Relação entre o coberto vegetal e a suscetibilidade e severidade dos incêndios rurais: Um estudo de caso do Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022. Beatriz Salafranca, José Luís Carvalho Mestrandos em Dinâmicas Sociais, Riscos Naturais e Tecnológicos
Resumo:
O presente artigo tem como principal objetivo compreender a evolução do coberto vegetal ao longo dos anos e se esta tem relação direta com a suscetibilidade de ocorrência de incêndios rurais, procurando apresentar medidas de mitigação aos incêndios rurais. Para isso e de forma a sustentar o presente artigo foi utilizado um estudo de caso, o incêndio de Vila Mendo de Tavares (Mangualde), relacionando a problemática de estudo, com fatores como a severidade de incêndio e as alterações climáticas.
Palavras-Chave: Severidade, Suscetibilidade, Vegetação, Incêndios, Interface Urbano- Florestal
Abstract:
The main objective of this article is to understand the evolution of vegetation cover over the years and whether this is directly related to the susceptibility of rural fires, seeking to present mitigation measures for rural fires. For this and in order to support this article, a case study was used, the fire of Vila Mendo de Tavares (Mangualde), relating the problem of study, with factors such as fire severity and climate change.
Keywords: Severity, Suscetibillity,Vegetation, Fires, Urban-Forest Interface
Introdução: Todos os anos, e principalmente nos meses de verão, Portugal enfrenta o problema dos incêndios rurais; em si mesmos estes não são o problema, mas sim a forma como se gerem e se utilizam. O aumento de ignições e a sua intensidade, concretizam-se numa maior área ardida e numa maior reincidência, mais ainda quando se fala em territórios rurais e do interior.
Com a expansão do litoral e o êxodo da população, encontramos mudanças no uso tradicional do solo, assim como o estilo de vida das populações, um espaço natural cada vez mais próximo de aglomerados, decorrente de um aumento de incultos e crescimento de arbustos, de várias causas podemos abordar o despovoamento das regiões interiores e o envelhecimento da
população, esta dinâmica acaba a destruturar o território, com um avanço de vegetação florestal em áreas agrícolas e consecutivamente um aumento de carga combustível pronta para arder.
Com os incêndios recorrentes no mesmo território, e se não houver uma repovoação florestal da espécie inicial, a vegetação acaba por ir evoluindo em matos, com combustíveis mais finos ou mais grossos, mediante o tempo de livre crescimento, o que mudará a dinâmica e a suscetibilidade aos incêndios rurais.
Coberto Florestal:
O aumento da incidência e severidade dos incêndios florestais nas últimas décadas, particularmente nas regiões de clima mediterrânico, é atribuído à correlação entre situações de incêndio e anos de seca, bem como as mudanças climáticas e transformações no uso e ocupação do solo. Prevê-se que o aumento dos grandes incêndios afete todos os ecossistemas, levando-os a sofrer grande impacto em diversas situações (Úbeda et al, 2021).
Incêndios florestais mais graves prejudicam a segurança humana, as infraestruturas e os ecossistemas. Analisando os padrões de vegetação pré-fogo pode-se identificar as condições que contribuem para incêndios mais severos e contribuem para novas e melhores políticas de gestão das paisagem e ordenamento de território de forma a minimizar os seus efeitos. Identificar esses padrões em paisagens dominadas por plantas não herbáceas pode ajudar a mitigar os impactos de incêndios florestais de grande severidade. Segundo autores norte-americanos, num estudo dos incêndios no Oeste dos EUA, mais de 70% das áreas de pastagem não dominadas por plantas herbáceas com incêndios de grande severidade apresentavam uma estrutura de vegetação pré- incêndio caracterizada por grande coberto lenhoso (aproximadamente 50%, composta por árvores e arbustos), o que pode ser entendido por grande quantidade de combustíveis finos, assim como uma grande quantidade de manta morta, com materiais facilmente inflamáveis que promoviam incêndios em copas, levando a um comportamento extremo do fogo (Li et al, 2022).
O coberto florestal é fundamental para prevenir a erosão e conservar a qualidade do solo pós-incêndio. A manta morta, é uma forma de barreira para o controlo da erosão. Pelo que algumas vezes é usado como forma de prevenção, através de situações em determinados territórios, onde se chega mesmo a deixar serradura (Úbeda et al, 2021).
