As Demonstrações de Imaterialidade nos Jogos Olímpicos

Ensaio produzido no Seminário de Património Imaterial para a docente Professora Doutora Raquel Henriques na NOVA FCSH.

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Figura 1 – Símbolo dos Jogos Olímpicos
Fonte: Comité Olímpico Internacional (COI)

Introdução:

Procurarei aqui estabelecer de que modo os Jogos Olímpicos podem ser considerados enquanto práticas culturais imateriais, utilizando mais especificamente as suas cerimónias de abertura enquanto principal foco de debate, devido à sua natureza cultural e política. Tentarei realizar, inicialmente, uma breve contextualização histórica em torno deste evento importantíssimo a nível global e, aliando-me a referências bibliográficas, bem como a recursos visuais, procurando desenvolver uma proposta prática de intervenção de modo a abordar esta vertente cultural do desporto, e de como este pode estabelecer uma conexão com a cultura.

A conceptualização dos Jogos Olímpicos enquanto património cultural imaterial fundamenta-se na definição estabelecida pela Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO (2003), que entende por património cultural imaterial “«(…) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural.”[1]. Com base nesta definição, é possível enquadrar os Jogos Olímpicos, especialmente através das suas cerimónias, nos domínios das “artes do espectáculo” e das “práticas sociais, rituais e eventos festivos”, conforme estabelecido pela mesma Convenção.

O desporto é algo que faz parte da Humanidade desde que esta se organiza em sociedade. É algo que sempre esteve na natureza Humana, e sempre vai estar. Para além de ser uma ferramenta competitiva, o desporto é também um instrumento de formação, que visa a implementação de determinados valores socioculturais, seja em quem o pratica, seja em quem o assiste. O exemplo histórico disso mesmo é o caso dos Jogos Olímpicos, cuja organização, por sua vez, procura desde sempre apostar naqueles que são os “Valores Olímpicos”. Segundo o Comité Olímpico Internacional, estes valores são: a “Excelência”, “Respeito” e “Amizade”, os quais tentam cumprir a ideia de que os Jogos Olímpicos devem celebrar a atividade desportiva, pondo, deste modo, as rivalidades de lado, porque “é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa”[2].

Metodologia:

Este estudo foi baseado numa abordagem qualitativa focada na análise documental e nos estudos de caso utilizados para comparação. A metodologia empregue combina a análise de fontes primárias (documentos oficiais do COI, registos audiovisuais das cerimónias) com fontes secundárias (literatura académica em torno da temática do património imaterial, e estudos olímpicos).

Deste modo, foram selecionados três casos paradigmáticos: os Jogos de Berlim 1936, Los Angeles 1984 e Pequim 2008, que ilustram diferentes formas de instrumentalização cultural dos Jogos Olímpicos. A análise das cerimónias de abertura baseia-se nos cinco domínios do património imaterial estabelecidos pela UNESCO (2003): tradições e expressões orais; artes do espectáculo; práticas sociais, rituais e eventos festivos; conhecimentos e práticas relacionados com a natureza; e técnicas artesanais tradicionais.

A selecção dos casos de estudo obedeceu aos seguintes critérios: relevância histórica, impacto mediático global, inovação nas práticas cerimoniais e representatividade de diferentes contextos geopolíticos. Esta abordagem permite uma análise comparativa que evidencia as transformações das práticas culturais olímpicas ao longo dos séculos XX e XXI.

Breve História dos Jogos Olímpicos:

Os Jogos Olímpicos são, indiscutivelmente, a maior prova desportiva da História da Humanidade. O primeiro registo deste evento, que serviria enquanto uma celebração a Zeus, remonta ao ano de 776 a.C., em Olímpia. Os Jogos seriam, deste modo, uma cerimónia religiosa sagrada, que se realizava de quatro em quatro anos, e que parava o “Mundo Grego”, fazendo com que, desse modo, se apaziguassem disputas armadas[3]. Estes eram vistos como eventos de tal importância que os autores clássicos de História denominavam o tempo entre Jogos como “Olimpíada”[4]. No ano de 394, já durante o domínio de Roma, o Imperador Teodósio I aboliu a realização dos Jogos Olímpicos, devido ao Paganismo inerente a este festival, no qual estavam representadas modalidades como, por exemplo, o Pancrácio e a Corrida de Cavalos[5].

Foi apenas em 1896 que se voltou a realizar outra edição dos Jogos Olímpicos. Esta iniciativa, fruto da insistência e determinação de Pierre de Coubertin, William Penny Brookes, Dimítrios Vikélas e William M. Sloane, ficou marcada não apenas pelo fascínio que estas personalidades nutriam pela Cultura Clássica, como também pela procura da criação de uma competição desportiva que funcionasse enquanto um órgão promotor do entendimento internacional das pessoas deste Mundo[6].

