O “Ódio” é o Novo “Sexo”

Comparar atitudes face ao ódio com as vitorianas face ao sexo choca: hoje o sexo é natural e o ódio maligno, mas há 150 anos era o oposto — ódio era comum e compreensível, e o desejo sexual era bestial, sujo e inadmissível. Mas nem um nem outro desaparecem só por serem banidos da esfera pública. Texto publicado originalmente no blog de John Michael Greer, aqui, em 2 de agosto de 2017. À data presente da sua re-publicação e tradução para português, Março de 2026, mantém-se não só perfeitamente actual, mas também com os seus pontos a ganharem cada vez mais razão.

Ocorreu-me, há dias, que existe uma curiosa desconexão entre uma das suposições mais comuns que a maioria de nós faz sobre como tornar o mundo melhor, por um lado, e os resultados que essa suposição tem produzido quando posta em prática, por outro. Lembra-me a percepção que levou James Hillman e Michael Ventura a intitular um livro outrora polémico: Tivemos Cem Anos de Psicoterapia e o Mundo Está a Piorar. Neste caso, como naquele, algo que supostamente deveria melhorar as coisas não parece estar a resultar — na verdade, acontece exactamente o oposto — e está na altura de falarmos sobre isso.

Conheces a suposição a que me refiro, caro leitor. É a convicção de que certas emoções humanas comuns são malignas, prejudiciais e erradas, e que a forma de criar um mundo melhor passa por eliminá-las de uma maneira ou de outra. Essa crença é aceite como evidente em toda a sociedade industrial do Ocidente moderno, e está solidamente instalada há muito tempo, embora — como veremos daqui a pouco — as emoções específicas assim rotuladas tenham variado ao longo do tempo. Neste momento, claro está, a emoção no centro desta galeria de patifes é o ódio.

Hoje em dia, o ódio desempenha aproximadamente o mesmo papel na cultura popular que o pecado original na teologia cristã tradicional. Se quiseres colar o rótulo mais horrível possível a uma organização, chamas-lhe grupo de ódio. Se quiseres empurrar uma categoria de discurso directamente para o reino do absolutamente inaceitável, chamas-lhe discurso de ódio. Se estiveres a falar em público e quiseres ter a certeza de que toda a gente na multidão te aprovará com um sorriso, basta denunciares o ódio.

No extremo mais exagerado desta retórica, surge o slogan oportunista usado pela campanha presidencial sem sucesso de Hillary Clinton no ano passado: LOVE TRUMPS HATE («O AMOR VENCE O ÓDIO»). Espero que nenhum dos meus leitores esteja iludido ao ponto de pensar que os apoiantes de Clinton eram motivados principalmente pelo amor, excepto no sentido do amor de Clinton pelo poder e do amor dos democratas pelos privilégios e pelos proveitos que esperavam de mais quatro anos de controlo da Casa Branca; e, claro, Trump e os republicanos estavam igualmente apaixonados pelas mesmas coisas. O facto de os publicitários e os grupos de foco de Clinton terem achado que aquele slogan teria impacto na eleição mostra quão generalizada se tornou a suposição que estou a discutir na nossa cultura.

Naturalmente, a maioria das pessoas hoje em dia, quando confrontadas com o tipo de coisas que acabei de escrever, tende a responder: «Espera, estás a dizer que o ódio é bom?» — como se as únicas alternativas disponíveis fossem condenar algo como absolutamente mau ou elogiá-lo como absolutamente bom. Vamos deixar de lado por agora essa reacção simplista e fazer uma pergunta diferente: o que acontece quando as pessoas decidem que uma emoção humana comum é maligna, prejudicial e errada, e concluem que a forma de criar um mundo melhor é eliminá-la?

Acontece que temos uma ideia muito clara do que se passa neste caso, porque um exemplo de primeira qualidade deste fenómeno completou finalmente o seu percurso histórico na fronteira da memória viva. O exemplo que tenho em mente é a atitude, predominante no mundo de língua inglesa desde meados do século XIX até meados do século XX, de que o sexo era a raiz de todo o mal.

O horror vitoriano pelo desejo sexual foi ridicularizado de forma tão impiedosa nas últimas décadas, e não sem razão, que muita gente parece ter esquecido quão seriamente era levado a sério na época. Durante o seu apogeu, as pessoas na Grã-Bretanha e na América proclamavam em voz alta exactamente as mesmas atitudes em relação ao sexo que os seus bisnetos agora exibem em relação ao ódio. Se quisesses definir algo como absolutamente inadmissível, bastava rotulá-lo de «imoral» — na gíria da época, isto significava «sexual» — e a grande maioria das pessoas era suposto reagir com horror. Pelo que sei, nenhuma campanha política da época usou o slogan PURITY TRUMPS IMMORALITY («A PUREZA VENCE A IMORALIDADE»), mas a propaganda política ainda não tinha degenerado no tipo de repetição vazia de palavras da moda que vemos hoje. O sentimento estava lá, sem dúvida.

