte mil unidades.
Em seguida, o produtor transita para a ABC-Paramount (1955), dando fôlego à sua primeira produção: “Blues and Other Shades of Green” do trombonista Urbie Green. Aqui, Taylor assegura um terço das primeiras cem produções da editora, produzindo uma série de álbuns intitulados “World War Songs” e deixando uma marca indelével na ABC-Paramount, resultado direto dos sucessos comerciais: “Kenny Dorham and The Jazz Prophets” (1956) e “Sing a Song of Basie” (1958), o álbum que abriu a fissura para a criação da Impulse!. Doravante, grafa cada produção com a sua assinatura, como um escultor no mármore que trabalha.
As suas produções na ABC-Paramount continuam a proliferar com a edição de álbuns temáticos (e.g.: “College Drinking Songs”), que refletem o gosto de Taylor pela audição e por técnicas de gravação e edição inovadoras (e.g.: overdubbing, multitracking, splicing, entre outras) que, à data, eram apenas utilizadas na música pop. Neste espaço editorial, Taylor partilha o seu escritório com a fotógrafa Fran Attaway, a quem atribui a criação do design da Impulse!, nestes termos: «I believe the colors – the orange and black – and the exclamation point was Fran. That wasn’t me. ‘The New Wave of Jazz is on Impulse,’ that was mine.» (Kahn, 2006: 30).
Porém, Fran Attaway, uma intensa admiradora de jazz, parte com o marido, o clarinetista Tony Scott, para uma tour na Ásia, sendo substituída por Margo Guryan, que recorda o dealbar da Impulse! e o modo engenhoso e criativo com que Taylor fixa o nome da editora:
«I remember he was getting a logo together. Originally it was ‘Pulse!’ with an exclamation point. Then they found that there was another label called Pulse. We were all terribly disappointed because the artwork was absolutely terrific. (…) Creed took that logo home and came up with what I thought was an absolutely ingenious idea. He took Pulse, put I-M in front of it and dotted the “I” so it reflected the exclamation point, an exact design reversal at the end of it.» (Kahn, 2006: 30)
Em 1959, a ABC-Paramount procura expandir o seu mercado, apostando nos blues, com o fito de promover um catálogo musical intemporal e de alta qualidade. Em 1960, Taylor, produtor interno da ABC-Paramount e criador da Impulse!, é o primeiro a assinar contrato com John Coltrane, partindo para a Verve Records meses depois (cf. Kahn, 2006: 51).
A linha editorial Impulse!, separada da ABC-Paramount, destacar-se-á não apenas pelos seus avolumados orçamentos, aspecto contrastante se comparado com as editoras Blue Note Records e Riverside, mas sobretudo pelo foco vanguardista e experimental do som, do design e da exímia e devota promoção dos seus artistas, com foco na comunidade afro-americana, aspecto revolucionário à época.
A visão da Impulse! entrava, assim, em alta ignição: «It all started to come into focus – I had the first four albums in mind and I just talked to Harry about it: “Hey, look, I think that a gatefold with laminated packages would be the way to introduce the Impulse line in a dynamic way.» (Kahn, 2006: 31) Os quatro álbuns, ostentando os números de catálogo A-1 a A-4, com a adição da letra “S” para edições stereo, saíram a lume: “The Great Kai & J.J.” de J.J. Johnson e Kai Winding; “Genius + Soul = Jazz” de Ray Charles; “The Incredible Kai Winding Trombones” e “Out of the Cool” de Gil Evans.
A profundidade impactante de Taylor, cuja força discreta e detalhista cativara, desde cedo, quer o mercado musical quer os artistas, concedeu um novo looke uma atmosfera vibrante aos álbuns de jazz: a atenção ao detalhe unida a uma visão de conjunto (design, som e produção) traduziu-se numa receita infalível para o sucesso, com a designação Impulse!. Uma editora de jazz produzida com excelência, rigor e a força inevitável conferida por um catálogo de artistas de alta qualidade. Tudo isto entregue num pacote final de brilho e gosto supremo, o último gesto ou statement editorial.
Nada disto teria sido possível sem a intervenção de Rudy Van Gelder, responsável pelo refinamento técnico da visão sonora e acústica de Creed Taylor. Na verdade, um dos traços robustos do perfil de Taylor foi a capacidade de reunir em seu redor equipas de excelência e secções de ritmo perfeitas. A par disto, possuía um cuidado singular no tratamento final dos álbuns, bem como o modo como aqueles seriam recepcionados pelos auditores. Exemplo concreto deste cuidado é o schema sonoro, disposto pelo produtor no álbum de Gil Evans, para que os auditores tivessem acesso ao local físico de cada instrumento da orquestra no momento da fruição do álbum.
A dinâmica entre Creed Taylor, um perfil forte, discreto e com muito tacto, e Rudy Van Gelder, um artista excêntrico e obsessivo-compulsivo, que colocava luvas para pegar nos microfones e, a título de exemplo, terminara abruptamente uma sessão de gravação por ver o contrabaixista Red Mitchell a tocar com os dedos desprotegidos num certo botão da mesa de mistura do seu estúdio, traduziu-se num cuidado de perfeição pelo produto sonoro perfeito, isto é, acabado.