Nos dias de hoje, os Jogos Olímpicos são vistos enquanto o evento desportivo de maior importância à escala global, uma vez que atraem atletas de mais de 200 nações[7] de dois em dois anos, alternando entre Jogos Olímpicos de Verão e Inverno. Deste modo, é possível referir que este autêntico festival da Humanidade se encontra na vanguarda daquele que é o palco desportivo internacional, constituindo aquilo que Maurice Roche considera enquanto “mega-evento”, ou seja, eventos de larga escala com impacto global significativo na cultura, política e economia[8].

Os Jogos Olímpicos Enquanto Património Cultural Imaterial: Enquadramento Teórico

Para compreendermos os Jogos Olímpicos enquanto património cultural imaterial, é essencial analisá-los através dos cinco domínios estabelecidos pela Convenção da UNESCO (2003):

Artes do Espectáculo: As cerimónias olímpicas podem constituir manifestações artísticas complexas que integram em si aspetos como é o caso da música, dança, teatro e as artes visuais. Estas autênticas performances transformam elementos culturais locais em espectáculos globais, criando desse modo novas formas de expressão artística que transcendem as fronteiras nacionais, e que se transformam em autênticos rituais[9].

Práticas Sociais, Rituais e Eventos Festivos: Os Jogos Olímpicos enquadram-se claramente neste domínio, na medida em que constituem práticas sociais que proporcionam às comunidades um sentimento de identidade e de continuidade, aspeto que será abordado mais à frente. Os rituais olímpicos, desde o acender da tocha, ao juramento dos atletas, estabelecem uma continuidade temporal que liga o passado grego ao presente global[10].

Transmissão e Salvaguarda: A questão da transmissão, fundamental no conceito de património imaterial, manifesta-se nos Jogos através da educação olímpica, dos programas de voluntariado e da própria mediatização do evento. O património cultural imaterial não é, por isso, algo que possa existir intrinsecamente, mas sim algo construído através dos processos de transmissão e do reconhecimento comunitário[11].

Os Jogos Olímpicos e a Sua Relação com a Cultura:

Ainda que o fenómeno dos Jogos Olímpicos possa ser mais comumente remetido ao panorama desportivo, é possível ligá-lo às artes e à cultura desde o seu ressurgimento em 1896, na medida em que os programas culturais, isto é, as competições artísticas ou festivais, são um campo privilegiado para se consolidarem simbologias[12], que irei mencionar mais à frente no ensaio.

É possível definir a relação que as artes e a cultura exibem para com os Jogos Olímpicos em três períodos temporais[13]: no primeiro, de 1896 a 1912, as competições de artes e a cultura não estavam formalmente inseridas nos Jogos; foi a partir dos Jogos de Estocolmo (1912) até aos de Londres (1948) que começaram a existir as chamadas “Olimpíadas Culturais”[14]; e por fim, desde os Jogos de Melbourne 1956 aos de Barcelona 1992, tendo este último marcado uma mudança paradigmática neste tipo de representação cultural.

De modo a compreendermos esta relação entre a cultura e os Jogos Olímpicos, é importante referir que Pierre de Coubertin, não se limitou apenas a reviver este festival desportivo da Antiguidade, uma vez que, com a inclusão de um programa artístico, procurou alcançar a dimensão cultural e artística dos Jogos originais, desenvolvendo um “Espírito Olímpico” que, de modo a replicar os comportamentos adotados pelos atletas, filósofos, poetas, músicos e escultores da antiguidade, visava o cumprimento da premissa de que o corpo, espírito e mente estão conectados. Para isso, Coubertin usou a palavra eurhythmy para designar o “casamento harmonioso do desporto e da cultura, atletismo e arte, músculo e mente”[15].

Foi só a partir de 1912, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, que estas dinâmicas culturais passaram a ser postas em prática, uma vez que, paralelamente às competições desportivas, começaram a ser organizadas competições artísticas, onde os artistas passaram, tal como os atletas, a competir por medalhas. O caminho destas “Olimpíadas Culturais” foi algo inconstante e polémico uma vez que existia uma certa dificuldade na implementação das mesmas[16], talvez por determinadas medidas tomadas pelo Comité Olímpico Internacional (COI), como o facto de ter sido determinado que a criação artística teria de estar ligada ao desporto, ou mesmo devido ao julgamento, muitas das vezes subjetivo, das obras realizadas. Deste modo, conforme os anos foram passando, as “Olimpíadas Culturais” começaram a ocupar um lugar periférico na organização dos Jogos, com exceção dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, nos quais houve um investimento financeiro e institucional extraordinário por parte do regime Nazi[17].

O período entre os Jogos Olímpicos de Melbourne 1956 e os Jogos Olímpicos de Barcelona 1992 marcaram uma mudança paradigmática na relação entre a cultura e os Jogos, na medida em que, em oposição às “Olimpíadas Culturais” de outrora, começaram a realizar-se uma enorme variedade de formatos de programação cultural, assumindo a forma de exposições e festivais em vez da vertente artística competitiva, nas cidades onde os Jogos se sediavam. Estão incluídas nesta variedade de formatos culturais a realização de não apenas feiras/festivais, como também as cerimónias de abertura e encerro. É, portanto, nestas cerimónias que me apoiarei para tentar provar a ideia inicial que propus.

