Danos severos ao Irão: recordando uma necessidade
Uma ideologia anti-ocidental
Segundo Gregg Roman, o director executivo do Middle East Forum, a oposição ideológica do regime iraniano ao Ocidente e a Israel impossibilita a república islâmica a aceitar restrições permanentes às suas ambições nucleares. Como os clérigos xiitas que governam o Irão fazem questão de encarar o seu país como uma missão, qualquer mudança política que implique sua desnuclearização seria, para eles, um suicídio ideológico. O Irão que conhecemos desde 1979 é exemplo que como a natureza de um regime político se sobrepõe a arranjos e esforços diplomáticos no sentido de abdicar de meios conducentes à produção de armas corrosivas e destruidoras. Sobre isto, recomendo a leitura do meu artigo anterior.
A nuclearização do Irão
Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), em Novembro de 2023, o Irão acelerou o ritmo de produção de urânio a um nível quase suficiente para fabricar armas nucleares. Num relatório publicado no mês seguinte, a mesma agência observou que o país, que já não consegue esconder a sua ambição de dominar o Médio Oriente (e sabe-se lá mais o quê), já produzia aproximadamente nove quilogramas de urânio composto de 60% de urânio-235 enriquecido. Este dado é alarmante porque a maior parte do urânio usado actualmente em armas nucleares é aproximadamente 93.5% urânio enriquecido. O conhecimento desta informação veio num contexto em que o Irão já dava sinais contraditóriso relativamente à diplomacia nuclear e à retoma do acordo assinado a 14 de Julho de 2015, o Plano de Acção Conjunto Global.
O engenheiro iraniano e chefe da Organização de Energia Atómica do Irão (AEOI), Mohammad Eslami, foi claro em Dezembro de 2023: o seu país continuaria a investir na expansão das suas actividades nucleares.
Já em Fevereiro deste ano, a IAEA publicou dois relatórios sobre o Irão, revelando que o país já tinha produzido quase 280 quilogramas de urânio enriquecido, o que implica que, neste altura, o paraíso dos aiatolas tinha capacidade para fabricar quatro bombas nucleares.
Em Maio deste ano, Roman mencionou pelo menos três locais que o Irão utilizava para efeitos de enriquecimento de urânio: em Natanz, no centro do Irão, estavam em funcionamento cerca de 17000 centrífugas, incluindo alguns do modelo IR-6 (muitos mais eficiente que o antigo modelo IR-1); Fordow, uma instalação nuclear iraniana localizada a cerca de 30 quilómetros a nordeste de Quom, uma cidade sagrada para o xiismo e situada no noroeste do Irão e onde, em 2023, se descobriu urânio enriquecido a 83.7% (pelo menos dez pintos percentuais a menos que o valor necessário para produzir uma bomba nuclear); em Isfahan, a terceira cidade mais populosa do Irão, não muito distante de Fordow, que contém instalações para a conversão de urânio, o fabrico de combustível e a produção de metal (com relação directa com o desenvolvimento de armas).
A Operação Leão Crescente e a intervenção dos EUA
Em Junho de 2025, a IAEA confirmou que os Estados Unidos da América (EUA) infligiram “danos severos” às instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan. O politólogo norte-americano Peter Berkowitz entende que os ataques norte-americanos foram um “ponto de viragem na guerra do Irão contra Israel, os Estados Unidos e o Ocidente”: foi precisamente depois dessa flexão de músculo militar por parte dos EUA que Israel e o Irão acordaram num cessar-fogo. O entendimento foi alcançado depois de um confronto militar que durou uma dúzia de dias, que resultou em reveses militares notáveis para o Irão e em 28 mortes civis e mais de 3000 feridos em Israel. É de notar que, apesar desta tragédia, o segundo país não registou perdas de soldados e de aeronaves.
