Você é um fascista; e outras desumanizações do esgoto neo-realista

PARTE 1

António Alçada Baptista orgulhava-se de haver metido uma lança em África por Almada Negreiros. A edição de Nome de Guerra, volume dois das “Obras Completas de Almada Negreiros” (1994), da Imprensa Nacional, agraciou-a com um prefácio. Que republicou na íntegra em A Pesca à Linha – Algumas Memórias.[1] Num livro posterior, A Cor dos Dias, Alçada Baptista voltaria aos encómios: “Entre os escritores portugueses, devo confessar a minha preferência pelo Almada Negreiros e o seu Nome de Guerra. É o romance contemporâneo português de que mais gosto não só pela escrita mas sobretudo porque é um livro que põe em questão tudo o que em português se escreveu sobre o amor”.[2] A grandeza deste romance, proclamada por Jorge de Sena e José-Augusto França, é altamente discutível, se tivermos em conta que foi escrito em 1925 e publicado, numa colecção dirigida por João Gaspar Simões, em 1938, ou seja, o período do romance modernista que começa no ano de Os Moedeiros Falsos e Mrs. Dalloway, passa por O Processo, continua com O Som e a Fúria e Viagem ao Fim da Noite e termina no annus mirabilis de Náusea, Desespero e Murphy. Se o romance de Almada é a resposta nacional ao romance modernista, mais não faz no meio desta ilustre companhia que acentuar a tibieza do romance português.

Curiosamente, era o péssimo estado do romance português que afligia Alçada Baptista, para quem a leitura de Nome de Guerra teria feito maravilhas aos portugueses: “Porque não se deu atenção àquela sua escrita o nosso neo-realismo foi uma literatura académica e fastidiosa que pouco tinha de criador.”[3] No prefácio, Alçada Baptista quase que reduziu a novidade deste romance no tratamento da relação amorosa entre o homem e a mulher, a qual, antes de Almada, desempenhara apenas uma existência secundária. Para demonstrá-lo, num bosquejo da história do romance português sintetizou as atitudes de Eça de Queiroz (as mulheres são putas ou donas de casa) e dos literatos ligados à revista presença (os intelectuais vão às putas mas falam e não fodem). Esta caricatura selectiva tem muito que se lhe diga. Porquê começar por Eça, ignorando os sentimentos nobres dos amores em Camilo, ainda muito lido em 1925? E porquê desfigurar os presencistas? Elói, o protagonista do epónimo romance de Gaspar Simões, passa a narrativa a debater-se com o amor autêntico que sente por uma mulher culmina, que culmina num discurso pensado para a conquistar. Em Nome de Guerra, pelo contrário, a personagem feminina é literalmente uma prostituta.

Por fim, Alçada Baptista falcoou a verdadeira presa: “O neo-realismo, tão pronto a comover-se com a má fortuna dos explorados, não resistiu, através de um dos seus mais ilustres representantes, a dizer que ‘ela surgia no cimo do monte qual potra bravia’ e, no romance do militante surge-nos esta cena edificante: ele chega a casa extenuado pela luta antifascista. A companheira tem-lhe o jantar pronto e, enquanto ele come, abraço-o pelas costas insinuando o seu desejo. Ele, só com o olhar, fá-la compreender que está estafado por causa das tarefas importantíssimas que anda a fazer e não está disponível para essas banalidades. Ela, cheia de espírito de sacrifício, compreende e ‘quase lhe pede desculpa de ser mulher’.”[4]

A esta injúria tê-la-ia lambido como um sundae o meu eu de há dez anos, tão automática era a minha antipatia pelo neo-realismo. Hoje em dia a minha primeira reacção é dizer de mim para mim que nunca dei de caras com esta caricatura nas páginas de Casa da Malta, Aldeia Nova, Casa na Duna, Gaibéus, Os Caminheiros, Histórias de Amor, O Dia Cinzento. Fuga, de Faure da Rosa, relata o processo por que uma mulher infiel decide viver sozinha mas independente. Aliás, passei as duas citações incriminantes – ‘ela surgia no cimo do monte qual potra bravia’; ‘quase lhe pede desculpa de ser mulher’ – no Google Books e as duas fontes que me devolveu foram… as memórias de Alçada Baptista e a edição da Imprensa Nacional em que saiu o prefácio de Alçada, em 1984. É edificante como o contacto directo com os textos nos ajuda a detectar patranhas.

Outras reflexões enchem-me a cabeça. A suposição, partindo da premissa mais ou menos consensual hoje em dia de que os neo-realistas formaram um bloco inconsútil de maus romancistas, de que a leitura de Almada os teria salvo. Mas, sendo isso verdade, nesse caso porque é que os neo-realistas não foram “salvos” pelas leituras de Ernest Hemingway, Erskine Caldwell, John Steinbeck, Pearl S. Buck, André Malraux, Romain Rolland, Jules Romains, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, que penso estarmos de acordo estão vários furos acima do Almada romancista? Ao longo do século XX, apesar da importação dos expoentes máximos do realismo socialista, existencialismo, nouveau roman, surrealismo, realismo mágico, MFA, etc., não deixou de haver émulos incapazes de fazer mais do que imitação académica, fastidiosa e magra em calorias criadoras. Alçada Baptista haveria de sabê-lo melhor do que ninguém, visto que a sua editora, a Moraes, publicou demasiados. Porquê reduzir os fracassos do romance português aos neo-realistas?

Poderíamos dizer que aos neo-realistas não interessou ler Almada porque os propósitos muito claros que reservavam ao romance saíam fora dos interesses de Almada. Os neo-realistas escreviam para denunciar problemas sociais e sugerir reformas. Cerromaior, que inclui um entrecho amoroso, de facto relata a ida de homens a prostitutas, mas seria estranho que escritores acicatados por um pendor reformista não denunciassem o que julgavam ser um flagelo social a precisar de remédio.

Outras perguntas assomam ao céptico. Ler Nome de Guerra fez bem a que escritor português nos últimos 90 anos? Ou mais pertinentemente, alguém sequer leu Nome de Guerra? Não é difícil encontrar proclamações colossais sobre Almada. Eis Saramago a embaraçar-se: “Para mim, Almada Negreiros é o responsável pela segunda grande revolução estilística da nossa língua e da nossa literatura. A primeira foi a do Garrett, com as Viagens na minha terra, e a segunda foi a do Almada Negreiros com o Nome de Guerra.”[5] Mais tramado é localizar na obra de Saramago a menoríssima marca da influência de Nome de Guerra no tocante a técnicas literárias, premissas, enredos, afinidades entre personagens, preocupações sociais, pontuação, sintaxe. Bem, Saramago situou alguns romances em Lisboa, mas então mais valia dizer que Eça foi influenciado por Almada. Outro escritor, um atento leitor do romance do seu tempo, que afirmou sem rebuço ter lido Nome de Guerra foi Vergílio Ferreira, que emitiu um julgamento mais implacável e justo. No exemplar que existe na biblioteca dele (Lisboa: Edições Ática, 1956, 2.ª edição), rabiscou: “vindo directamente de A Capital do Eça. Repensar”; e “(1938) Ambiente é o do Curvelo do Eça, ou do Palma Cavalão, Eusebiozinho (Maias). Isto é o Eça menor (A Capital) com pequenos fogachos de piruetas que são Pessoa em ponto pequeno. E lugares comuns caract. à Balzac (acumular de pormenores). Piada mole, com o ‘mal murcho’”. E por fim: “Desejo aqui deixar uma declaração que considero este livro um livro medíocre. J. A. França considera-o único romance do séc. XX. Deve-se ter cansado de procurar outros. Almada é aqui – e em tudo – um aldrabão de feira. Sem génio pº aldrabar em grande estilo. O trunfo da ‘originalidade’: desarticular um acto ou situação simples ao modo [ilegível] do ‘cubismo analítico’.”[6] Este juízo pode ser rebatido, mas isso não invalida a desproporção entre os elogios a Nome de Guerra e o rasto que não deixou minimamente na história da ficção portuguesa.

Mas passará quase despercebida a parte mais insidiosa da afirmação no que tem de possível insinuação de crimes sinistros: “Porque não se deu atenção àquela sua escrita”. Porque não se deu atenção. Mas, e porque não? Entramos no campo da especulação. Demasiado avançado para os portugueses? Poupa-me, Gaspar Simões e Régio andavam a ler Proust. Porque era um autor desconhecido? Por favor, era o Almada Negreiros, o último membro vivo do trio orfista. Terá havido então um encobrimento? Um abafamento premeditado? Se houve, não foi da Censura, que o deixou circular ao contrário dos outros 3000 livros proibidos. Tampouco dá para apontar o dedo aos presencistas, ou não tivesse Gaspar Simões sido crucial em resgatar o manuscrito da gaveta. Nesse caso, terão os neo-realistas orquestrado o apagamento de Nome de Guerra? Porquê? Por ordens de quem? Com que fim?

Lembra-te, estamos no campo da especulação. Sempre é possível que eu esteja a projectar suspeitas sobre uma frase inócua. Mas não será isto mais um exemplo da Ditadura Neo-Realista?

Sendo os mitos estórias que nos ensinam coisas acerca de como o mundo funciona, o mito da Ditadura Neo-Realista ensina-nos, nas palavras de um dos seus crentes, João Pedro George, que durante a ditadura do Estado Novo houve uma corrente literária que exerceu “supremacia na literatura, com muitas e decisivas ligações no meio cultural – a esquerda, em particular via neo-realismo, dominava os meios culturais, tinha tomado conta dos jornais, das editoras, da distribuição e atribuição de prémios, da fabricação da fama e do prestígio”.[7] Os neo-realistas comporiam o braço acanetado do PCP, espingardeando a sua ideologia através de contos e poesias. Traduziam as ordens do DORL, se não do Kremlin. E, intolerantes, vergastavam os profanos. Propagar que os neo-realistas detinham o poder para obstar é justamente o tipo de coisa que um crente na Ditadura Neo-Realista faria, convencido da sua razão. Um sintoma do mito é o insinuar que não havia outras correntes literárias passíveis de receber os benefícios de Nome de Guerra, como se os comunistas tivessem exterminado todos os culaques no seu caminho.

Que interesse teria um católico liberal mas anti-comunista, outrora capaz de servir de intermediário numa possível aliança entre o PS e o CDS, e antes disso autor das Conversas com Marcello Caetano, em espalhar caricaturas de adversários mortos e enterrados há muito? Quando saiu A Pesca à Linha, em 1998, o oblívio deles avançava imparável, com obras rapidamente deslizando para o fundo do esquecimento geral como um líquido num saco de lixo. Que moinhos de vento estava ele a chuçar com a lança? Alçada Baptista lembra-me os congressistas norte-americanos que trinta anos após o colapso da URSS ainda interpretam o mundo contemporâneo pelo prisma da Guerra Fria. No caso de Alçada Baptista, o prisma estacionou nas tensões entre católicos progressistas e oposição comunista. Como se em 1998 houvesse ainda em Portugal uma poderosa força comunista que o assustasse. A esta distorção grosseira do passado dá-se o nome de propaganda. E espera-se dum intelectual o dever de primar pela tentativa de transmitir um modelo da verdade o mais próximo possível dos factos. Mas em prol de quem ou do quê estaria ele a fazer propaganda, quando em 1998 o neo-realismo já deixara de interessar aos escritores crescidos em democracia?

Dez anos antes nem eu saberia que não há nada de particularmente original em afirmar que o amor, ou as relações amorosas, tiveram um papel marginal na ficção neo-realista. Uma fonte remota desta tese encontra-se no ensaio “Uma literatura desenvolta ou os filhos de Álvaro de Campos” (1966), da autoria de Eduardo Lourenço e publicado na revista O Tempo e o Modo, talvez não por coincidência fundada pelo próprio Alçada Baptista. É um ensaio apinhado de apressadas conclusões e entretecido das habituais afirmações infundadas de Lourenço.[8] Está certo que em tempos recuados, quando o movimento comunista se espalhava, a militância suplantava o amor. Um colaborador da revista Sol Nascente explicava em 1937 o objectivo do estudante universitário tocado pelo “novo humanismo”: o diploma não servia para ganhar bem mas constituía uma etapa para espalhar a cultura. No âmbito das relações entre os dois sexos, isso imcumbia-os de esclarecer as colegas. “Estabelecer como base das relações entre rapazes e raparigas a camaradagem a lealdade, a confiança mútua e a amizade, destacando o ridículo dos flirts, dos namoros, dos galanteios cinéfilos.”[9] Houve, nesta fase, uma equiparação do sexo com a classe burguesa. Afonso Ribeiro imaginava um “imaginário camponês” observando um “senhor verdadeiro da cidade” nestes termos:

“Como quem se oferece, ao passarem algumas mulheres bonitas olhavam para ti. Nesses instantes uma alegria presumida alastrava-se-te na face calma, e levado não sei porque reacção íntima, deitavas o peito para fora duma maneira incompreensivelmente provocadora.

Segui a pensar no que eras. Qualquer coisa de estranho se revolvia dentro de mim. Simpatia? Não, meu irmão, dó.”[10]

Esta superioridade moral advinha da necessidade de se mostrar uma alternativa à cultura burguesa que priorizava o hedonismo dos privilegiados em detrimento do sofrimento das massas. Não havia namoradas, havia companheiras de luta, adiando o amor para o dia após a vitória. Contudo, num estudo sobre o neo-realismo, Margarida Losa analisou que o amor despertou interesse em Alves Redol.[11]

Não faltavam motivos pessoais para desvalorizar o neo-realismo a Lourenço, Vergílio Ferreira ou António José Saraiva, dissidentes dum movimento a que haviam dado as suas esperanças. Lourenço esteve envolvido até 1949. Vergílio, até 1959. Saraiva, até à sua ida para o estrangeiro, no começo dos anos 60. Feitas as dissidências, dedicaram-se, durante a ditadura, a cobrir de opróbrios a ideologia estética outrora festejada. Tanto se penitenciou Saraiva que, em fim de vida, esteve à beira de fazer a apologia de Salazar.[12]

Alçada Baptista, que não precisou de se penitenciar por nenhum erro de que nunca fez parte, pregava uma visão pitoresca da ditadura: “Acho que a sociedade portuguesa não era especialmente mais injusta do que aquelas que estavam fora do pequeno surto industrial que assomou na Europa. Cada sociedade europeia lá ia vivendo com os seus específicos e anónimos instrumentos de opressão do triste ser humano que continuava a ser vigarizada com a tal ‘gloriosa marcha da humanidade a caminho da sua libertação’.”[13] (À primeira vista dá a impressão de se referir aos países soviéticos, mas esses industrializaram-se mais cedo do que Portugal, por isso o seu alvo é um tanto ambíguo. O que não é ambíguo é o leve branqueamento do Estado Novo.)