Os efeitos do fogo dependem fortemente da intensidade, duração, histórico de perturbações pré-incêndio (Brogan et al., 2019), bem como da topografia, vegetação, geologia e clima da área afetada (Swanson, 1981). Além disso, atividades humanas estão se a tornar um fator propulsor adicional para a ocorrência e danos de incêndios florestais. Nesse contexto, a avaliação da severidade do fogo, que geralmente engloba as propriedades de intensidade e duração, é extremamente importante para quantificar o impacto relacionado ao fogo e ainda representa um grande desafio. No caso das bacias hidrográficas, a distribuição espacial dos efeitos induzidos por
incêndios florestais, principalmente aqueles relacionados à transferência de sedimentos, é determinada pela disposição espacial das fontes de sedimentos e sua capacidade de entregar sedimentos à rede hidrográfica. No processo em cascata, a chance de sedimentos alcançarem compartimentos específicos da bacia está estritamente relacionada às propriedades estruturais do sistema (Hooke 2003; Heckmann et al., 2018).
Tipos de Cobertura Florestal
Existem diferentes tipos de cobertura vegetal na floresta, cada um com características próprias que influenciam a sua suscetibilidade aos incêndios. Por exemplo, as áreas de pastagem tendem a ser mais vulneráveis, pois as ervas secas e finas são altamente inflamáveis e podem servir de combustível para o fogo.
Por outro lado, as áreas de floresta mais densas e húmida são menos propensas ao fogo, já que a humidade presente na vegetação atua como uma barreira natural contra as chamas. Além disso, as árvores de grande porte e folhagem densa podem bloquear a passagem do fogo, impedindo que ele se espalhe com facilidade.
As espécies distinguem-se neste contexto como inflamáveis ou resilientes, sendo que as mais inflamáveis, como a Grama dos batatais, Palha seca de milho, Casca de eucalipto, Urze, Tojo, Giesta; tem como características a alta densidade de biomassa e baixa humidade, já as espécies mais resilientes como Amieiros, Freixos, Carvalhos, Castanheiros, Medronheiros, Azinheiras, que têm como características uma menor densidade de biomassa, maior humidade e menor teor de óleos essenciais.
Severidade
O termo, ‘severidade’, surge da necessidade de descrever como a intensidade do fogo afeta os ecossistemas. Enquanto a intensidade descreve o processo de combustão e libertação de energia da matéria orgânica, a severidade refere-se à magnitude dos efeitos diretos e imediatos do fogo, e reflete o calor libertado pela combustão de biomassa (Ryan e Noste, 1985 cit por Gonçalves et al, 2016). Portanto, a intensidade do fogo contribui para a severidade, mas apenas pode explicá- la parcialmente.
A caracterização da severidade do incêndio e da mudança na floresta em escala de paisagem também contribui, com o pós-fogo, para a tomada de decisão e melhora a compreensão dos impactos do fogo. As diferenças fenológicas, o regime do fogo e estrutura da floresta apresentam desafios que podem confundir a severidade do incêndio, comparativamente com outros focos em outras zonas (Reiner et al, 2022).
Ou seja, a severidade estima-se a partir dos dados e da análise da perda/destruição do material vegetal, assim como da matéria orgânica do solo, dependendo de um conjunto de aspetos ecossistémicos, assim como a escala espacial e temporal onde são considerados os impactos do incêndio (Gonçalves et al, 2016).
Existem um conjunto de técnicas de controlo florestal no pré-incêndio que podem influenciar a severidade dos incêndios assim como o seu impacto nos solos. Um estudo de 2015, sobre os efeitos de três incêndios distintos, onde um deles não teve qualquer trabalho de prevenção e os outros dois com trabalhos executados, porém em anos diferentes. O estudo comparou as propriedades do solo desses locais com zonas não afetadas. O estudo mostrou que os solos dos locais submetidos a práticas de prevenção apresentaram uma menor perda de nutrientes pós- incêndio, do que o outro que não teve qualquer prática de prevenção (Francos et al, 2018).