A propósito, sim, sei que comparar as atitudes actuais em relação ao ódio com as atitudes vitorianas em relação ao sexo vai provocar uma reacção imediata de rejeição por parte de muitos dos meus leitores. Afinal, o desejo sexual é natural, normal e saudável, enquanto o ódio é maligno, prejudicial e errado, certo? Aqui, mais uma vez, é fácil esquecer que as pessoas de há um século e um quarto — muito provavelmente incluindo os teus antepassados, caro leitor, se viviam no mundo de língua inglesa — viam as coisas ao contrário. Para elas, o ódio era uma emoção comum que a maioria das pessoas sentia em certas circunstâncias, mas o desejo sexual era inadmissível: bestial, horrível, sujo, e assim por diante numa impressionante lista de adjectivos desagradáveis.

Era também algo que todas elas experimentavam. É aqui que a comparação começa a doer, porque insistir que o desejo sexual era bestial, horrível, sujo, etc., não o fazia desaparecer, nem o privava do seu papel substancial na motivação do comportamento humano. Apenas significava que as pessoas se tornavam hipócritas a esse respeito. Algumas fingiam que não existia. Outras insistiam que, em certos contextos rigorosamente definidos — por exemplo, dentro dos limites do casamento legal —, não era a mesma coisa, não, claro que não, como podias sugerir tal coisa horrível? Outras recorriam a qualquer uma das muitas escapatórias que permitiam fingir que não se estavam a excitar sexualmente nem a actuar em função dessa excitação, quando na verdade era exactamente isso que faziam.

É isto que acontece sempre que as pessoas decidem que uma emoção humana comum é inaceitável e insistem que as boas pessoas não a sentem. Surge uma cultura de fingimento, hipocrisia e evasão que lhes permite descarregar a emoção inaceitável em alvos aceitáveis sem admitir que o estão a fazer. Foi isto que surgiu na sociedade vitoriana quando as pessoas se convenceram de que o desejo sexual era a raiz de todo o mal, e é isto que surgiu no nosso tempo à medida que as pessoas se convenceram de que o ódio ocupa o mesmo lugar. Num sentido muito real, hoje em dia, o ódio é o novo sexo.

Se tiveres alguma dúvida sobre isto, caro leitor, observa a forma como as mesmas pessoas que há um ano ostentavam autocolantes com LOVE TRUMPS HATE falam hoje em dia de Donald Trump e dos seus apoiantes. Há algum tempo atrás, em Janeiro de 2016, quando previ pela primeira vez a vitória de Trump, salientei que, se quisesses ouvir um discurso de ódio realmente exagerado, bastava escutar um grupo de americanos abastados e confortáveis na bolha urbana bicolor falar dos americanos brancos da classe trabalhadora nos estados do interior. Isso tornou-se ainda mais verdade agora do que era então. Pega na retórica actualmente lançada por eleitores democratas abastados contra os apoiantes de Trump, substitui os rótulos étnicos por qualquer outro conjunto que escolhas, e terás dificuldade em distinguir isso dos delírios de qualquer outro grupo de fanáticos.

A dimensão de classe de toda esta retórica sobre o ódio é, aliás, uma das coisas mais reveladoras. Na era vitoriana, as classes privilegiadas definiam-se como as Boas Pessoas, as morais, virtuosas, puras — o que, na linguagem da época, significava as pessoas que não tinham desejos sexuais. Definiram, por conseguinte, os seus inferiores sociais como bestiais, horríveis, sujos — isto é, seres sexuais. Hoje em dia, o que define as Boas Pessoas mudou, mas o fanatismo de classe não; agora as pessoas privilegiadas afirmam ser as que não sentem ódio, e definem os seus inferiores sociais como fanáticos cheios de ódio. O comportamento relativo dos dois grupos, vale a pena repetir, não justifica exactamente esta alegação.

Aliás, observa a forma como os média americanos e as classes privilegiadas deste país passaram os últimos nove meses completamente obcecados com a pessoa de Donald Trump. Na minha memória — e tenho assistido à tomada de posse de novos presidentes desde os tempos de Richard Nixon —, nunca vi uma preocupação tão obsessiva com alguém que, afinal, é apenas um funcionário eleito. Lembra-me, para ser preciso, a maneira como os puritanos vitorianos viajavam quilómetros de comboio para ficarem chocados e ofendidos com alguma exibição de sexualidade — e gostaria de sugerir que, neste caso como naquele, o choque e a ofensa são vestes finas que cobrem de forma muito imperfeita uma massa fervilhante e suada de desejo não admitido.