No atinente à evolução do tratamento das relações amorosas na “Nova Literatura”, ao passo que Lourenço laureava Agustina Bessa-Luís, a esse palmarés Alçada Baptista tentou ganhá-lo para Almada. Tirando esta discrepância, um e outro concordavam que o obstáculo ao desenvolvimento da ficção portuguesa fosse o neo-realismo. A persistência em tal alvo permite-nos afirmar (à revelia do mito duma Oposição unida contra o fascismo) que muitos entendiam, ou vieram a entender posteriormente, que à ficção portuguesa do pós-guerra era menos imperativo florescer contra o Estado Novo do que contra o neo-realismo. O bombástico desta proposição desinchará como um balão com um relance aos três grupos literários competindo com os neo-realistas por espaço: surrealistas/abjeccionistas, novo-romancistas e existencialistas.

Os surrealistas/abjeccionistas – Mário Cesariny, Luiz Pacheco et al – passaram mais tempo a bandarilhar o neo-realismo do que a erguer-se como uma ameaça contra a ditadura, que descontraidamente absorveu os produtos os seus expoentes, inclusive a alegoria anti-salazarista que foi O Grande Cidadão de Virgílio Martinho. No começo dos anos 60, Cesariny, António Maria Lisboa e Alexandre O’Neill estavam todos editados na editora Guimarães, pertença de Maria Leonor Guimarães, mulher do salazarista Francisco Cunha Leão, Agente Geral do Ultramar. Em Poesia (1944-1955), Cesariny até incluiu uma paródia neo-realista, “Nicolau Cansado”. Em vão se lhe procura poesia frontalmente crítica da ditadura.

O nouveau roman teve vários progenitores, nenhum mais aguerrido do que Alain Robbe-Grillet no seu intransigente separo entre cidadão com preocupações cívicas e sociais e escritor blindado a obrigações e responsabilidades humanitárias. As suas proclamações contra literatura politicamente engajada, populares internacionalmente, foram atenuadas pelos imitadores nacionais, Artur Portela Filho e Alfredo Margarido, que porém tentaram provar que o novo-romance era a continuação lógica do neo-realismo, suplantando-o sem negar a missão do “novo humanismo” marxista.[14] Contudo, num romance de Portela Filho, O Código de Hamurabi, uma personagem exulta que “o neo-realismo teve a sua idade de ouro” e faz troça dos neo-realistas com pretensões a evoluírem o seu estilo, notando que a “viragem psicologista do neo-realismo é tardia” depois “de Freud, de Proust e de Kafka, depois de Poe, depois de Katherine Mansfield, agora, durante a experiência do ‘nouveau roman’.”[15] E outro membro do grupo novo-romancista, Mário Dias Ramos, inventou n’O Logro uma caricatura neo-realista, o poeta Bernardo Apolo, autor de Flor Estagnada, que fulmina com chavões um aderente do novo-romance: “Você é um reaccionário, percebe? Você é um fascista! Vocês são todos uns fascistas reles lá com esse novo romance! Vocês nunca chegarão a fazer a terça parte o que nós fizemos. Ouviu? Nós somos escritores úteis. A nossa poesia é útil. Os nossos romances são úteis. Lutamos contra a opressão e pela liberdade. E aí reside a nossa consciência, a nossa perenidade, ouviu?…”[16] Os torcionários a soldo da Ditadura Neo-Realista devem ter dormitado neste dia. (Dias Ramos, funcionário da RTP salazarista, nunca se atreveu à mais leve crítica à ditadura, que deixou O Logro circular desafogadamente). Facto curioso, a primeira editora a reunir estes três romancistas sob a rubrica da “nova vaga” foi a Guimarães, a supracitada difusora dos poetas surrealistas, que, supostamente, sofriam os obstáculos da cabala neo-realista em obter editoras.

Falar dos existencialistas é falar de Vergílio Ferreira. Que, em posse duma mente filosoficamente inclinada, vinha de há muito tempo claudicando na sua adesão ao neo-realismo. O primeiro passo no afastamento deu-se com Mudança, em 1949, ao que se seguiu uma década pejada de reconsiderações e tentames. Manhã Submersa, retratando a vivência dum aluno num seminário, já parecia um retrocesso (ou progresso) em direcção aos presencistas, mas Óscar Lopes ainda conseguiu treslê-lo como um aperfeiçoamento do neo-realismo,[17] muito precisado de calar com obras excelentes os detractores que insistiam em acoimar o movimento de primário e didáctico. Em 1957, as Edições Vértice, ligadas à revista do mesmo nome que fazia as vezes de órgão oficial do neo-realismo, ainda editou a Vergílio Do Mundo Original, ensaio de flagrante índole existencialista, partes do qual reapareceriam daí a dois anos, trabalhadas, em Aparição. Com este romance Vergílio não perpetrou uma dissidência, contaria mais tarde, mas alargou o “humanismo económico” da primeira fase, exclusivamente materialista, de modo a abranger um “humanismo integral”. Seja como for, em Aparição os neo-realistas aparecem nas cores truescas dos bacocos intelectuais eborenses que se auto-baptizam Comité de Salvação Nacional, fanaticamente anti-religiosos e anti-metafísicos à maneira jacobina dos positivistas republicanos do tempo de D. Carlos. No seio destes “progressistas” paralisados no tempo aterra Alberto Soares, cujas boas novas da nova concepção do homem atraem apenas o escárnio e a incompreensão de humanistas que nada vêem para lá do problema económico e do materialismo. (No país então mais pobre da Europa “livre”, possível atenuante com que o autor não se preocupou de todo.) Em Vergílio, que repetidamente mencionou o abre-olhos que foi a leitura de Escolhi a liberdade: a vida privada e política de um funcionário soviético, de Victor Kravchenko, a obsessão em dialogar com (contra) os neo-realistas (visto que não dava para “dialogar” com a ditadura, isto é, criticá-la), mas sempre através do prisma da desilusão com o activismo político, culminou em Nítido Nulo (1971), alegoria das purgas de intelectuais em ditaduras de esquerda, narrando os dias finais de um intelectual condenado à morte por um regime ao qual serviu, numa clara alusão à Revolução Francesa, com laivos dos Julgamentos de Moscovo dos anos 30. Em ’71 estava fresca na memória o esmagamento da Primavera Checa (‘68), que por arrasto trouxe de novo à baila a invasão da Hungria (‘56). Com toda a liberdade, este romance circulou nos anos marcelistas e chegou inclusive a ser traduzido na Espanha franquista, porque propaganda anti-comunista deste quilate nem o jornal Época se lembrava de fazer, e, que bónus, vinda das hostes “progressistas”.

Uma pessoa não consegue ler Cesariny, Portela Filho e Vergílio sem ficar com a impressão de que as suas vidas foram mais prejudicadas pela existência dos neo-realistas do que pela medievalização do fascismo português.

Esta concentração plurifacetada de esforços anti-neo-realistas talvez fizesse sentido então, apesar de eu concordar com Losa que o neo-realismo estivesse moribundo desde 1955. Mais surpreendente é o facto de um movimento por que quase ninguém dá nada hoje em dia, sobretudo na Universidade, ainda se erguer como um poderoso espectro que assombra a história da literatura portuguesa, o dragão que é preciso matar no seu covil para salvar a aldeia. Assim sendo, a historiografia literária apoquenta-se muito com uma idiossincrasia inaugurada penso que com “Uma literatura desenvolta”: uma gincana jogada entre diversas Equipas para apurarem qual delas descobre o exacto momento em que o advento duma obra singular marcou a obsolescência do neo-realismo. É por demais consabido que Lourenço concedeu o título à Sibila, mas rapidamente respondeu Nelson de Matos com a tentativa de adiantar o crédito à Equipa da geração dele, Nelson.[18] Além da primazia da resposta, Matos não merece ser lembrado por nenhuma outra razão, e o seu contributo não foi tido nem achado por quem veio a seguir. Mas accionou uma produtiva máquina.

Liberto Cruz, dez anos mais velho do que Matos, oscilou entre a Equipa Ruben A. e a Equipa José Cardoso Pires. Num ensaio de ‘70, “Viragem no romance”, defendeu que a Nova Literatura nascera oficialmente em 1949 por obra e graça do Páginas I de Ruben, proeza ungida e coroada cinco anos depois por Caranguejo.[19] Dadas as opções, esta escolha é justíssima.

Com mais solavancos e sacoleões tem viajado a candidatura de Pires. Em 2002, Ana Paula Arnaut, contrariando a Equipa Agustina, propôs que a Nova Literatura nasceu em 1968 graças a tudo quanto haveria de metaficcional, formalista e pós-modernista em O Delfim, corte radical com o anterior registo realista de Pires, vincando assim mais uma vez que a Nova Literatura só podia nascer sob o signo da rejeição do neo-realismo primitivo (conotado com o pré-modernismo).[20] Contudo, em José Cardoso Pires (1972), Cruz já achara excessiva generosidade em si para alucinar nos contos realistas e tecnicamente simplórios de Os Caminheiros (1949) um estilo radicalmente diferente que “reage violentamente contra o neo-realismo de extracção populista.”[21] Afinal a Equipa Pires faria pandã com a Equipa Ruben em levantar no ar a Taça ’49. O senão irrelevante é que os contos de Pires enfrentam dois contratempos: 1) não se distinguem tecnicamente em nada de contos neo-realistas oriundos dos finais dos anos 30; e 2) são tecnicamente primários comparados com a ficção anterior de Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e Tomaz de Figueiredo.

De fora desta competição ficou a Equipa Vergílio porque nem Mudança (1949) é tão distinguível da ficção neo-realista da época para fiat-luxar por si só uma Nova Literatura, nem Aparição chegou antes dum candidato mais merecedor, o supradito Caranguejo. O nível de amuo que ausência dele de “Uma literatura desenvolta” causou entre os paladinos da Equipa Vergílio pode ser aferido por um desabafo de Luís Mourão: “Sempre me intrigou que Eduardo Lourenço, no seu conhecido artigo «Os filhos desenvoltos de Álvaro de Campos», não tivesse englobado VF nisso a que chamava a «nova literatura portuguesa», um VF, note-se, que já tinha escrito Aparição, Estrela Polar e Alegria Breve.”[22] O erro de Mourão foi ter pensado que a Lourenço importavam questões de justiça e de mérito intrínseco, ou sequer de factores cronológicos que exigiriam averiguar, rigorosamente, quem, de facto, fez o quê primeiro. Mas Lourenço exibiu o critério único com muita transparência: Vergílio nasceu em 1916 e o célebre ensaísta queria engrandecer exclusivamente autores de 1920 para a frente, isto é, a geração do próprio Eduardo Lourenço, nado em 1923. Tão ridículas foram as exclusões de Ruben A. e, até, de Jorge de Sena.

Ao darmo-nos conta deste padrão, desta busca pelo neoliterato (o termo é meu) que quebrou a “ditadura” neo-realista exercida sobre a literatura portuguesa (que nunca houve), no qual cada estudioso martela na história o seu predilecto, sem atender a rigorosos critérios ou respeito por factos, torna-se-nos mais fácil entender uma das muitas manigâncias de Lourenço ao seleccionar Agustina para esse título que ele julgava mui honroso. Recorrendo às datas de edição, Caranguejo e A Sibila são ambos de 1954. A um estudioso focado em aferir qual o romance mais tecnicamente avançado, no contexto português da altura, isto forçaria um duelo no qual A Sibila perde de imediato por falta de quaisquer inovações temáticas e formalistas em relação ao romance português dos 70 anos precedentes. Ciente deste empecilho, como o resolveu o nosso agustinómano? Simples, fez contar o surgimento de A Sibila não a partir do ano de edição mas do ano em que concorreu ao Prémio Delfim Guimarães. Tecnicamente, o manuscrito existia em ‘53, ou não teria ido a concurso, evidentemente. Mas quando datamos Os Maias, reportamo-nos a 1888, não a 1877, que é quando aparece a primeira referência na correspondência de Eça de Queiroz. Isto são práticas elementares em qualquer parte do mundo. O normal é contarmos a partir do ano de impressão, quando não da distribuição. Contar o nascimento dum livro a partir do ano em que concorreu a um prémio é uma originalidade de Lourenço, sinónimo de desespero. Tudo para embargar uma primazia a que Ruben tem direito.

Excepto que esta falcatrua intelectual não altera as conclusões dum cotejo entre os dois romances. Ainda que A Sibila tivesse estivesse à venda um ano antes, a sua falta de inovação temática e/ou técnica esmaece-lhe os méritos frente a Caranguejo. Lourenço resolveu este berbicacho de somenos contradizendo-se a si próprio. Se, como ele proclamou, uma das marcas da Nova Literatura é a desenvoltura a respeito das relações amorosas, A Sibila não merece lugar na lista, uma vez que Quina é uma criatura totalmente assexuada. Julgo que ninguém é capaz de acreditar que Agustina imaginou Quina possuindo uma cona, muito menos vontade de foder. Das duas vezes que li A Sibila fui incapaz de visualizar a Quina fazendo aquilo que um homem mais quer duma namorada: que se ponha de joelhos, abra-lhe a braguilha e faça-lhe a benfeitoria dum bico para esvaziar o balão à beira dum burnout depois dum dia stressante no escritório. A vontade de Quina está totalmente subordinada a uma obsessão muito típica da aristocracia provinciana: partilhas, heranças, dinheiro. A questão que a atormenta é: quem vai ficar com a quinta na qual ela gastou a vida de modo a que a propriedade possa prosperar para gerar mais lucro, que convinha ficar sob controlo da linhagem dela? O dilema da frígida Quina não é escolher entre dois amantes mas entre dois herdeiros: um “filho” adoptivo e uma sobrinha. Surpreendente se Quina, agindo contra as expectativas, tivesse deixado a propriedade a um estranho. Mas, fiel aos tiques da classe, Quina escolhe o sangue do seu sangue, provando assim a verdade que Lourenço tentou ofuscar: que Agustina, na sua ânsia de retratar realisticamente o comportamento da nobreza rural, está profundamente comprometida com a verosimilhança, apanágio da corrente realista/naturalista fundada por Eça em 1871. Foi nesse ano, não é errado dizê-lo, que A Sibila realmente foi gerado.

Quão diferente Caranguejo! Esta é, efectivamente, uma história de amor, amor moderno, infeliz, entrecortado por silêncios e incomunicação. Caranguejo, através da sua estrutura temporal invertida, narra um casamento em declínio, recuando desde a desilusão e arrependimento de “ela” (sem nome), passando pelo casamento, namoro e chegando por fim ao nascimento dos protagonistas. Caranguejo ilustra perfeitamente a posição de Lourenço postulada em Heterodoxia II: “Os pares heróicos ou amantes estendem em vão os braços sob a certeza absoluta das separações e não há amor em romance de sucesso contemporâneo – seja Hemingway ou Graham Greene ou Mauriac – que não seja um breve luar equívoco.”[23] Mas se esta deve ser uma característica obrigatória da história de amor da Nova Literatura, então Caranguejo é muito mais pioneiro do que A Sibila, até pela simples tecnicalidade de que Agustina nem fez comparecer no ringue uma “relação amorosa”.

