Excertos de “A Era Presente”, de Søren Kierkegaard (em Two Ages: The Age of Revolution and the Present Age, A Literary Review, originalmente publicado em 1846.
A era presente é essencialmente uma era sensata, reflexiva, desprovida de paixão, que se inflama em entusiasmos superficiais e de curta duração e depois prudentemente relaxa na indolência.
Se dispuséssemos de estatísticas sobre o uso da prudência de geração em geração, tal como as temos sobre o consumo de bebidas alcoólicas, ficaríamos espantados ao ver a enorme quantidade usada nos nossos dias, quanta pesagem, deliberação e consideração uma pequena família não oficial consome embora tenha rendimentos amplos, quanta até as crianças e os jovens usam, pois assim como a cruzada das crianças simboliza a Idade Média, assim a esperteza das crianças simboliza a nossa. Pergunto-me se ainda existe alguma pessoa que cometa apenas um grande disparate estúpido. Nem mesmo um suicida nos dias de hoje se mata por desespero, mas delibera tanto e de forma tão sensata sobre esse passo que acaba por ser estrangulado pelo cálculo, tornando discutível se pode realmente ser chamado de suicida, na medida em que foi, de facto, a deliberação que lhe tirou a vida. Não foi um suicida premeditado, mas antes um suicida por meio da premeditação.
Por isso seria extremamente difícil ser promotor de justiça contra uma era como esta, porque toda a geração é perita em questões jurídicas, e a sua competência, a sua sensatez, a sua perícia técnica consistem em deixar que as coisas cheguem a um veredicto e a uma decisão sem nunca agir.
Se dizemos de uma era revolucionária que ela se extravia, então temos de dizer da era presente que ela vai mal. O indivíduo e a geração estão continuamente a contradizer-se a si mesmos e uns aos outros, e por isso seria impossível a um promotor de justiça estabelecer qualquer facto, porque não há nenhum. Da abundância de indícios circunstanciais, poder-se-ia concluir que algo extraordinário aconteceu ou está prestes a acontecer. Mas essa seria uma conclusão errada, pois os indícios circunstanciais são a única tentativa da era presente de dar mostras de força, e a sua inventividade e perícia técnica em arquitetar miragens fascinantes e a imprudência dos seus lampejos de entusiasmo, recorrendo aos atalhos enganadores de mudanças formais propostas, valem tanto em esperteza calculista e uso negativo do poder quanto a paixão enérgica e criadora na atuação da era da revolução. Exausta pelas suas quiméricas exortações, a era presente relaxa então temporariamente numa indolência completa. A sua condição assemelha-se à do preguiçoso matinal que tem grandes sonhos, depois torpor, seguido de uma inspiração espirituosa ou engenhosa para desculpar ficar na cama.
O indivíduo isolado (por mais bem-intencionados que muitos sejam, por mais energia que possam ter se alguma vez chegassem a usá-la) não fomentou em si paixão suficiente para se arrancar da teia da reflexão e da sedutora ambiguidade da reflexão. O ambiente, a era contemporânea, não tem nem acontecimentos nem paixão integrada, mas numa unidade negativa cria uma oposição reflexiva que brinca por um momento com a perspetiva irreal e depois recorre à brilhante equivoquidade de que, afinal, a coisa mais inteligente foi não fazer nada. A vis inertiæ [a força da inércia] está na base da tergiversação da era¹⁸, e todo o passivo que nada faz congratula-se por ser o inventor original — e torna-se ainda mais esperto. Assim como as armas eram distribuídas livremente na era da revolução e as insígnias da empresa eram conferidas publicamente durante as cruzadas¹⁹, assim hoje somos regalados por toda a parte com regras pragmáticas, um cálculo de considerações, etc.