Suscetibilidade
O risco de incêndio e a suscetibilidade são conhecimentos prévios fundamentais no âmbito da gestão e ordenamento do território, assim como na prevenção e mitigação do combate aos incêndios florestais. Portanto a cartografia deste âmbito funciona com diversos dados e variáveis, que são importantes ferramentas no apoio e na prevenção, de forma a identificar áreas mais suscetíveis aos incêndios e áreas com maior potencial de perda. Entre essas variáveis segundo Vasconcelos (2013) incluem-se:
Carta de ocupação do solo: de forma a representar as espécies dominantes do território, ou seja, demonstra a matéria orgânica disponível para ignição e combustão
Declive: quanto maior for, maior a dificuldade dos meios de combate, podendo impossibilitar um combate direto, assim como a influência dos ventos locais e a progressão das chamas
Altitude: interfere na distribuição dos incêndios e influencia a meteorologia do local (temperatura, vento e precipitação)
Orientação das Vertentes: assim como o declive, determina a energia solar que chega á vegetação, que poderá levar a um aumento ou a uma diminuição da humidade da vegetação.
Densidade Populacional: entende-se que uma forte presença antropogénica na floresta aumenta o risco de ignição, assim como a baixa densidade populacional também poderá ser desfavorável, pois levará ao abandono da floresta, assim como a acumulação de combustíveis e fraca vigilância.
Densidade de caminhos (agrícolas e florestais): assim como a proximidade às estradas, devido a questões de dolo ou desleixo ao longo das vias de comunicação. Por outro lado, a
diversidade de caminhos é benéfica para a alocação de meios, no entanto facilita o acesso à população no geral.
Rede Hidrográfica: rios, ribeiras, riachos, etc… tendem a apresentar uma certa estabilidade no espaço e no tempo, e os cursos de água apresentam aspetos na paisagem que não mudam muito, com faixas de vegetação com bastante humidade.
Então, a suscetibilidade trata-se da propensão de determinada área a ser afetada, neste caso, por incêndios florestais, avaliada a partir das variáveis que lhe são intrínsecas. Esse território será mais ou menos suscetível conforme seja mais afetada ou potencie a ocorrência. No caso dos incêndios, determinada área “será tanto ou mais suscetível quanto melhor permitir a deflagração e/ou a progressão do incêndio (Verde & Zêzere, 2007).
Correlação Coberto Vegetal – Suscetibilidade
A correlação deste enquadramento concetual, parte exatamente das variáveis que constituem a suscetibilidade aos incêndios florestais, os territórios mais suscetíveis aos incêndios, manifestam-se exatamente nas zonas de maior altimetria, caracterizadas além dos declives, mas também por um coberto vegetal mais denso (Verde, 2008).
A combustão necessita sempre da presença de um combustível, de um comburente e de uma energia de ativação, o denominado triângulo do fogo, contudo, nem toda a vegetação possui a mesma suscetibilidade à ocorrência e propagação de incêndios, pelo que as características constituem uma das principais variáveis a considerar. Segundo Alves (2012), as áreas ocupadas com matos revelam-se bastante favoráveis aos incêndios, e por outro lado, as áreas ocupadas com florestas de folhosas, possuem uma maior resistência ao fogo.
De acordo com o modelo NFFL (Northern Forest Fire Laboratory), utilizado pelo Instituto Nacional da Natureza e das Florestas os combustíveis que compõem o coberto vegetal, podem são divididos em quatro grupos, que definem o tipo de combustível e a sua reação ao fogo:
- Herbáceo
- Arbustivo
- Manta Morta
- Resíduos Lenhosos
Cada um deles para além da sua reação ao fogo devido à sua composição, medida e distribuição no solo, são fatores que podem influenciar o comportamento dos incêndios florestais, como a velocidade de propagação e a sua intensidade. Por outro lado, estes combustíveis são também conhecidos como finos médios e grossos, devido ao diâmetro da sua estrutura.
Importa lembrar que os incêndios florestais e a sua propagação dão-se essencialmente pela continuidade de combustíveis finos como é o caso das herbáceas (urzes, tojo e giestas), quanto á sua intensidade e severidade podemos afirmar que as urzes, são consideradas com um potencial de combustibilidade alta, devido à sua composição se tratar de carvão.