Mas a Nova Literatura era “desenvolta” também no campo formalista, na linguagem, na heterodoxia das estruturas romanescas. Neste campo, Caranguejo novamente bate A Sibila a pontos por muito. A Sibila exibe uma sintaxe sinuosa, metáforas belas, observações certeiras, ou seja, prosa nem melhor nem pior do que a prosa de vários outros romancistas portuguesa da época, mas estruturalmente é um romance oitocentista que aterrou no século XX como se Agustina nunca tivesse contactado com Joyce, Proust, Kafka, Woolf, Faulkner, etc. Tenho as minhas dúvidas de que estivesse devidamente inteirada de Eça sequer. As famosas digressões, a abertura de novos subenredos até ao fim e a entrada incessante de personagens, que tanto deslumbram os estudiosos como se fosse uma afronta ao romance canónico, provêm das rocambolices do folhetim. Os Mistérios de Lisboa, que Camilo foi buscar a Eugène Sue, o Tom Clancy do Oitocentos, Agustina esmerilhou para lhe dar feições mais “literárias” (menos pistoladas, menos raptos, menos revelações dramáticas de identidade, etc.), mas o processo é o mesmo. Descontando essa irrelevante enxertia do folhetim, Agustina especializou-se em dominar as convenções do romance realista, no qual um narrador omnisciente conta linearmente o nascimento, aventuras e morte do protagonista. Tal e qual já se fazia no tempo de Flaubert, se não no de Defoe. A Sibila é pastiche ou imitação competente do romance bem-feito, produto dum workshop de escrita criativa, tudo no devido lugar, pulso firme nas técnicas raquíticas, muito elegante mas banal. Se a Agustina se tivesse matriculado num curso de escrita criativa de João Tordo, teria apresentado ao senhor professor um trabalho final intitulado A Sibila, e o João ter-lhe-ia dado 15 valores e o encorajamento para persistir no bom caminho, um dia e com sorte talvez também fosse um Prémio Saramago como ele.

Quanto a Ruben, desembaraçar-se da linearidade clássica para contar uma história às arrecuas fez de Caranguejo uma obra insólita entre seus contemporâneos. Na melhor tradição de Garrett e Brandão, Ruben hibridiza géneros (um capítulo está em forma de diário) e narradores, alternando entre narrador omnisciente e primeira pessoa. Num país onde ou se minimizava o vocabulário ou se faziam rebuscas de termos regionais e arcaicos, Ruben aventurou-se em neologismos. O tom muda rapidamente entre o sério, o melancólico e o nonsense. Num dos momentos mais audazes da narrativa, o narrador retrocede até ao momento do Big Bang, produzindo um dos passos mais delirantes do romance português. Nada desta exuberância foi comunicado ao leitor por Lourenço, receoso de deslustrar o bronze da Sibila.

Esta enviesada história do romance português chegou intacta até aos nossos dias graças a esbirros como Alçada Baptista e às suas “memórias”, que indirectamente difundem a caricatura dum neo-realismo tirânico de que o país teve de ser salvo por Agustina e outras antiqualhas estéticas que caíssem no goto de Lourenço. Isto não é invulgar. As memórias de José-Augusto França são esclarecedoras por fixarem Mário Dionísio no papel do “então líder máximo da ortodoxia do movimento.”[24] O relaxamento dele teria sido tardio, propiciado pela morte de Estaline, em 1953, a partir de que altura o seu antigo mestre, Jdanov, “podia já ser comparado a Hitler.”[25] Excepto que antes dessa data Dionísio já pensava um neo-realismo sem proibições estéticas. Um dos primeiros teóricos da estética neo-realista, Dionísio foi expulso do PCP, em 1952, por, entre outras coisas, ter defendido a liberdade do artista em escolher o caminho estético que mais lhe aprouvesse.[26] Nessa decisão terá pesado a posição dele numa assembleia dos ‘Amigos da Vértice’, em Agosto, onde se opôs à vertente que queria uma revista mais ortodoxa.[27]

Em 1952, também, travou-se nas páginas da Vértice a chamada polémica da “ponte abstracta”. O poeta João José Cochofel pegou na expressão “engenheiros de alma”, usada por Estaline para designar escritores revolucionários, e notando que, se a um engenheiro se espera, antes de construir uma ponte, que estude para passar a dominar a ciência de construir pontes, então a um artista é expectável que estude a arte antes de comunicá-la ao público. Cochofel queria dizer que aos neo-realistas não bastava comunicar ideias e denúncias sociais, era imperativo fazer boa arte. Mas como um treino artístico tenderá para uma complexificação da arte, ao público competirá um papel activo em educar-se para compreender a arte.[28] Na réplica, Saraiva, ultrajado, censurou Cochofel por estar a carregar o público do ónus de compreender a arte quando a obrigação do artista social era ser simples e claro.[29] Nesta fase da vida, Saraiva estava no pico do seu jdanovismo, ferrenhamente leal ao realismo socialista e qualquer avo de formalismo se lhe afigurava blasfemo. Daí a dois anos depois, Dionísio publicou outra defesa do formalismo, “O sonho e as mãos”.[30] Saraiva reapareceu com um artigo paródico, gozando com os engenheiros (artistas) que passam mais tempo a palrar abstrusamente sobre “pontes abstractas” (teoria artística) em vez de construir uma ponte utilitária (comunicar ao nível do público) e depois reprovam o camponês (público) por não entender o importante trabalho deles.[31] Se restavam dúvidas de que havia em curso uma querela entre formalistas e conteudistas, foram postas de parte quando a Vértice publicou um extenso artigo de António Vale, ferozmente condenando Fernando Pessoa e José Régio, arte pura, arte abstracta, subjectivismo e formalismo, apelidando a arte burguesa de decadente e instando os artistas a não abandonar a “ideia da função social da arte”. (O que para Cochofel e Dionísio nunca foi uma opção.) Se acrescentarmos que António Vale era o pseudónimo do comunista Álvaro Cunhal, cumprindo pena no Forte de Peniche, vemos que Saraiva atraía aliados com ideias muito extremas.[32]

Contudo, Saraiva, em tempos um inflexível jdanovista, no começo dos anos 60 renegou o neo-realismo e mudou-se para Paris. Lá travou amizade com José-Augusto, professor na Sorbonne, que ficou com boas impressões do “meu companheiro pelas ruas e em últimas reuniões de fim de festa”.[33] O pecado jdanovista dele, ao contrário do de Dionísio, foi perdoado. Talvez, especulo, porque Saraiva se tornou inimigo público do neo-realismo ao passo que Dionísio, divergindo sem dissidir dos seus valores, continuou a acreditar no engenho e técnica dentro dos objectivos originais duma arte politicamente comprometida. (O que não é irreconciliável, evidentemente, como o comprovam Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro e José Saramago.) Tão bem se deram os dois que, em Maio de 1975, José-Augusto, recém-eleito presidente do Centro Nacional da Cultura, o convidou a participar num ciclo de seis conferências feitas entre Maio e Junho de 1975. Saraiva palestrou acerca de “repressão”.[34] Curiosamente, “repressão” é a palavra final dum livro dele, Ser ou não ser arte (1973), que fecha com um ensaio onde é desconstruída a frase de Estaline, “O escritor é um engenheiro de almas” (na qual piamente acreditou por anos a fio, facto omitido no dito ensaio), que a Saraiva agora se lhe afigurava um programa totalitário:

“Pelo contrário, na parábola do engenheiro, que aliás não é parábola, há uma única matéria, uma massa homogénea e inerte que se desenvolve não segundo a natureza da sua liberdade, mas segundo o plano dos tecnocratas. Concepção evidentemente absurda, e até impensável, mas grata ao espírito humano, cuja principal ambição é reduzir tudo a um princípio único de explicação, transformar todo o sujeito em objecto e substituir a espontaneidade pela execução de um plano concebido por uma máquina de pensar.

Nada mais grandioso: é o extremo limite da repressão.”[35]

José-Augusto podia ficar descansado: jdanovista este já não era.

PARTE DOIS

O ano de 2021 providenciou um espectacular episódio da Ditadura Neo-Realista. Enquanto que Bruno Vieira Amaral era amplamente aclamado pela sua biografia de José Cardoso Pires, eu reparava no silêncio do Público, Expresso, Diário de Notícias, Ler e JL acerca do achincalhamento a que o neo-realismo foi sujeito.

Deveria uma biografia servir para reiterar lugares-comuns? Ou deveria aproveitar a ocasião para desmontá-los? No meu entender, qualquer texto que aborde o passado deve procurar dar-nos um modelo o mais fidedigno possível do que esse passado foi. Mas isto era hagiografia. Nada me indispõe contra hagiografias. Estou disposto a admitir que houve santos. Mas não nas Letras, essas pertencem a demónios.

Uma forma de fazer hagiografia em literatura envolve incompreender o papel “pioneiro” de autor X em relação ao seu tempo. Amaral debitou todos os lugares-comuns acerca de um autor ímpar que revolucionou o neo-realismo em 1949. Através de uma série de asserções infundadas, Cardoso Pires fazia figura de pioneiro e não de mero seguidor de tendências que o antecediam. Em defesa de Amaral, estava apenas a papaguear o consenso; daí o não ter havido resistência à biografia. Em vez de se atirar às fontes primárias, Amaral requentou um conhecimento aprendido em ensaios sobre ensaios sobre ensaios. Ao longo do livro era claro o seu alheamento de Seara Nova, Presença, O Diabo, Sol Nascente, Gleba, O Globo, Altitude, Síntese, Pensamento, Vértice e outras revistinhas literárias desses tempos com as quais é indispensável o contacto directo para ajuizar se Pires inovou ou obedeceu. Para quem conhecer bem a literatura portuguesa dos anos 30, 40 e 50 e estiver a par dos calorosos debates sobre fundo e forma, materialismo v. idealismo, psicologismo v. behaviorismo, Pires foi um produto neo-realista típico do seu tempo. Em 1968, apareceu pela primeira vez na sua bibliografia um livro que se poderia dizer inovador dentro do neo-realismo, e ainda assim apenas porque teóricos como Dionísio passaram a década anterior a lutar pelo direito dum neo-realista a fazer O Delfim. Ironicamente, nos anos 50 Pires escolheu o campo jdanovista.[36]

Mais alarmante foi a tentativa, tão comum hoje em dia, de separar José Cardoso Pires do movimento neo-realista. Na impossibilidade de o fazer, o consolo é lembrar que Pires foi um neo-realista fora de série, singular, heterodoxo. Segundo Amaral, Pires “nunca foi, desde o primeiro livro, o neo-realismo básico, preguiçoso e sentimental, de propensão lírica e pitoresco etnográfico”. É aqui que entra o prazer malévolo do revisionismo: eu sei que Amaral acredita nisto porque é nisto que a Universidade portuguesa monoliticamente acredita. Mas eu já li a minha quota-parte de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Faure da Rosa, Fernando Namora, Mário Dionísio, e tenho perfeita noção de que entre Os Caminheiros, Histórias de Amor, O Anjo Ancorado e O Hóspede de Job e os outros não há diferença em termos de técnicas ou linguagem.

Óscar Lopes, excessivamente generoso com os companheiros neo-realistas, encontrou em Histórias de Amor “uma mestria formal a exigir doravante aos nossos contistas que ainda invariavelmente precisem de um ou dois parágrafos de preparação, no início de cada história ou até de cada peripécia.”[37] Estaria a referir-se a começos rápidos como ao do conto “Os Caminheiros”:

“António Grácio disse:

– Porca de vida.

O companheiro continuou com a cabeça levantada sempre no mesmo sentido e exclamou, batendo com a bengala branca no alcatrão:

– O gajo prometeu que vinha, Tóino?

– Sei la. Em casa não está ele. Só se foi prà cidade.”[38]

Tirando o facto de isto ser verbalmente penoso, até o mais sicofântico dos fãs de Pires tem de conceder que esta secura em nada lhe dá supremacia sobre anteriores contos de outros neo-realistas. Consideremos o romance Plano Inclinado, dividido em capítulos com tanta autonomia que parecem contos. Eis o começo de “Intervalo”:

“Joana fez uma troixa com os farrapos sujos e depois passou-os à filha:

-Pega

Maria ia a sair. A mãe recomendou-lhe:

Agora vê lá se lavas isso em ordem.”[39]

Ou então “Hora de folga” do livro de contos Povo:

“Ana Pega chegou à rua e disse:

-Jesus, como estou cansada!

-Também eu…, respondeu a Caramilo, dando um ai.

-Não sentes fome?

-Uma fome de comer pedras!

-Tal e qual. Parece-me que era capaz de comer um boi inteiro! Desde o almoço que andei com o sentido numas papas, que ficaram esperando por mim na panela.”[40]

Ou “A nuvem”:

“-Hoje vens cedo!, exclamou a senhora Antónia, da porta da cozinha.

-Ela não respondeu: empurrou o pequeno portão de ferro e foi entrando, o tabuleiro vazio debaixo do braço.”[41]

Um conto de Maria Raquel Silva Pinto era já assim despachado em 1937:

“Por onde se desencaminhara a maldita?

Corcéis em arrebatado tropel, os olhos do pastor mediam monte de raiz a cume, trepando a fraga, varrendo córrego, cheios de desolação.”[42]

Uma pessoa tem de sorrir das inanidades hiperbólicas de Liberto Cruz: “Fugindo a contar uma história, na forma habitual, ele contava-a de forma muito pessoal (e de que maneira!) pondo na fabulação e na sua factura, um processo novo e excitante com a possibilidade de levar o leitor a considerar como não terminada a história que ele, efectivamente, não queria, nem estava interessado em contar.”[43] Um “critico literário” que, claramente, nunca se deu ao trabalho de analisar os contos dos primórdios do neo-realismo.