Se se pudesse presumir que toda uma geração tivesse a tarefa diplomática de procrastinar e de frustrar continuamente qualquer ação e, no entanto, fazer parecer que algo está a acontecer, então não podemos negar que a nossa era está a realizar algo tão admirável como a era da revolução. Se alguém fizesse uma experiência e esquecesse tudo o que sabe sobre a era e o facto simples da sua habitual e excessiva relatividade, se viesse como que de outro mundo e lesse alguns livros, um artigo no jornal ou simplesmente falasse com um transeunte, ficaria com a impressão: Meu Deus, algo vai acontecer esta mesma noite — ou algo deve ter acontecido anteontem à noite!²⁰
Em contraste com a era da revolução, que agia, a era presente é uma era de publicidade, a era dos anúncios variados: nada acontece, mas há imediatamente publicidade. Uma insurreição nos dias de hoje é completamente inimaginável; uma tal manifestação de poder pareceria ridícula à sensatez calculista da era. No entanto, um virtuoso político talvez pudesse realizar um impressionante tour de force de tipo completamente diferente. Ele enviaria convites para uma assembleia geral com o propósito de decidir sobre uma revolução, redigindo o convite de forma tão cautelosa que até o censor teria de o deixar passar. Na noite da reunião, criaria de forma tão hábil a ilusão de que tinham feito uma revolução que todos iriam para casa tranquilamente, tendo passado uma noite muito agradável. Adquirir um saber profundo e abrangente seria praticamente impensável para os jovens de hoje; considerariam isso ridículo. Um virtuoso científico, porém, seria capaz de negociar um tour de force radicalmente diferente. Ele delinearia casualmente algumas características de um sistema abrangente e far-lo-ia de tal modo que o leitor (do prospecto) ficasse com a impressão de que já tinha lido o sistema²¹. A era dos enciclopedistas, dos homens que infatigavelmente escreviam fólios, acabou; agora é a vez dos enciclopedistas levemente equipados que dispõem de toda a existência e de todas as ciências en passant. Uma renúncia religiosa penetrante ao mundo e ao que é do mundo²², mantida no quotidiano da abnegação, seria inconcebível para a juventude do nosso tempo; contudo, cada segundo licenciado em teologia tem virtuosidade suficiente para fazer algo muito mais maravilhoso. Ele é capaz de fundar uma instituição social com nada menos do que o objetivo de salvar todos os perdidos.
A era das grandes e boas ações passou; a era presente é a era da antecipação. Ninguém se contenta em fazer algo específico; todos querem deleitar-se no devaneio de que pelo menos poderão descobrir uma nova parte do mundo. A nossa é uma era de antecipação; até o reconhecimento apreciativo é aceite antecipadamente. Tal como um jovem que, tendo resolvido estudar seriamente para os exames depois de 1 de setembro, se fortifica para isso tirando férias no mês de agosto, assim a geração presente — e isto é muito mais difícil de compreender — parece ter decidido seriamente que a próxima geração deve ocupar-se seriamente do trabalho, e para não os frustrar ou dissuadir de modo algum, a geração presente participa em banquetes. Mas há uma diferença: o jovem compreende que as suas empresas são imprudentes e temerárias; a era presente é sóbria e séria — mesmo nos banquetes.
A ação e a decisão são hoje tão escassas como o prazer de nadar perigosamente para aqueles que nadam em águas rasas. Assim como um adulto, ele próprio a deleitar-se nas ondas agitadas, chama aos mais novos: «Venham cá fora, saltem depressa» — assim a decisão jaz na existência, por assim dizer (embora, claro, esteja no indivíduo), e grita ao jovem que ainda não está enervado por demasiada reflexão nem sobrecarregado pelas ilusões da reflexão: «Venham cá fora, saltem com ousadia.» Mesmo que seja um salto imprudente, desde que seja decisivo, e se tiveres a têmpera de um homem, o perigo e o severo julgamento da vida sobre a tua imprudência ajudar-te-ão a tornar-te um.
