Mulheres na Literatura ou Literatura das Mulheres? A Universalidade da Literatura no Feminino

ESCRITA(S) NO FEMININO. Por Ana Paula Santos, Licenciada em Humanidades (Universidade Aberta), Mestranda em Estudos de Língua Portuguesa (Universidade Aberta); Projecto: Senhoras das Letras (Instagram e Facebook). Imagem: infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, forte impulsionadora das letras no feminino.

O Cânone Ocidental e o Cânone Português

Analisar o Cânone Ocidental sem aprofundar a literatura produzida por mulheres revela-se inconcebível, nos dias de hoje, num tempo onde a igualdade de género é um dos temas que mais se encontra na ordem do dia, abrangendo e influenciando várias dimensões. Porém, continuamos a verificar que permanece o obstáculo à consagração das obras escritas por mulheres, mantendo uma inexplicável resistência, em particular no que diz respeito à produção redigida no passado.

Na medida em que o Cânone é uma escolha entre textos, os quais se encontram numa luta pela sobrevivência (Bloom, 1994), torna-se urgente questionar o porquê de a luta feminina ser sempre mais difícil e desequilibrada, em termos de aceitação e de oportunidades, algo que tem sido transversal a outras esferas da vida das mulheres. E, se por um lado, assistimos a cada vez mais investigações de ordem antológica ou biográfica, com o objetivo de resgatar a vida e a voz de inúmeras mulheres das letras, de que são exemplo Desobediente de Patrícia Reis (sobre Maria Teresa Horta) e O Dever de Deslumbrar de Filipa Martins (sobre Natália Correia), por outro lado, assistimos ao afastamento destas e de tantas outras autoras dos programas escolares, surgindo como meras leituras opcionais, e dependendo da vontade ou da sensibilidade de cada professor. Neste âmbito, importa salientar que é “da responsabilidade da academia/ escola a propagação, ou não, de um determinado texto, reconhecido como obra de arte por uma determinada cultura, apesar de o fenómeno de escolha popular, algumas vezes, influenciar a integração de determinada obra” (Silva, 2014: 48).

No caso do ensino secundário, apenas no 12º ano existe um possível contacto com três escritoras, se estas forem escolhas dos professores: Maria Judite de Carvalho, Luiza Neto Jorge e Ana Luísa Amaral. Contudo, no reverso da medalha, continua-se a ler e a estudar os autores clássicos, ou seja, Camões, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Saramago, assistindo-se a um apagamento intencional da autoria feminina, desde os primórdios da Literatura Portuguesa, na Idade Média, até ao século passado – o século XX, não tão distante de nós.

Em 2020, foi publicado O Cânone, organizado por António Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, revestido de breves ensaios, dedicados a alguns autores portugueses. Na introdução, os editores advertem que é um livro de crítica literária, não uma lista canónica, tendo como base a noção da mutação dos nomes, sujeita à norma dos tempos. No entanto, nesta crítica literária, entre os 49 autores invocados, encontramos apenas 9 mulheres: Agustina Bessa-Luís, Fiama Hasse Pais Brandão, Florbela Espanca, Irene Lisboa, Luiza Neto Jorge, Maria Judite de Carvalho e as Três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta). E, mesmo assim, questiono: quantos de nós as conhecem, na totalidade? Quantos textos de cada uma já lemos?

Face ao exposto, é inevitável continuar nos caminhos das indagações: porque não incluir mais vozes femininas em títulos desta relevância para os Estudos Literários? Como é que a existência de inúmeras vozes femininas – as quais vão sendo descobertas a “conta-gotas” – continua a merecer persistente ocultamento? Que regras ditam o cumprimento da regra-padrão, que se mantém, afinal, inflexível e impenetrável?

