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Manifesto de D. Dinis sobre a guerra feita pelo Infante D. Afonso e as destruições que assolavam o Reino.

Manifesto aos Portugueses feito pelo Augusto Senhor D. Dinis, a 15/Mai/1321, sobre a guerra feita pelo Infante D. Afonso [futuro D. Afonso IV] e as destruições que assolavam o Reino.

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“[…] Como quer ElRey fizesse saber aos demais dos concelhos do seu senhorio as muitas mercês E muito bem que fezera ao Infante D. Afonso seu filho per muitas vezes e em muitas maneiras e lhes fizesse outrossim saber erros e nojos e desconhecimentos que lhes dele vieram para lhes pesar ende e para o estranharem em seus corações e para entenderem quando lhes ElRey sofreram pero por que depois que lhes isto fez saber agora novamente se moveu o Infante a fazer algumas cousas más e estranhas contra a honra e a majestade dElRey que é seu padre e seu Senhor e contra a sua justiça para que os Reinos e os seus Povos são manteúdos com ElRey por cargo de o fazer a saber aos que som filhos-de-algo e aos seus concelhos e aos seus naturais, porque é certo que tais som elles, e tão bons, e tão leais, que lhes pesara ende e que terão por direito de o estranharem pelo de Deus e pelo dElRey e pelo seu deles mesmos, e pela terra em que som naturais que a todos isto tange, e contra tudo isto som as causas que o Infante faz de si e ElRey bem certo que eles e os seus Padres e os seus Avós sempre guardaram verdade e lealdade, e nom recearom os corpos, nem os haveres, de os pôr em tudo aquilo que era honra e serviço e agradecimento do estado dele e dElRey D. Afonso seu Padre e dos Reis onde dele vêm, que nunca homens de nenhuma Naçom do mundo mais lealmente fezerom nem podiam fazer aos seus Senhores. E para entender qual foi a razom principal por que se o Infante moveu de fazer estas cousas, que depois fezerom devem saber, que nas custas que ElRey fez com a Rainha D. Maria sua sogra contra a vontade dElRei foi movido, que a Rainha D. Maria enviasse rogar e aficar ElRei que desse a justiça per que ele é ElRey ao dito Infante e que deixasse ElRei em sua vida e sua honra e a seu estado E tanto que daló chegou o Infante, chegou logo a ElRei Pêro Randel sobrejuiz da Casa do Rei de Castela com recado muito aficado que desse ElRei a justiça a seu filho E ElRei vendo a maneira da cobiça por que se o Infante movia a demandar isto e a míngua que a ElRei se seguia depois de si a sua justiça porque é Rei, estranhou, e o nom quis fazer, e o Infante partiu-se entom dElRei mui sandudo e ora haverá dous anos e desd´entom andou fazendo sempre muitos nojos a ElRei também ele como os seus em seu atrevimento que se tornarom em gram dano, e em grande estragamento da terra e as cousas que os do Infante fezerom em seu atrevimento depois que ElRei fez saber aos concelhos as cousas sobreditas que lhes fez saber do Infante som estas: Paio de Meira e o João Coelho seus [do Infante] vassalos, um de um cabo e outro de outro, fizerom assuada ante Riba de Minho de cavaleiros e doutras gentes e juntarom lide em que morreram cavaleiros e outros muitos, nom temendo Deus nem ElRei nem a sua justiça e fezerom grande estragamento na terra pelos lugares que forom assuados, na qual assuada foi morto Lopo Gonçalves de Abreu que era um dos melhores cavaleiros que no seu linhagem havia per que ficou aí mui grande homezio per asempre E per esta razom matarom depois outros alguns E sendo estes seus vassalos que esto fezerom degredados pelo meirinho-mor dElRei saírom-se da terra, e bem Paio de Meira com João Coelho, que forom cabedais de feito, e andado assim Paio de Meira foram da terra por degradado, veio-se para o Infante e o Infante nom teve per cargo de o estranhar de si com degradado, mas colheu-o a si e fez-lhe bem, e trazeu-o consigo. Outrossim João Coelho veio depois a Casa do Infante a Coimbra sendo degradado. Outrossi Estêvão Gonçalves Leitão vassalo do Infante e outrossim seu irmão com outros fezerom da Casa do Infante ora haja um ano, e sendo o Infante Além-Douro forom conselheiramente ter o caminho a Estêvão Fernandes cavaleiro vassalo dElRei e a Gonçalo Fernandes seu irmão, que era vassalo de Fernão Sanches, e mataram-nos ambos sem merecimento e acolheu-se logo a casa do Infante e nom se cumpriu com eles justiça porque os nom quis o Infante mandar arrecadar, nem dar-los à justiça dElRei. Outrossim Johão Pires Portel comendo com o Infante e andando com ele, foi ao Mosteiro de Marmelar e roubou e estragou o dito Mosteiro de quanto se achou, e pousou-se ele e os seus com mulheres casadas e virgens e com outras per força e quiseram matar o comendador desse lugar, se o achasse, dizendo que se o achasse que lhe cortaria as mãos e a cabeça e fez aí muitas outras cousas tam estranhas, que mais nom podia nem temendo Deus nem ElRei nem a sua justiça, e tanto que isto fez colheu-se logo ao Infante ele e os que traziam que se forom com ele com tudo aquilo que aí roubaram. Outrossim Lourenço do Mel, que matou um homem em Beja andando per esta razom mui gram tempo fora do Senhorio dElRei, porque soube que o Infante defendia os degradados e os malfeitores, veio-se pera sua Casa do Infante. Outrossim Afonso Franco matou outro homem em Beja e andando per esta razom gram tempo fora da terra veio-se para Casa do Infante. Outrossim Lourenço Tomé, que nom entendia aver direito perante ElRei e deu em resposta que nom consentia no emprazamento nem em cousa que ElRei contra ele fezesse, e outras cousas más e de grande sandice, que aí fez pôr, porque dava a entender que nom devia a ElRei por seu Juiz e que lhe nom guardaria dereito, e em no que fez ainda maior atrevimento e maior loucura enviou mostrar os estrumentos disto a ElRei, os quais ElRei tem que tudo isto fez em atrevimento do Infante, e sabendo o Infante nom estranhou, antes o consentiu, e que seria mui estranha cousa, e nunca esto foi dicto contra ElRei por nenhum seu natural que na sua terra houvesse, e tem ElRei que de guisa fez ele sempre justiça e dereito a cada um aos da sua terra, que nom havia este vassalo do Infante, por que o difamar por tão má maneira nem no Infante nom havia razom de-lo consentir, ante lo deviam estranhar se aguisado fezesse. Outrossim Domingos, que se chama seu chanceler, que publicamente apareça muito amiúde, e per muitas vezes pôs boca em ElRei difamando-o e dizendo contra ele e contra o seu estado tais cousas porque caiu em traiçom. E outrossim Pêro Miguéis, que foi irmão do Bispo de Lisboa, que é Cónigo, notário dElRei, e este Pêro Miguéis quer pôr boca contra ElRei de tal guisa que o Infante mesmo devia destes ambos e dos outros que pões boca em mal dElRei dar morte de traidores, que se atravessem a dizer tam gram traiçom contra ElRei, que é seu Padre e seu Senhor, e que é seu Senhor Natural deles mesmos […]”.

– Gavetas, Gav. 11, mç. 8, n.º 37.