Na falta de exemplos desta diferença, Amaral repetiu na íntegra a lengalenga de que Pires era diferente (leia-se melhor) dos outros neo-realistas brasilófilos graças à influência recebida dos norte-americanos (pelos vistos, se tomares Hemingway como Mestre em vez de Jorge Amado, tornas-te um ás da prosa espontaneamente).[44] As raízes anglo-americanas da arte de Pires são um cliché que cresceu mais do que plantas trepadeiras, mas a cronologia não faz sentido para quem sabe que os norte-americanos andavam a ser lidos, recenseados, discutidos, traduzidos e imitados pelos neo-realistas desde o Sol Nascente (1937-40), uma década antes da estreia de Pires. Amaral estava correcto quanto aos americanos ainda não fazerem parte dos hábitos do público português, mas Pires chegou no momento certo porque quem estava a proceder à divulgação deles eram precisamente os neo-realistas. Victor Palla traduziu Modernos contistas americanos (1947) para a Livraria Portugália (Porto) e foi decerto através dela que Pires se iniciou nos contos de Damon Runyon com os quais Os Caminheiros partilha afinidades. Na revista Afinidades, o estudante Pires recenseou uma antologia de John Steinbeck, traduzida por dois neo-realistas de primeira geração e membros da Vértice, João José Cochofel e Rui Feijó. O volume pertencia a uma colecção de antologias de contistas americanos sob a chancela da Editora Atlântida, sediada em Coimbra, terra da Vértice. A antologia de Dorothy Parker, igualmente recenseada pelo jovem leitor, saiu na mesma editora e contou com prefácio de Palla, capista das colecções neo-realistas “Novo Cancioneiro” e “Novos Prosadores”. A Inquérito, que publicou vários neo-realistas, também publicou traduções d’A estrada do tabaco, de Erskine Caldwell, e d’O homem que não foi vencido, de Ernest Hemingway. No verso da 2.ª edição duma conferência de António Ramos de Almeida, A Arte e a Vida, esteve até anunciado um livro de Steinbeck, Na Luta Incerta, que porém não veio a lume.[45] Na Vértice apreciaram os contos de James T. Farrell devido à economia jornalística da prosa por que mais tarde seria conhecido Pires. Vergílio Ferreira analisou Caldwell. Feijó recenseou Of Mice and Men de Steinbeck. Na Vértice n.º 12-16 (Mai. 1945), Oliveira publicou um conto passado na Geórgia, “A Sombra de Jeeter Lester”, demonstrando a sua colagem ao território explorado por Caldwell em Georgia Boy.[46] A rapidez é tanto mais incrível quanto o facto de estarem a ler os norte-americanos em inglês, língua ainda invulgar no Portugal de então. (Além disso, vinham traduções do Brasil.)

Aonde quero chegar é que Pires não desceu das nuvens como um disco voador. Foi ao encontro do que se esperava dum candidato a neo-realista: adesão ao estilo norte-americano. Os neo-realistas andavam à procura de mais autores que emulassem os ianques porque reputavam o realismo objectivo deles mais conducente aos propósitos políticos da literatura engajada. Porquê? Porque a simplicidade da prosa deles, pensava-se, chegaria mais facilmente ao povo português parcamente escolarizado.

Esta preferência gerou uma das primeiras querelas internas do neo-realismo. No alvor do movimento, confrontaram-se dois campos: um, acoimado de sentimental, romântico e subjectivista, acusava certa influência dos brasileiros, caso de Alves Redol; outro aprendera a auto-disciplina e a exactidão com os económicos norte-americanos, o epítome do qual seria Carlos de Oliveira. O que isto significava é que havia neo-realistas para quem linguagem figurativa equivalia a má escrita ao passo que frases declarativas curtas e despojadas representavam a vanguarda da prosa. O que isso quer dizer é que este parágrafo perfeitamente banal

“Grácio tomou-lhe o braço e alargaram ambos o passo. As picaretas, enterrando-se na crusta de alcatrão, tinham um som oco. Cigarra pendurou a bengala no braço e deixou-se guiar pelo companheiro.”[47]

atirava Pires para o cume do brilhantismo estilístico mas esta passagem de Redol

“O sol a morrer nos montes, tão cheios de sangue como se o tivessem esfaqueado. Tristes os salgueiros de a verem partir, sem lhe poderem rogar que ficasse. Amaciavam-se os contornos e as cores. Os mouchões extinguiam-se e só as árvores invocavam presença.”[48]

fazia dele um desastrado. Quer dizer, depende do que queremos da prosa. A minha eu quero-a carregada de imagens (“tão cheios de sangue como se o tivessem esfaqueado”), animismo (“Tristes os salgueiros”), aliteração (“os contornos e as cores”) e um toque poético (“só as árvores invocavam presença”). No outro lado do oceano, estes pecados compunham as características da prosa ímpar de Vladimir Nabokov. Imagina comprares um livro apenas para encontrares um “Grácio tomou-lhe o braço e alargaram ambos o passo” que tu próprio podias ter escrevinhado nas calmas. Imagina alguém dizer-te que inventaste uma forma nova de fazer ficção por causa disso. Em 1947 Tomaz de Figueiredo tecia prosa assim:

“E, mal entrado Março, até às secas de Junho, a grande pesca da truta, à pluma: quilómetros e quilómetros por dia, apolando a penedias e resvalando em margens galgueiras, vendo espumar cachões, topando lanços parados onde a água é de vidro verde, encontrando silêncios de paraíso terreal, arrepelando a roupa em silveiredos, molhando-se até à cintura em travessias, respirando num só hausto mais oxigénio que os palerma da cidade respiram numa hora… Para a pesca da truta era preciso ser atleta, que até os milhares de chicotadas diárias só para braços de gladiador…”[49]

Que droga anti-estética andavam a tomar os amantes de “O companheiro continuou com a cabeça levantada sempre no mesmo sentido e exclamou, batendo com a bengala branca no alcatrão”? Que droga andam a tomar agora?

Se O Delfim quebrou o molde neo-realista, muito tardiamente, depois de outros neo-realistas – Vergílio, Namora, Redol – o terem quebrado primeiro, Pires tão-só acompanhou uma global liberalização da estética neo-realista que vinha progredindo desde a morte de Estaline, o que pôs fim à predominância do “realismo socialista” entre os escritores europeus comunistas. No seguimento da desestalinização da URSS, encetada por Khrushchev, ansioso por se distanciar da tirania de Estaline, os antigos apaniguados começaram a debandar do realismo socialista que outrora lhes era imposto como prova da sua identificação com os objectivos da revolução proletária. Em 1961, Barranco de Cegos, de Redol, graças à sua surpreendente incursão pelo fantástico adentro, marcha-atrás total do que os neo-realistas vinham apregoando havia 20 anos, fez mais por relaxar as restrições do neo-realismo do que qualquer livro de Pires até então. O que Redol fez neste romance foi tão chocante, para os literatos marxistas, que uma década depois Fernando Luso Soares ainda esquadrinhava teorização em Engels e Marx, em Lukács e Garaudy, para provar que Redol não cometera nenhuma heresia.[50] O Delfim, por contraste, estava tão ajoelhado ao gosto da elite que foi aclamado de imediato. Mais uma vez na vida de Pires.

Quanto a Redol, é ostensivamente delido da biografia de Pires. A longa amizade entre os dois não cabe no revisionismo de Amaral. Em defesa de Amaral, a des-neo-realificação de Cardoso Pires começou com o próprio. E o porquê percebe-se, a associação aos neo-realistas é, na actualidade, vexante, escura mácula mais ultrajante do que aparecer num selfie com skinheads a espancar indostânicos no Martin Moniz. Ao longo das décadas, a posição de Cardoso Pires dentro do neo-realismo flutuou ao sabor das estratégias de um escritor cioso da sua reputação e medroso de infringir a opinião dominante.

Em 1958, lamentava ele que o neo-realismo fosse “ultimamente tão acerbamente atacado”.[51] Por então surgia uma nova geração em conflito aberto com eles, acusando-os de comodismo, de terem posto de lado a missão de consciencializar as massas. Foi como Afonso Cautela, o angry young man de Moura, desabafou com Namora numa carta datada de 24 de Junho de 1956:

“Nem os neo-realistas reparam nisto [em aproximar escritor e público], mas tinham muito que reparar. Porque se esqueceram do rabo da sua obra. Preocuparam-se em redigir a crónica do proletariado… para os ricos e remediados (a restrita classe que compra livros). Entre aqueles onde o neo-realismo ajudaria a formar uma consciência social urgentíssima, a esmagadora maioria desconhece, com certeza, os livros dos seus generosos benfeitores…

Equívocos como este tem a nossa geração que levar às costas e dar saída a muitos becos sem saída. É claro que os consagrados não atinam com a clave em que solfejamos, primeiro porque moram no varandim e de lá não se avista a planície, depois, porque é sacramental o desconhecimento mútuo das gerações.

Haver-nos-emos sós, pois, mas vale mais sós que mal-acompanhados.”[52]

Cardoso Pires manteve-se leal aos que lhe financiariam a edição de Os Caminheiros. Era cedo demais para previsões da desdita do neo-realismo e estava longe a sua absoluta demonização no pós-25 de Abril, o esquecimento, a hostilidade, a caricatura na opinião pública. Assim, em 1972 ainda se orgulhava de informar, “Pertenço à geração que se seguiu ao neo-realismo e que recebeu dele a lição da ‘pluralidade de expressões’. Foi realmente o movimento português que trouxe mais variedade de temas e de expressões.”[53]

Todavia, em 1988, com o oblívio do neo-realismo para lá do sanável, Pires, farejando os tempos vindouros, nervoso de cuidar da reputação póstuma, contava ao El País que foi um “contestatário” do neo-realismo.[54] Foi sem dúvida com o espírito da contestação que correu a mostrar a Mário Dionísio o seu primeiro livro, para se aconselhar com o preeminente teórico do neo-realismo. E nada dizia contestação melhor do que aceitar que os neo-realistas veteranos fizessem uma vaquinha para lhe custear esse livro.

Finalmente, em 1997, quando era já mais fácil reabilitar Salazar do que os neo-realistas, quando as obras deles estavam esgotadas e sem perspectivas de reedição, subitamente a salvação tornara-se protestantemente escassa: não gramava nada de Fernando Namora, contou ao Independente, de Redol destacava o Barranco de Cegos, mas “nunca gostei sem reservas do que ele escrevia.” Nem Vergílio Ferreira se salvava. Somente Carlos de Oliveira: “Como prosador, foi extremamente original. São livros com uma prosa muito vigiada, com a fuga ao adjectivo – antes dele, os modernistas faziam traduções dos adjectivos franceses…”[55] Opinião cheia de autoridade vinda do ás da prosa.

O problema das pessoas que se esfalfam a reinventar o seu passado é que elas não duram o suficiente para levar a tarefa a bom termo. É aí que entram os hagiógrafos. Mas Amaral não contava com o filho de Redol, António Mota Redol. Que leu a biografia com atenção e em resposta redigiu um texto extraordinário que denuncia as omissões e distorções levadas a cabo por Amaral.[56] Esta réplica é o vivo exemplo de porque é que nunca haverá crítica literária inteligente sem primeiro haver história literária bem fundamentada, com datas, nomes e fontes e o demais aparato burocrático da caça ao facto que é tão secante para os recém-saídos da Faculdade que querem ser críticos e “criadores” ao mesmo tempo.

Integrado Marginal é importante pela exposição que teve, mas ocorrem com frequência semelhantes branqueamentos e deturpações. Quando Vasco Pulido Valente recuperou, em 2016, a figura de Mário Dionísio, morto há 13 anos, não foi só para lembrar que foi “um mau poeta, um mau romancista, um mau pintor de fim-de-semana e, principalmente, um mau crítico” – o punchline é que ele foi um Torquemada do tempo do PREC, um inquisidor-geral que “acabou a presidir à “comissão de saneamento” do Ministério da Educação. “Toda a vida se preparara para esse nobilíssimo papel.”[57] Cá está uma das muitas caricaturas do psicopata neo-realista: o apparatchik com ganas de transformar o país numa república soviética. Que Dionísio não tivesse voltado ao PCP depois da expulsão não servia de atenuante. E a Pulido Valente era-lhe despiciendo que sectores importantes da sociedade, a Educação à testa, precisassem, em 1974, de ser saneados de salazaristas que abertamente defenderam uma ideologia hostil à democracia em construção. Nem lhe importava que Dionísio, que, ao contrário de Pulido Valente, somava décadas de experiência de professor liceal durante o Estado Novo, fosse sensível à impossibilidade de haver ensino democrático numa atmosfera permeada de professores que outrora bufaram à PIDE os seus colegas. Era cometer uma enorme violência emocional contra os professores comprometidos com a democracia exigir que dessem o seu melhor numa escola em cujos corredores se teriam de cruzar com os reitores que os vigiaram activamente, como se ser-se delatado à PIDE fosse uma diferença de opiniões inconsequente. A mulher de Dionísio, Maria Letícia, esteve ministerialmente proibida de dar aulas por anos a fio apenas porque assinou a lista do Movimento Unitário Democrático (MUD), que em 1945 se organizou para disputar o poder numas “eleições livres”, promessa que Salazar não cumpriu, claro está. Dionísio, que por duas vezes recusou a oferta de liderar o Ministério da Educação, aceitou a incumbência de limpar o sistema de ensino de lacaios salazaristas porque acreditou que a nascente democracia tinha de ser defendida de inimigos dentro dela. Mas Pulido Valente, em vez de “tentar perceber”, congratulou-se por poder assacar-lhe uma veia maléfica e fanática.

Henrique Raposo, o actual candidato a sucessor de Vasco Pulido Valente, foi ao ponto de implicar com a própria toilette dos neo-realistas. O “típico intelectual neorrealista” era “essa figura que fazia questão de andar entrapado, mal penteado e, se possível, com mulheres feias e sem maquilhagem. Um intelectual neorrealista nunca teria um Alfa Romeo — seria pecado.”[58] Os caricaturistas dos neo-realistas tinham pancada pelos carros que conduziam ou não. Já o supracitado VPV se recordava do pai, muito submisso ao todo-poderoso Dionísio, prometendo-lhe “não usar o carro em viagens de prazer”. (O facto de os dois casais veranearem em Galamares e no Magoito, onde os Correia Guedes estavam construindo uma casa de férias, não é para aqui chamado.[59] Mas é giro imaginar um figurão da Robbialac apanhando o eléctrico Sintra-Azenhas do Mar para ir a banhos.)

Eu alvitraria que os neo-realistas não possuíam Alfa Romeos porque quando as suas mulheres não estavam a ser proibidas de trabalhar pela PIDE, estavam eles a ser deportados para Angra do Heroísmo e Tarrafal ou trancados em Caxias, sabido como é que os patrões preferem empregados assíduos. Os salários também limitavam aquisições luxuosas. Por quantos anos é que Vergílio Ferreira teria de poupar do seu magro salário de professor liceal antes de poder pensar sequer em comprar um carro desportivo? Em 1968, ao depor num inquérito sobre a “reforma do ensino liceal”, o ponto fulcral para ele foi a “dignificação económica do professor”, acima sequer da liberdade de pensamento.[60]

Convém lembrar que alguns neo-realistas – Dionísio, Namorado, Fafe (até ser proibido[61]), Vergílio, Óscar Lopes, Urbano Tavares Rodrigues (até ser posto numa lista negra da PIDE[62]) – foram professores liceais e universitários, pelo que eram obrigados a seguir um rigoroso código de vestuário (a gravata foi praticamente a segunda pele dos funcionários públicos ao longo de toda a ditadura), devidamente monitorizado por reitores. A respeito de vestimentas, Namora contou uma estória ilustrativa na Autobiografia. Namora, natural da Condeixa, exerceu a medicina na província, em várias partes do país, ganhando mal pois os seus pacientes, empobrecidos, pagavam em géneros em vez de dinheiro. Nos anos 50 foi convidado a entrar para o Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, dirigido por Francisco Gentil. Na primeira vez que foi ao gabinete do director, um amigo de Namora, José Bacelar, fitando a sua “tosca e desgravatada camisa”, perguntou-lhe: “E é com essa indumentária de pescador da Nazaré que você se vai apresentar ao director do Instituto?”[63] Para Namora, este aspecto não era uma declaração marxista, era apenas identificação com as raízes camponesas de que se orgulhava. Hoje em dia ninguém quer saber quem usa ou deixar de usar gravata.

