Na torre de Yeats: A meditar um nacionalismo

Na torre de Yeats: A meditar um nacionalismo[1]

Introdução

Nacionalismo é um tema que pervade a maior parte da obra – não só poética – de William Butler Yeats. Ainda assim, é um nacionalismo de complicada definição, que de modo algum se restringe à política, com a qual o poeta, aliás, expressa em várias ocasiões a sua desilusão – exprimindo até aversão à palavra “política” (Allison 187) – algo que é particularmente sentido no volume The Tower (1928), que será no presente estudo o principal foco. Michael Tratner estará correto, portanto, ao observar: “Yeats felt that the artist’s vision was superior to anything offered by political movements” (135). Sendo assim, o objetivo deste ensaio não será tentar defini-lo politicamente – como nota Allison, inúmeros rótulos já foram utilizados para o fazer (186-187) – mas demonstrar como esse nacionalismo engloba vários outros aspetos, como o foco na tradição anglo-irlandesa, na mitologia celta e, claro, na arte, que é aqui o principal centro de atenção. É necessário, também, ter em conta que os poemas presentes em The Tower foram escritos quando Yeats já ultrapassara a barreira dos cinquenta anos de idade, e, em certos casos, dos sessenta. Ou seja, há nesta sua poesia mais tardia uma grande preocupação com o envelhecimento, com a passagem do tempo, e daí decorre uma série de questões acerca do eterno estar presente na arte, e do facto de esta ser, de certa forma, uma encarnação da verdade imutável, que é uma ideia também recorrente em Keats, a cuja “Ode on a Grecian Urn” Yeats parece fazer referência em “Meditations in Time of Civil War” (27), onde é visível um contraste entre a situação social e política irlandesa e o reino superior da arte. Todos estes fatores, no entanto, acabam – apesar da sua posição no senado e das suas ligações – por o colocar num certo isolamento, algo que faz parte do simbolismo da torre na poesia que será aqui analisada.

“To write for my own race”

Para começar, será necessário entender que nacionalismo na obra de Yeats não é uma preocupação ocasional, que apareça apenas por vezes, e muito menos esporádica. Pelo contrário, ela pervade, como já foi referido, a grande parte da obra do poeta, dramaturgo, ensaísta, e novelista – que queria escrever para a sua nação, acerca dela. A expressão que encabeça esta secção exprime perfeitamente esse desejo, sendo ela o verso 11 de “The Fisherman”, que faz parte da coleção The Wild Swans at Coole (1919). Neste poema, Yeats parece imaginar um público ideal, assim como a existência de uma Irlanda menos complexa, mas acaba por concluir que o homem (ou seja, o pescador) não existe, que não é mais que um sonho (35-36). Esta mistura de ideal e desilusão faz também parte daquilo que é The Tower, juntamente com as suas contradições – outro aspeto da obra do poeta irlandês.

O facto de a palavra “raça” (Yeats 11) ser a escolhida será também marca de algo que vai além de patriotismo, sendo o foco muito virado para a Irlanda, enquanto o resto do mundo parece distante. Por exemplo, no primeiro volume de The Collected Works in Verse and Prose of William Butler Yeats, podemos ler, numa nota do próprio autor:

When I first wrote I went here and there for my subjects as my reading led me, and preferred to all other countries Arcadia and the India of romance, but presently I convinced myself, for such reasons as those in ‘Ireland and the Arts,’ that I should never go for the scenery of a poem to any country but my own, and I think that I shall hold to that conviction to the end. I was very young; and, perhaps because I belonged to a Young Ireland Society in Dublin, I wished to be as easily understood as the Young Ireland writers, to write always out of the common thought of the people. (243)

Não deixa, assim, de ser interessante notar também que a principal razão de escrever acerca de temas alheios à realidade irlandesa parece ser precisamente a de desejar inserir-se nessa mesma realidade. Eventualmente, passa a sua atenção a ser dedicada quase em exclusivo à Irlanda, e beira a comicidade o facto de quase só a pedido ter sido capaz de se pronunciar acerca da Primeira Guerra Mundial, em “On being asked for a War Poem”, escrito em 1915. No entanto, nem aí se pronuncia realmente, sendo que o objetivo dos apenas seis versos é justificar o seu silêncio sobre o tema. É verdade que escreveu também, em 1918, “An Irish Airman Foresees His Death”, mas aí o que há é um solilóquio de um aviador irlandês, e o que parece estar em causa é justamente o distanciamento da Irlanda em relação ao resto, que será também o distanciamento de Yeats – demonstrado através da perspetiva pessoal de um irlandês que está a lutar pelos britânicos, cuja identidade é diferente da sua. A contrastar com isto, dele há inúmeros poemas sobre conflitos na Irlanda (incluindo a Guerra Civil), e bastantes referências aos mesmos, mesmo que nem sempre sob a mesma perspetiva.