Outro aspeto a ter em consideração, nesta tortuosa demanda, é a própria compreensão da História, já que continua a convergir numa perspetiva unilateral, em muitas temáticas. Como tal, é necessário incluir as visões e as experiências de mais mulheres nos currículos literários, de forma a auxiliar o próprio entendimento da nossa história enquanto nação e, por conseguinte, analisar o produto da nossa identidade sociocultural, num todo. Só assim, será possível alcançar um equilíbrio; um equilíbrio tão necessário quanto justo.

A importância dos estudos sobre autoras e sobre a autoria feminina

Apesar da resistência mantida pelo Cânone, têm vindo a ser publicados estudos que se propõem a retirar as mulheres escritoras de uma espécie de baú do passado, onde se encontram enclausuradas e votadas ao abandono. No entanto, algo falha neste processo, já que estas manobras de resgate enfrentam uma lista interminável de obstáculos, incluindo a pequena tiragem de exemplares e uma débil divulgação; obstáculos que não permitem uma integração no meio académico, tornando difícil a missão inicial: a chegada a mais receptores/leitores. Neste âmbito, será que a situação explica a actual retirada de autoras dos programas escolares? Como contrariar uma tendência que interfere exponencialmente na educação fundamental?

Muitos dos trabalhos de investigação realizados partem de mulheres que se dedicam a uma espécie de causa literária feminina, de que é exemplo Vanda Anastácio, com o seu projecto digital Escritoras em Português[1], o qual propõe uma base de dados detalhada sobre uma lista notável de mulheres que se dedicaram à escrita, de forma mais assídua ou não, e o compêndio Uma Antologia Improvável. A Escrita das Mulheres, Séculos XVI a XVIII, publicado em 2013 – e que é um esplêndido estudo, incluindo excertos de época, quer escritos por mulheres, quer por homens defensores das mesmas, ou outros igualmente curiosos.

Cláudia Pazos Alonso é mais uma referência nos estudos femininos/feministas, incidindo particularmente sobre Florbela Espanca e a sua contemporânea Judith Teixeira. Ainda em 1996, publicou como resultado da sua tese de Doutoramento Imagens do Eu na Poesia de Florbela Espanca, onde aborda a escrita lírica da autora e alguns aspetos de ordem biográfica – incluindo questões após a sua morte –, para além de uma preciosa contextualização histórica sobre as mulheres escritoras nos séculos XIX e XX, de forma a permitir um enquadramento mais abrangente quanto às motivações e vivências observadas na obra florbeliana.

Em 2005, Ana Maria Costa Lopes publicou Imagens da Mulher na Imprensa Feminina de Oitocentos, Percursos e Modernidade, uma obra fundamental para a compreensão do enquadramento social e educacional do século XIX, onde se debruça sobre o papel da imprensa no contexto da promoção da educação feminina, situação que abriu caminho para os primeiros movimentos feministas, em Portugal, no início do século XX.

Judith Teixeira, autora renegada e considerada imoral, forçada a afastar-se do meio literário em pleno Modernismo, teve uma merecida antologia em 2015, pelas mãos de Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario Silva, investigador brasileiro bastante dedicado às autoras portuguesas, nomeadamente a Judith Teixeira e a Ana Plácido, e que tem traçado um caminho valoroso ao encontro de leituras femininas esquecidas.

Em 2023, Maria João de Lopo Carvalho reuniu doze mulheres num volume biográfico: As Revolucionárias. Doze Mulheres Portuguesas Desobedientes, entre as quais encontramos as escritoras Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Angelina Vidal, Domitila de Carvalho, Ana de Castro Osório, Irene Lisboa, Virgínia de Castro e Almeida e Maria Lamas. Actualmente, o livro está a servir de base a um podcast intitulado As Desobedientes, com a participação da própria autora, confirmando a necessidade de livros desta natureza serem divulgados através das oportunidades oferecidas pelos meios tecnológicos, de forma a chegarem a mais leitores.