Uma guerra preventiva, útil e legal
Tenho muitos amigos que se autodeclaram conservadores e de direita que se manifestaram desiludidos com a administração Trump, chegando, nas redes sociais, a comparar o actual presidente norte-americano com o ex-presidente George W. Bush, fazendo alusão à decisão deste de intervir militarmente no Iraque, em 2003. A minha posição relativamente à segunda guerra no Iraque está descrita, de forma breve, mas não directa, neste meu artigo. O que eu acho mais grave é não terem a coragem de identificar o Irão como o verdadeiro agressor. Para mim, foi algo trágico ver estas publicações enquanto Israel lançava a Operação Leão Crescente (“Operation Rising Lion”): tendo começado no dia 13 de Junho, o estado sionista eliminou uma grande parte dos sistemas de defesa aérea iranianos, causou estragos às suas instalações nucleares, atingiu centrais de comando e de controlo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica e matou cientistas nucleares e militares de topo. Depois disso, os EUA avançaram com a Operação Martelo da Meia-Noite (“Operation Midnight Hammer”), na qual as três primeiras instalações nucleares que referi acima foram completamente devastadas. Não há dúvida de que a posição negocial de Washington e de Jerusalém se fortaleceu. Também não tenho dúvidas de que todas as afirmações que vi, denunciando uma suposta influência do “lobby sionista” na direita conservadora, direita radical ou extrema-direita portuguesas resultaram de uma compreensão extremamente redutora e nebulosa sobre a absoluta legitimidade de Israel em atacar militarmente o Irão. E, nesse apecto, o artigo “Five Errors About Iran’s War on Israel, America, and the West”, escrito por alguém que já foi director do planeamento de políticas durante a primeira administração Trump, é muito objectivo e claro. Não irei analisar os cinco erros apontados por Peter Berkowitz, mas selecionarei os três que eu considero mais importantes para este contexto.
Em primeiro lugar, Berkowitz destrói a noção de que a resposta de Israel foi uma guerra preventiva “ilegal”: na verdade, a Operação Leão Crescente foi um acto de auto-defesa contra um esforço de quase meio século por parte do Irão em eliminar o estado judeu. Apesar de o Aiatola Ali Khamenei não ter ordenado o arremesso de uma arma nuclear contra Israel, a aniquilação do estado judeu é uma das missões essenciais à manutenção do regime instaurado por um golpe em 1979. Se Teerão se esforça para esconder que é o principal país a financiar os Houthis no Iémen (que continuam a lançar mísseis a Israel), o Hamas (que fez um ataque brutal e sanguinário no dia 7 de Outubro de 2023 e que insiste em não libertar os reféns, condição essencial para que os habitantes de Gaza deixem de sofrer os impactos de uma guerra) e o Hezbollah no Líbano (com que foi estabelecido um frágil acordo de cessar-fogo), então está a fazer um péssimo trabalho. Israel está simplesmente a proceder segundo o artigo 51º da Carta das Nações Unidas, que informa os estados de que é legítimo eles recorrerem ao uso da força quando estão a ser alvo de um ataque armado. Ora, utilizar a força é indispensável para enfraquer militar e estrategicamente o Hamas, os Houthis e o Hezbollah, proxies de um país ideologicamente vocacionado para destruir Israel: o Irão.
Em segundo lugar, ao lançar cerca de mil mísseis balísticos, desde Abril de 2024, com precisão suficiente para distinguir alvos civis de militares, o Irão está a cometer crimes de guerra. A histeria diante dos ataques israelitas a alvos militares em território iraniano parece completamente indiferente ao facto de que este segundo país não hesita em atingir vários não-combatentes e muitas áreas urbanas em Israel.
Em terceiro lugar, as operações militares norte-americanas e israelitas contra o Irão podem ter sido decisivas para impedir a proliferação nuclear no Médio Oriente e preservar o prestígio dos EUA na região. Recordemos que, em 2018, o Príncipe Mohammad Bin Salman, da Arábia Saudita, admitiu que, embora o seu país não tivesse a intenção de adquirir armas nucleares, não hesitaria em fazê-lo se o Irão avançasse nesse sentido. Chegou mesmo a apelidar o Aiatolá Ali Khamenei como o “novo Hitler do Médio Oriente”. Esta sequência de tomada de decisões iria abranger, muito provavelmente, os Emiratos Árabes Unidos e a Turquia.
Conclusão
Um país que ambiciona construir e utilizar centrífugas mais rápidos e eficientes, que produz urânio altamente enriquecido e que mantém instalações destinadas a estes propósitos em locais montanhosos e remotos não é inocente. Faz parte de um plano multifacetado e duradouro para eliminar Israel do mapa. Para compreendermos até onde o Irão está disposto a ir, recordemos que o regime já tentou assassinar: John Bolton, o antigo conselheiro para a segurança nacional dos EUA, em Washington D.C.; Mike Pompeo, o antigo secretário de estado, em Paris; o candidato à presidência dos EUA, Donald Trump. É plenamente compreensível (ou deveria ser) que os EUA e Israel unam esforços para manter um país como o Irão fora do alcance de armas nucleares. Tal objectivo também serve os interesses europeu. Mas isso já é outro tema.