As Cerimónias de Abertura Enquanto Prática Cultural Imaterial:

Tal como referi acima, os Jogos Olímpicos são um fenómeno que une a Antiguidade com a Contemporaneidade. A natureza física do desporto, a diplomacia e a partilha de identidade cultural, são aspetos recorrentes nestes Jogos, que estão cobertos de simbolismos. Por exemplo, o logo dos Jogos, o símbolo dos cinco anéis (fig.1) representa os cinco continentes, interligados em harmonia. Assim sendo, o sentimento Olímpico estabelece-se enquanto uma filosofia que promove a cultura e a educação através do desporto, uma vez que as cidades que recebem os Jogos Olímpicos são convidadas a partilhar os seus costumes, tradições e património. Deste modo, e com o fim das “Olimpíadas Culturais”, o que se estabeleceu enquanto verdadeiro destaque cultural nos Jogos, foram as cerimónias de abertura e de encerro. Estas cerimónias, em particular a de abertura, constituem-se enquanto ocasiões para as nações projetarem a sua identidade e valores para o Mundo[18].

Uma imagem com relva, estádio, céu, ar livre

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Figura 2 – Reichssportfeld (atual Olympiapark Berlin)
Fonte: Michael Barera

O exemplo dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936, Los Angeles 1984 e Pequim 2008, vão ser abordados por Kevin Mulcahy enquanto “megaeventos que globalizam a identidade”[19]. É, portanto, através das cerimónias de abertura destes eventos, e tendo como referência a obra do autor citado acima, que pretendo explicar de que modo é que os Jogos Olímpicos se estabelecem enquanto prática cultural imaterial.

Uma imagem com vestuário, pessoa, homem, barco

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Figura 3 – Cerimónia de Abertura de Berlim ‘36
Fonte: DW

Iniciando de maneira cronológica, é necessário mencionar que os Jogos Olímpicos de Berlim foram um festival cultural sem precedentes quanto ao seu tamanho e natureza[20], e que, por razões óbvias e tendo em conta o teor histórico, são considerados como sendo o evento mais controverso da história Olímpica, muito por conta do uso propagandístico que o regime Nazi deu ao mesmo, usando-o de modo a legitimar os seus princípios, como bem se pode observar no filme Olympia, de Leni Riefenstahl. Apesar da hesitação inicial em relação à receção dos Jogos[21], estes foram notáveis não apenas na construção dos Estádios Olímpicos[22], como também pela variedade de inovações, muitas delas ainda hoje utilizadas. Este evento Olímpico foi o primeiro a desenvolver uma transmissão televisiva, fator que permitiu aos Jogos começarem a ser verdadeiros megaeventos, configurando-os como um espetáculo desportivo globalizado. Ainda que a inovação tecnológica tenha sido relevante, a cerimónia de abertura (fig.3) foi o grande epítome deste espetáculo[23]. Inicialmente, Hitler foi proclamado enquanto o “protetor destes jogos Olímpicos”, e Theodor Lewald, o Presidente do Comité Olímpico Alemão, decretou as conexões de sangue entre os alemães e os gregos antigos[24]. Foi também a partir destes Jogos que se deu início à tradição da passagem e ignição da tocha Olímpica, que foi transportada por atletas, de mão em mão, até chegar a Berlim, tal como consta no filme Olympia[25]. Todavia, a cerimónia de abertura dos Jogos de 1936, apesar de pomposa, ficou marcada pela sua controvérsia, na medida em que esta serviu enquanto palco para a celebração de Hitler, do seu regime e dos Jogos Olímpicos, seguindo essa ordem de importância[26]. A cerimónia de abertura de Berlim’36 é tida em conta como uma forma de o regime Nazi promover a sua ideologia política, especialmente quando o líder alemão entra pelos portões da maratona, ao som de trompetes e com o levantar de suásticas vermelhas, demonstrando símbolos culturais contrastantes da nação anfitriã. Podemos observar não apenas estes elementos, mas também, a ideia de como o Homem deve ser[27], e através do filme de Rienfenstahl, conseguimos observar Hitler a sair de cena quando atletas negros sobem ao pódio. Deste modo, é possível estabelecer que a organização dos Jogos Olímpicos de Berlim 1936 procurou a criação de uma imagem completamente cinemática em torno do seu regime, estabelecendo-se como o verdadeiro precedente no uso das cerimónias de abertura enquanto instrumento para demonstrar a imagem que a nação organizadora dos Jogos deseja projetar de si ao público geral[28].