Dadas as circunstâncias, voltamos inevitavelmente à problemática inicial: como estimular, então, as leituras, se as autoras não surgem sequer nas escolas e universidades, locais onde deveriam estar, em primeiro lugar?

Mais exemplos poderiam ser acrescentados a esta pequena, mas significativa lista, na medida em que revela, já por si, a pertinência que a presente análise merece. Somente através de investigadores e investigadoras persistentes, tem sido possível contrariar a ideia pré-estabelecida de que existem poucas mulheres escritoras na História de Portugal, a par da errada noção de que os seus escritos são de inferior qualidade, não merecendo por essa razão um lugar de destaque, ou seja, um lugar no Cânone – merecido Olimpo dos deuses da escrita. Como tal, é completamente errado assumir que a lira não encantou as mulheres, apesar de os cantos emitidos terem sido bastante condicionados pelas sociedades epocais.

No século XIX, A “Poetisa do Sado”, Mariana Angélica Andrade, questionou a condição feminina, através da sua poesia inteligente e arrebatadora. Criticou, com elevada frontalidade o mundo que:

“Maldiz os sons da lira, afronta o génio

Que procura elevar-se, em asas de oiro

Acima do vulgar!

(…) escarnece quando sabe

Que vêm de uma mulher os sons que escuta[2]”.

Tantas outras autoras seguiram a mesma fórmula, pois foi através da escrita que atingiram a liberdade dos seus pensamentos, desejos e inquietações. A escrita proporcionou, sem dúvida, o desagrilhoamento da mulher, relegada ao mero lugar familiar, como filha, esposa ou mãe; portanto, sem grande relevo no plano social.

A educação feminina: dificuldades e oportunidades

A exclusão das escritoras do cânone literário é, até certo ponto, compreensível dado o seu tardio acesso à escolarização; no entanto, o que se nota na maior parte das histórias da literatura ocidentais é um desprestígio constante da produção literária de autoria feminina, que parece continuamente deixar as mulheres escritoras à margem da literatura oficial (Silva, 2014: 13).

O percurso da autoria feminina, em Portugal, foi sempre marcado por fortes barreiras. Durante séculos, o acesso à educação foi restrito às mulheres, englobando as mulheres que pertenciam a famílias nobres e aburguesadas, limitando as suas oportunidades de formação intelectual e, obviamente, a sua produção literária. Existem, em paralelo, inúmeros casos de mulheres que se dedicaram à escrita, mas que viviam confinadas nos conventos, num meio que, já por si, exige recolhimento e afastamento da sociedade, embora garantisse um acesso ao estudo do Português e do Latim, mas também das línguas estrangeiras, como o Francês.

Muitas daquelas que conseguiram publicar os seus textos, maioritariamente através da imprensa periódica, fizeram-no, numa fase inicial, sob pseudónimos masculinos ou o anonimato, de forma a evitar a rejeição social. Maria da Felicidade Browne, poetisa ultra-romântica, é apenas um destes exemplos, e recorreu aos pseudónimos Soror Dolores e A Coruja Trovadora, como forma de ocultação da sua identidade. Muitas mulheres usaram o mesmo artifício, sendo comum observarmos, em jornais de época, textos cuja assinatura segue os seguintes moldes: Uma Senhora, Uma Senhora Portuense, A.C., Maria, Caiel[3], e por aí adiante.

Tanto o preconceito direcionado às obras femininas, como a desvalorização a estas associada, por parte da crítica literária e da academia, contribuíram tremendamente para a escassez de autoras incluídas no Cânone, para além de que a literatura produzida no feminino foi, durante muito tempo, vista como um género menor, associado a diários, a cartas e a outros formatos mais intimistas, mas também a poemas de pendor amoroso, que não se encaixavam, de forma alguma, nos padrões canónicos.