Se o tesouro que todos cobiçam jaz longe, numa crosta de gelo muito fina, guardado pelo grande perigo para quem se aventurar tão longe, enquanto (suponhamos esta esquisitice que, afinal, só é esquisita na ilustração) mais perto da margem o gelo é grosso e sólido — numa era apaixonada a multidão aplaudiria ruidosamente o ousado e valente que patinasse sobre o gelo fino. Tremeriam por ele e com ele na sua decisão perigosa, sofreriam por ele se morresse, e idealizá-lo-iam se conseguisse o tesouro. A situação seria completamente diferente numa era reflexiva desprovida de paixão. Em reconhecimento mútuo da prudência partilhada, concordariam sensatamente que certamente não valeria a pena patinar sobre gelo tão fino — na verdade, seria tolo e ridículo. Então uma aventura inspirada transformar-se-ia num tru acrobático — para fazer algo, pois «tem de se fazer alguma coisa». Iriam lá fora e, do seu ponto de vista seguro, apreciariam com ar de conhecedores o patinador perito que consegue patinar quase até à borda (isto é, até onde o gelo ainda é seguro e apenas aquém do perigoso) e depois voltar. Um dos patinadores seria excepcionalmente habilidoso, e até conseguiria realizar o tru de fazer uma curva aparentemente arriscada mesmo na borda extrema, fazendo os espectadores gritar: «Meu Deus, ele está louco, está a arriscar a vida.» Mas vês, ele é tão excepcionalmente habilidoso que consegue fazer uma viragem brusca precisamente na borda extrema — isto é, onde o gelo ainda é completamente seguro e ainda aquém do perigoso. Tal como no teatro, a multidão gritaria «Bravo!» e aclamá-lo-ia e depois levaria o seu herói performático aos ombros para casa e honrá-lo-ia com um banquete sumptuoso. O senso comum tornaria-se tão predominante que mudaria a própria tarefa num tru irreal e a atualidade num teatro. No banquete à noite, a admiração ressoaria. Mas enquanto o que habitualmente acontece onde a admiração é autêntica é que o admirador se inspira com a ideia de ser um homem como o distinto, se humilha pela consciência de não ter conseguido realizar essa grande coisa ele próprio, se sente eticamente encorajado pelo protótipo a seguir o exemplo desse homem excecional na medida das suas possibilidades, aqui novamente o senso comum prático alteraria o padrão da admiração. Mesmo no auge vertiginoso dos aplausos e das salvas de vivas, os celebrantes no banquete teriam uma compreensão astuta e prática de que a proeza do seu herói não era assim tão boa, que, afinal de contas, o facto de a festa ser para ele era fortuito, pois qualquer um dos participantes poderia ter feito quase o mesmo com alguma prática em viragens complicadas. Em suma, em vez de serem estimulados a ser discernentes e encorajados a fazer o bem por este festival de admiração, os celebrantes iriam para casa mais dispostos do que nunca à mais perigosa mas também à mais aristocrática de todas as doenças, a admirar socialmente o que pessoalmente consideram trivial, porque tudo se tornara uma piada teatral, e os brindes espirituosos de admiração se tornaram o entendimento secreto de que poderiam quase igualmente admirar-se a si mesmos.
Ou se um homem finalmente se coloca à frente de uma empreitada inspirada e reúne um grupo de seguidores, algo que é fácil de fazer (pois há sempre uma ligação entre lampejos de entusiasmo e apatia prudencial) — se agora ele parte à frente desta banda, cantando canções de vitória até se aproximar da decisão e do perigo — então, quando se vira para dirigir uma palavra inspiradora à multidão, toda a cena mudaria. Os participantes transformar-se-iam astutamente numa multidão de espectadores que, com a enorme presunção da esperteza, fingiriam que foram eles que astuciosamente e ironicamente o levaram a esse alto entusiasmo e agora vieram olhar para ele e rir-se dele. Em reconhecimento mútuo, todos eles estariam infinitamente mais satisfeitos consigo mesmos por esta prudência incomum do que por qualquer realização; para a mente da esperteza, seria brilhante. Não se ouviria uma única palavra sobre instabilidade, cobardia — não, eles orgulhar-se-iam da brilhante ilusão da esperteza e assim tornariam a sua cura mais difícil. Então talvez o líder também perdesse coragem e toda a empreitada se tornasse o mais desmoralizante possível, porque se tornaria um pseudo-movimento e um incentivo à presunção cobarde.