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Figura 4 – McDonald’s Swim Stadium (atual Uytengsu Aquatics Center)
Fonte: University of Southern California

Em contrapartida a Berlim‘36, os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 estabelecem-se como um exemplo claro de “gestão privada”, uma vez que o Comité que organizou os Jogos foi estabelecido por uma empresa privada cujo departamento cultural contratou agências que organizaram a vertente cultural do evento, enquanto co-produtores[29]. Portanto, apesar de estes Jogos serem considerados por Mulcahy como os “Jogos da Guerra Fria”[30], o enfoque dos mesmos não está principalmente relacionado com o aspeto nacionalista, tal e qual como observamos no caso de Berlim’36. O aspeto caracterizante está, deste modo, relacionado, primeiramente, com facto de a organização se ter apoiado principalmente em parcerias com corporações privadas, de modo a angariar fundos para estes “Jogos Olímpicos de financiamento privado”[31]. Podemos observar que este investimento privado se estendeu ao Património Edificado, uma vez que muitos recintos desportivos adotaram o nome das marcas patrocinadoras, como é o caso do McDonald’s Swim Stadium (fig.4.), em Los Angeles, e que este capital inicial se mostrou muito proveitoso para a economia local e para o Programa Desportivo Americano[32].

Uma imagem com céu, ar livre, ar, bandeira

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Figura 5 – Voo de homem equipado de uma mochila a jato – LA ‘84
Fonte: UOL

Deste modo, Los Angeles ’84 mudou, com certeza, a natureza dos Jogos Olímpicos, na medida que, em vez de ser um evento que extrai fundos imensos aos cofres estatais, característica de muitos Jogos, este é capaz de transformar os Olímpicos em lucro. Justifica-se, deste modo, a afirmação de que “Tudo estava para venda em 1984 em Los Angeles”[33], na medida em que até mesmo o transporte da tocha Olímpica, durante a cerimónia de abertura, foi colocado à venda[34]. No entanto, e segundo Mulcahy (2017), esta autêntica Hollywoodização cultural, apesar de contribuir para uma total americanização das cerimónias de abertura[35], uma vez que se opõe aos valores tradicionais das cerimónias Olímpicas, foi a única solução, e a razão para o sucesso dos Jogos, que ficaram deste modo marcados pela ideologia económica americana, cuja qual procurava provar e projetar a superioridade dos valores americanos em contrapartida com os soviéticos, justificando desta maneira a relação dos Jogos com a Guerra Fria. Deste modo, fica visível o facto de que a organização americana procurou criar uma ligação filmográfica entre o espectador e o evento, contribuindo para a glorificação aos Estados Unidos enquanto verdadeiros criadores culturais, que ditam as modas, cujas iniciativas acabam por moldar a cultura global.

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Figura 6 – Fogos de Artificio – Pequim ‘08
Fonte: NBC News

É seguro afirmar que receber um evento à escala dos Jogos Olímpicos é um passo importante para o reconhecimento do anfitrião à escala mundial e o caso de Pequim ’08 é um ótimo exemplo disso mesmo. A aceitação internacional é algo que a República Democrática da China veio a procurar desde que o seu governo foi reconhecido pelos Estados Unidos da América em 1979[36], e receber o direito de organizar os jogos Olímpicos veio demonstrar o anuimento da China enquanto uma grande e antiga nação, que rapidamente se desenvolve enquanto sociedade[37].

Uma imagem com água, captura de ecrã, noite, luz

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Figura 6 – Pintura de Pergaminho Gu Qin & Shanshui – Pequim ‘08
Fonte: NBC News

Durante a sua cerimónia de abertura, a organização chinesa procurou realizar um contraste entre a sua tradição e a continuidade histórica, demonstrando harmonia e disciplina com um espetáculo de fogos de artifício (fig.6), a representação da pintura de pergaminho Gu Qin & Shanshui (fig.7) e o rufar de 2008[38] tambores (fig.8) que tocaram em uníssono, criando, deste modo, um espetáculo cuja disciplina dos executantes demonstra claramente a grandeza de uma nação. Esta cerimónia de abertura, que foi a mais cara de toda a História Olímpica[39], é utilizada, segundo Mulcahy (2017), enquanto simbologia para o desenvolvimento das pessoas da China, na medida em que demonstram a tradição da cultura imperial chinesa e uma mensagem de precisão, de arte, e de energia do povo chinês.

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Figura 7 – O tocar de 2008 tambores – Pequim ‘08
Fonte: NBC News

É ainda necessário referir que, apesar de a politização dos Jogos Olímpicos não ter começado em 2008, tal como pude observar com uma abordagem realizada aos outros dois eventos, a cerimónia de abertura de Pequim ’08 foi uma clara promoção dos valores benevolentes[40] que o novo líder socialista chinês queria transmitir ao mundo, funcionando mesmo como um exercício de diplomacia suave, que cria um efeito positivo, de aproximação mundial ao regime, fazendo com que os Jogos sirvam, deste modo, enquanto um reforço de valores culturais tradicionais, bem como a organização e empenho demonstrado pela população chinesa da atualidade.