O poder visionário desta dupla, cujo talento ou inner strength se traduz na criação de uma nova vibração é irrefutável. Desde o design apelativo, passando pelos títulos conceptuais e evocativos de cada álbum, misto de sagacidade poética e lucidez temperada com humor e inteligência (e.g.: “The Blues and the Abstract Truth” [A(S)-5] de Oliver Nelson, 1961, e “Africa/Brass” [A(S)-6], também de 1961, com o quarteto de John Coltrane), até à conceção refinada e elegante do produto final, a Impulse! provoca um salto inevitável na história da música e das linhas telefónicas, bastando para isso recuperar o sonido de um telefone vermelho a emergir da cabine de som do estúdio Rudy Van Gelder (Englewood Cliffs, New Jersey), de onde emergia a voz firme e serena de Taylor, afinando e orquestrando os movimentos dos artistas, com a precisão cirúrgica de um mestre. A Impulse! entra em ebulição com longas, dispendiosas e míticas sessões de gravação, mas não só:
«Taylor’s exit left ABC-Paramount with three significant things. First, there was the label that had just begun to flower, already boasting an established identity. (…) Second, Taylor left ABC with a dire need to find a jazz-savvy producer. And third, as would prove of increasing value, he left behind Impulse’s contract with Coltrane.» (Kahn, 2006: 56)
Mas esta história de pulso tem outros rostos: Bob Thiele e Ed Michel serão os rostos que concederão forma ao segundo andamento desta narrativa editorial.
II.
“Everybody looks everywhere, it’s a jazz-point and beat generation madtrick,
you see someone, “Hi”, then you look away elsewhere, for something someone else,
it’s all insane, then you look back, you look away, around, everything is coming in
from everywhere in the sound of the jazz. “Hi”, “Hey”. Bang, the little drummer
takes a solo, reaching his young hands all over traps and kettles and cymbals
and foot-peddle BOOM in a fantastic crash of sound – 12 years old –
but what will happen?”
Jack Kerouac
Coltrane e Iggy Pop: uma ligação improvável, mas extraordinária, “like bacon and eggs”, tal como cantado por Kerouac em 1959. Nada é impossível no mundo da música e a influência do primeiro não passou despercebida ao segundo, assim dita o álbum “Fun House”. A marca intemporal de Coltrane, resultado directo da passagem magnética de Taylor pela Impulse!, será refinada e amadurecida, entre os finais de 1961 a 1969, com a presença de Bob Thiele (1922-1996), produtor americano que, desde cedo, se dedicou ao clarinete, tendo fundado, ainda na sua adolescência, a revista Jazz e a editora Signature.
Após uma passagem pelo mundo da editora pop Decca, reforçando uma abordagem mais orientada para o pop jazz, com as colaborações de McGuire Sisters, Pearl Bailey, Alan Dale e Teresa Brewer, sua futura esposa, Thiele produz, já na Dot Records, não apenas álbuns com Louis Armstrong, mas também com Jack Kerouac a ler poesia beat. Esta gravação mítica, que conduziu ao despedimento de Thiele, traz consigo uma edição poética ímpar intitulada “Poetry for the Beat Generation” (1959), pela recente Hanover-Signature.
Em 1961, a proeza deste produtor fixa uma fórmula de sucesso – a saída a lume dos álbuns “Together for the First Time” e “The Great Reunion” com as participações de Louis Armstrong e Duke Ellington – a ser aplicada futuramente na Impulse!. A produção de excelência destes álbuns abriu os pórticos da ABC Records para Thiele, cuja marca temperamental muito se aparta da de Taylor: “In the jazz field my style has always been to let the guys play and let them know when I feel they have it right.” (Kahn, 2006: 65)
A proposta da ABC, que entusiasma o produtor, não deixa de produzir alguns abalos na sua mundividência musical: Thiele enclausura-se numa cave da Seventh Avenue South e entra numa espécie de viagem aural intensiva, dedicando-se à fruição da nova onda estilística de Jazz, com o nome sonante e intenso de Coltrane a alumiar o caminho. O acme deste encontro histórico, que conta com a atmosfera densa e intensa do clube Vanguard, dá-se com a seguinte descrição musical de Coltrane a Thiele: “You grew up in the swing era… so you always go like this [snapping his fingers with a regular beat]. You keep time that way.’ He said, ‘With our music, you got to flow back and forth so as the bars go past… you really go 1, 2, 3, 4… 1, 2, 3, 4… 1, 2, 3, 4…” (Ibid.: 67)
Antes do final de 1961, Thiele fortifica o catálogo intemporal da Impulse! com “Soul Trombone” [A(S)-13] de Curtis Fuller; “The Quintessence” [A(S)-11] de Quincy Jones; “Further Definitions” [A(S)-12] de Benny Carter; “Statements” [A(S)-14] de Milt Jackson; “Count Basie and the Kansas City 7” [A(S)-15] de Count Basie; “It’s Time” [A(S)-16] de Max Roach; “The Song Is Paris” [A(S)-17] de Jackie Paris; “Out of the Afternoon” [A(S)-23] de Roy Haynes e “The Artistry of Freddie Hubbard” [A(S)-27]. Em Março de 1962, sai “Live at the Village Vanguard” [A(S)-10], com um lado B memorável: “Chasin’ The Trane”, espécie de “outpouring of stylistic tongues and melodic ideas that linked the bebop dexterity and daring of the past with a free, stripped-bare, spiritually charged future.” (Kahn, 2006: 68) Entre 1963 e 1964, não só o ritmo editorial é vertiginoso, como também a diversidade musical se revela excepcional, desde o swing, passando pelo bebop, até às abordagens mais modernas de blues.