Concluímos então que nos territórios onde existe a predominância deste tipo de combustíveis, torna-o mais suscetível à ocorrência de incêndios florestais, como comprovado com modelos de análise e no histórico de ocorrências. Embora existam outras variáveis importantes para a propagação do incêndio como os declives, o que define as ocorrências de incêndios florestais e a sua área ardida é o coberto vegetal existente, a sua distribuição e continuidade.
Estudo de Caso – Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022
Metodologia:
Este estudo será levado a cabo através de informações operacionais retiradas do dia do incêndio, assim como um levantamento de características geográficas do concelho e da localidade, através dos sistemas de informação geográfica, literatura e o Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Através da sobreposição dos dados angariados, poderemos retirar conclusões.
Contextualização do Território:
A localidade de Vila Mendo de Tavares, localiza-se na freguesia de Abrunhosa-a-Velha, por sua vez Abrunhosa-a-Velha é uma freguesia, pertencente ao município de Mangualde, este pertencente ao distrito de Viseu, faz parte da Região Dão-Lafões. Com 17.38 km2 e 440 habitantes, constituído 192 agregados (Censos, 2021). Quanto às regiões NUTS 2, pertence ao Centro e na NUTS 3 pertence á região Viseu Dão Lafões.
O concelho de Mangualde encontra-se numa região de média altitude, a sul da Serra da Estrela, misturando-se com os primeiros contrafortes da Serra da Lousã, as encostas do Buçaco a sudoeste, e encontram-se também as primeiras elevações do Caramulo. (PMDFCI, 2022).
Altitudes e Declives: Segundo o PMDFCI (2022), no que concerne á orografia do concelho, a topografia dominante é o planalto, inclinando para sul. Possui vales encaixados dos Rios Dão e Mondego. Existe uma diminuição gradual da altitude, sendo os pontos culminantes a Serra das Pousadas e o Monte do Bom Sucesso, ambos com 766 metros, as altitudes mais baixas são nos vales anteriormente mencionados, do Rio Dão e Mondego (210 m). Quanto aos declives, observa-se um terreno mais acidentado junto as margens dos rios, e nas zonas de maior altitude, com alguns destaques na zona de Abrunhosa-a-Velha, superior a 20%.
Neste mapa podemos observar que na zona de estudo, os declives são de moderados, contudo em alguns pontos chegam a atingir inclinações de 20º. Os declives podem influenciar o comportamento do incêndio e a velocidade de propagação, contudo o que importa referir, que na zona de Vila Mendo de Tavares, os incêndios podem assumir um comportamento de incêndio com uma severidade moderada baixa a moderada alta, devido às variáveis apresentadas.

Mapa 1 – Mapa de declives do concelho de Mangualde
Hidrografia: Em Mangualde existem 3 tipos de cursos de água, inclusive perenes, que se mantém durante o ano, os de regime intermitente (apenas na estação chuvosa) e os efémeros (durante as chuvadas). No concelho é possível encontrar cursos de água de 1ª e de 2ª ordem, Rio Mondego e Rio Dão, respetivamente. Existindo ainda diversas ribeiras, riachos e lagoas, e uma Albufeira, na Barragem de Fagilde (PMDFCI, 2022).
Caracterização Climática: No que concerne à temperatura, segundo o PMDFCI (2022), avaliamos a amplitude térmica, que é a diferença entre a máxima e mínima de temperatura em determinado lugar ou território, em determinado período; em termos médios verifica-se uma amplitude térmica anual, em Mangualde, de 13.9ºC, resultado do mês mais frio, janeiro, com 6.8ºC, e no mês mais quente, julho, regista 21ºC. Entre novembro e março a temperatura média fica abaixo dos 10ºC.
No que diz respeito às temperaturas máximas, observa-se entre junho e setembro um médio geralmente superior a 25ºC, apesar de em julho e agosto tende a ultrapassar os 28ºC.
Nos últimos registos, período de 1961-1990, verificam se que os meses de julho, agosto e setembro são os com temperaturas mais elevadas, rondando os 39ºC.