Na cidade onde vivo, se passares por bairros frequentados pela ponta mais à esquerda da população, podes contar com ver autocolantes nos postes de iluminação que mostram o rosto do presidente e o slogan TRUMP HATES YOU («TRUMP ODEIA-TE»). Estritamente falando, isto é absurdo — duvido que Donald Trump tenha sequer conhecimento da existência das pessoas que colocam e veem esses autocolantes, e nem precisamos de falar da probabilidade de ele sentir alguma emoção particular em relação a elas —, mas noutro sentido é profundamente revelador.

Quando as pessoas não querem lidar com uma emoção que estão a sentir, uma escapatória muito comum é insistir que não a estão a sentir — não, é aquela pessoa horrível ali que a está a senti-la, em relação a elas. Na era vitoriana, essa escapatória funcionava a todo o vapor, à medida que pessoas incapazes de lidar com o facto de terem sentimentos sexuais os projectavam nos outros, e depois rotulavam os outros de bestiais, horríveis, sujos, etc., por supostamente terem esses sentimentos. A mesma coisa está a acontecer aqui. As pessoas que fazem e colocam esses autocolantes não podem simplesmente dizer EU ODEIO TRUMP — essa admissão condená-las-ia, aos seus próprios olhos, à categoria de Más Pessoas de uma vez por todas —, por isso projectam o seu próprio ódio na pessoa que odeiam, e convencem-se de que é ele que as odeia.

Repara, além disso, como isto alimenta a fascinação absoluta com que tantas pessoas na ponta mais à esquerda do espectro político se agarram a cada palavra e acção de Donald Trump. Vista através do espelho deformante das suas emoções projectadas, pelo menos, ele é o equivalente a um casal nu a fazer sexo pervertido mesmo no meio da rua. Está a representar a fantasia mais querida delas, odiando outras pessoas em público — como poderiam desviar o olhar? Na prática, colocaram um apóstrofo no slogan de Clinton, transformando-o em LOVE TRUMP’S HATE («AMO O ÓDIO DE TRUMP») — e, em segredo, nas horas silenciosas da noite, fazem-no mesmo.

Esse é o problema de pegar numa emoção humana comum e insistir que tem de ser eliminada para tornar o mundo perfeito. Torna algo proibido e torná-lo-ás desejável. Pega num estado emocional humano normal, que toda a gente experimenta, e torna-o proibido, e garantirás que o desejo de violar o tabu ganhará um poder avassalador. É por isso que, depois de passarem os dias sujeitos ao policiamento omnipresente do tom da vida contemporânea, em que cada declaração é escrutinada à procura do mínimo vestígio de algo que alguém algures possa interpretar como odioso, tantas pessoas no mundo de hoje vestem pseudónimos na internet e vão a fóruns online onde podem desabafar absolutamente tudo. Fazem-no exactamente no mesmo espírito em que os homens vitorianos iam a bordéis e as mulheres vitorianas marcavam encontros secretos com jovens cavalariços musculados.

Nem, se a história servir de guia, o regresso do reprimido se limitará por muito tempo a expressões tão clandestinas. A repressão sexual vitoriana, afinal, acabou por dar origem à Revolução Sexual, que oscilou para o extremo oposto com igual falta de equilíbrio. Da mesma forma, a tentativa actual de reprimir o ódio poderia facilmente dar origem a uma Revolução do Ódio, em que as pessoas se deliciariam no ódio da mesma forma que os libertinos dos anos 60 e 70 se deliciavam no sexo. A retórica idêntica de libertação, de ser natural, de lançar fora o colete de forças de uma moralidade ultrapassada, serviria igualmente bem para ambos.

Poderá surpreender alguns dos que leram até aqui o facto de eu não favorecer esta última possibilidade. O oposto de uma má ideia é, afinal, normalmente outra má ideia; o facto de morrer de sede ser mau para ti não torna afogamento bom para ti; quer estejamos a falar de sexo ou de qualquer outra coisa, há um espaço algures entre «pouco» e «demasiado», entre repressão patológica e expressão igualmente patológica, que é consideravelmente mais saudável do que qualquer um dos extremos. Vou arriscar fazer com que os meus leitores mais sensíveis agarrem os sais e desmaiem no sofá mais próximo, ao estilo vitoriano autêntico, ao sugerir que o mesmo se aplica ao ódio.