Em suma, é importante referir o estado em que se encontravam as “Olimpíadas” anteriormente referidas. As iniciativas culturais desenvolvidas nos Jogos Olímpicos de Berlim 1936 basearam-se na ideia de que este evento seria transmitido para todo o mundo para, de certo modo, publicitarem os seus ideais com a criação de uma campanha cultural, que foi utilizada enquanto um mecanismo que visava tornar o discurso político da Alemanha Nazi mais visível a nível Mundial, nela englobando iniciativas como é o caso da primeira ignição da Tocha Olímpica, e a criação do primeiro filme com a temática Olímpica; no caso Jogos de Los Angeles 1984, que se deram durante um período da História marcado por uma autêntica batalha cultural entre EUA e União Soviética, a comissão organizadora americana procurou provar e legitimar a superioridade cuja qual acreditavam ter sobre os seus adversários políticos através de um planeamento assente em patrocínios corporativos que, com base numa total “americanização” dos Jogos, adotando iniciativas como é o caso da entrada de um homem munido de uma mochila a jato, durante a cerimónia de abertura, tornaram este evento nos Jogos Olímpicos mais bem sucedidos, economicamente falando, da História[41]; já no caso de Pequim ’08, a “Olimpíada Cultural” foi composta por festivais anuais que se prolongaram de 2003 a 2008, os quais duravam um mês, contando com uma variedade autêntica de eventos culturais e artísticos, que por sua vez, destacaram a diversidade cultural da China, muito observada durante a cerimónia de abertura dos Jogos, que fomentando um autêntico sentimento de pertença e unidade nacional através dos espetáculos de fogos de artifício e dos rufares de tambores, apoiou politicamente o líder chinês, de modo a que a imagem projetada do país para o mundo fosse sempre reflexo de disciplina, organização, benevolência, eficiência e capacidade tecnológica, com o intuito de demonstrar a China como uma potência global emergente[42].

Questões Críticas: Desafios da Patrimonialização Olímpica:

Autenticidade versus Espectáculo: Uma das questões centrais para a consideração dos Jogos Olímpicos enquanto património imaterial reside na questão da autenticidade. As cerimónias olímpicas constituem performances que oscilam entre a genuína expressão cultural e a representação teatralizada para consumo global, e tendo a UNESCO (2003) estabelecido que o património imaterial deve ser “transmitido de geração em geração” e “constantemente recriado pelas comunidades”, no caso olímpico isto não se regista, na medida em que a transmissão dá-se através de múltiplos canais como é o caso: da educação olímpica nas escolas, dos programas de voluntariado, da formação de técnicos e dirigentes, e da própria mediatização global do evento.

Comercialização e Integridade Cultural: A crescente comercialização dos Jogos Olímpicos tem vindo a levantar questões sobre a preservação da integridade das práticas culturais associadas às cerimónias. Existe uma tensão constante entre as necessidades de financiamento dos Jogos, e a preservação dos valores olímpicos tradicionais. A introdução de patrocínios comerciais nas cerimónias, a venda de direitos televisivos e a criação de merchandise oficial transformam o património olímpico numa commodity, levantando questões sobre se esta comercialização vai comprometer ou enriquecer as práticas culturais associadas aos Jogos[43].

As Olimpíadas Culturais Atualmente – O Caso de Paris 2024:

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Figura 8 – Galopar de Zeus, o cavalo de metal – Paris 2024
Fonte: NBC News

A última edição dos Jogos Olímpicos deu-se em Paris 2024, regressando à capital francesa passados exatamente cem anos desde a última receção parisiense dos Jogos. É, por isso, necessário indicar e refletir, baseando-me na cerimónia de abertura, de que modo as “Olimpíadas Culturais”, à semelhança das que tive a oportunidade de analisar acima, servem para demonstrar ao mundo a imagem política e cultural de uma nação.

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Figura 9 – Le Festin des Dieux – Paris 2024
Fonte: Olympics, via X

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Figura 10 – A Última Ceia, por Leonardo Da Vinci
Fonte: Santa Maria delle Grazie

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Figura 11 – Le Festin des Dieux, de Jan Van Biljert
Fonte: Musée Magnin Dijon