O século XIX permitiu uma alteração desta dinâmica, já que a imprensa, em franca expansão, proporcionou às mulheres um lugar de destaque na esfera pública, enquanto donas das suas palavras. Gradualmente, após um dos primeiros periódicos dedicados integralmente às mulheres surgir, O Toucador, pela mão de Almeida Garrett, abriu-se a porta à colaboração feminina nos jornais e revistas, existindo exemplos de periódicos e revistas literárias que foram dirigidos por mulheres, contando com a participação de colaboradores mistos e de uma forte adesão feminina, mas sendo também – e exclusivamente – compostos por colaboradoras.

A par destas alterações na imprensa, que atingem o auge nos finais do século XIX, o papel da educação da mulher passa a ser um assunto urgente, potenciado pelas feministas republicanas, como Ana de Castro Osório, figura ímpar da luta pela igualdade de direitos e que, no seu célebre texto Às mulheres portuguesas, de 1905, já afirmava a necessidade de instrução e independência, anos antes de Virginia Woolf publicar o célebre A Room of One’s Own (traduzido para Português como Um Quarto só Seu):

Feminismo: é ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam (…) e de que a maioria das proprias mulheres córam (…) E, no entanto, nada mais justo, nada mais rasoavel, do que este caminhar seguro, embora lento, do espirito feminino para a sua autonomia (Osório, 1905: 11).

Porque ser feminista não é querer as mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a dignidade humana (Osório, 1905: 24).

Mulheres na Literatura ou Literatura das Mulheres?

O debate aceso entre os conceitos “mulheres na literatura” e “literatura das mulheres” não tem ajudado a mitigar as barreiras instituídas. No fundo, a primeira definição refere-se às obras escritas por autoras, independentemente do seu público-alvo, contemplando temas universais, enquanto a segunda engloba obras escritas por mulheres ou homens, que se dirigem ao público feminino e que abordam temas exclusivos da vivência feminina, estando maioritariamente associados às noções de futilidade e banalidade.

Muitas escritoras lutaram para que sua produção não fosse reduzida ao universo feminino, buscando reconhecimento no panorama literário como um todo, e motivando as suas leitoras a irem mais além, embora tal batalha tivesse sido sempre espinhosa e, em muitos casos, repleta de injustiças e de desprestígio em relação ao papel das mulheres enquanto autoras. Felizmente, tivemos sempre mulheres transgressoras, como Ana de Castro Osório, Florbela Espanca, Judith Teixeira, Maria Teresa Horta ou Natália Correia, que reivindicaram a todo o custo a liberdade da mulher, ilustrando que, embora fundeadas na experiência feminina – um aspeto, no fundo, inato –, existe uma dimensão universal nas suas reflexões e, por fim, no impacto social proporcionado pela sua escrita.

A universalidade da escrita e as autoras canónicas

Autoras consideradas canónicas, como Leonor de Almeida (Marquesa de Alorna), Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Maria Teresa Horta ou Natália Correia são relativamente conhecidas por terem rompido com os padrões vigentes das suas épocas, conquistando um lugar diferenciado entre os seus pares. De forma diferente – o que se relaciona com a época em causa –, conseguiram elevar as suas vozes ao plano social, transmitindo sentimentos e anseios, a bem da harmonia global.

Marquesa de Alorna é aquela que está mais distante de nós, na lista em apreço. Nascida ainda no século XVIII, bebeu muita influência do Iluminismo, o que se traduziu numa linha de escrita alicerçada na questão do valor dado ao indivíduo e à razão. A sua importância social foi também conquistada através de um famoso salão literário, organizado na sua casa, e frequentado por inúmeras figuras literárias relevantes, como Manuel Barbosa du Bocage.