Que uma pessoa se erga ou caia pelas suas ações está a tornar-se obsoleto; em vez disso, todos ficam sentados e fazem um trabalho brilhante de se safarem com a ajuda de alguma reflexão e também declarando que todos sabem muito bem o que tem de ser feito. Mas o que as pessoas duas a duas em conversa, o que os indivíduos como leitores ou como participantes numa assembleia geral entendem brilhantemente na forma de reflexão e observação, seriam completamente incapazes de entender na forma de ação. Se alguém andasse a ouvir o que os outros diziam que devia ser feito e depois, com sentido de ironia, mir nichts und dir nichts [sem pedir licença], fizesse algo a respeito, todos ficariam atónitos, achariam isso imprudente. E mal começassem a pensar e a conversar sobre isso, perceberiam que era exatamente o que devia ter sido feito.
A era presente, com os seus lampejos de entusiasmo alternando com indolência apática, que no máximo gosta de brincar, aproxima-se muito de ser cómica; mas quem entende o cómico vê facilmente que o cómico não consiste de modo algum no que a era presente imagina que consiste e que a sátira no nosso tempo, se for de algum modo benéfica e não causar dano irreparável, deve ter o recurso de uma visão ética consistente e bem fundamentada, de um desinteresse sacrificial e de uma nobreza elevada que renuncia ao momento; caso contrário, o remédio torna-se infinitamente e incomparavelmente pior do que a doença. O que é realmente cómico é que uma tal era aspire a ser espirituosa e a fazer grande alarido no cómico, pois isso é certamente a fuga última e mais fantasmagórica. Em termos do cómico, o que há para ridicularizar, afinal, numa era esgotada na reflexão? Como era sem paixão, não tem ativos de sentimento no erótico, nem ativos de entusiasmo e interioridade na política e na religião, nem ativos de domesticidade, piedade e apreciação na vida quotidiana e na vida social. Mas a existência ridiculariza a espirituosidade que não possui ativos, ainda que o populacho ria estridentemente. Aspirar à espirituosidade sem possuir a riqueza da interioridade é como querer ser pródigo em luxos e dispensar as necessidades da vida; como diz o provérbio, é vender as calças para comprar uma peruca. Mas uma era sem paixão não possui ativos; tudo se torna, por assim dizer, transações em dinheiro de papel. Certas frases e observações circulam entre o povo, em parte verdadeiras e sensatas, mas desprovidas de vitalidade, mas não há herói, nem amante, nem pensador, nem cavaleiro da fé, nem grande humanitário, nem pessoa em desespero que as autentique por as ter vivido primitivamente. Assim como nas nossas transações comerciais ansiamos ouvir o tilintar de moedas reais depois do sussurro do dinheiro de papel, assim hoje ansiamos por um pouco de primitividade. Mas o que é mais primitivo do que a espirituosidade, mais primitivo, pelo menos mais espantoso, do que até o primeiro rebento da primavera e a primeira lâmina delicada de erva? Sim, mesmo que a primavera chegasse segundo um acordo prévio, continuaria a ser primavera, mas uma piada segundo acordo prévio seria uma abominação. Suponhamos, então, que como alívio da febre dos lampejos de entusiasmo se chegasse a um ponto em que a espirituosidade, esse acontecimento divino, esse bónus dado por indício divino das origens enigmáticas do inexplicável, de tal modo que nem a pessoa mais espirituosa que alguma vez viveu ousaria dizer: «Amanhã», mas diria devotamente: «Se Deus quiser»²⁵ — suponhamos que a espirituosidade se transformasse no seu oposto mais banal e batido, numa necessidade trivial da vida, de tal modo que se tornasse uma indústria lucrativa fabricar, inventar, renovar e comprar em massa piadas velhas e novas: que epigrama terrível sobre a era espirituosa!