O produtor manterá este andamento ao longo dos oito anos dedicados à Impulse!, encarando cada álbum com o cuidado conceptual do seu precursor. Thiele recorre, igualmente, aos mesmos fotógrafos utilizados por Taylor (Pete Turner, Chuck Stewart e Arnold Newman), procurando um acordo perfeito entre a imagem e o som, mas leia-se o que diz Bob Thiele Jr. a esse respeito: “That’s what music was to him — it was beyond the intellect. You could call it this extrasensory compulsion.” (Kahn, 2006: 93). Mas a marca de Thiele, ainda na peugada de Taylor, tem um nome sonoro inigualável: Coltrane.
Faça-se uma breve excursão sobre esta figura lendária. Em “Chasing Trane: Heavenly Sounds” (2016), documentário escrito e realizado por John Scheinfeld, não há um único testemunho que não aponte para a excepcionalidade do compositor que, mesmo em estados alterados de consciência, possuía aquela quiet spirituality, misto de imprevisibilidade, generosidade[1] e encanto, que é possível encontrar nas suas criações.
Filho único e de temperamento concentrado, foi com meses para o North Carolina State, lugar que apresentava um contexto de segregação racial radical. Este contexto de opressão era perfeito para a emergência dos blues e para a superação do sofrimento através da espiritualidade ou da Arte.
Coltrane foi educado como metodista (vide: youtube.com/watch?v=_IeizgQ9Y0Q), com forte influência dos avôs, ambos ministros. A igreja metodista foi, pois, o espaço responsável pelo seu primeiro contacto com a música: esta espiritualidade, que desde cedo o acompanhou e vincou, torna-se, segundo o seu biógrafo Kahn, o verdadeiro ADN do músico. Aos doze anos, Coltrane, que vivia numa casa populada, vê morrer muitos elementos da sua família e, nesse momento decisivo, encontra na música, primeiro no clarinete e depois no saxofone, a resposta paliativa para o seu sofrimento. Em Philadelphia, com grande sacrifício da sua mãe, tem lições privadas de saxofone e, em 1945, ouve e vê, pela primeira vez, Charlie Parker, que tinha em si o daimon da música. Entre 1945 e 1946, faz parte da banda da Marinha em Pearl Harbor, imitando o estilo do seu herói Charlie Parker, e colabora com diferentes grupos, por forma a dar vazão à sua insatisfação permanente.
1957 será o ano da viragem espiritual de Coltrane. Depois de ter sido despedido do quarteto de Miles Davis[2], combatendo os vícios da heroína e do álcool, que inundavam os clubes nocturnos da época, Coltrane entra numa encruzilhada: segundo Kahn, o músico ou seguiria os passos de Charlie Parker ou enveredaria por um caminho espiritual de total dedicação à música. A história da música mostra, de modo inequívoco, qual a sua escolha: a imortalização de Coltrane dá-se através de um processo duplo de entrega e sacrifício. Perfeccionista compulsivo, praticando de manhã à noite a sua sofisticação harmónica, Coltrane, sem nenhum suporte médico, empreende um processo de cura em casa a partir da fé, força e coragem. De carácter introspectivo e profundo, o saxofone torna-se uma extensão de si mesmo, da sua alma universal. O espírito de Coltrane, na senda do Alto Romantismo, não só consegue captar a big picture, como também possui uma espécie de deep feeling sobre outros mundos.
Regressa a Nova Iorque, toca com a banda de Thelonious Monk e, no final de 57, regressa ao quarteto de Miles, já sabendo quem era. O quarteto torna-se pequeno para o tamanho da sua visão. Decide, assim, criar o seu próprio quarteto, com McCoy Tyner ao piano, Elvin Jones na bateria e Steve Davis no baixo e, em 1960, edita “My Favorite Things”, maravilhando os auditores com a intensidade lírica e experimental do tom do seu saxofone soprano.
Cumprindo uma vocação da Graça, segundo MacCoy Tyner, e concebendo a Beleza, como fixado pelo baterista dos Doors, Coltrane deixa uma impressão indelével em Thiele e torna-se a marca nominal da expansão da editora. Entre ambos é fomentada uma relação de proximidade que se vai aprofundando, de maneira amistosa e harmoniosa, ao longo dos tempos. Thiele deixaria as portas do estúdio de Van Gelder abertas para que Coltrane ensaiasse e gravasse, sempre que sentisse esse apelo. Saem a lume quatro títulos pela Impulse!: “John Coltrane and Johnny Hartman” [A(S)-40], uma das jóias do catálogo da editora, cuja gravação foi feita num só take, à excepção de “You Are So Beautiful” (Kahn, 2006: 99), pois, segundo Hartman, Elvin Jones deixara cair uma baqueta; “Impressions”; “Live at Birdland” e “Newport ’63”.