No caso de Florbela Espanca – talvez a mais conhecida entre todas as citadas –, a aceitação não foi facilitada, em vida, enfrentando duras críticas à sua escrita, considerada depreciativamente dramática, e vendo alguns dos seus sonetos publicados em periódicos a serem sujeitos a várias alterações, de forma a se adequarem melhor à alma feminina. Porém, a sua poesia expressa uma profunda carga emocional, desviando-se do plano amoroso para o plano existencial, com recurso a diversos elementos. A sua primeira composição, intitulada “A Vida e a Morte”, datada de 1903 – tendo Florbela apenas 8 anos –, abriu caminho para uma inquietação que a acompanhou toda a vida: a preocupação com a morte. E não há tema mais universal – ou seja, mais humano – do que o terror ou o fascínio provocados pela morte.

Sophia de Mello Breyner é relativamente conhecida pela sua poesia e pelos seus contos infanto-juvenis, sendo estes revestidos de uma dimensão pedagógica profunda, a par dos elementos fantásticos. Autora de elevada sensibilidade, abordou temas universais como a liberdade e a justiça, mas sem dúvida que a relação do homem com a natureza é uma das suas características mais expressivas, em especial a influência do mar, componente típico da Literatura Portuguesa, fortemente ancorado na própria História de Portugal.

Agustina Bessa-Luís destaca-se pela sua obra vasta, entre romances, contos, peças dramáticas, ou ensaios – escritos habitados por um estilo impactante, onde as narrativas estão repletas de personagens femininas complexas, explorando a dinâmica do poder e elaborando uma crítica social, com uma abordagem psicológica intrincada. A Sibila é, sem dúvida, o seu trabalho mais conhecido, com temas tão universais como os conflitos, a amizade e a inimizade, e a própria condição humana.

Maria Teresa Horta deixou-nos recentemente, mas deixou-nos com um legado singular. Mulher de armas, não permitiu que a condição do seu sexo a colocasse num plano inferior, em especial no período da Ditadura, período bastante negro para a construção do papel da mulher enquanto escritora, na sociedade portuguesa. Desde sempre, lutou pela liberdade, colocando o foco na questão da libertação feminina através da sexualidade, mas também glorificou Marquesa de Alorna, com As Luzes de Leonor, obra que oscila entre géneros: a prosa e a poesia.

Natália Correia, autora da célebre frase “a poesia é para comer”[4], foi mais uma das mulheres que combateram a opressão em Portugal, em especial nos anos 60 e 70, do século XX. Dona da sua voz, foi uma mulher plural que não sossegou na demanda pela libertação intelectual e sexual da mulher portuguesa. A sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica fez com que fosse condenada à prisão, com pena suspensa, mas tal episódio não demoveu o propósito da sua luta primordial: o direito à afirmação individual.

A universalidade dos temas tratados por estas autoras – e outras, tão distintas, não incluídas no Cânone, como Soror Violante do Céu, Ana Plácido, Maria da Felicidade Browne, Mariana Angélica de Andrade, Luísa Lomelino (Luzia), Maria Amália Vaz de Carvalho, Guiomar Torrezão, Virgínia de Castro e Almeida, Ana de Castro Osório, Judith Teixeira, Fernanda de Castro, Virgínia Victorino, Branca de Gonta Colaço, e tantas outras – evidencia a injustiça da sua discriminação, na medida em que estas mulheres abordaram questões como o amor, a liberdade, a morte e o existencialismo, demonstrando que a barreira perante o Cânone se deveu mais às estruturas de poder estabelecidas, do que a qualquer limitação no interior das suas obras. Para além disto, as suas criações dialogaram com questões locais e globais, provando que a literatura feita por mulheres, não sendo apenas para mulheres, é capaz de elevar-se sobre os limites geográficos e, consequentemente, culturais, elevando toda a nação e a própria identidade nacional.

Considerações finais

O cânone literário português tem sido historicamente dominado por autores masculinos, reflexo de uma estrutura social e académica rígida. Porém, Duarte (2009) explica que o objecto literário, sendo adjacente ao uso

descreve todos os discursos que uma comunidade de utentes considera como tal em função de critérios que são antes do mais sociais e históricos (…) um texto não nasce necessariamente literário e muito menos canónico, nem tem que se manter perenemente literário, posição esta que tem justificado recentes reivindicações de recanonização e descanonização.