No entanto, apesar de tudo acima referido, as posições de Yeats parecem complicar-se em The Tower. A ambiguidade e diferença de perspetivas dentro do todo da sua obra fazem parte dessa complicação. Por exemplo, no seu trabalho poético, a ambiguidade acerca de ação política violenta em favor de uma causa nacionalista está muito presente, e no volume em análise torna-se um problema ainda mais complexo, parecendo ser-nos dadas várias visões a respeito dele. Na terceira estrofe da primeira parte de “Meditations in Time of Civil War”, é-nos dada a ideia de uma violência da qual nasce a arte, quando lemos, “Some violent bitter man, some powerful man / Called architect and artist in, that they, / Bitter and violent men, might rear in stone / The sweetness that all longed for night and day, / The gentleness none there had ever known” (I 17-21). Cullingford, citado por O’Leary, afirma que “Meditations” representa um processo através do qual o sujeito poético reconhece que a violência leva a uma certa aceitação do nada (58); mas O’Leary rejeita tal simplificação, e observa: “This misses the tensions in Yeats’s suggestion that greatness is inextricable from violence, which is not at all a ‘facile equation’” (58). Todavia, nos seguintes e últimos três versos da estrofe, o sujeito poético parece resignar-se a um declínio não só da arte (ou da apreciação da mesma por parte da sociedade), mas também da aristocracia, cuja relevância faz parte do nacionalismo do nosso poeta, e à qual ele próprio pertencia. Efetivamente, o poeta opunha-se, principalmente nesta fase, a ideais democráticos e socialistas, mostrando um certo desprezo, até, em relação ao catolicismo – que era, e continua a ser, a principal denominação religiosa na Irlanda – crendo-o ligado às massas e ao poder das mesmas, enquanto ele, de ascendência protestante e como elitista, favorecia uma “liderança dos poucos”[2] (Allison 202) sobre o resto da população, numa altura em que se mostrava mais interessado numa forma de governo mais autoritária.

Apesar disso, será necessário ir mais além. Os versos acima citados, da primeira parte de “Meditations”, devido ao seu tom resignado, mostram algumas semelhanças, em termos de estado de espírito do sujeito poético, com “The Wheel”, do mesmo volume:

Through winter-time we call on spring,

And through the spring on summer call,

And when abounding hedges ring

Declare that winter’s best of all;

And after that there’s nothing good

Because the spring-time has not come –

Nor know that what disturbs our blood

Is but a longing for the tomb. (1-8)

Quase ouvindo ecos dos versos iniciais de The Waste Land – p. ex., “April is the cruellest month” (1) e “Winter kept us warm” (5) – e tendo o próprio Eliot escrito que o inverno era para ele uma estação anestética e quente (Ricks e McCue 604), é percetível, juntamente com os versos de “Meditations”, um contraste entre ação política, revolução, violência, e inação, isolamento, morte. O desânimo aqui sentido aparece também nos dois próximos poemas – “Youth and Age” e “The New Faces” – e surge então outro problema: o do envelhecimento.

“An aged man is but a paltry thing”

Escreve Yeats no primeiro poema a ser incluído em The Tower, “Sailing to Byzantium”, que um velho não é mais que uma coisa insignificante (9), tal como um casaco esfarrapado sobre uma bengala (10). Porém, tais imagens, juntamente com as da primeira estrofe, são seguidas da conjunção subordinativa condicional “unless” (10), que abre um contraste: principalmente entre o que está sujeito a mutações e o imutável. Unterecker faz menção desse mesmo problema, e relembra o leitor do homem velho como símbolo da “tirania do tempo”[3] (174), escrevendo depois o seguinte: “Man who does change creates that which is changeless. His desire (as the old man’s who sails to Byzantium) is to be the work of art itself, yet limited by the flesh he can only construct that which is ultimately greater and more durable than himself” (179). Deste modo, está aqui em causa a durabilidade da arte e a eternidade da verdade absoluta, que é encarnada nas grandes obras artísticas, algo que foi já referido na introdução e que será abordado mais à frente. Mas não só. Este desejo por arte verdadeira é propositadamente contrastado, como aliás refere Allison (185), com as intenções de outros nacionalistas: Yeats queria arte, eles propaganda. Também será isto que o afasta das massas e que o leva a criar, como menciona Allison, uma conceção mais aristocrática de cultura, influenciada por Lady Gregory e pelo mecenato do Renascimento (186). A sua idade idade mais avançada ter-lhe-á, portanto, permitido ver certos problemas de outra forma. Era necessário imortalizar-se através da arte – era necessário navegar até Bizâncio.

