A africanização impulsionada por Spínola consistia no «recrutamento de africanos com algum nível de instrução, aumentando o número de nativos armados a combater ao lado dos portugueses na Força Militar Africana formada a partir do Centro de Instrução de Milícias.»
Spínola dizia: «formar uma força africana para tomar conta da Guiné, para uma Guiné livre e independente, entregue a si mesma e aos seus filhos, inserida no espaço cultural português.» Era um conceito de africanização que, nem em Angola ou Moçambique, se praticava. Dez mil homens milícias, era obra!
«Estes homens acreditavam e aceitavam o desafio com a esperança na independência e autonomia. Os capitães da Guiné, militares da milícia, «passaram a receber um salário», foi até criado um «quadro militar específico.» Companhias havia, em que, «desde o comandante até ao soldado, todos eram africanos.»
Nem outros países «como a França, a Inglaterra ou a Holanda e nem mesmo os americanos na guerra do Vietname haviam integrado e organizado os nativos como na Guiné foi feito.» O exército tinha-se tornado mais africano do que português. Não se tem conhecimento de uma «operação militar composta por quinhentos homens, em que apenas quatro comandantes eram brancos, contra soldados africanos, a não ser na Guiné!»
Assim se combatia, se acreditava e se morria pela ideia: «A Guiné para os guinéus.»
Para o PAIGC, estes africanos só lutavam ao lado dos portugueses, pela contrapartida económica, «sem qualquer ideal patriótico», aliás, por muito que adquirissem posição junto dos militares portugueses, nunca seriam iguais a eles. Deste modo, Spínola estava a «colocar africanos contra africanos.»
A Rádio Conacri não abdicava de transmitir a propaganda do PAIGC, sempre na tentativa de dissuadir estes africanos que engrossavam as fileiras militares portuguesas, mas sem resultado. É, pois, natural, que «o PAIGC visse esses africanos como inimigos e quando os apanhava em combate, ao lado dos portugueses, tratava-os como traidores, não permitindo que sobrevivessem, distinguindo-os dos brancos capturados, os quais, fazia prisioneiros de guerra.»
Este processo de africanização iniciado em 1968, com a chegada de Spínola à Guiné, no espaço de dois anos, conseguiu colocar as tropas portuguesas em posição de domínio do conflito armado. Depois, foi começar a reocupar as regiões libertadas.
A estratégia era reorganizar «formando uma quadrícula de dezoito batalhões de caçadores, criando nas áreas mais disputadas comandos operacionais que fossem mudando de lugar, conforme a evolução da guerra.»
A quadrícula, mais parece o jogo do galo esculpido na rocha, como no antigo Egipto. Um tabuleiro de combinações entre oponentes e oportunidades, que Carlos não concebe e também não lhe interessa interpretar.
«Com a construção de novas estradas, esta mobilidade tornava-se mais fácil.» Começaram a fazer-se operações eficazes e violentas contra o PAIGC, «intervenções de comandos e de pára-quedistas, apoiadas pela artilharia e aviação, destacando-se o uso de helicópteros, para romper o equilíbrio de forças.»
Agora, «os bombardeamentos e os assaltos» faziam-se «recorrendo à aviação.» Para o PAIGC, os helicópteros «eram ameaçadores.» Amílcar Cabral redigiu então um «documento explicativo do aparelho e das suas características, referindo os pontos fortes e os pontos fracos, bem como a melhor forma de o alvejar, tendo para isso de proceder à formação de caçadores de helicópteros», considerada a novidade dos portugueses.
Os helicópteros ofereciam muitas vantagens: a facilidade de «colocar tropas em qualquer lado e, assim, causar o efeito surpresa, reconhecimento do terreno, evacuar feridos e recolher armamento.» Para além dos helicópteros havia os aviões que lançavam napalm.
Perante isto, o PAIGC «teve de retaliar, criando novos métodos de resposta, melhorando a acção da sua infantaria, reforçando a acção da artilharia e adquirindo novas armas», como foi o caso das metralhadoras soviéticas. Nesta altura, um grupo de cabo-verdianos do PAIGC foi treinado na URSS, o que veio beneficiar as suas acções através de bombardeamentos, com o propósito de causar desgaste psicológico e danos materiais às tropas portuguesas.
A africanização era uma bandeira com duas faces, a face da integridade e a face da controvérsia. Uma faca não-herbertiana de dois gumes, o gume que corta a água e o gume que corta o ar.
No final de cada combate, nem os vencedores amam a guerra!
