Investigação mandada pelos Bispos de Lamego e Coimbra aos milagres de Santa Isabel

O documento que vos apresento hoje não é do conhecimento geral, por isso achei por bem passá-lo na íntegra.

Trata-se de uma investigação, mandada fazer pelos Bispos de Lamego e Coimbra, aos milagres de Santa Isabel, isto no ano de 1336, passavam onze anos da sua morte. Veja-se. 

“Em Nome de Deus, que é Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Saibam quantos este instrumento virem e ler ouvirem que vinte e seis dias do mês de julho da Era de Mil Trezentos E Setenta E Quatro anos, no Mosteiro de Santa Clara a par da Cidade de Coimbra, onde jaz o corpo santo bem-aventurado da mui Nobre Senhora Rainha D. Isabel que em este mundo fez muito bem pelo amor de Deus e por isso recebe Dele bom galardão, presentes o honrado Padre e Senhor D. Frei Salvador, pela mercê de Deus e da Santa Igreja de Roma Bispo de Lamego, e D. Isabel de Cardona, Abadessa do dito Mosteiro, e Frei João Pais, visitador do dito Mosteiro, em presença de mim, Martim Afonso, público tabelião pela autoridade de Nosso Senhor El-Rei na dita Cidade e em seus termos, e das testemunhas que adiante são escritas, Pedro Esteves, Prior da Igreja de S. Pedro de Óbidos do Bispado de Lisboa, disse que a ele era dito por certo por muitas pessoas que Deus fizera mercê a Catarina Lourenço, freira do dito Mosteiro, em dor que havia pela Rainha D. Isabel, e o dito Pedro Esteves pediu ao dito Senhor Bispo e à dita Abadessa e ao dito visitador que fizessem vir perante si a dita Catarina Lourenço, e que a constrangesse que dissesse a verdade da mercê que lhe Deus fizera pelo rogo que ela fizera à dita Senhora Rainha para se pôr em escrito para não esquecer aos presentes e aos que depois deles viessem. E logo o dito Bispo e a dita Abadessa e o dito visitador disseram à dita Catarina Lourenço, freira do dito Mosteiro, que pela obediência que lhe era teúda e prometera a guardar que dissesse a verdade da mercê que lhe Deus fizera à Senhora Rainha Dona Isabel e que o dissesse perante eles e perante mim, dito tabelião, então, a verdade. E a dita Catarina Lourenço respondeu e disse que, por Deus e pela ordem que tinha e obediência a que era teúda, que ela diria então a verdade. E que a verdade era por esta guisa do que a ela aconteceu: que ela que tinha um lobinho [lipoma] no olho sestro [direito] e que ela, vendo e considerando o bem que sempre ouvira dizer que a Rainha D. Isabel fizera pelo amor de Deus e o que lhe ela vira fazer, e outrossim o bem e a mercê que Deus fazia aos coitados que iam onde o corpo da dita Senhora Rainha jazia, que ela no seu coração filhara devoção que rogasse ao corpo Santo da dita Rainha que rogasse a Deus por ela que lhe houvesse mercê à conta e dor que ela havia no dito olho, pois havia a vista muito embargada. E disse que, pondo ela fé em Deus que Ele lhe daria saúde no dito olho por amor da dita Rainha, porque tantos milagres mostrava que ela que em essa oração se achava guarida e sã do dito lobinho e que havia toda a sua vista sã como a antes havia e que mostrara logo o dito olho são à dita Abadessa e às freiras do dito Mosteiro que viram e sabiam a dor que ela nele havia. E que Deus assim lhe fizesse mercê ao corpo e à alma como ela dizia a verdade do que lhe acontecera. Das quais coisas sobreditas o dito Pedro Esteves pediu a mim, dito tabelião, que lhe desse então um instrumento. Testemunhas que presentes foram: os ditos Bispo e Frei João Pais e o Prior de Guimarães e Francisco [—] que foi da dita Rainha, Lourenço Pais clérigo do dito Bispo e outros [—] dita Era no dito Mosteiro a par do moimento onde jaz o corpo [—] Senhor Bispo e Abadessa e Estêvão Dade Prior [—] pessoas. Em presença de mim, sobredito tabelião, e das testemunhas que adiante são escritas, chamados e rogados o dito Senhor Bispo pelo dito Prior de Guimarães, fez jurar aos Santos Evangelhos Domingas Domingues, moradora em S. Filipo, que dissesse a verdade do bem e da mercê que lhe Deus fizera à conta e pressas que havia. Ela respondeu e disse, pelo juramento que fez a Deus e aos Santos Evangelhos, que não sabia bem certo em que tempo comera ou bebera uma sanguessuga nem por que guisa, mas que passava por oito dias e mais que lhe saíam grandes gorgoçadas de sangue pela garganta e que não podia saber certo o que era. E que alguns lhe diziam que era de alguma má dor que em si trazia e outros que lhe diziam que era de alguma sanguessuga que trazia, e que lhe disseram que fosse à Fonte de Alfafar, que a verdade que faz lançar as sanguessugas às coisas que a trazem, e disse que ela fora à dita fonte e que bebera da água dela e sendo a par dela, e que não lhe prestava nenhuma coisa. E disse que lhe disseram depois que fosse a par de Penela, ao Barco que chamam de Valeiro, e que bebesse da água dele e que, se sanguessuga fosse, que logo lhe sairia. E disse que foi ao dito Barco e que lhe não prestara nenhuma coisa e que em meio a isto que lançava tanto sangue que cuidava bem ela e os que a viam que não havia em ela senão morte. E disse que lhe disseram as gentes que viesse a S. Brás de Coimbra e que lhe poriam conselho à tal conta e que ela que viera aí e que houvera a par do seu Altar e que nunca lhe prestara. E disse que lhe disseram que fosse aos Mártires do Mosteiro de S. Cruz e que fora a eles e que bebera da água deles e que nunca lhe prestara. E disse que lhe disseram que fosse a S. Maria da Parede da Igreja de S. Bartolomeu e que lhe poriam conselho, e que ela que fora lá e que lhe não valera coisa. E depois que lhe disseram que fosse a S. Clara ao moimento onde jaz o corpo Santo da Rainha D. Isabel e que lhe poria conselho como punha a muitos outros. E disse que ela, com grande conta e com grande pressa da morte, que se viera meter só seu moimento da dita Rainha, e que lhe pedira de coração e de vontade que rogasse a Deus por ela, que lhe pusesse conselho à grande conta que havia. E disse que jazendo ela assim sob o moimento, lançando muito sangue que sentira vir bolindo pelos narizes, e que lhe viera apontar a sanguessuga à venta direita e que lha filharam e louvaram todos o nome de Deus. E que pegaram a dita sanguessuga e que a penduraram ali onde se ia bolindo. E que assim lhe Deus houvesse mercê ao corpo e à alma que assim passara tudo de feito. Das quais coisas sobreditas o dito Senhor Bispo pediu a mim, sobredito tabelião, que lhe desse então um instrumento sob meu sinal. Testemunhas que foram presentes: o dito Prior de Guimarães e Mestre Geraldo, físico, Cónegos de Coimbra e Frei João Pais, Gonçalo Esteves, Capelão da dita Rainha, Francisco Lourenço, Candeeiro, Francisco Esteves, Reposteiro, que deram de si fé e testemunho que estavam presentes quando lhe a dita sanguessuga saíra pela dita venta. A qual dita sanguessuga eu, dito tabelião, vi ser pendurada viva há bem dois dias e outro muitos. A rogo do Senhor Bispo, escrevi aqui meu sinal”.