Durante a cerimónia de abertura, os pontos que se mais se destacaram foram o galopar de Zeus, um cavalo montado por um cavaleiro, ambos feitos de metal, cujo qual munia a bandeira Olímpica sobre as suas costas, e que se deslocava sobre o rio Sena (fig.8); e a representação elencada por drag queens (fig.9), que levou uma parte do público e alguns comentadores e políticos[44] a acreditar que era uma paródia dirigida à pintura de Leonardo Da Vinci: A Última Ceia (fig.10), mas que, no entanto, teve a sua inspiração na pintura do século XVII, Le Festin des Dieux (fig.11), de Jan Van Biljert, fazendo com que, deste modo, a representação escolhida por Thomas Jolly[45], diretor do espetáculo, para a cerimónia de abertura, pouco estivesse relacionada com o Cristianismo, uma vez que, esta representação, está infinitamente mais conectada ao passado grego dos Jogos Olímpicos. Importante será referir ainda que o espetáculo de Zeus, o cavalo de metal, mostrou-se como um símbolo de resiliência, paz e solidariedade, fazendo com que o galopar se transformasse num autêntico feito de engenharia, que intercala a arte e a tecnologia. Já no caso da representação polémica da pintura Le Festin des Dieux, a inspiração na mitologia, apesar de para muitos não ter sido explícita, pretendia fazer referência à cultura grega, bem como utilizar o tableau vivant[46], de modo a conectar a Grécia Antiga com a França atual, utilizando o Le Festin des Dieux enquanto uma maneira de demonstrar a falta de harmonia, e a completa diversidade que conseguimos compreender na sociedade moderna.

Fica claro, portanto, que apesar das constatações e da polémica, a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 veio tentar, através destes espetáculos culturais, demonstrar tanto os valores de excelência e inovação, bem como os valores da tolerância, igualdade e diversidade. Todavia, a organização dos Jogos não se encontra minimamente preocupada com o facto de as camadas mais conservadoras de espectadores, políticos e comentadores, considerarem que as cerimónias não devem ter shows de drag queens lá representadas, uma vez que faz questão em ir contra os processos de exclusão deste tipo de arte.

Vitalidade e Adaptação Contemporânea:

A cerimónia de Paris 2024 vem demonstrar a capacidade de adaptar o património olímpico ao integrar questões contemporâneas como é o caso da diversidade de género, da inclusão LGBTI+ e da sustentabilidade ambiental. Esta adaptação exemplifica aquilo que a UNESCO (2003) designa como “vitalidade” do património imaterial, ou seja a sua capacidade de se renovar mantendo a sua relevância social. O espetáculo de Zeus, o cavalo de metal, mostrou-se, deste modo, enquanto um símbolo de resiliência, paz e solidariedade, fazendo com que o seu galopar se transformasse num autêntico feito de engenharia, que intercala a arte e a tecnologia. Esta fusão entre tradição mitológica e inovação tecnológica ilustra a maneira como o património imaterial pode incorporar elementos contemporâneos sem que se perca a sua ligação às origens históricas.

Conclusão e Reflexão:

Com o decorrer deste ensaio, dediquei-me a explorar e identificar de que maneira os Jogos Olímpicos transcendem a esfera desportiva e se consolidam enquanto uma prática cultural imaterial, na medida em que conectam valores históricos, sociais e artísticos. A análise desenvolvida, baseada nos casos de Berlim 1936, Los Angeles 1984, Pequim 2008 e Paris 2024, demonstra que as cerimónias olímpicas constituem manifestações complexas de património cultural imaterial uma vez que operam simultaneamente local, nacional e globalmente.

A aplicação do quadro conceptual da UNESCO (2003) aos Jogos Olímpicos revela que estes se enquadram claramente nos domínios das “artes do espectáculo” e das “práticas sociais, rituais e eventos festivos”. A sua natureza de património imaterial manifesta-se através de múltiplas dimensões: a transmissão intergeracional de valores e práticas; a capacidade de adaptação e renovação; e o reconhecimento comunitário da sua importância cultural.

Os casos de estudo analisados evidenciam também os desafios e tensões inerentes à patrimonialização de eventos de escala global. A instrumentalização política (Berlim 1936), a comercialização (Los Angeles 1984) e a utilização como instrumento de soft power (Pequim 2008) demonstram que o património olímpico não é neutro, uma vez que é constantemente negociado e ressignificado, de acordo com interesses específicos.

A evolução das cerimónias olímpicas, desde as primeiras transmissões televisivas de 1936 até às inovações digitais contemporâneas, ilustra a capacidade adaptativa deste património cultural. Deste modo, conclui-se que o património não é algo que existe objetivamente, mas sim algo que é constantemente construído e reconstruído através de processos de seleção, interpretação e transmissão[47].

Contributos para a Teoria do Património Imaterial:

O estudo desenvolvido procurou contribuir para a literatura focada no património imaterial ao demonstrar de que modo as práticas culturais contemporâneas podem adquirir o estatuto patrimonial através da sua capacidade de mobilizar comunidades em torno de valores partilhados. Deste modo, buscou também comprovar-se que os Jogos Olímpicos constituem um caso único de património imaterial, na medida em que são simultaneamente um fenómeno global, na sua escala, e local, na especificidade das suas manifestações.

A análise das cerimónias olímpicas revelou também a importância da mediatização para a construção do património imaterial contemporâneo. Ao contrário das formas tradicionais de património imaterial, que se transmitem através de contacto direto entre comunidades, o património olímpico opera através de redes mediáticas globais, que permitem a participação de milhões de pessoas tanto presencial, quanto virtualmente.