A partir de 1964, as edições da Impulse! tornam-se exclusivamente instrumentais, à excepção da reedição de “Sing a Song of Basie” [A(S)-83], em 1965. No entanto, a aposta editorial recai, igualmente, na produção de séries de discos em 331/3 rpm (EPs), cujo propósito era duplo: um, comercial, e outro, promocional, através da procura de novas gerações de auditores.
Thiele revela um dinamismo editorial surpreendente e eclético, o que contenta a linha directiva da ABC. É possível encontrar o produtor, que prescinde da assinatura de Taylor, em inúmeros registos fotográficos, com uma postura informal e um cigarro nos lábios a rir ao lado de McCoy Tyner ou a ouvir atenta e serenamente Coltrane (cf. Kahn, 2006: 107). Outro aspecto do seu temperamento assenta na composição de letras, como “What a Wonderful World”, a par da criação da editora Vernon Music, direccionada para as suas próprias composições e as de outros músicos.
O pendor eclético do produtor, com a lente focada em Coltrane e os seus sidemen, que correspondia a 25% da produção da Impulse!, não deixa de produzir algumas diatribes no mundo musical e, no dealbar de 1964, os leitores da revista de jazz Coda assistem a uma resposta assertiva de Thiele (cf. Kahn, 2006: 110), que defende a editora e os seus múltiplos artistas, tais como John Coltrane, Charles Mingus, McCoy Tyner, Yusef Lateef, Johnny Hartman, Lorez Alexandria, Elvin Jones e Paul Gonsalves.
Em 1965, sai a lume o auto-retrato musical de Coltrane, “A Love Supreme” [A(S)-77], descrito pelo produtor como um acontecimento musical e de marketing ímpar, que disparou as vendas e ampliou a distribuição editorial pelos quatro cantos do mundo. A propósito da criação deste álbum supremo, gravado pelo quarteto do músico, Alice Coltrane afirma que, embora a criação do álbum tenha acontecido durante cinco dias febris do Verão tardio de 1964, a visão da sua criação surgira ao compositor em 1946, enquanto ainda estava na marinha, mas leia-se: “He said that’s when [the idea for] A Love Supremestarted to blow into his consciousness. So [in 1964] he remembered the vision he had in the navy, and then he could see everything clearly: the sound. ‘Resolution.’ ‘Acknowledgement.’ The prayer… I should have a copy of his notes, the original”. (Kahn, 2006: 124)
Composição concebida com a minúcia e o rigor de um artista que, após a visão de 1946, consegue, em 1965, ordenar o poema para que este entre em combinação perfeita com a fluidez da música. Em 1968, com os Beatles na Índia e a meditação transcendental como parte integrante do vocabulário cultural, este álbum de Coltrane revelar-se-á uma aventura espiritual imperativa.

No entanto, no final de 1964, dá-se uma fricção temperamental entre Larry Newton, presidente da ABC-Paramount, e Thiele, que ditará, mais tarde, a saída do produtor da editora. O contexto cultural dos anos 60, conhecido pela agitação política, a luta pelos direitos civis e a presença americana no Vietname, não deixa o espírito da editora indiferente. A Impulse! introduz no seu catálogo elementos de protesto, como por exemplo “Praise for a Martyr” e “Man from South Africa” do álbum Percussion Bitter Sweet (1961) do baterista Max Roach e, em 1963, “Alabama” do músico e pacifista John Coltrane[3], uma composição elegíaca forte, que se ergue contra a injustiça e a segregação racial, escrita depois do atentado de supremacistas brancos a uma igreja baptista, em que morreram quatro crianças. Aliás, a melodia desta música, segundo o pianista do quarteto, foi escrita por Coltrane a partir do discurso de Martin Luther King sobre a tragédia-atentado acontecida em Birmingham, USA.
Em 1966, o álbum “Ascension” [A(S)-95] surpreende, de modo controverso, auditores e músicos com a sua força, espécie de monumento musical intenso e livre, mas simultaneamente intrigante e denso. O produtor lembra que, por um erro da editora na escolha do take, existem duas versões do álbum a correr mundo, o que contribui para aumentar o grau enigmático que circunda o álbum. É, assim, criada The New Wave ou New Thing, inicialmente conhecida por New Black Music (cf. Kahn, 2006: 138).
Thiele continua a fervilhar e adita duas novas editoras ao seu portefólio: BluesWay, apostada em novas descobertas e em velhos companheiros musicais, e Contact, abrangendo a swing-era.