(…)
Um indivíduo particular pode tomar a dianteira numa insurreição, mas nenhum indivíduo particular pode tomar a dianteira no nivelamento, pois então, afinal, tornar-se-ia o comandante e escaparia ao nivelamento. Indivíduos particulares podem contribuir para o nivelamento, cada um no seu pequeno grupo, mas o nivelamento é um poder abstrato e é a vitória da abstração sobre os indivíduos. Nos tempos modernos, o nivelamento é o correlativo da reflexão ao destino na antiguidade. A dialética da antiguidade estava orientada para o eminente (o grande indivíduo — e depois a multidão; um homem livre, e depois os escravos); presentemente, a dialética do cristianismo está orientada para a representação (a maioria percebe-se no representante e liberta-se pela consciência de que ele os representa numa espécie de autoconsciência). A dialética da era presente está orientada para a igualdade, e a sua implementação mais lógica, embora abortiva, é o nivelamento, a unidade negativa da reciprocidade negativa mútua dos indivíduos.
Qualquer um pode ver que o nivelamento tem a sua profunda importância na ascensão da categoria «geração» sobre a categoria «individualidade». Enquanto na antiguidade a multidão de indivíduos existia, por assim dizer, para determinar quanto valia o indivíduo excelente, hoje o padrão da moeda foi mudado de modo que cerca de tantos e tantos seres humanos uniformes fazem um indivíduo; assim, trata-se apenas de obter o número adequado — e então tem-se significado. Na antiguidade, o indivíduo na multidão não tinha significado algum; o homem excelente valia por todos eles. A tendência atual é no sentido da igualdade matemática, de modo que em todas as classes cerca de tantos e tantos uniformes fazem um indivíduo. A personalidade eminente ousava considerar tudo permitido, os indivíduos na multidão nada de todo. Hoje compreendemos que tantos e tantos fazem um indivíduo, e com toda a coerência calculamos números (chamamos-lhe unir, mas é um eufemismo) em relação às coisas mais triviais. Por nenhuma outra razão senão para realizar um capricho, juntamos uns quantos e fazemo-lo — isto é, ousamos fazê-lo.
É por isso que, eventualmente, nem mesmo uma pessoa muito dotada consegue libertar-se da reflexão, pois logo percebe que é apenas uma fração em algo completamente trivial e perde a libertação infinita da vida religiosa. Mesmo que um pequeno grupo de pessoas tivesse a coragem de enfrentar a morte, hoje não diríamos que cada indivíduo tinha a coragem de o fazer, pois o que o indivíduo teme mais do que a morte é o julgamento da reflexão sobre ele, a objeção da reflexão ao seu desejo de se aventurar como indivíduo. O indivíduo não pertence a Deus, a si mesmo, à amada, à sua arte, ao seu saber; não, assim como um servo pertence a uma propriedade, o indivíduo percebe que em todos os aspetos pertence a uma abstração na qual a reflexão o subordina. Se um grupo de pessoas na nossa era pudesse decidir, cada um individualmente, dar toda a sua fortuna a uma boa causa, não se seguiria como evidente que o indivíduo pudesse decidir fazê-lo, e novamente não porque estivesse irresoluto em renunciar à fortuna, mas porque temia o julgamento da reflexão muito mais do que temia a pobreza. Se dez pessoas pudessem concordar em afirmar a plena e incondicional validade do amor erótico ou, sem considerações paralisantes, a justificação limitada do entusiasmo, não se seguiria daí que cada um dos dez fosse capaz de o fazer, pois continuariam a amar ambivalentemente o julgamento da reflexão ainda mais do que o êxtase do amor e o testemunho do entusiasmo com o seu espírito — portanto, dez teriam de concordar em algo em que é uma contradição ser mais do que um. O princípio positivo idolatrado da socialidade na nossa era é o princípio consumidor e desmoralizante que, no cativeiro da reflexão, transforma até as virtudes em vitia splendida [vícios brilhantes]. E qual é a base disto senão o desrespeito pela separação do indivíduo religioso diante de Deus na responsabilidade da eternidade? Quando o desânimo começa neste ponto, busca-se conforto na companhia, e assim a reflexão captura o indivíduo para toda a vida. E aqueles que nem sequer se aperceberam do início desta crise caem automaticamente na relação da reflexão.