Caracterização do Uso e Ocupação do Solo: Particularmente Abrunhosa-a-Velha, possui cerca de 10.8 ha de áreas sociais, 399 ha dedicados à agricultura, 318 de floresta, 987.6 ha de incultos e 13.4 ha de superfície aquática, o que totaliza 1729.8 ha de território, na imagem seguinte, assinalado com um círculo vermelho, pode-se observar a ocupação do solo desta freguesia.
Uso e Ocupação do Solo: Definido pela COS 2018 o concelho de Mangualde encontrava- se maioritariamente ocupado:
- Florestas 95,60 km2,
- Agricultura 59,55 km2
- Matos 46,03 km2.
Dominam as áreas ocupadas por pinheiro-bravo, eucalipto e outros carvalhos. No caso de vila Mendo de Tavares, e devido aos sucessivos incêndios florestais, predominam na área analisada as urzes, tojo e giestas, contudo ainda existem em alguns pontos o pinheiro-bravo e eucalipto, áreas pouco significativas, mas que podem ter sido a causa do aumento da severidade como podemos observar no seguimento do trabalho.

Mapa 2 – Carta de Uso e Ocupação do Solo, concelho de Mangualde 2018
Suscetibilidade: Como podemos observar no mapa 3, onde predominam os sucessivos incêndios florestais, podemos afirmar que ao nível da suscetibilidade, e onde esta destacado o incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022, mais de 80% do território apresenta suscetibilidade
Média, Alta para a ocorrência de incêndios florestais. Como afirmado anteriormente, esta suscetibilidade está relacionada com o uso e ocupação do solo existente (urzes, tojo e giestas).
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Mapa 2 . Suscetibilidade para Incêndios Florestais do concelho de Mangualde
Área Ardida dos Últimos 20 Anos:
No mapa que apresentamos abaixo, é nítida a tendência para a ocorrência de incêndios florestais na zona sudeste do concelho de Mangualde. Pudemos notar a influência dos incêndios de 2017 na parte sul do concelho. As áreas aqui representadas só correspondem a incêndios com mais de 10 hectares.
Podemos afirmar, segundo dados do ICNF desde 1975 a 2022 grande parte destas áreas são afetadas por incêndios florestais. Vila Mendo de Tavares em 37 anos de análise foi afetada por incêndios 16 anos, em média de dois em dois anos.
Como podemos observar no mapa 4, os incêndios de 2017 marcaram o concelho negativamente, e por ser um ano atípico pelos fatores vividos nesse ano, mais propriamente a 15 de outubro, não foi considerado no presente estudo.
Podemos com isto concluir que nos últimos 20 anos, a área de estudo, ou melhor parte dela, ardeu 7 vezes (2003,2005,2010,2011,2013,2015,2017,2022), o que torna o território menos resiliente à instalação de novas espécies.
Relação entre incêndios num intervalo de 12 anos:
O presente estudo teve como objetivo relacionar a relação entre o coberto vegetal e a suscetibilidade e a severidade dos incêndios rurais, para isso foram escolhidos dois incêndios num intervalo de 12 anos. Estes dois incêndios não foram escolhidos ao acaso, foram escolhidos não só pela grande área ardida, mas porque mais de 300 ha dos 460 ha do incêndio de 2022, ocorreu no território que ardeu no ano de 2010, como podemos observar no mapa 5.

Mapa 5 – Áreas Ardidas 2010-2022, Vila Mendo de Tavares
Por outro lado, estes incêndios ocorreram em condições diferentes, o que nos leva a concluir não só do efeito negativo e a influência das alterações climáticas na propagação dos incêndios florestais, mas que os combustíveis existentes são bastante inflamáveis e a velocidade de propagação é cada vez mais rápida e de difícil combate por parte dos operacionais.
O incêndio ocorrido a 10 de agosto de 2010, arderam 1010 hectares, o incêndio deflagrou por volta das 11:00, com instabilidade atmosférica e com temperatura de 31 º C (2 dias).
O incêndio ocorrido a 13 de junho de 2022, arderam cerca de 460 hectares, deflagrou por volta das 02:04 com temperaturas de 21ºC. (1 dia). Início de incêndio numa zona de matos (urzes), com uma progressão rápida. O reacendimento, as 13:30 de dia 14 de junho de 2022, mostrou-se com elevada intensidade, resultado da intensidade do vento e mudanças sucessivas de direção, assim como uma temperatura máxima de 35º.