No final de 1965, Thiele edita “The Definitive Jazz Scene” [A(S)-99, 100, e 9101], uma série de três volumes, que marca a centésima edição da Impulse!, celebrando o talento artístico de Ray Charles, Lionel Hampton, Oliver Nelson e John Coltrane. Por um breve período, John Coltrane e Sonny Rollins, dois pilares do jazz, apresentam a mesma chancela editorial (cf. Kahn, 2006: 153), enquanto outros dois compositores de renome, Herbie Hancock e Sonny Rollins, adentram o mundo cinemático: o primeiro, através da criação da banda sonora para o “Blow Up” de Michelangelo Antonioni; o segundo, para o filme “Alfie”. (cf. Ibid.: 154)
Com a intervenção multímoda de Thiele, contando com figuras de proa como Johnny Hodges, Archie Shepp, Gabor Szabo e, claro, John Coltrane, a Impulse! reforça o seu catálogo versátil e, no começo de 1967, apresenta uma nova geração de improvisadores da New Thing. Um dos exemplos paradigmáticos da colaboração de Thiele para a Impulse! pode rever-se na edição elegante do álbum “The Kennedy Dream” [AS-9144] de Oliver Nelson, datado de 1967.
A meio dos anos sessenta, a cena musical permite a convergência de vários estilos musicais, desde o folk, passando pelos blues, até à explosão do rock and roll. A música jazz, o mercado jazzístico e o produtor da Impulse! não ficarão indiferentes a esta abordagem heterogénea e inovadora: em 1967, o título da revista de Thiele passa a ser Jazz & Pop e um dos números seguintes mostra Archie Sheep e Frank Zappa na capa, contendo uma entrevista conjunta no miolo. No mesmo ano, o produtor visita San Francisco e vê frustrada a sua tentativa de trazer para o catálogo da editora as figuras de Janis Joplin e Steve Miller. Nessa altura, também o produtor surge, por breves instantes, no catálogo da editora, com uma colaboração com Gabor Szabo.
Ainda em 1967, Coltrane, experimentando ritmos dissonantes e atonais, edita “Meditations” [AS-9110], a continuação espiritual de “A Love Supreme”, e na primavera desse ano consagra os seus auditores com “Expression” [AS-9120], álbum memorial da Impulse!. Em Julho de 1967, o mundo da música perde o seu gigante. A colaboração de apenas seis anos entre o compositor, o produtor e a editora, deixa um lastro supremo de luz ou criação, que se traduz na edição de dezasseis álbuns.
Alice Coltrane constrói um estúdio na garagem de Dix Hills, a casa que partilhara com o seu marido e, no final de 1967, a Impulse! edita o segundo álbum póstumo de Coltrane: “Om” [AS-9140], uma união vibrátil e sublime, que resgata a energia espontânea de “Ascension” e a ressonância espiritual de “A Love Supreme” (cf. Kahn, 2006: 184). Em 1968, Thiele nota que um outro título de Coltrane, com a chancela da nova editora Coltrane Records, entra no mercado: “Cosmic Music” [CRC-5000].
Durante algumas semanas, a editora de Coltrane entra em competição directa com a Impulse!. No entanto, é feito um acordo: “Cosmic Music” seria editado pela Impulse! e Alice Coltrane tornar-se-ia uma artista da editora. “A Monastic Trio” [AS-9156], uma fusão entre o gospel americano e o misticismo ocidental, é o primeiro e último título de Alice, que conta com a produção de Thiele: “‘My experience with Bob Thiele was so short that all I can say is that he was a gentleman, and very professional,’ she says. ‘And I think that, in the memory of John, he wanted to just present everything in the best way possible.’” (Kahn, 2006: 185)
A colisão entre Thiele e Newton tem lugar: em Julho de 68, numa das sessões de gravação de Louis Armstrong, Newton vê a sua entrada no estúdio a ser barrada. Eis o esclarecimento do produtor acerca do episódio: “I fought for the black musicians all my life. … What happened in the last few years with me at ABC, the musicians, when they couldn’t get what they wanted, the only person they had contact with was me. And they would blame me, not knowing I was the only one fighting for them at the time.” (Kahn, 2006: 199)
Thiele passa a trabalhar projecto a projecto e os créditos da produção revelam a criação de uma editora independente: Flying Dutchman Productions, que conta com as presenças de Louis Armstrong, Johnny Hodges, Oliver Nelson e a recente descoberta do saxofonista argentino Gato Barbieri.
O último triunfo editorial de Thiele, sob a chancela da Impulse!, é “Karma” [AS-9181] de Pharoah Sanders, efebo directo de Coltrane. No entanto, Thiele deixa ainda alguns álbuns preparados para sair (“At the Top: Poinciana Revisited” [AS-9176] de Ahmad Jamal e “Ornette at 12” [AS-9178] de Ornette Coleman), não sem antes editar as mais refinadas colecções de hits da editora: “The Best of Gabor Szabo” [AS-9173] e “The Best of Chico Hamilton” [AS-9174].