Todos o sentimos, sabes, e sabes que mais? Por vezes é apropriado. Há acções cometidas por seres humanos contra outros seres humanos que merecem uma resposta mais robusta do que o tipo de evasivas melíflua aceitáveis hoje — «Oh, isso é tão triste», ou «Tenho a certeza de que ele não queria fazer isso», ou «Não é justo julgar», e por aí fora, toda a palhaçada vazia com que se espera que finjamos que as acções não têm consequências e as pessoas não têm responsabilidade pelas suas decisões. Pelo contrário, há acções que merecem ser condenadas, juízos que precisam de ser feitos, e indivíduos e ideias para os quais a chama quente da fúria ou o gelo cru do ódio são, de tempos a tempos, respostas apropriadas.

Significa isto que todo o ódio, e toda a expressão de ódio, é apropriada? Claro que não. O ódio é como o sexo; há certos momentos, lugares e contextos em que é apropriado, mas há muitos, muitos outros em que não é. Podes reconhecer o seu lugar na vida sem teres de o representar em todas as ocasiões — e, na verdade, quanto mais consciente estiveres do seu lugar na vida, quanto mais completamente o reconheceres e lhe deres o devido, menos provável será que te apanhe desprevenido. Isso aplica-se ao sexo, e aplica-se ao ódio: o que recusas reconhecer controla-te; o que reconheces, podes aprender a controlar.

Fazer isto envolve, claro, desafiar alguns imperativos culturais muito enraizados. É uma das pressuposições básicas da nossa cultura que devemos tornar-nos perfeitos, e a forma de nos tornarmos perfeitos, dizem-nos, é amputar qualquer parte de nós que nos impeça de ser perfeitos. Os últimos mil e seiscentos anos ou mais de filosofia moral no mundo ocidental têm sido dedicados a este tema: encontrar a coisa que nos torna maus, encontrar uma forma de a cortar, e então todos nos comportaremos como santos de gesso. O simples facto de nunca resultar ainda não abrandou a profusão interminável de tentativas de o voltar a tentar.

A mesma lógica aplica-se em campos muito distantes da moralidade. Pensa na forma como as pessoas na América pensam sobre a comida, para citar apenas um exemplo. Todas as modas de dieta dos últimos trinta anos se fixaram em identificar algum alimento ou grupo alimentar específico como o mal encarnado, e insistiram que, se o amputasses da tua dieta, então poderias contar com saúde perfeita e a forma corporal que por acaso estivesse na moda no momento. Mais uma vez, o simples facto de nunca resultar não impede as pessoas de correrem atrás do próximo exemplo, porque a fé cega de que a bondade exige amputação é tão inquestionada no nosso tempo.

Se sempre fizeres o que sempre fizeste, diz o ditado, sempre terás o que sempre tiveste. A busca da perfeição através da automutilação não funciona; é tão simples quanto isso. Demos-lhe todos os testes possíveis ao longo dos séculos, e está dolorosamente claro que mais uma variação sobre o mesmo tema equivocado não vai mudar o veredicto. Talvez, só talvez, esteja na altura de tentar algo diferente para variar.

Que tal isto? Em vez de perfeição, totalidade.

Os seres humanos nunca vão ser perfeitos, não se perfeição significa a amputação de alguma parte da experiência humana, seja qual for o membro que está a ser cortado — os nossos instintos sexuais, os nossos instintos agressivos, ou qualquer outra parte de quem e do que somos. Em vez disso, podemos ser totais. Podemos aceitar a nossa sexualidade, seja ela qual for, e entrelaçá-la no padrão das nossas vidas individuais e das nossas relações com outras pessoas de formas que sustentem os valores que prezamos e produzam o máximo de alegria e o mínimo de dor desnecessária para o maior número possível de pessoas. Isso não significa agir sempre os nossos desejos — em alguns casos, pode significar nunca os agir. O que significa é que fazemos a escolha nós próprios, em vez de a entregar a algum automatismo ou outro imposto pela cultura popular.

Da mesma forma exacta, podemos aceitar os nossos ódios, sejam eles quais forem, e entrelaçá-los no padrão das nossas vidas individuais e das nossas relações com outras pessoas de modo que a sua energia potente sirva para defender as coisas e as pessoas que valorizamos. Isso não significa que devamos expressar o nosso ódio em todas as ocasiões — aqui também pode significar nunca o expressar. Significa reconhecer que o ódio é tanto parte de ser humano quanto o amor, e encontrar um lugar para ele entre todas as outras emoções que inevitavelmente sentimos.

Significa, em última análise, desistir da fantasia de que podemos tornar-nos mais do que humanos ao tornarmo-nos incompletos. Ao aceitar a nossa própria natureza em toda a sua riqueza e complexidade contraditória, e ao encontrar uma utilidade para tudo o que vem com ser humano, talvez possamos parar de cometer os mesmos erros vezes sem conta, e fazer algo um pouco menos idiota com o nosso tempo na Terra.