Reflexão Final:

Os Jogos Olímpicos constituem um fenómeno cultural complexo que desafia as categorias tradicionais do património imaterial. A sua escala global, a sua mediatização intensiva e a sua instrumentalização política e comercial vão colocar questões importantes sobre os processos contemporâneos de patrimonialização. Não obstante destas tensões e contradições, os Jogos Olímpicos mantêm a sua capacidade de mobilizar emoções coletivas, de promover valores de excelência, respeito e amizade, e de criar momentos de comunhão global que transcendem diferenças nacionais, étnicas e religiosas. Esta capacidade de criar um significado partilhado através de uma escala global constitui, por si só, uma forma valiosa de património cultural imaterial.

“Mega-eventos” como os Jogos Olímpicos funcionam enquanto “laboratórios sociais” através dos quais se podem experimentar novas formas de organização social e cultural[48]. Assim sendo, o seu estudo e preservação enquanto uma manifestação de património cultural imaterial não se justifica apenas pela sua importância histórica, mas também pelo seu potencial para informar a construção de um futuro mais inclusivo e harmonioso.

A consideração dos Jogos Olímpicos enquanto património cultural imaterial obriga-nos a repensar sobre as nossas concepções em torno da tradição e modernidade, local e global, autenticidade e performance. Ademais, para além de resolver essas tensões, importa reconhecê-las como elemento constituinte da experiência cultural contemporânea, e trabalhar para que a patrimonialização sirva os seguintes propósitos: inclusão, diálogo intercultural e desenvolvimento sustentável.

Em última análise, os Jogos Olímpicos recordam-nos que o património imaterial não reside apenas nas práticas ancestrais das comunidades rurais, mas também nas formas culturais emergentes que respondem aos desafios e oportunidades do mundo atual e globalizado. É nesta capacidade de gerar novas formas de património cultural que reside, talvez, a maior contribuição dos Jogos Olímpicos para a diversidade cultural da Humanidade.

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WILLIAMS, R. (1958). Resources of Hope: Culture, Democracy, Socialism. Culture is Ordinary. Capítulo 9, pp. 3-14.



  1. (UNESCO, 2003).




  2. Comité Olímpico Internacional (https://olympics.com/ioc/olympic-values).




  3. Ao contrário daquilo que se defendeu durante muitos anos, na Academia, a Trégua Olímpica – Ekecheiria – não significaria, segundo David C. Young (2024), um “cessar fogo” entre as polis, mas sim uma trégua para defender Olympia de uma invasão, e proteger os atletas e espectadores que para aqui viajavam.




  4. (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA, 2025).




  5. (International Olympic Commitee, s.d).




  6. (MULCAHY, 2017).




  7. (GAMMELSÆTER, 2019).




  8. (ROCHE, 2000).




  9. (KIRSHENBLATT-GIMBLETT, 2004).




  10. (SEGRAVE & CHU, 1988).




  11. (SMITH, 2006).




  12. (CARNEIRO, 2018).




  13. (GARCÍA, 2010).




  14. Segundo Tony Estanguet (2024), estes consistem num programa cultural que visa demonstrar a proximidade entre o desporto e a cultura, que muitas das vezes são colocados um contra o outro, mas que, no entanto, têm muito em comum. É o caso da performance, das emoções, a busca pela estética do movimento, mas também pela oferta diversificada e multidisciplinar. Deste modo, as “Olimpíadas Culturais” são uma oportunidade de celebrar os valores, o significado e a diversidade, que o desporto e a cultura têm em comum.




  15. (CARNEIRO, 2018).




  16. (HANNA, 1999).




  17. (CARNEIRO, 2018).




  18. (MULCAHY, 2017).




  19. (ibidem, 2017). Este é o título de um capítulo do seu livro “Public Culture, Cultural Identity, Cultural Policy: Comparative Perspectives”, que retrata as cerimónias de abertura dos jogos Olímpicos enquanto uma política cultural.




  20. (GARCÍA, 2010).




  21. Segundo Mulcahy (2017), o Ministro da Propaganda Nazi, Josef Goebbels viu nos Jogos Olímpicos uma grande oportunidade de dar ao regime uma imagem civilizada, ordeira, de modo a desvalorizar o criticismo feito às Leis de Nuremberg (que impediam atletas judeus de competir), e de fortalecer o apoio popular ao regime e a Hitler.




  22. Importante será referir o caso do Reichssportfeld (fig.2.), atual Olympiapark Berlin, que foi construído para albergar eventos de larga escala, onde era possível que se realizassem provas de diferentes desportos ao mesmo tempo. Este é um exemplo claro da arquitetura do regime Nazi, que serviu para demonstrar a grandeza estatal, e que sobreviveu a bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial.




  23. (MULCAHY, 2017).




  24. (ibidem, 2017).