1969 é um ano de reviravolta para o produtor e para a editora: a saída de Thiele acontece e o logótipo da editora, com o seu esquema de cores mítico e o ponto de exclamação, é abandonado, sendo o álbum “Selflessness” de Coltrane exemplo disso mesmo. Os anos 70 mostram o lado vibrante e robusto da Impulse! que revela um catálogo imponente de artistas avant-garde (Alice Coltrane, Pharoah Sanders, Albert Ayler, Archie Shepp, Marion Brown e Sam Rivers), um gosto pelo jazz mainstream (Ahmad Jamal e Mel Brown), sem deixar de possuir linhas experimentais do free jazz (Ornette Coleman e Sun Ra) e introduzir novas figuras (Keith Jarrett e Dewey Redman).
Antes da venda da Impulse!, em 1977, com a entrada em cena de Rubenstein, a editora ainda contaria com a colaboração inovadora de três produtores: Ed Michel, Steve Backer e Esmond Edwards. Thiele colabora, já em 1974, no penúltimo álbum de estúdio de Coltrane, “Interstellar Space” [AS-9277], que apresenta uma semântica inovadora e complexa. Mas a história não termina aqui.
III.
Eternity is in love with the productions of time.
William Blake
“Long Way from Home” (BluesWay 6028), gravado em Março de 1969, foi a primeira produção de Ed Michel para a Impulse!. Seguem-se “Music Is the Healing Force of the Universe” [AS-9191], datado de 1970, e “The Last Album” [AS-9208], datado de 1971, de Albert Ayler, que misturam, de forma audaz e experimental, sons de guitarra rock, free jazz e poesia. Na verdade, o saxofonista não deixa de reconhecer a trindade avant-garde: “Coltrane as ‘The Father,’ Pharoah Sanders as ‘The Son’, and himself as ‘The Holy Ghost’.” (Kahn, 2006: 192)
Ed Michel, produtor (Pacific Jazz e assistente de produção em Riverside Records) e músico (baixista de Ash Grove, clube de música folk), contratado entre 1969 e 1975 pela ABC, seguiu as pegadas de Thiele e supervisionou centenas de sessões, reeditando material dos arquivos abundantes da Impulse!, mas já sem o recurso ao estúdio de Rudy Van Gelder. A sua postura de produtor, semelhante à do seu predecessor, reforça o apoio silente aos artistas, nestes termos: “I’ve always taken the point of view that the best producers are transparent.” (Kahn, 2006: 224) Testemunho desta postura não impositiva foram os dois dias de gravação, em 1970, com Ahmad Jamal para o álbum “The Awakening” [AS-9194], lembra o produtor: “At the end of the session he shook my hand and said, ‘I don’t get along with producers very well. You’re no problem!’ I said, ‘Thank you very much — neither are you.’” (Ibid.: 225)
As suas primeiras edições incluem nomes pouco conhecidos à época (os guitarristas Howard Roberts e Mel Brown, o organista Clifford Coulter, o vibrafonista Emil Richards e o duo Dave MacKay e Vicky Hamilton), pois a sua responsabilidade, para além de entregar um master à editora, era direccionada para os artistas, como sustentado pelo próprio (cf. Kahn, 2006: 217). Michel, tal como Steve Backer, promotor de rock e entusiasta do jazz, começa a usar técnicas de gravação e mixagem originalmente feitas para o mundo do rock (e.g.: close-miking; tape overdubbing; reverb; echo e phasing), procurando encontrar o equilíbrio certo entre a tecnologia e a sonoridade jazzística, pois para este produtor o jazz e os blues surgem como música performática (cf. Kahn, 2006: 219). Fiel ao design emblemático da editora, Michel não deixa de ficar desapontado com o facto de “This Rather Than That” [AS-9192] do vibrafonista-pianista Buddy Montgomery ser o último álbum a ostentar a lombada laranja e preta, traço distintivo da Impulse!.
“Shepp’s for Losers” [AS-9188] de Archie Shepp traz consigo uma combinação entre o standard jazz e as sonoridades funk. Porém, a produção conjunta de Ed Michel e Bill Szymczyk, em Agosto de 1971, “Antelope Freeway” [AS-9207] de Howard Roberts, conta com uma espécie de colagem musical, gravada à entrada de um restaurante (a cinquenta metros de distância, através de microfones Neumann) e com o som da guitarra de Roberts. O impacto do álbum foi nulo.
“Ptah, the El Daoud” [AS-9196], “Journey in Satchidananda” [AS-9203], “Universal Consciousness” [AS-9210] e “World Galaxy” [AS-9218] revelam as explorações de Alice Coltrane quer ao piano, quer no orgão e na harpa, combinando jazz, blues, ragas, cantos rituais e Stravinsky. O álbum “Universal Consciousness” traz consigo uma narrativa digna de relevo. A propósito de uma dificuldade no processo de edição, Alice Coltrane partilha qual fora a fórmula resolutiva encontrada:
“‘I’ll go home and meditate on it.’ She came back the next day and said, ‘I had a wonderful meditation. I talked to John’—who she often referred to as ‘the father’—‘and Stravinsky and Bach and we discussed how to edit it. Stravinsky told me what to do: ‘Make the cut right here’. I said, ‘Stravinsky’s crazy! It isn’t going to work!’ I tried it and you couldn’t hear the edit. It was transparent. I thought, ‘I’m never ever going to argue again!’” (Kahn, 2oo6: 229)

Entre 1969 e 1971, Michel produz Clifford Coulter (“East Side San Jose” [AS-9197], “Do It Now, Worry About It Later” [AS-9216]), Milt Jackson (“That’s the Way It Is” [AS-9189] e “Just the Way It Had to Be” [AS-9230]) e Sam Rivers (“Crystals” [ASD-9286]). Contudo, as produções com maior impacto contam com as figuras de Michael White, mais especificamente, “Pneuma” [AS-9221] e “The Land of Spirit and Light” [AS-9241], datados de 1972 e 1973, vários títulos de Sun Ra e gravações inéditas de Coltrane (e.g.: “Transition” [AS-9195], gravações de 1965 com o seu quarteto, e John Coltrane “Live in Seattle” [AS-9202]) encontradas por Michel nos arquivos da Impulse!.