Após o 25 de Abril, Fafe foi convidado por Mário Soares a assumir o cargo de embaixador de Cuba. As pessoas que conviveram com a mulher dele, Maria Virgínia, recordam uma embaixadora “encantadora”, chique, desembaraçada nos lavores, capaz de dar um toque de graça às coisas e eventos (“jantares oficiais na residência em que com poucos ingredientes fazia inesquecíveis pratos”), e uma anfitriã que “tinha o verdadeiro culto da casa e do bom gosto” e espirituosa conversadora.[64] O benefício das ideias-feitas de Raposo é o introduzir-nos na mente a imagem dum rabioso anti-neo-realista esmiuçando furiosamente os confins da net por fotos de mulheres mortas há décadas, como um necrófilo, para conferir se realmente eram umas desajeitadas e deselegantes.

Os surrealistas disseminaram lendas negras, também. Cesariny engendrou uma discórdia vivencial para explicar o seu desprezo pelos neo-realistas. Um extremoso amor à vida e à liberdade terá levado os surrealistas a deixarem-se de actividades que chateassem o regime. “Ser preso é muito chato”, explicou. “Um grupo surrealista, com poderes plenos para poder escabujar á vontade, tinha que dar bota. E ninguém queria ir preso.”[65] Porque outros valores falavam mais alto: “A nossa ideia era não irmos presos. Claro que era possível ter formado um movimento, é possível ser-se mártir ou herói, matar-se alguém ou ser-se morto. Mas a verdade é que tínhamos um certo amor à vida.”[66] Ele tentou mesmo fazer esta cobardia parecer virtuosa. Já os neo-realistas, uma índole masoquista dava-lhes queda para o martírio: “Os neo-realistas ficavam muito honrados quando iam presos.”[67] Se os caricaturos de Raposo eram robots sem sentimentos que escolhiam esposas por calculismo ideológico em vez de amor, os rivais de Cesariny aguentavam perigos e privações por exibicionismo, não por ideais nobres.

Porém, a 27 de Fevereiro de 1970, no exílio argelino, Fernando Piteira Santos e a mulher sofriam com o sentimento de terem perdido as “oportunidades do convívio que mais nos interessava”, os filhos e netos de quem estavam longe.[68] Em 1962, Piteira Santos protagonizou uma fuga de prisão; de imediato a mulher, Maria Stella, foi detida à porta de casa por uma brigada da PIDE, na presença da filha, Maria Antónia. Então Piteira Santos escreveu uma carta (02/03/6), endereçada ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, que circulou por Lisboa de mão em mão. Não falava o comunista, mas o marido e padrasto preocupado: “Essas duas mulheres que me são queridas ficaram numa situação dificílima, minha Mulher foi encarcerada no Forte de Caxias, onde sofre, com a situação de prisioneira, a consciência dos perigos que eu corro e a incerteza do que se passa em sua casa.” E: “O seu crime é ser minha Mulher. Não é legal, nem é decente, perseguir a família de um adversário. Era a Maria Stella suspeita de…?”[69] Mário Sacramento, ao fim da vida, quando a Oposição lhe parecia paralisada, interrogou-se sobre a utilidade do seu antifascismo. “Esta sensação horrível de que vivi para nada, vai-me delapidando! Intento fazer cada vez mais – e faço cada vez menos…”[70] E o diário de José Gomes Ferreira revela que, longe de estar orgulhoso pelo filho Raul ter sido preso, viveu preocupado com a prisão dele no Porto.[71] Não é implausível que antifascistas se tenham vangloriado das suas actividades antifascistas, mas é curioso que os inimigos do neo-realismo nunca os nomeiem. Isto não se deve tanto ao facto de não terem provas, embora provavelmente careçam delas, como ao facto de saberem, consciente ou inconscientemente, que o público a que se dirigem preencherá as lacunas desta memória colectiva dos perversos neo-realistas com ideias-feitas extraídas da atmosfera saturada com anti-neo-realismo. Afinal de contas, essa memória colectiva foi, em larga medida, inculcada pelas narrativas enviesadas de Raposo e Cesariny.

Sem sair da frente surrealista, Luiz Pacheco arrogou a autoridade para conferir aos outros certificados de “esquerda”. Certa vez perguntou, “Gostaria que mo dissessem (e provassem) onde tipos como o Fernando Namora, o Mário Braga, o Cardoso Pires foram ou são de esquerda? Eram escritores da esquerda?”[72] Na competição pelo capital social conferido por um passado antifascista, Pacheco aparentava sentir-se diminuído pela possibilidade de que talvez outros antifascistas tivessem feito mais do que ele. (Não era difícil.) Esta deve ser a única ocasião em que vale alguma coisa a opinião da PIDE, que em relatórios designava Namora “pró-comunista”.[73] Há um livro inteiro sobre as actividades oposicionistas de Namora, Fernando Namora por entre os Dedos da Pide. Repressão E Os Escritores no Estado Novo, da autoria de Paulo Marques da Silva, que pormenoriza as actividades “de esquerda” que fez Namora, todas um tanto mais importantes e pessoalmente perigosas do que encomiar o Marquês de Sade e raptar raparigas adolescentes. Mais uma vez, isto é irrelevante para quem apenas queria desumanizar e denegrir rivais.

Possivelmente atormentados pela consciência de que os neo-realistas efectivamente lutaram mais contra a ditadura do que eles, Pacheco e Cesariny prodigalizaram-se após o 25 de Abril a montar a Ditadura Neo-Realista. Contou Pacheco: “A edição foi o que fiz de mais positivo. Havia uma barreira difícil de ultrapassar, eu lutei contra essa barreira e vencia-a. Era a PIDE, a Censura, toda essa merda, mas também havia os neo-realistas que ocupavam tudo (eu fundei uma editora porque não tinha outra para onde ir). Eles ocupavam tudo e caluniavam imenso. Essa malta não me escapa.”[74] O explícito desejo dum ajuste de contas devia deixar qualquer leitor de pé atrás quanto à fiabilidade dos pronunciamentos dele sobre neo-realistas. E num diário anotou: “Eles [os neo-realistas comunistas] eram os da Oposição, os INTOCÁVEIS com uma susceptibilidade feita de miudezas muito miudinhas e ridículas. A táctica predilecta (e até hoje persiste…) era a do ABAFADOR. Não se ligava. Fazia-se de conta que o opositor simplesmente não EXISTIA. NÃO HAVIA.”[75] Agora os gravames de Cesariny: “É verdade que o neo-realismo conseguiu uma espécie de Estado dentro do Estado; o neo-realismo tinha um aparelho político subjacente. O neo-realismo ocupou os jornais, ocupou as editoras, ocupou as revistas… O surrealismo, ou antes, os surrealistas (não se podia falar em surrealismo, não havia) ocupavam as mesas dos cafés, quando muito – e quando não eram corridos, como foram do Café Gelo, violentamente depois de uma manifestação.”[76] Referindo-se especificamente à sua efémera revista, Contraponto, Pacheco fabulou: “[A Contraponto] era uma revistinha de crítica assanhada, antissalazarista… foi muito mal distribuída aqui em Lisboa e aquilo veio tudo devolvido porque a revista acho que foi acoimada de coisa reaccionária e fascista e não sei que mais…. Bem, o que é certo é que eu aí fiquei com uma grande desilusão, foi um bom choque que eu tive…”[77]

Esta abafação da desconcertante Contraponto é uma versão fantástica da história. A versão mais rés aos factos históricos é esta: “Saiu o primeiro número de Contraponto, cadernos de crítica e de arte, colaborado por gente nova, poetas e escritores, que se apresenta galhardamente. Dentro em breve faremos a Contraponto mais larga referência.” Assim noticiou o Diário de Lisboa, um dos diários de maior tiragem do país, a 12 de Outubro de 1950.[78] Dito e feito, no dia 18 saiu a recensão no suplemento literário do Lisboa:

“Welcome! Os novos são sempre bem-vindos! Embora modesta, ainda magra de formato, a pequena revista Contraponto – em ante-título denomina-se Cadernos de crítica e de arte – marca uma brilhante posição intelectual. Quem são os seus colaboradores? Os nomes ainda não são muito conhecidos, mas todos eles, nos seus escritos, marcam uma directriz séria de cultura, um magistério crítico sem aleivosias, nem agressividade: uma perscrutação inquieta de noções de estética que tornam simpático, mesmo agradável, o convívio das páginas brancas de Contraponto.

Desejamos, sinceramente, que cresça e se robusteça! Há que animar a pequena luz que nasce! Se ela é pouco, hoje, amanhã, pode subir, altear-se, deslumbrar até, como a lâmpada maravilhosa de Aladino!

Publicações como esta não se fazem sem sacrifícios materiais grandes, no geral da parte de pessoas que nada possuem – a não ser a sua fé de beleza e a sua inquietação intelectual. Quantas revelações não surgem neste Contraponto? É possível que se note uma ou outra incipiências, mas alguma coisa Contraponto afirma – o seu amor pelas letras, no princípio de uma vereda que se pode alargar até ser caminho amplo e franco. Aos rapazes do Contraponto, se o são, cabe-lhes o dever de proclamarem com audácia e desassombro os seus princípios de arte, de literatura, de filosofia e de exame. Sejam rebeldes, sejam novos, sejam, sobretudo, sinceros! E vençam! Ficamos à espera do segundo número. No deste, que tem interesse, destacamos: “Apontamentos”, de Augusto Abelaira; “Sobre a poesia de Carlos de Oliveira”, de Luís Pacheco; “Interpretação de Panait Istraté”, de Arlinda Franco Oliveira e “Crítica” de Eugénio Morais Cardigos e Vasco Vidal.”[79]

Usei o exemplo do Diário de Lisboa porque, no imaginário dos anti-neo-realistas, foi um jornal ao serviço do PCP. Ou para citar Raposo: “O cerco comunista marcou sempre a vida da O Tempo e o Modo. O PCP e os seus anexos culturais, dos diários como Diário de Lisboa às revistas como a Seara Nova, nunca esconderam o incómodo provocado pela revista de Bénard e Alçada.”[80] Mas tal como o Lisboa não silenciou a Contraponto, O Tempo e o Modo foi saudado vigorosamente por este jornal a 21 de Fevereiro de 1963: “Sob a direcção de António Alçada Baptista, e reunindo à sua volta numerosos valores representativos das novas gerações, começou a publicar-se a revista O Tempo e o Modo,” lê-se escarrapachado na primeira página do suplemento literário.[81] Coerente com o tom afável, a nótula nunca alude nem levanta problemas acerca da orientação católica dos redactores. Por longos anos, praticamente não sairia um número novo sem o Lisboa o noticiar, participando activamente na sua divulgação junto do público.

Há indivíduos que são associados a neo-realistas sem nunca o terem sido apenas para os seus inimigos os enxovalharem com plena impunidade. Uma coisa de que me apercebi é que se quiseres rebaixar alguém, desde que o assaques primeiro de neo-realista, ninguém levantará objecções. A talho de foice vem Joana Emídio Marques, um dos piores “jornalistas culturais” de Portugal. Num artigo, “Isabel da Nóbrega, a musa que Saramago apagou da (sua) história,”, relato da relação amorosa entre José Saramago e Isabel da Nóbrega, ela reproduz um depoimento do jornalista António Valdemar que é insano na sua apreciação dos gostos literários do futuro autor de Levantado do Chão: “Aquilo foi uma grande paixão. Ele ainda estava casado com a Ilda Reis e só devia ler romances neo-realistas. Estou convencido que foi a Isabel da Nóbrega que o tirou do esgoto neo-realista e o influenciou para descobrir outras literaturas, nomeadamente o Pessoa. Acredito nisto: sem a Isabel, Saramago nunca teria escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis”.[82]

Vamos lá a ver. Saramago e Nóbrega aparentam ter começado a namorar entre 1966 e 1967. Por essa altura, e desde 1959, ele era o director literário duma editora, as Edições Cor, que predominantemente publicava traduções de ficcionistas estrangeiros. Entre os raros ficcionistas portugueses que editou, havia dois autores de que gostava muito. Um foi José Rodrigues Miguéis, cuja obra se fez à margem dos neo-realistas, carregada de laivos existencialistas em Páscoa Feliz e mais tarde evoluindo para um neo-ecianismo com retoques de autobiografismo presencista. Trocando por miúdos, Rodrigues Miguéis fazia o tipo de romance que mais se fazia pelo mundo fora nos anos 60 e 70 e hoje ainda: o romance social realista. O outro autor foi Jorge de Sena, cujo livro de contos Andanças do Demónio Saramago publicou em 1960. Esta macedónia de contos realistas e fantásticos abre com um prefácio onde Sena justifica o uso do fantástico (endereçado em surdina aos neo-realistas, que se opunham a esse modo literário). É lícito dizer que Andanças do Demónio estivesse nos antípodas do neo-realismo… se o neo-realismo não tivesse evoluído nos anos 50. Já vimos que, em 1961, o supracitado Barranco de Cegos chocou muito correligionário de Redol por causa duma inesperada incursão pelo fantástico. O neo-realismo de ‘61 já se distanciara do neo-realismo de ‘39, embora os detractores estrategicamente estivessem cegos a esse pormenor. Saramago gostou tanto do livro de Sena que o inscreveu no Prémio Camilo da Sociedade Portuguesa de Escritores. Este não é o comportamento dum indivíduo que só “devia ler romances neo-realistas.” Nem o próprio Saramago alguma vez escreveu ficção neo-realista: Terra do Pecado não se integra nessa corrente, tampouco Clarabóia, dois romances realistas na tradição naturalista do Oitocentos e ainda em voga na Europa de então. Em 1966, no ano em que terá começado o namoro com Nóbrega, publicou a Sena Novas Andanças do Demónio, ainda mais dominado pelo fantástico, contendo a fascinante novela “O Físico Prodigioso”. Claramente, não precisou da Isabel para o tirar do “esgoto neo-realista”. Os factos que acabei de relatar podem ser facilmente achados numa busca do Google. E, porém, Valdemar fala do alto duma tribuna de inquestionável certeza. E faltou a Emídio Marques, claro está, o cabedal histórico para perceber que estava a ser endrominada. Ou talvez lhe seja indiferente. Havia quase dez anos, supondo que ela fosse uma jornalista cheia de boa fé, trouxe-lhe à atenção um erro factual num artigo. Afirmava ela que Vergílio Ferreira recebera o seu primeiro prémio literário apenas em 1981. O porquê desta demora ficou subdito: Vergílio enraiveceu as hostes neo-realistas que, entrincheirados nos júris dos prémios, o sabotaram para não fazer sombra aos membros da seita. Mas ela estava errada. Aparição recebeu o Prémio Camilo relativo ao ano de 1959. Em 1966 recebeu o Prémio da Casa da Imprensa por Alegria Breve.[83] Vai para dez anos que regularmente verifico se o artigo já foi corrigido. Um minuto atrás ainda proclamava o seguinte:

“Só depois da publicação dos primeiros volumes de Conta-Corrente é que ele ganha alguma auto-estima e o meio cultural português parece ser obrigado a reconhecer-lhe a existência. É convidado por Marcelo Rebelo de Sousa para escrever uma crónica semanal no Expresso (nunca ter tido espaço para escrever em jornais era uma das suas mágoas). E só nesse mesmo ano ganha o primeiro prémio literário da sua carreira, o D.Dinis. Até aos anos 90 ganhará todos os prémios literários inclusive o Camões, em 1992.”[84]

Chegada aqui, Emídio Marques entra furiosamente pelo território batido da Ditadura Neo-Realista adentro, dando validação ao mito de que os comunas se infiltraram em cada escaninho do mundo cultural, durante a ditadura salazarista, apoderando-se das redacções de jornais, das editoras, dos júris dos prémios e por aí fora, expulsando para as margens os que não se submetessem à sua ideologia estético-política. Além de injustiçado pelos pulhas neo-realistas que andavam a premiar compadres, Vergílio é retratado como um escorraçado da imprensa. (Se desconsiderarmos Vértice, Diário Ilustrado, Democracia do Sul, Dom Quixote (Évora), Diário Popular, Diário de Lisboa, Diário de Moçambique, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Évora, Jornal de Letras e Artes, Notícias da Amadora, O Comércio do Porto, Seara Nova, Colóquio, República, Europa, Árvore, LER, Eva, O Tempo e o Modo e um ou outro periódico cuja memória me falha de momento, de facto ninguém lhe pediu colaboração na imprensa durante o fascismo.) Incidindo o artigo dela especificamente no Conta-Corrente, estranho é que Emídio Marques tenha omitido a passagem na qual Vergílio de imediato se arrepende de ter aceitado o convite de Rebelo de Sousa. 13/01/81: “E agora? O Marcelo Rebelo de Sousa, do Expresso, pediu-me colaboração semanal. Disse que sim. E aqui estou eu farto de dar voltas à cabeça para saber porque o disse. Acabou-se. mas o resultado é ter estado para aqui a empilhar textos que me dêem um avanço sobre as necessidades e preenchem as falhas que venham a ocorrer. O chato é sobretudo ter de mudar de tom e de mobiliário na cabeça. Um romance escreve-se com o que temos no miolo, mas que fica lá para os novos arranjos.”[85] A Vergílio faltava espírito para manter uma crónica regular na imprensa, era um pensador muito focado numa gama estreita de ideias, o que é a morte do cronista, que vive da diversidade semanal do tema. Noutra ocasião (17/09/84) disse do jornalismo que é “trabalho efémero, como aliás, todo o jornalismo cronicado.”[86] Estas não são as palavras dum intelectual mortinho por arrepanhar a sua crónica semanal (ainda estou por localizar onde expressou “mágoas” por nunca ter tido espaço para escrever nos jornais). A colaboração de Vergílio na imprensa foi ampla mas ao ritmo irregular e espontâneo duma personalidade impelida por necessidades pontuais de comunicar certas ideias em dado momento, sem disso fazer um hábito profissional, imposição a que jamais se ajeitou. O que não o impediu de se ter desdobrado numa imensidão de textos anteriores a 1981.

PARTE TRÊS

Que levará um poeta surrealista, um editor contra-cultura, um sociólogo da literatura e um dos principais normalizadores da extrema-direita portuguesa a convergirem no consenso de que um punhado de intelectuais anti-salazaristas, seguindo ordens dum PCP clandestino que a custo sobrevivia às sucessivas rusgas da PIDE, se apoderaram de jornais, de revistas e de editoras, ao ponto de serem capazes de impor uma ditadura cultural de pensamento único excluidora de quem não se submetesse à ideologia marxista? Os mitos são esquivos, como dizia Gilbert Durand. Ao procurarmos a origem da Ditadura Neo-Realista convém não imitarmos os seus sustentáculos. Devemos rejeitar o simplismo de que uma variada gama de pessoas partilha uma única ideologia política, por exemplo. Também devemos rejeitar que todas elas se reuniram em assembleia secreta para acertar os pormenores, como se formassem eles a conspiração que imputam aos neo-realistas/comunistas. Em vez de especular sobre origens, prefiro listar alguns aspectos do mito. Já circulava no Chiado nos anos 50, quando jovens escritores antifascistas mas desafectos do PCP e do neo-realismo acusavam os anciões de lhes barrarem a entrada nas editoras e nos jornais. Após o 25 de Abril de 1974, a Natália Correia, Mário Braga, Eduardo Lourenço – intelectuais simpáticos ao PS, que disputava o poder político ao PCP durante o PREC – conveio muito o mito. Mas a verdade é que estes e outros intelectuais não-comunistas – Vergílio, Alçada Baptista – acharam plausível uma ditadura comunista. Especulo que foi no PREC que se cristalizou a Ditadura Neo-Realista: a cumplicidade do MFA com o PCP, especialmente durante o Gonçalvismo, as campanhas de dinamização cultural que faziam propaganda pró-comunista na província, o ingresso de muitos intelectuais comunistas no MUTI – Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para Defesa da Revolução (fachada do PCP), a nacionalização de muitos jornais, episódios espectaculares como o saneamento cometido por Saramago a jornalistas do Diário de Notícia e a tomada da Rádio Renascença e do jornal República por “trabalhadores” afectos ao PCP, contribuíram para uma fantasia que retroactivamente imbuiu os neo-realistas e pêcêpistas com mais poder no Estado Novo do que realmente tiveram. Entretanto, através de pontuais intervenções na imprensa por via de crónicas ou entrevistas, Alçada Baptista, Pacheco e Cesariny foram mantendo vivo o discurso anti-neo-realista. Mas os mitos são irrequietos e proteicos e, passado o 25 de Novembro, com a emergência de uma imprensa extrema-direita, intelectuais como Jaime Nogueira Pinto e Orlando Vitorino alargaram a esfera de influência de modo a inculpar toda a esquerda, comunista ou não, no mito. Com o passar do tempo, a Ditadura Neo-Realista metamorfoseou-se no actual mito da “hegemonia cultural da esquerda”. Em qualquer uma das suas iterações, restrita ou alargada, é inocentemente apregoada tanto por figuras públicas identificadas à esquerda – João Pedro George, Diogo Vaz Pinto, Joana Emídio Marques – quanto por figuras direitistas como Rui Ramos, Henrique Raposo, Bruno Vieira Amaral e Miguel Bruno Duarte. Mixórdia incrível, esta.

Devemos combater a fácil satisfação de nos consolarmos que isto foi uma conspiração urdida pela direita. Entre os seus mais estridentes promotores contam-se intelectuais esquerdistas. Joana Emídio Marques no Observador e Diogo Vaz Pinto no Sol já fizeram muito pela sua vitalidade actual. Em tempos, os dois foram co-locutores num podcast, “Enterrados no Jardim”, onde amiúde davam azo à obsessão de vergastar a esquerda por em tempos ter maltratado intelectuais direitistas. Também adoravam malhar em partidos de esquerda – BE, PCP e Livre – com uma tendência para fulanizar questões quando Rui Tavares vem à baila. (O podcast ainda existe, mas Emídio Marques já não participa nele.) Em 2023, ela assevera que Eduardo Lourenço “Foi um dos primeiros que falou (sic) da Agustina, logo no primeiro romance da Agustina, em que ele diz indubitavelmente que a Agustina está ao nível de Fernando Pessoa. Quando depois, durante gerações e gerações e só agora é que se começa a falar – pronto ela agora já morreu, também, não é, já não chateia e já se pode, já se pode olhar um bocadinho para quem de facto foi a Agustina.”[87] Este momento marcava o clímax duma afirmação emitida por ela quase uma hora antes: “A esquerda tradicionalmente não gosta da Agustina”.[88] Com isto apagou da história de Agustina o empenho de Óscar Lopes, comunista e membro do PCP desde 1945, em promover a obra dela. Apesar da indignação sentida por Emídio Marques em nome de Agustina, Agustina nunca regateou a Óscar Lopes, seu amigo pessoal, a importância cimeira dela na carreira dela: “Devo a Óscar Lopes os primeiros conhecimentos sobra a crítica. A companhia que o crítico pode significar para o fugitivo da área familiar, em geral a que nos ensina primeiro a duvidar de tudo, foi para mim Óscar Lopes. Antes de A Sibila tomar lugar nas letras portuguesas, já ele se interessava pelos Contos Impopulares, melancólico salto sobre um abismo de lirismo desempregado.”[89]

Igualmente impressionante é a certeza que Vaz Pinto exibe, no mesmo episódio, de que no tempo do PREC “uma direita foi forçada a remeter-se, a ser remetida para o armário, na exposição pública cultural, de repente o país todo estava na exuberância dos ideais de esquerda e nesse período até a Agustina, como o Vitorino Nemésio, como não sei quê, foram de algum modo irradiados do espaço público.”[90] Nemésio foi, na verdade, o intelectual mais reconhecível do público português entre 1969 e 1975, graças a um programa televisivo, “Se bem me lembro”. Um intelectual tão amado pelo público que se manteve na grelha 6 anos. Para efeitos de comparação, o “Zip-Zip”, talvez o outro único programa da RTP do tempo da ditadura que assentou arraiais na memória colectiva, só durou 14 episódios. Nemésio esteve 6 anos na televisão, passou o PREC inteiro na televisão. O último episódio foi para o ar a 12 de Dezembro, duas semanas após o 25 de Novembro.[91] E Nemésio saiu da RTP para assumir o cargo de director do jornal recém-fundado O Dia (cuja primeira edição saiu um dia antes da emissão final).

Vaz Pinto e Emídio Marques, na sua ânsia de matar os “pais”, fazem-me pensar no conflito que deflagrou, na Europa desde os anos 50, entre a Nova Esquerda libertária e a Velha Esquerda socialista-comunista, como se as ondas de choque não houvessem chegado a Portugal nessa mesma altura. (A Ditadura Neo-Realista resulta, em parte, julgo eu, dum efeito dessa divisória, o momento em que jovens intelectuais esquerdistas escolheram dissociar-se de predecessores a quem imputavam a ingenuidade de terem acreditado nas fábulas humanistas da totalitária URSS.)

Evidentemente, a crença neste mito prejudica a saúde da democracia no sentido em que valida o ressentimento de uma série de pessoas com ganas de ajustarem contas com um passado pseudo-democrático, que afinal não foi menos totalitário e intolerante do que o regime alegadamente fascista que veio substituir. Vendo bem, alguns dos que desancam o mito até pensarão que são eles os campeões da liberdade e de uma democracia vindoura que precisa de ser refundida, trazendo à luz as “verdades” que a Universidade filocomunista oculta. Certamente, isto preocupa-me. Mas, dado o meu interesse em estudos histórico-literários, o mito prejudica-me directamente porque produz péssima história.

Consideramos o exemplo de João Pedro George, biógrafo de Luiz Pacheco. Vimos acima que as queixas de Pacheco de que a Contraponto foi “abafada” pelos neo-realistas/comunistas são, no mínimo, questionáveis. A Contraponto foi, isso sim, saudada num jornal diário que Henrique Raposo designa por “anexo cultural” do PCP. Contudo, nunca nas 600 páginas de Puta que o Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco é esta fonte citada por Pedro George. Estará na crença dele no mito a explicação para tal lapso? Se fores programado para pensar que não há nada a procurar, porquê ir procurar? Este lapso levanta a pergunta: se alguém que nem é perito em Pacheco (eu) encontrou uma fonte que põe em dúvida a versão de Pacheco sobre a coitada da Contraponto, que mais encontraremos se formos vasculhar República, O Século, Diário Popular, Diário de Notícias, etc.? E havendo mais recensões, qual será o teor? Elogioso? Reprovador? Enquanto estudioso, acho muito interessantes estas interrogações e estou aberto a qualquer possibilidade. Mas será que Pedro George foi averiguar? Ou será que, manipulado por Pacheco, deliberou à partida que já detinha a verdade? Se o historiador-biógrafo abdica do seu papel de duvidador, torna-se um carimbador de clichés mentais. A função do intelectual é ser céptico e aduzir perspectivas a partir de factos. Fiarmo-nos, deslumbrados, na mitomania dum biografando conhecido por mentir compulsivamente não é, decididamente, um bom método de estudar história. As ideias-feitas são a ruína do inquérito e do cepticismo. Bloqueiam vias de investigação. Baixam a pulsão escrutinadora. Avalizam lugares-comuns. Para mim, dependente das biografias e histórias dos outros para os meus estudos, isto é alarmante porque eu não posso confiar nas interpretações e conclusões de investigadores condicionados por mitos. Pedro George está a fazer má história se, para provar que durante a ditadura houve outra ditadura, neo-realista/comunista, que estrangulou a cultura, ao longo de 600 páginas não recorrer a outras fontes que não as asserções do próprio Pacheco de que, sim, houve uma ditadura neo-realista. Convinha que uma tese tão extraordinária assim, exceptuando o suspeito Pacheco, um mitómano obcecado com glória pessoal e pródigo em se contradizer de entrevista para entrevista, fosse corroborada por fontes independentes. Não por asserções contadas décadas após os eventos a jornalistas opados de iliteracia histórica. De contrário descambaremos numa orgia incestuosa de má história.

Não quero focar-me demasiado na suposta perseguição à revista Contraponto, mas se este pormenor é questionável, que mais não será? Quando Pacheco e Cesariny e os discípulos actuais repetem que havia editoras e jornais nas mãos dos neo-realistas/comunistas ao ponto de criar uma hegemonia que marginalizava os surrealistas, que provas há? Que provas poderia Cesariny ter disponibilizado se a Delfos lhe editou a Poesia (1945-1955) em 1961? Se estabeleceu uma relação com a Guimarães Editores em 1959, quando lhe editou Nobilíssima visão? Foram duas excepções à vasta Ditadura Neo-Realista? Muito bem, mas se acabámos de confirmar que houve duas excepções, nesse caso quantas mais excepções houve? E quantas excepções é preciso contabilizar para a excepção se converter em regra? Que editoras rejeitaram os surrealistas por ideologia? Que jornais os silenciariam? Quais autores viram seus livros recusados especificamente por não aderirem aos princípios do realismo socialista estalinista? Pergunto em boa-fé, curioso e com todo o desejo de ser instruído. Ser-me-ia fácil listar 20 obras literárias das quais poderia argumentar que ficaram na gaveta até à Revolução dos Cravos por causa da PIDE/DGS e da DGC. Mas os repetidores da Ditadura Neo-Realista nunca me dirigiram a um testemunho que declarasse explicitamente: “Não pude publicar este livro antes de 1974 porque não seguia os princípios estéticos do neo-realismo.” Todavia, fiando-me em Pedro George e noutros historiadores sou obrigado a concluir que há exemplos aos pontapés. Só rogo a esses peritos que mos apontem para eu ir escrutinar por conta própria.