  25. O seguinte link contém o vídeo da versão do filme Olympia com a melhor qualidade que consegui encontrar: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/film/opening-of-1936-summer-olympic-games




  26. (Mulcahy, 2017).




  27. No filme Olympia, de Leni Riefenstahl, podemos observar o ideal Nazi do corpo masculino presente na cerimónia de abertura dos Jogos. Isto é, a importância dada ao corpo Ariano (loiro, alto, másculo), na medida em que o mesmo sendo racialmente superior, deve dominar fisicamente. Segundo Mulcahy (2017), os alemães usaram a cerimónia de abertura para acender a tocha Olímpica metaforicamente, de modo a estabelecerem-se, tal como os Arianos, descendentes, e legítimos herdeiros dos gregos antigos, e da sua cultura.




  28. (MULCAHY, 2017).




  29. (GARCÍA, 2010).




  30. Isto porque o Bloco Soviético tomou uma medida de boicote aos Jogos, como forma de retaliação a um anterior boicote americano nos Jogos de Moscovo (1980), causado pela intervenção soviética no Afeganistão, em 1978. O boicote soviético juntou mais de 16 nações (de 138) que não participaram no evento – o maior número de sempre, nos Olímpicos. Estes jogos, de 1980 e 1984, em semelhança à Guerra Fria, serviram como ocasiões perfeitas para ambos os polos, americano e soviético, partilharem a superioridade da sua ideologia. Os Jogos Olímpicos são, mais uma vez, palco de propaganda política.




  31. (MULCAHY, 2017).




  32. Segundo a BRITANNICA (2025), os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 geraram um lucro de $225 milhões que foram reencaminhados apenas para os Programas Desportivos Americanos, sendo que as universidades puderam construir melhores instalações, e se criaram melhores condições desportivas. Ainda assim, estima-se que os Jogos injetaram um estimado de $2.4 mil milhões na economia do Sul da Califórnia, fazendo com que quaisquer cidades com aspirações globais tenha a ambição de ser anfitriã de um evento Olímpico.




  33. (MULCAHY, 2017).




  34. O preço a pagar para carregar a tocha Olímpica era de $3000 por quilómetro. Esta iniciativa angariou $11 milhões, que foram doados a empresas de caridade à escolha dos participantes compradores.




  35. Podemos verificar este aspeto no facto de que, durante a cerimónia de abertura dos Jogos de Los Angeles, um homem entrou no Estádio Memorial Coliseum, sobrevoando-o, e aterrando sobre o logo dos Jogos Olímpicos equipado com uma mochila a jato nas suas costas (fig.5).




  36. Segundo declarações do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China (2022), no ano de 1979, os EUA reconheceram, através do Comunicado Conjunto sobre o Estabelecimento das Relações Diplomáticas China-EUA, que o Governo da República Popular da China era o governo legítimo.




  37. (MULCAHY, 2017).




  38. A numerologia enquanto elemento cultural foi parte integrante desta cerimónia. A cerimónia de abertura começou às 8h da manhã, no dia oito, dos mês oito, do ano de 2008. Nem os 2008 participantes no espetáculo dos tambores, nem outras referências ao número oito foram mera coincidência, uma vez que o número oito é um número da sorte, associado à fortuna e prosperidade no folclore chinês.




  39. Segundo o Gavini (2020), a abertura de Pequim foi a mais cara da história. A China gastou $100 milhões apenas na cerimónia de abertura, mais do que a soma do investimento nos Jogos de Atenas, Londres e Rio de Janeiro.




  40. Segundo Mulcahy (2017), o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jibao queriam construir uma nova visão para uma sociedade socialista harmoniosa, através da procura e sustentabilidade científica, mostrando a China ao mundo. A cerimónia de abertura serviu para isso mesmo, para redefinir a identidade política chinesa, repleta de valores tradicionais e universais.




  41. (LIESER 2015).




  42. (GARCIA, 2008).




  43. (PREUSS, 2004).




  44. No caso português, a deputada do partido CHEGA, Rita Matias criticou a cerimónia dizendo, por suas palavras, que esta “enaltece uma agenda que ataca a inocência das nossas crianças” (via instagram: https://www.instagram.com/ritamariamatias/reel/C-BJjESoycX/).




  45. O qual, numa declaração ao jornal francês BFM TV France, proferiu o seguinte: “Eu acho que foi bastante claro. O Dionísio chegou à mesa… Porque é que ele lá está? Porque é o deus dos festejos, do vinho, e pai de Sequana, a deusa do rio Sena” (via Visão: https://visao.pt/atualidade/desporto/jogos-olimpicos-paris-2024/2024-07-28-nao-era-jesus-mas-dionisio-o-deus-do-vinho-como-uma-indignacao-apressada-desencadeou-uma-grande-polemica-olimpica/).




  46. Trata-se de uma representação de uma obra/pintura feita por um grupo de atores e/ou modelos.




  47. (SMITH, 2006).




  48. (ROCHE, 2000)