Sob a exímia orientação de Michel apareceram na Impulse!, pela primeira vez, a edição de álbuns duplos, revelando a intemporalidade do catálogo da editora: em finais dos anos 70, inícios de 71, surgem “The Best of John Coltrane” [AS-9200], “Gabor Szabo: His Great Hits” [AS-9204] e “Chico Hamilton: His Great Hits” [AS-9213]. Michel lembra que a sua saída da editora se deu no início de 1975.
A atmosfera editorial dos anos sessenta continua nos anos setenta, assistindo-se a um cruzamento prolífero e profícuo entre rock e jazz, entre o vertiginoso e o funk. Em 1971, entra em cena Steve Backer, inicialmente como director e promotor da ABC. Ao conseguir atrair um público mais jovem e mais orientado para o rock, fruto do seu trabalho na Verve Records e depois na Elektra, Backer torna-se gerente da editora até 1973, data em que se junta a Clive Davis na Arista Records, criando uma chancela na editora dedicada ao jazz. Produziu, entre outros, Keith Jarrett, Gato Barbieri e Dewey Redman.
A sua marca na Impulse! encontra-se na criação de múltiplas séries de discos: uma, reforçando a presença de Coltrane enquanto força dominante da editora (“Impulsively!” [AS-9266-2], “No Energy Crisis” [AS-9267-2] e “Irrepressible Impulses” [IMP-1972]); outra, direccionada para instrumentos específicos (“The Bass” [ASY-9284-3], “The Drums” [ASH-9272-3] e “The Saxophone” [AS-9253-3]). Em 1972, Backer cria novas séries para celebrar a editora e a sua paleta inigualável de artistas: “Re-Evaluation: The Impulse Years”, que conta com as colaborações de Charles Mingus, McCoy Tyner, Sonny Rollins e Freddie Hubbard e, ainda, “The Best of John Coltrane, Vol. 2” [AS-9223-2], “The Best of Pharoah Sanders” [AS-9229-2] e “Reflection on Creation and Space” [AS-9232-2] de Alice Coltrane.
Além da criação de séries duplas, Backer reúne em tour vários artistas da Impulse!, marcando concertos em clubes de rock e campi universitários. Exemplo dessa iniciativa é a gravação de Barbieri em Buenos Aires e Rio de Janeiro, traduzida em dois álbuns populares “Chapter One: Latin America” [AS-9248] e “Chapter Two: Hasta Siempre” [AS-9263], uma combinação visionária que mistura música folk, tango e samba.
Em 1974, Backer reconhece o movimento descendente da Impulse!, mas ainda assim a editora continuará a surpreender os auditores futuros com a sua strong vision. De 1975 até 1977, a Impulse! conta com a colaboração de um produtor experiente, também fotógrafo, que abre caminho para uma vertente mais comercial, com traços de R&B: Esmond Edwards. O produtor sustenta que o passado da Impulse! se encontrava limitado a um público especializado e o seu intento era ampliar esse escopo para uma audiência distinta e mais direccionada para o groove jazz.
Nesta altura, a editora já não conta com orçamentos abundantes e o design distintivo surge apenas como uma memória pálida e longínqua. Edwards supervisiona o álbum “Sizzle” [AS-9316] de Sam Rivers e produz os últimos quatro álbuns de Keith Jarrett: “Mysteries” [ASD-9315], “Shades” [ASD-9322], “Byablue” [ASD-9331] e “Bop-Be” [ASD-9334]. O produtor ajuda, assim, a fixar a nova identidade da editora e, numa espécie de eco memorial de Taylor, assina com o ensemble Brass Fever. Contudo, foi com “Hard Work” [ASD-9314], um autêntico hit radiofónico de John Handy, datado de 1976, que a editora volta a respirar.
Em 1977, iniciam-se as negociações de venda da editora, que terminam em 1979, com a transferência da editora para MCA, uma editora conhecida, sobretudo, pela suas produções pop-rock. Em 1986, Ricky Schultz revitaliza o nome da editora, bem como o seu design mítico, com edições do saxofonista Michael Brecker e do pianista Henry Butler, quer em LP, quer em CD.