Ao abrigo desta noção de efemeridade, questiono até quando permitiremos que nos faltem peças essenciais, para que compreendamos, no fundo, a multiplicidade do vasto puzzle literário português? Até quando deixaremos que mais mulheres importantes para a compreensão e construção da História Literária Portuguesa fiquem fora desta validação? Se a universalidade não é um problema estrutural, na medida em que está garantidamente presente nos seus textos, incluindo em autoras menos conhecidas, que critérios continuarão a condicionar este afastamento, em particular dos planos educacionais? Fica a reflexão…

A rubrica Escrita(s) no Feminino pretende, acima de tudo, aproximar leitores a leituras à margem do Cânone, lançando, desde logo, um desafio a cada receptor: que confirme por si a pertinência de inúmeras vozes silenciadas, ao longo dos tempos, ainda que, na época, as mulheres em análise tenham sido alvo de admiração e elevação.

Recursos bibliográficos

Alonso, Cláudia Pazos. Imagens do eu na poesia de Florbela Espanca. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996

Alonso, Cláudia Pazos e Silva, Fabio Mario da (organização e estudos introdutórios). Judith Teixeira, Poesia e Prosa. Lisboa: D. Quixote, 2015

Anastácio. Vanda. Uma Antologia Improvável. A Escrita das Mulheres, Séculos XVI a XVIII. Lisboa: Relógio d’Água, 2013

Andrade, Mariana Angélica. Murmúrios do Sado. Setúbal: Tipografia de José Augusto Rocha, 1870, pp. 52-53

Bessa-Luís, Agustina. A Sibila. Lisboa: Guimarães Editores, 1954

Bloom, Harold. O Cânone Ocidental. Lisboa: Temas e Debates, 1994, pp. 27-50

Carvalho, Maria João Lopo de. As Revolucionárias. Doze Mulheres Portuguesas Desobedientes. Lisboa: Sibila Publicações, 2023

Correia, Natália. Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Lisboa: Afrodite, 1965

Direção-Geral da Educação. “Aprendizagens essenciais – 12º ano, Português”, 2018. Acesso em 19 de Março de 2026. Disponível em: https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/12_portugues.pdf

Duarte, João Ferreira. “Cânone”. E-Dicionário de Termos Literários de Carlos Ceia, 2009. Acesso em 19 de Março de 2026. Disponível em: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/canone

Feijó, António M. et al. O Cânone. Lisboa: Tinta da China, 2020

Garrett, J. B. Almeida. O Toucador. Lisboa: Portugália Editora, 1822

Horta, Maria Teresa. As Luzes de Leonor. Lisboa: D. Quixote, 2011

Lopes, Ana Maria Costa. Imagens da Mulher na Imprensa de Oitocentos. Percursos da Modernidade. Lisboa: Quimera, 2005

Martins, Filipa. O Dever de Deslumbrar. Lisboa: Contraponto Editores, 2023

Osório, Ana de Castro. Às Mulheres Portuguesas. Lisboa: Tipografia Viúva Tavares Cardoso, 1905

Reis, Patrícia. A Desobediente. Lisboa: Contraponto Editores, 2024

Silva, Fabio Mario. A Autoria Feminina na Literatura Portuguesa. Reflexões sobre as Teorias do Cânone. Lisboa: Edições Colibri, 2014, pp. 17-47, 55-62, 97-113

Woolf, Virginia. A Room One’s Own. London: Hogarth Press, 1929


  1. Vide https://escritoras-em-portugues.com/pt_pt/



  2. In poema “Poesia e Mulher”, incluído em Murmúrios do Sado, publicado em 1870.



  3. Pseudónimo de Alice Pestana.



  4. In poema “A Defesa do Poeta”, apresentado em Tribunal, aquando do processo judicial da autora.