O nivelamento não é a ação de um indivíduo, mas um jogo de reflexão nas mãos de um poder abstrato. Assim como se calcula a diagonal num paralelogramo de forças, também se pode calcular a lei do nivelamento, pois o indivíduo que nivela os outros é ele próprio arrastado, e assim por diante. Enquanto o indivíduo egoisticamente pensa que sabe o que está a fazer, deve dizer-se que todos eles não sabem o que fazem, pois assim como a unanimidade entusiástica inspirada resulta num algo mais que não pertence aos indivíduos, aqui também emerge um algo mais. Um demónio que nenhum indivíduo pode controlar é conjurado, e embora o indivíduo egoisticamente desfrute da abstração durante o breve momento de prazer no nivelamento, está também a subscrever a sua própria ruína. O ímpeto para a frente do entusiasta pode terminar na sua queda, mas o sucesso do nivelador é eo ipso a sua queda. Nenhum período, nenhuma era, e portanto também não a presente, pode deter o cepticismo do nivelamento, pois no momento em que quiser deter o nivelamento, exemplificará novamente a lei. Só pode ser detido se o indivíduo, na separação individual, ganhar a intrepidez da religiosidade.
(…)
O público é um conceito que simplesmente não poderia ter surgido na antiguidade, porque o povo era obrigado a apresentar-se em massa, in corpore [como um todo], na situação de ação, era obrigado a suportar a responsabilidade pelo que era feito pelos indivíduos no seu seio, enquanto, por sua vez, o indivíduo era obrigado a estar presente em pessoa como aquele especificamente envolvido e tinha de se submeter ao tribunal sumário para aprovação ou desaprovação. Só quando não existe uma forte vida comunitária que dê substância à concreção é que a imprensa cria esta abstração «o público», composto por indivíduos insubstanciais que nunca estão unidos nem podem estar unidos na simultaneidade de qualquer situação ou organização e, no entanto, são reivindicados como um todo. O público é um corpo que supera em número todas as pessoas juntas, mas este corpo nunca pode ser chamado para inspeção; na verdade, nem sequer pode ter um único representante, porque é ele próprio uma abstração. No entanto, se a era for reflexiva, desprovida de paixão, obliterando tudo o que é concreto, o público torna-se a entidade que se supõe incluir tudo. Mas, mais uma vez, esta situação é a própria expressão do facto de que o indivíduo singular é remetido a si mesmo.
A contemporaneidade com pessoas reais, cada uma das quais é alguém, na atualidade do momento e da situação real dá apoio ao indivíduo singular. Mas a existência de um público não cria nenhuma situação nem nenhuma comunidade. Afinal, o indivíduo singular que lê não é um público, e depois gradualmente muitos indivíduos leem, talvez todos leiam, mas não há contemporaneidade. O público pode demorar um ano e um dia a reunir-se, e quando se reúne ainda não existe. A abstração que os indivíduos formam de modo paralogístico aliena os indivíduos em vez de os ajudar. A pessoa que está com pessoas reais na contemporaneidade do momento real e da situação real, mas não tem opinião própria, adota a mesma opinião que a maioria ou, se for mais argumentativo, que a minoria. Mas a maioria e a minoria são, note-se bem, seres humanos reais, e é por isso que a solidariedade com elas é apoiadora.