Compreender donde veio este conto de fadas deveria ser uma das prioridades dos Departamentos de História dos Institutos de Ensino Superior por Portugal afora, nos tempos actuais em que a “ditadura neo-realista” de antanho se transformou na “ditadura cultural de esquerda”[92] e na “hegemonia cultural de esquerda”,[93] pilar da mundividência da extrema-direita. Não ignoro que este assunto chegou a Portugal devido ao poder desmesurado dos EUA em exportar o seu lixo cultural, inclusive as guerras culturais. Igualmente sei que são antigas as teorias de conspiração sobre forças progressistas carcomendo de dentro os valores do antigo regime. Num livro de 1798, Mémoires pour server à l’histoire du jacobinisme, o jesuíta Augustin Barruel fantasiou que a Revolução Francesa foi provocada por uma cabala anti-religiosa e anti-cristã de philosophes, maçons e a Ordem dos Illuminati da Baviera.[94] A ideia original de Barruel foi repescada no começo do século XX por Charles Maurras, figura central do Action Française, um grupo anti-republicano, conservador, cristão, monárquico. Em 1902 Maurras publicou L’Avenir de l’intelligence, uma denúncia da conspiração progressista que infiltrou as Letras francesas – jornais, literatura, universidades, etc. – para destruir o que resta da verdadeira França. Em Portugal, Maurras exerceu tremenda influência nos Integralistas Lusitanos, que se organizaram em reacção à I República e participaram em investidas para restaurar a monarquia. Sendo um esteio do pensamento conservador português, não é surpreendente achar L’Avenir de l’intelligence, sob a forma de epígrafe, num livro de Nogueira Pinto, nomeadamente no segundo volume de Portugal: Os Anos do Fim (1977): um capítulo ostenta o título “A ditadura intelectual das esquerdas”.[95] Este foi um momento crucial na evolução do mito: deixou de se restringir aos neo-realistas para abarcar a esquerda inteira. Ainda assim, reconhecendo que seria quase inevitável não importarmos este mito dos EUA, devíamos ao menos estudar até que ponto a sua rápida aclimatização não foi propiciada pelos longos preparativos dos fautores da Ditadura Neo-Realista.

Infelizmente, antevejo alguns empecilhos institucionais. Tal curiosidade implicaria pôr em cheque muitos indivíduos amados pela Universidade que contribuíram para o conto de fadas: Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, António Alçada Baptista, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Natália Correia, etc.

Atenta, leitor, na figura ridícula de Herberto Helder. Em 1999 a Assírio & Alvim reeditou Os Poemas de Edmundo de Battencourt. À introdução da edição original Helder apôs um post-scriptum. Sentira necessidade de explicar aos leitores modernos desenquadrados: “Era o tempo da ditadura neo-realista.” A bem dos inocentes desinformados, acrescentou: “Como sempre, como em qualquer sistema de autoridade, toda a gente fazia parte dela, incluindo as vítimas. Mas as vítimas não escreviam nos jornais. A ditadura escrevia neles todos: revistas, jornais, livros, tudo. De modo que o texto foi compactamente desancado.”[96] Idêntico a Pacheco, Helder não perde tempo com provas de que foi vítima dum silenciamento ou duma agressão dirigida na imprensa. Esse leitor ideal de 1999 teria de ser mesmo ideal para não reparar que o prefácio de 1963 não exibia marcas de alguém impedido de espingardear contra o neo-realismo. Ouço dizer que Helder é para leitores muito inteligentes, mas talvez esteja na hora de revermos esse mimo tão baratamente dado. É que, sendo o cepticismo sinal de inteligência, um leitor inteligente começaria a ligar uma série de pontos problemáticos. Os Poemas de Edmundo de Bettencourt foi editado pela Portugália, por então sob a direcção de Augusto da Costa Dias. Militante do PCP desde a II Guerra Mundial, diz-se que Costa Dias desempenhou um papel em fazer com que Saramago e António Modesto Navarro se inscrevessem no Partido. Um espécime perfeito do famigerado intelectual comunista que se infiltrou nas instituições culturais para impor a hegemonia neo-realista. Excepto que a Portugália, entre 1959 e 1968, publicou uma heteróclita gama de autores sem particular tendência ideológica: para cada Alves Redol, José Gomes Ferreira e Mário Dionísio havia Vergílio Ferreira, José Régio, Almeida Faria. O poeta Luís Amaro, funcionário da Portugália, contou-me que Maria Gabriela Llansol deixou o manuscrito do primeiro livro nas mãos de Costa Dias. E depois houve Herberto Helder, claro. A quem a Portugália editou Os Passos em Volta. Que o contratou para traduzir O cavaleiro inexistente de Italo Calvino. Que o convidou para prefaciar os poemas de Bettencourt.

Em 1967, Helder trabalhou com quatro editoras; a Guimarães editou-lhe Húmus; na Ulisseia saiu Retrato em movimento; a Verbo publicou-lhe a tradução de Veloz como o vento, de Gine Victor Leclercq; e a Portugália corou este ano esplendoroso reunindo num volume toda a sua poesia, Ofício cantante, 1953-1963.

A que Ditadura Neo-Realista estaria Herberto Helder a referir-se?

Uma vistoria à bibliografia das “vítimas” habituais dos neo-realistas – Jorge de Sena, Sophia, Agustina, Vergílio, Cesariny, Ruben A., Natália Correia, Helder – comprova foram publicados por uma diversidade de editoras. Quem estiver disposto a conferir se isto é verdade talvez dê com um padrão do qual tirará as ilações erradas. É que estes artistas recorreram a edições de autor, do que os meus oponentes derivarão a confirmação de que as editoras comunizantes lhes fecharam as portas. Antes de alguém ter a má ideia de ir por aí, eis alguns pontos a ponderar: 1) estas “vítimas” estrearam-se sem excepção durante a guerra ou no pós-guerra, ou seja, foram afectadas pelo colapso do sector livreiro em 1948, consumado pela falência de 28 editoras e livrarias (a distinção nem sempre era clara, muita “livraria” era-o nominalmente mas desdobrava-se em lides editoriais[97]); 2) a maioria recorreu a edições de autor especialmente no começo da carreira, procedimento habitual no Portugal penurioso, visto que os editores eram avessos a dar chances a novatos sem provas dadas de vendas; a edição foi um rito de passagem para presencistas e neo-realistas, e a conta da Mensagem na tipografia foi totalmente paga pelos amigos de Fernando Pessoa; 3) a edição de autor fazia parte da história da edição portuguesa havia muito anos, pelo menos desde que Antero de Quental e Eça de Queiroz recorreram a elas; 4) vários neo-realistas, antes e depois do colapso de 1948, não tiveram outra alternativa senão custear as edições dos próprios livros, não andemos mais longe do que Redol nos anos 50; e em 1972 Faure da Rosa, um dos que compuseram a pioneira colecção de prosa neo-realista, “Novos Prosadores” (1943-46), ainda pagou para editar O Massacre. Só na imaginação anistórica dos crentes é que ser-se neo-realista equivaleu a comprar uma raspadinha com prémio chorudo. É deplorável, simplesmente deplorável, que num Portugal vergado por carestias e altas taxas de iliteracia de longa data não houvesse editores opulentos dispostos a esbanjar contratos milionários à primeira amostra de génio dos nossos génios, mas quem hoje em dia se indigna com essa injustiça deveria pedir contas à casta que fez de Portugal um dos mais pobres países da Europa por não ter mudado as suas estruturas económicas quando o resto da Europa se industrializava. Quem muito protestou contra esse atraso, marasmo e anti-progresso foram os neo-realistas, e em troca foram acoimados de idealistas, demagogos e utopistas à espera dos amanhãs que cantam. Então não se irritem se os ontens cantaram a Sena e a Sophia que fossem empatar as poupanças deles e dos papás a trazer a lume as suas poesias.

Uma Universidade viva e inteirada das suas responsabilidades já teria tentado repor a verdade. Uma ditadura não precisa de queimar livros. Basta desviar a atenção de certos temas, parar de fazer certas perguntas, ignorar certos autores, vê-los por lentes turvas. Canalizar recursos para os vencedores. Em O Tempo e o Modo escreveu muita gente que viria a ocupar posições graúdas em futuros governos do PS e PSD, inclusive primeiros-ministros e presidentes da República (Mário Soares e Jorge Sampaio), assim como uma série de figuras que ocuparam cargos políticos e culturais: João Bénard da Costa (director da Cinemateca Portuguesa), António Alçada Baptista (presidente do Instituto Português do Livro), Vasco Pulido Valente (Secretário de Estado da Cultura), Manuel Poppe (embaixador), etc. Actualmente a revista pode ser consultada integralmente em dois sites diferentes: Hemeroteca de Lisboa[98] e Revistas de Ideias e Cultura[99]. Em tempos esteve disponível no site Casa Comum, ligado à Fundação Mário Soares. Estes três recursos foram e são financiados por dinheiros públicos. Contudo, a revista Vértice, fulcral para o entendimento da história literária, não existe online, como se fosse insignificante uma das revistas literárias mais longevas do nosso Novecentos.

Apesar da moda das biografias literárias que assomou Portugal recentemente, é notável que têm sido privilegiados pretensas vítimas da Ditadura Neo-Realista: Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Agustina Bessa-Luís, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder. Contudo, os neo-realistas têm-se visto excluídos. Biografias modernas há a de Soeiro Pereira Gomes, que foi feita pelo italiano Giovanni Ricciardi. Está certo que Bruno Vieira Amaral fez a biografia de José Cardoso Pires, mas vimos acima que ele tentou branquear o papel dele dentro do movimento, Pires é o exemplo de quem “ultrapassou” as limitações do neo-realismo e se tornou num escritor “a sério”, por oposição aos outros neo-realistas que não o eram.

Igualmente, têm faltado edições de escritos pessoais de neo-realistas, que contem a versão da história nas palavras deles. Nos últimos anos, apareceram colecções de entrevistas de Jorge de Sena, Pacheco, Cesariny, Alexandre O’Neill, cheias de ataques à Ditadura Neo-Realista. Mas escasseiam livros de entrevistas de neo-realistas que reponham o equilíbrio.

Não tem havido fim à edição das correspondências de Sena, Régio, António José Saraiva, Cesariny e Pacheco, de novo privilegiados difusores da Ditadura Neo-Realista. Mas volumes de correspondência de neo-realistas são raríssimos.

Esta escassez, somada ao que se escreve em crónicas, artigos e ensaios na imprensa, conduz à desumanização dos neo-realistas, rouba-lhes a voz. Eles não existem em si mas através das opiniões que outros formularam acerca deles. Opiniões consistentemente achincalhantes. Não somos capazes de vê-los como seres humanos integrados num tempo e num espaço, só os conhecemos através das palavras de inimigos que os distorcem, como se fossem os cartagineses da cultura portuguesa.

Este é um mal que pode e deve ser resolvido pondo à disposição do público as fontes primárias das vidas dos neo-realistas. Isso implica digitalizar as suas revistas e editar inéditos, sejam eles diários, cartas ou colecções de dispersos. Só assim repararemos o desequilíbrio de forças. Nesse sentido, é desconsoladora a lentidão das Publicações Dom Quixote em editar os volumes do diário de José Gomes Ferreira, um dos mais interessantes documentos históricos sobre o Estado Novo contado por um neo-realista, pleno de informações sobre o dia-a-dia no meio literário, e capaz de desmistificar muitos exageros sobre a Ditadura Neo-Realista. Que não haja um novo volume desde 2018 é más notícias.

Em nome da transparência, confesso que os produtos literários neo-realistas não me encantam. Por mais tentativas que lhes haja dado, raramente me seduziram. Um dia, depois de anos acreditando que o neo-realismo era atroz porque outros mo diziam, dei-me de conta de que o meu psitacismo não se baseava em nenhuma experiência pessoal. É uma ideia-feita insidiosa que contraímos facilmente. Se após leituras aturadas tive de dar a palmatória à opinião geral, também me dei conta de que os difusores da Ditadura Neo-Realista vivem desinteressados da arte. Para mim é muito simples: só quem odeia a arte do romance é que é capaz de pôr Nome de Guerra acima de Fuga; e só quem se borrifa para a história do romance é que omite os méritos de Caranguejo para engrandecer A Sibila. Para mim, não apreciar o neo-realismo é uma questão de viver em coerência com critérios literários que decidi seguir por alta recreação; pela mesma razão não tenho a menor consideração por Almada Negreiros, Agustina, Vergílio, Almeida Faria, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, o contista Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e outras estrelas duma galáxia gloriosa que não inscreveu no céu nenhuma constelação que me dê gozo ler. Contudo, este assunto transcende meros gostos subjectivos.

Abstraindo-me da avaliação literária, que aparenta estar subjacente à condenação da Ditadura Neo-Realista, vejo claramente que no âmago do embargo ao neo-realismo lavra uma guerra surda por capital social, ou ajustes de contas com fulanos e/ou o passado, ou uma tentativa de rescrever a história ideologicamente. O que me suscitou um exame de consciência foi o ter reparado que a questão sobre o mérito ou demérito literário é muitas vezes despriorizada a favor duma incessante desumanização dos neo-realistas. Faço aqui um mea culpa: o discurso anti-neo-realista é tão poderoso e preponderante na sociedade portuguesa que eu próprio caí nesta esparrela. Dela fui salvo por um cepticismo inato que, mais cedo ou mais tarde, me faz questionar a minha adesão às crenças da multidão. Foi ao aperceber-me de que estava a ser condicionado a ratificar uma desumanização de indivíduos que realmente não conhecia enquanto pessoas que comecei a ler os escritos pessoais dos neo-realistas, num gesto de simpatia contrabalançante. É que aos neo-realistas não basta serem maus escritores, para os detractores, têm acima de tudo de ser analfabetos. Estalinistas empedernidos. Intriguistas. Hipócritas. Videiros. Foi ao conhecer os neo-realistas através das suas cartas, diários e entrevistas que apanhei um susto: estes monstros eram iguais a mim! Pessoas como eu. Desse modo descobri que, embora a literatura neo-realista não me interesse, os neo-realistas foram homens e mulheres multifacetados, contraditórios, complexos e até fascinantes. Ao obrigar-me a entender como viveram, pensaram, tomaram decisões, correram riscos, cometeram erros, assumiram posições, quebraram amizades e desafiaram linhas partidárias, o feitiço da caricatura desumanizante deixou de ter poder sobre mim. Esta é uma notícia tão boa que tive de partilhá-la com outros. E deixo aqui a fórmula do contra-feitiço para quem o quiser usar. Muitos ícones da cultura não serão beneficiados por este escrutínio, mas a verdade histórica sairá mais robustecida. E vale a pena ter esperança que boa história nos protegerá de mitómanos narcísicos que se aproveitam da ignorância dos outros.