Como referido anteriormente 90% da área ardida do incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022, era território ocupado por urzes, tojo e giestas, que segundo o modelo de inflamabilidade do ICNF, são espécies muito inflamáveis de 60 cm a 2 metros de altura, em que o fogo se propaga abaixo das árvores, em relação ao comportamento do fogo nestes combustíveis, o incêndio desenvolve-se com teores mais altos de humidade do combustível morto do que outros modelos, isto impulsionado pela natureza mais inflamável dos outros combustíveis vivos existentes.
Suscetibilidade vs Severidade do Incêndio de Vila Mendo de Tavares, 2022
Um dos objetivos deste trabalho é a relação do coberto vegetal com a suscetibilidade e a severidade dos incêndios rurais e se, existe uma dependência e uma relação entre ambos. Nos mapas 6 e 7 podemos observar que o incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022, a severidade não tem relação direta com a suscetibilidade de incêndio rural, segundo o modelo de análise de João Carlos Verde e José Luis Zêzere, o que nos leva a concluir que existe outros fatores que influenciaram a severidades deste incêndio, para além do coberto vegetal.

Mapa 6 – Suscetibilidade de incêndio Rural na área ardida do Incêndio de Vila Mendo de Tavares de 2022
Para uma análise mais detalhada e criação de um mapa de severidade com imagens satélite do Sentinel 2 com resoluções de 20 e 10 metros antes e após o incêndio, tratamento dessas imagens com as ferramentas SIG (DNBR, MDVI), para manipulação de dados estatísticos.
No mapa 7, e com uma breve visita à área de estudo foi evidente que para além do coberto vegetal ardido, e a sua recuperação desde o incêndio, as zonas que apresentaram severidade média-alta, grande parte delas são zonas com declives moderado a acentuado, por outro lado zonas em que o coberto vegetal é pinheiro-bravo o incêndio progrediu às copas, o que provavelmente levou a uma severidade média-alta em zonas com declive pouco acentuado.
Outro aspeto importante a ter em conta é que a geologia do território, é a base granítica que pode impossibilitar a instalação de outras espécies de vegetação, como o caso do pinheiro- bravo e o eucalipto ainda existente perto da interface urbana de Abrunhosa-à-Velha e Vila Mento de Tavares.

Mapa 7 – Severidade do Incêndio de Vila Mendo de Tavares (13 de junho de 2022)
Conclusão
Com a realização deste trabalho, concluímos que a relação entre o coberto vegetal é sem dúvida uma das variáveis a ter em conta quando estamos a analisar a suscetibilidade dos incêndios florestais. Esta relação é clara tendo o coberto vegetal, um papel importante para ajudar a prevenir e reduzir a intensidade dos incêndios, porém, com as alterações ao longo dos anos e a alteração do manto florestal para matos podem aumentar a suscetibilidade e a severidade dos incêndios.
Por outro lado, acreditamos que na zona de estudo e em comparação a muitas outras, um pouco espalhadas por Portugal, mais a norte do país, é difícil a instalação de novas espécies, devido aos sucessivos incêndios, impulsionando a instalação de espécies invasoras, devendo ser criadas medidas de mitigação, para um ordenamento do território florestal sustentável e com uma maior rentabilidade económica.
Com o estudo da severidade de incêndio rural, e com as variáveis existentes no dia do incêndio de Vila Mendo de Tavares de 13 de junho de 2022, é evidente que em zonas em que o coberto vegetal, com pouco teor de humidade, como é o caso das urzes, tojo e giestas, de dia e noite nos meses de verão, quando ocorre uma ignição existe uma rápida e violenta progressão dos incêndios, o que torna o combate mais difícil para os operacionais no terreno.
Deste forma, é importante que os atores da Proteção Civil e a população em geral adotem práticas de controlo e prevenção adequados dos terrenos e um eficaz ordenamento do território, de forma a prevenir e combater os incêndios rurais, protegendo assim o meio ambiente e as populações.
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