Era chegado o lindo e redondo mês de Maio, mês dos ramos das noivas, do fim das chuvas, da celebração das mães que geraram os filhos que hão-de ir para a guerra ou, tão somente, o mês de desenhar no pó do chão uma cornucópia sagrada, esconjuradora de todas as maldições hereditárias. Lisboa sobrevivia, prenhe de livros proibidos, boitese bordéis, por entre as hortas, as tascas e as meias de nylon, conforme o ventre de Bona Dea. Salazar, estampa com centenas de mãos hábeis, comandava o torrão natal, aconchegado num cobertor de lã de ovelha, protegido de enrouquecer a sua voz frágil e rodeado de vassalos sagazes, convencidos de que era possível ressuscitar o absolutismo. Assim refugiado, no miolo do seu alcácer e adjacente ao chão, perfilava as garrafas com vinho tinto da sua colheita na província, necessariamente curado a enxofre e algum mofo da batina que lhe vincara a infância, enquanto expedia para África os filhos dos filhos de uma nação.
Só alguns, como Carlos Nery de Araújo, é que sabiam porque Lisboa estava assombrada. De Lisboa, em harpa elíptica, partiam os navios carregados com os jovens efebos, para a guerra colonial. Estava-se em 1968, António de Spínola tomava posse como governador da Guiné. A guerra, combate ou oposição entre forças, a quebrar a paz em pedaços e a fazer a morte parecer banal, ainda que os que perecessem fossem rebentos de flores. A guerra colonial, pela parte portuguesa, a sustentar-se no princípio político da defesa daquilo que se considerava ser território nacional. Esse princípio, com base em manter um império, edificaria uma fatalidade sem reparo possível, em todo o tempo que há-de ser o futuro da pátria amada. Outros rapazes havia, franceses, que dançavam à volta da árvore de Maio, ao som de flautas e tambores, num ritual de arremesso, para que nascesse o sol, o espanto e as ideias, em cânticos de liberdade. Porém , não era essa a encenação no palco de Portugal.
Às onze horas daquele primeiro dia de Maio, cinzento, o Niassa deixava o porto de Lisboa rumo à Guiné-Bissau. No cais eram imensas as estátuas vivas de mãos a acenar os lenços brancos e, outros tantos lenços que não tendo força para acenar, enxugavam o olhar, ou tentavam esconder as bocas escancaradas no choro da antecipação das saudades, mais a falta de esperança.
Naquele instante, cor de violeta, Francisco Espairo sentia que o movimento da língua estava no trilho desassossegado do que vale vencer para não morrer. Lambia o medo, em silêncio. O silêncio da juventude brava nunca se pode constituir de medo, e nem de assombros, só de procura, ainda que partir signifique dor.
Cada pai, cada mãe, cada irmão, cada namorada ou companheira, faziam-se símbolos do desespero, num queixume que não encontrava razão. Defender a pátria e a bandeira de Portugal seria arrastar em turbilhão estes jovens rapazes para dentro de um navio, com destino a uma lonjura estranha e desconhecida.
Eram tantos os rostos com máscara de mágoa a preencher o cais! Os mesmos rostos que iriam ficar gravados na sua memória. A expressão de dor dos familiares ocupava todo o tamanho sombrio da plataforma, na cena da despedida, enquanto o Tejo brilhava sempre, cruel e impiedoso, nem parecia o velho amigo Tejo, de alfinete de prata na gravata e um ar pedante, com modos de traidor-bandido.
O branco dos acenos sobrevoava o negrume dos corvos em que se tinham transformado os olhares pungentes, e apoderava-se de Francisco, que se sentia prisioneiro de uma emboscada a meio do caminho que vinha percorrendo, através da enseada do futuro.
O ruído dos motores galopava estrondoso, assustando as ninfas e as sereias do Tejo. Sufocava-se. O espaço ia todo ocupado! Os soldados eram tantos! Como é que se remanesce, ao menos, com um fragmento de lucidez?
Esta viagem demoraria seis dias, sem escala em qualquer porto de mar. De vez em quando passava outra embarcação, lá muito ao longe. E, perto, seguia a escolta da Marinha de Guerra, como um amparo vigilante.
É assim o engenho do exército: usurpador, como todos os engenhos de todos os exércitos do mundo, que arranca estes meninos dos seus berços e os leva para os matos da selvagem Guiné.
O mar repousado fazia por adormecê-los, em jeito de ninar. Pai feito de água e abraço. Enorme colo ali achado. E, a fundura do seu peito, escondia-lhes o choro como se fosse um segredo de vidro.
O mormaço ajudava a transpiração a fazer-se perfume perante os outros cheiros pestilentos. Cada homem que viajava nesta camada inferior do Niassa representava um cavalo de raça pura, pronto para qualquer trabalho, um servo entregue ao cuidado da instituição militar de um país governado por uma minoria de autocratas pretensiosos. Sentiam-se incapazes de poder apelar à sua condição de homens a quem se deve dignidade e merecimento.
- O que é aquilo?
- São peixes voadores, não vês, ó palerma?!
- Peixes voadores? Mas como é que eles conseguem, os filhos de uma onça?
- Ah! Ah! Ah! – gargalhada geral de quem vai mais ou menos bem-disposto e sem enjoar.
Francisco, agora já Chico, vai febril. Sonha com a sua terra, com a sua avó Maria do Socorro, adeus avó. Sonha com a sua noiva Cassilda, adeus meu amor. Vira, volta e revira o corpo. Vomita vezes demais, dia após dia. Quanto tempo ainda falta para terminar este martírio?
- És de onde, ó Chico?
- Sou de Regoufe.
- Onde raio é Regoufe?
- Não sabes nada. Para que te pões a perguntar? Valia mais que não me atormentasses o juízo!
- Olhem só, temos um Chico atormentado!
- Ah! Ah! Ah! – mais risos e zombaria. Decerto o melhor remédio para estes rapazes suportarem as horas de viagem naquelas condições, rumo ao infortúnio. Maneiras de passar o tempo!
Nesta viagem, o tempo é demorado. É um tempo que, de tão lento, se faz peganhento. Um tempo que se agarra à pele, como uma decadência que começou a ulcerá-la, mal o Niassa largou do cais. Feito de minúsculas brasas, vai flagelando, aos poucos, com tristeza, com melancolia, com transtorno pontiagudo, com aquela angústia de uma provação que faz padecer.
Pudesse agora estar sentado na soleira da porta de casa, a contemplar a serra verdejante, a sentir o ar fresco e perfumado dos goivos a assenhorar-se-lhe dos pulmões, e o plano seria vertical e infinito, sem medo ou ansiedade. Quantas vezes assim esteve e nem deu importância?!