  1. António Alçada Baptista, A Pesca à Linha – Algumas Memórias, 3.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1998, pp. 139-148



  2. António Alçada Baptista, A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, 3.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 2004, p. 95



  3. A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, p. 95



  4. A Pesca à Linha – Algumas Memórias, p. 142



  5. Citado em Fernando Gómez Aguilera, José Saramago Nas suas palavras, Lisboa: Editorial Caminho, 2010, p. 158



  6. Citado em Jorge Costa Lopes, As Polémicas de Vergílio Ferreira, Lisboa: Difel, 2020, p- 54



  7. João Pedro George, Puta Que os Pariu!: A Biografia de Luiz Pacheco, Lisboa: Tinta da China, 2016, p. 161



  8. Eduardo Lourenço, “Uma literatura desenvolta ou os Filhos de Álvaro de Campos”, O Tempo e o Modo, 1.ª série, N.º 42, Outubro de 1966, pp. 923-935



  9. André Valmar, “As raparigas nas universidades portuguesas”, Sol Nascente, n.º 42, 15/01/40, p. 7



  10. Afonso Ribeiro, “Cartas dum imaginário camponês a um senhor verdadeiro da cidade, Sol Nascente, n.º 7, 01/05/37, p. 8



  11. Margarida Losa, Do Romance Realista ao Romance Proletário, Lisboa: Campo da Comunicação, 2014, pp. 192-195



  12. António José Saraiva, “O salazarismo”, Expresso/Revista, 22/04/89, p. 15



  13. A Cor dos Dias – Memórias e Peregrinações, p. 131



  14. Alfredo Margarido e Artur Portela Filho, O Novo Romance, Lisboa: Editorial Presença, 1962, pp. 45, 62



  15. Artur Portela Filho, O Código de Hamurabi, Lisboa: Guimarães Editores, 1962, pp. 204, 205, 206



  16. Mário Dias Ramos, O Logro, Lisboa. Guimarães Editores, 1963, p. 70



  17. Óscar Lopes (Luso Carmo), “A crítica do livro”, O Comércio do Porto/Cultura e Arte, 22/11/55, p. 6



  18. Nelson de Matos, “Eduardo Lourenço e a nova literatura: ou os netos de Álvaro de Campos”, O Tempo e o Modo, 1.ª série, N.º 45, Janeiro de 1967, p. 76



  19. Liberto Cruz, “Viragem do Romance Português”, em Arquivos Do Centro Cultural Português, Vol. 3, 1971, p. 625



  20. Ana Paula Arnaut, Post-Modernismo no Romance Português Contemporâneo: fios de Ariadne, máscaras de Proteu, Coimbra: Livraria Almedina, 2002, p. 17



  21. Liberto Cruz, José Cardoso Pires, Lisboa: Arcádia, 1972, p. 9



  22. Luís Mourão, “Recensão: As polémicas de Vergílio Ferreira – Jorge Costa Lemos”, em Manuel Portela (org.), Estudos Literários, vol. 2: Literatura no Século XXI, 2012, p. 528. Disponível online: https://impactum-journals.uc.pt/rel/article/view/1998/2002)



  23. Eduardo Lourenço, Heterodoxia II, Lisboa: Gradiva, 2006, p. 73



  24. José-Augusto França, Memória Para o Ano 2000, Lisboa: Livros Horizonte, 2.ª edição revista, 2001, p. 107



  25. José-Augusto França, Mário Dionísio, por humanismo, in Eduarda Dionísio (org.), “Não há Morte nem Princípio” – a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Lisboa: Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996, disponível online: https://www.centromariodionisio.org/jose_franca.php



  26. Eduarda Dionísio, Notas a Passageiro Clandestino – I de Mário Dionísio, Lisboa: Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, 2021, p. 167



  27. Notas a Passageiro Clandestino – I de Mário Dionísio, p. 9



  28. João José Cochofel, “Notas soltas acerca da arte, dos artistas e do público”, Vértice, Vol. XII, n.º 107, Julho de 1952, pp. 343-349



  29. António José Saraiva, “Problema mal posto”, Vértice, Vol. XII, n.º 109, Setembro de 1952, pp. 495-499.



  30. Mário Dionísio, “O sonho e as mãos”, Vértice, Vol. XIV, n.º 124, Janeiro de 1954, pp. 33-37 e Vértice, Vol. XIV, n.º 125, Fevereiro de 1954, pp. 93-101.



  31. António José Saraiva, “A ponte abstracta”, Vértice, Vol. XIV, n.º 128, Maio de 1954, pp. 286-288.



  32. António Vale (Álvaro Cunhal), “Cinco notas sobre forma e conteúdo”, Vértice, Vol. XIV, n.º 131-132, Agosto-Setembro de 1954, pp. 466-484



  33. José-Augusto França, Memória Para o Ano 2000, Lisboa: Livros Horizonte, 2.ª edição revista, 2001, p. 226



  34. José-Augusto França, Memória Para o Ano 2000, Lisboa: Livros Horizonte, 2.ª edição revista, 2001, p. 225



  35. António José Saraiva, Ser ou não Ser Arte: Ensaios e notas de metaliteratura, Lisboa: Publicações Europa-América, 1973, pp. 180-181



  36. Bruno Vieira Amaral, Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires, Lisboa: Contraponto, 2021, pp. 117-118



  37. Óscar Lopes, “A crítica do livro: José Cardoso Pires – Histórias de Amor”, O Comércio do Porto, 10/03/53, p. 5



  38. José Cardoso Pires, Os Caminheiros, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1949, p. 11



  39. Afonso Ribeiro, “Intervalo”, Plano Inclinado, Porto: Livraria Progredior, 1941, p. 97:



  40. Afonso Ribeiro, Povo, Porto: Editorial Ibérica, 1946, p. 9



  41. Povo, p. 237



  42. Maria Raquel Silva Pinto, “A promessa”, Sol Nascente, n.º 13, 15 de Agosto de 1937, p. 8



  43. José Cardoso Pires, p. 21



  44. Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires, pp. 47, 54



  45. António Ramos de Almeida, A Arte e a Vida, 2.ª edição, Porto: Livraria Latina, 1945



  46. Viviane Ramond, A revista Vértice e o neo-realismo português, pref. Eduardo Lourenço, Coimbra: Angelus Novus, 2008, pp. 241, 280



  47. Os Caminheiros, p. 18



  48. Alves Redol, Avieiros, Lisboa: Inquérito, 1944, p. 412



  49. Tomaz de Figueiredo, A Toca do Lobo, Lisboa: Ática, 1947, p. 80



  50. Fernando Luso Soares, “O ‘realismo’ e o ‘fantástico’ em Barranco de Cegos”, Diário de Lisboa/Suplemento Literário, 12/04/73, p. 7



  51. “O escritor José Cardoso Pires afirma”, O Século. Sup. O Século de Domingo 16/11/58, p. 3



  52. Citado em Paulo Marques da Silva, Fernando Namora Por Entre os Dedos da PIDE: A Repressão e os Escritores no Estado Novo, Coimbra: Edições Minerva, 2009, p. 263



  53. João Alves das Neves, “Diálogo com José Cardoso Pires”, Prisma, Janeiro-Fevereiro 1972, p. 57



  54. António Puente, “José Cardoso Pires: ‘Mi influencia cultural es ‘anglosaxónica’’”, El Pais, 03/01/88, p. 22



  55. Vasco Pulido Valente e Vasco Rosa, “O último escritor português”, O Independente/Vida, 16/05/97, pp. 18-27



  56. António Mota Redol, “Considerações acerca da biografia de José Cardoso Pires, recentemente publicada”, 13/11/2021: https://aviagemdosargonautas.net/2021/11/13/consideracoes-acerca-da-biografia-de-jose-cardoso-pires-recentemente-publicada-por-antonio-mota-redol/



  57. Vasco Pulido Valente, “31 de Outubro a 5 de Novembro, 2016”, Observador, 06/11/2016: https://observador.pt/opiniao/31-de-outubro-a-5-de-novembro-2016/



  58. Henrique Raposo, “Crónicas do Purgatório: um retrato de Vasco Pulido Valente (1941-2020)”, Expresso, 21/02/2020: https://expresso.pt/sociedade/2020-02-21-Cronicas-do-Purgatorio-um-retrato-de-Vasco-Pulido-Valente–1941-2020-.-Por-Henrique-Raposo



  59. Notas a Passageiro Clandestino – I de Mário Dionísio, p. 361



  60. “Vergílio Ferreira: – Dignificação económica do professor”, Diário de Lisboa, 15/02/68, p. 13



  61. António Silva, Conversas durante anos com José Fernandes Fafe, Coimbra: Livraria Almedina, 2002, p. 46



  62. Cândido de Azevedo, A Censura de Salazar e Marcelo Caetano, Lisboa: Editorial Caminho, 1999, p. 322



  63. Fernando Namora, Autobiografia, Lisboa: Edições O Jornal, 1987, pp. 34-35



  64. José Paulo Fernandes Fafe (organização), Maria Virgínia e José Fernandes Fafe: Um Casal que Viveu Dois Séculos, Lisboa: Âncora Editora, 2021, p. 40, 76, 115



  65. Mário Cesariny, Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), organização, introdução e notas de Laura Mateus Fonseca, Lisboa: Documenta, 2020, p. 299



  66. Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), p. 160



  67. Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), p. 360



  68. Maria Antónia Fiadeiro (org.), Devo a mim próprio a memória da minha vida. Fernando Piteira Santos. Prisão. Clandestinidade. Exílio. Morte., Lisboa: Campo da Comunicação, 2013, p. 38



  69. Devo a mim próprio a memória da minha vida. Fernando Piteira Santos. Prisão. Clandestinidade. Exílio. Morte., p. 93



  70. Mário Sacramento, Diário, Porto: Limiar, 1975, p. 349



  71. José Gomes Ferreira, Dias Comuns VIII, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2017, p. 94



  72. Citado em Puta Que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, Lisboa: Tinta da China, 2016, p. 168



  73. Fernando Namora Por Entre os Dedos da PIDE: A Repressão e os Escritores no Estado Novo, p. 132



  74. Luiz Pacheco citado em O Crocodilo que Voa: Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 273



  75. Luiz Pacheco, Diário Selvagem, Lisboa: Língua Morta, 2024, p. 101



  76. Citado em Uma Última Pergunta: Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006, p. 120



  77. Luiz Pacheco citado em O Crocodilo que Voa: Entrevistas a Luiz Pacheco, organização e introdução de João Pedro George, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 203



  78. Diário de Lisboa/Vida Literária, 12/10/50, p. 8



  79. “Contraponto”, Diário de Lisboa/Vida Literária, 18/10/50, p. 9



  80. “Nós, os suicidas do catolicismo”



  81. O Tempo e o Modo – uma nova revista de cultura”, Diário de Lisboa/Vida literária e artística 21/02/63, p. 17



  82. Joana Emídio Marques, “Isabel da Nóbrega, a musa que Saramago apagou da (sua) história”, Observador, 30/05/2015: https://observador.pt/especiais/isabel-da-nobrega-do-musa-saramago-apagou-da-historia/



  83. “A entrega dos Prémios da Casa da Imprensa”, Diário de Lisboa, 13/02/66, p. 23



  84. Joana Emídio Marques, “As polémicas de um escritor em contracorrente”, Observador, 28/01/2016. Acedido pela última vez a 7 de Março de 2026: https://observador.pt/especiais/vergilio-ferreira-um-escritor-corrente/



  85. Vergílio Ferreira, Conta Corrente 3, Amadora: Livraria Bertrand, 1983, p. 214



  86. Vergílio Ferreira, Conta Corrente 5, Amadora: Bertrand Editora, 1987, p. 206



  87. Citada em “Enterrados no Jardim”, 26 de Abril de 2023, 1:08:40:


    https://open.spotify.com/episode/5VxxU09o3Onfz4w51kBxa9



  88. Citada em “Enterrados no Jardim”, 26 de Abril de 2023, 12:59:


    https://open.spotify.com/episode/5VxxU09o3Onfz4w51kBxa9



  89. Citada em José da Cruz Santos (coord.), Óscar Lopes – Um Homem Maior do que o Seu Tempo, Matosinhos: Câmara Municipal de Matosinhos, 2007, p. 48



  90. Citado em “Enterrados no Jardim” 24 de Dezembro de 2024, 36:15: https://open.spotify.com/episode/6SneTJJhjVEo3x2QnDazvN



  91. “A Velhice”, RTP Arquivos: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/a-velhice/



  92. Bruno Vieira Amaral citado em Pedro Dias de Almeida, “Costuma dizer-se que as democracias são frágeis. Mas ainda bem que o são, porque fortes são as ditaduras! São frágeis, chatas, é tudo aborrecido… É só gente sem carisma, uns chatarrões”, Visão, 02/03/2025: https://visao.pt/ideias/2025-03-02-costuma-dizer-se-que-as-democracias-sao-frageis-mas-ainda-bem-que-o-sao-porque-fortes-sao-as-ditaduras-sao-frageis-chatas-e-tudo-aborrecido-e-so-gente-sem-carisma-uns-chatarroes/



  93. Miguel Santos Carrapatoso, “A direita no divã. E com Passos a assistir”, Expresso, 25/11/2019: https://expresso.pt/politica/2019-11-25-A-direita-no-diva.-E-com-Passos-a-assistir



  94. Graeme Garrard, Counter-Enlightenments – From the eighteenth Century to the Present, Oxfordshire: Routledge, 2013, p. 12



  95. Jaime Nogueira Pinto, Portugal: Os Anos do Fim: De Goa ao Largo do Carmo – II Volume, Lisboa: Sociedade de Publicações Economia & Finanças, LDA., 1977, p. 7



  96. Herberto Helder, “Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt”, em A Phala: https://phala.wordpress.com/2009/08/06/relance-sobre-a-poesia-de-edmundo-de-bettencourt/



  97. Nuno Medeiros, Edição e Editores: O Mundo do Livro em Portugal, 1940-1970, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2010, p. 148



  98. https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OTempoeoModo/OTempoeoModo.htm



  99. https://pt.revistasdeideias.net/pt-pt/o-tempo-e-o-modo