No ano seguinte, dá-se a produção de um projecto especial, sob a égide de Bob Thiele: “A Tribute to John Coltrane” [MCAD-42122], que conta com as presenças de David Murray, Pharoah Sanders, McCoy Tyner, Cecil McBee e Roy Haynes. Dois anos depois, surge no mercado uma série triádica, em formatos vinil e digital, que celebra a história da editora: “The IMPULSE! Collection” [MCA2-8026], “The Feeling of Jazz” [MCA2-8028] e “Fire Into Music” [MCA2-8032].
Em 1990, a MCA é absorvida pela GRP Records, editora de jazz fundada pelo compositor David Grusin e o produtor Larry Rosen, que continua a apostar na elevação da Impulse! ao seu estatuto inicial: “Impulse! Jazz A 30-Year Celebration” [GRD-2-101] e “Red Hot on Impulse!” [GRD-151], dois álbuns duplos que celebram a história da editora e os seus artistas.
Entre 1995 e 1999, a GRP Records não só inclui no seu catálogo álbuns de antigos artistas da Impulse! e de jovens artistas (e.g.: Diana Krall, Danilo Pérez, Eric Reed, Donald Harrison, Russell Malone e o grupo de acid jazz Groove Collective), como também expande as edições para descobertas de arquivo, editando The Duke Ellington Trio, datado de 1972, e reeditando Jimmy Rushing, George Russell, Johnny Hartman, Betty Carter e Shirley Horn, maioritariamente produzidos por Bob Thiele. Nesta altura, e graças à intervenção de Hollis King, designer da Verve Music Group [VGM] que estudou com o notável Milton Glaser, a Impulse! recupera um visual gráfico à sua altura.
O final dos anos 90 é pródigo em inúmeras fusões, criando a Vivendi Universal, posteriormente agrupadas pela Universal Music Group, que colocou a VGM como responsável pelo domínio do jazz. Em 2000, o arquivo musical da Impulse! torna-se um espaço partilhado com as editoras Verve, Decca, Commodore, Mercury, EmArcy, Chess e GRP Records. A VMG colocará artistas como Diana Krall e Wayne Shorter, sob a égide da Verve, deixando as reedições para a Impulse!.
Em 2005, num leilão de jazz em New York, são encontradas trinta e três fitas de gravação de Coltrane, incluindo uma versão de “A Love Supreme”, datada de 10 de Dezembro de 1964, entre outras pérolas musicais.
Em 2004, produzido por Ravi Coltrane, surge “Translinear Light” [Impulse B-0002191-02], o primeiro álbum comercial de Alice Coltrane em 26 anos. O álbum parte de um conjunto de visitas ao estúdio gravadas em 2000, 2002 e 2004 e apresenta diferentes configurações (duetos, trios e quartetos), contando com as colaborações de Ravi Coltrane, Oranyan Coltrane, Charlie Haden, James Genus, Jack DeJohnette, Jeff “Tain” Watts e Sai Anantam Ashram Singers, um coro que pertence ao ashram de Alice Coltrane.
A Impulse! não esqueceria o seu gigante: eis o tempo enamorado pela eternidade, numa tresleitura de Blake.
[1] Em “The House That Trane Built: The History of Impulse Records“”, da autoria de Ashley Kahn, encontra-se um apontamento sugestivo acerca da descrição do álbum “The Sound of New York”, editado em 1958 pela ABC-Paramount como “The aristocratic series, a High-Fidelity Record”, mas leia-se: “The Sound of New York naturally bore Taylor’s signature and serves as a blueprint for a future formula: high concept, high quality, and in no sense low budget. Coincidentally, tucked away on an inner sleeve is a small black-and-white photograph of a Times Square movie marquee with the name of an adult movie in bold letters: IMPULSE.” (Kahn, 2006: 26)
[2] Procurando o filme supramencionado, encontrei a referência a um film noir britânico, “Impulse”, datado de 1954, realizado por Endfield e com as participações de Arthur Kennedy, Constance Smith and Joy Shelton. Mesmo não sendo este um filme para adultos, fica a nota especulativa.
[1] O primeiro casamento de Coltrane com Juanita Austin ou Naima, como ficou conhecida, faz com que Coltrane crie Antonia Andrews, sua enteada, como filha. Esta confessa que numa noite densa de neve, depois de um concerto, sabendo que ela precisava de um par de sapatos, Coltrane veio imediatamente para casa, evitando gastar o dinheiro e dar à filha o que precisava: um par de sapatos.
[2] Miles permitia intermináveis solos a Coltrane. Existe, aliás, um episódio maravilhoso sobre esta dupla: Coltrane confessa a Miles a dificuldade que sente em parar de tocar. Veja-se a resposta de Miles, cheia de wit: que tal experimentares tirar a boca do saxofone? (vide https://www.jazzwise.com/features/article/miles-davis-and-john-coltrane-yin-and-yang)
[3] A este propósito, atente-se nas palavras de Alice Coltrane: “I would imagine John’s philosophy would be closer to Martin Luther King: ‘Let me try to reach your heart, your spirit, and your soul, and then we can move forward uniformly as a people, and we can accomplish great things.’ Coltrane’s pacific tendency proved one of the strongest forces he left behind at Impulse (…).” (Kahn, 2006: 197)