O público, porém, é uma abstração. Ao adotar a mesma opinião que estas ou aquelas pessoas particulares, sabe-se que elas estarão sujeitas ao mesmo perigo que si mesmo, que se extraviarão connosco se a opinião estiver errada, etc. Mas adotar a mesma opinião que o público é uma consolação enganadora, pois o público existe apenas in abstracto. Assim, embora nenhuma maioria tenha sido alguma vez tão positivamente segura de estar no direito e de ter a supremacia como o público está, esta é uma fraca consolação para o indivíduo singular, pois o público é um fantasma que não permite qualquer aproximação pessoal. Se alguém adota a opinião do público hoje e amanhã é vaiado e apupado, é vaiado e apupado pelo público. Uma geração, uma nação, uma assembleia geral, uma comunidade, um homem ainda têm a responsabilidade de ser algo, podem conhecer a vergonha pela inconstância e deslealdade, mas um público permanece o público. Um povo, uma assembleia, uma pessoa pode mudar de tal modo que se diga: já não são os mesmos; mas o público pode tornar-se o próprio oposto e continua a ser o mesmo — o público. Mas se o indivíduo não for destruído no processo, será educado por esta mesma abstração e esta disciplina abstrata (na medida em que não esteja já educado na sua própria interioridade) a contentar-se no sentido religioso mais elevado consigo mesmo e com a sua relação com Deus, será educado a formar a sua própria opinião em vez de concordar com o público, que aniquila todas as concreções relativas da individualidade, a encontrar repouso em si mesmo, à vontade diante de Deus, em vez de contar e contar. E a diferença última entre a era moderna e a antiguidade será que o agregado não é a concreção que reforça e educa o indivíduo, embora sem o moldar inteiramente, mas é uma abstração que, por meio da sua igualdade alienante e abstrata, o ajuda a tornar-se plenamente educado — se não perecer. A desolação da antiguidade era que o homem de distinção era o que os outros não podiam ser; o aspeto inspirador [da era moderna] será que a pessoa que ganhou a si mesma religiosamente é apenas o que todos podem ser.
O público não é um povo, não é uma geração, não é a sua era, não é uma congregação, não é uma associação, não são algumas pessoas particulares, pois tudo isto só o é por ser concreções. Sim, nem um único daqueles que pertencem a um público está essencialmente empenhado de modo algum. Durante algumas horas do dia talvez faça parte do público, isto é, durante as horas em que é um ninguém, porque durante as horas em que é a pessoa específica que é, não pertence ao público. Composto por alguns como estes, por indivíduos nos momentos em que são ninguéns, o público é uma espécie de colossal qualquer-coisa, um vazio e vácuo abstrato que é tudo e nada. Mas com base no mesmo princípio qualquer um pode presumir ter um público, e tal como a Igreja Católica Romana se estendeu quiméricamente ao nomear bispos in partibus infidelium [em países não católicos], também um público é algo que qualquer um pode apanhar, até um marinheiro bêbado que exibe um peep show, e em consistência dialética o marinheiro bêbado tem exatamente o mesmo direito a um público que o mais distinto dos homens, o direito absoluto de colocar todos estes muitos, muitos zeros à frente do seu algarismo um. O público é tudo e nada, o mais perigoso de todos os poderes e o mais sem sentido. Pode-se falar a uma nação inteira em nome do público, e no entanto o público é menos do que um ser humano real por mais insignificante que seja. A categoria «público» é o miragem da reflexão que ilusoriamente torna os indivíduos presunçosos, pois cada um pode arrogar para si este mamute, comparado ao qual as concreções da atualidade parecem mesquinhas. O público é o conto de fadas de uma era de prudência, levando os indivíduos a imaginarem-se maiores do que reis, mas novamente o público é a cruel abstração pela qual os indivíduos serão educados religiosamente — ou destruídos.
Juntamente com a ausência de paixão e a reflexividade da era, a abstração «a imprensa» (pois um jornal, um periódico, não é uma concreção política e é um indivíduo apenas num sentido abstrato) dá origem ao fantasma da abstração, «o público», que é o verdadeiro nivelador. À parte as suas implicações negativas para a vida religiosa, isto também pode ter o seu significado. Mas na proporção da escassez de ideias, uma era exausta por um lampejo de entusiasmo relaxará ainda mais facilmente na indolência, e mesmo que imaginássemos que a imprensa se tornaria cada vez mais fraca por falta de acontecimentos e ideias para agitar a era, o nivelamento torna-se ainda mais um impulso decadente, uma estimulação sensível que excita momentaneamente e só agrava o mal, torna o socorro mais difícil e a probabilidade de destruição maior.