Sendo que se está a lidar com um nacionalista, tudo isto poderá parecer estranho, até porque o primeiro verso de “Sailing to Byzantium” começa por contar que a Irlanda – “that . . . country” (Yeats 1) – não é lugar para velhos. A amargura do volume começa imediatamente no seu primeiro verso. Essa amargura, de igual modo, é parte de uma das primeiras considerações que faz Ellmann no capítulo 16 de Yeats: The Man and the Masks (240), tal como é parte das de quase todos os outros críticos. Porém, Ellmann observa que tal amargura poderá parecer não fazer muito sentido no contexto da vida pessoal de Yeats enquanto escrevia e publicava The Tower:

Queen’s University, Belfast, gave him an honorary degree in July, and Trinity College, Dublin, so often the subject of his denunciations years before, gave him another in December. At the end of the year President Cosgrave appointed him, as a reward for his services to Ireland, to the Senate of the newly formed Free State. In 1923 he was awarded the Nobel Prize for Literature and could think of himself as a writer of European importance. (Ellmann 240)

No entanto, e apesar de vários contratempos e complicações na sua vida pessoal que não são aqui objeto de atenção, a própria motivação para a atribuição do Prémio Nobel a Yeats faz referência ao verdadeiro problema, ainda que de modo algum em tom que evidencie a existência desse mesmo problema diretamente: “for his always inspired poetry, which in a highly artistic form gives expression to the spirit of a whole nation” (Nobel Prize). Se a população irlandesa concordaria de facto com tal afirmação seria tema para outra discussão, mas o que é indubitável é que a nação era, de facto, a maior, ou uma das maiores, preocupações de Yeats. Ainda assim, o nosso poeta aspirava a ser um dos “sages standing in God’s holy fire / As in the gold mosaic of a wall” (“Sailing to Byzantium” 17-18), não simplesmente uma voz passageira, política, e certamente não a voz das massas. Nos dois versos referidos, ele combina a ideia de eternidade associada à filosofia cristã com a arte, tornando-se esta a encarnação da verdade. Neste caso, a associação é ainda mais evidente pois o mosaico de ouro na parede tratar-se-á, muito possivelmente, do que se encontra na fabulosa Grande Mesquita de Santa Sofia (originalmente uma catedral cristã), em Istanbul, ou seja, Constantinopla.

Relevante é também notar que Constantinopla – Bizâncio – é o último bastião da cultura antiga. Yeats, então, associa-a ao Renascimento, até porque nesse período houve um renovado interesse na cultura clássica. Tal interesse por parte de Yeats é também visível em “Leda and the Swan”, que era um tema muitíssimo popular no Renascimento, como podemos ver em desenhos de Leonardo da Vinci que sobrevivem (Kwakkelstein), assim como na famosa pintura produzida no seu círculo, ou mesmo na cópia de uma pintura perdida de Miguel Ângelo que teria sido oferecida ao Duque de Ferrara em 1530 (National Gallery). No entanto, na Irlanda dos séculos XVI e XVII a situação era diferente:

The implacable forces of famine and disease were frequent influences upon lifespans. In 1500 the taming of the physical environment and the overcoming of its attendant perils were scarcely dreamed of. As other maritime countries in Europe embarked upon overseas explorations, Ireland was itself a land for discovery and eventual colonisation by newcomers. (Lennon 1)

Logo, é apenas mais tarde, especialmente no século XVIII, que vemos figuras como Jonathan Swift emergirem – Swift que, aliás, é bastante importante para o nosso poeta, e, tal como ele, de ascendência anglo-irlandesa.

Ainda assim, surgem várias ansiedades na coleção poética de 1928. Uma delas é o facto de que, apesar de todo o seu estudo e trabalho, tanto poético como de preservação e promoção da cultura irlandesa, assim como a própria herança familiar que é tão importante aqui – o facto de que tudo isso possa ser ignorado e mal preservado não só pelas gerações seguintes em geral, mas também pela sua própria descendência, como pode ser lido na quarta parte de “Meditations in Time of Civil War”, “My Descendants”:

And what if my descendants lose the flower

Through natural declension of the soul,

Through too much business with the passing hour,

Through too much play, or marriage with a fool?

May this laborious stair and this stark tower

Become a roofless ruin that the owl

May build in the cracked masonry and cry

Her desolation to the desolate sky. (9-16)

De novo, também, o leitor, tendo lido o poema, pode ver como o momento presente (“the passing hour”) é contrastado com a ideia de eternidade e imortalidade; mas também como “too much play” não deve substituir um profundo estudo – por exemplo, nos versos 10-20 de “My House”; e como um casamento fora, não só da elite aristocrática, mas da elite aristocrática intelectual e nacionalista irlandesa, não é desejável.

O envelhecimento – “Yeats was full of bitterness about old age” (Ellmann 241) – é, por esse motivo, entre outros, um fator relevante em relação a esta discussão pois para Yeats a sua poesia, que deve ser vista como um todo – era essa a sua intenção, no sentido de uma construção de um género de Gestalt (Unterecker 5) – funciona como uma forma de imortalizar o poeta. Apesar do modo como a sua vida pessoal influenciou a sua obra, ele torna-se um símbolo duradouro da nação irlandesa, tornando-se realmente W. B. Yeats e não William, de modo não totalmente diferente que, em “Easter, 1916” – em Michael Robartes and the Dancer (1921) – Thomas MacDonagh, James Connolly, Patrick Pearse e John MacBride passam simplesmente a apelidos, a símbolos, representando também as suas famílias, ou seja, fazendo parte de algo maior: “MacDonagh and MacBride / And Connolly and Pearse” (75-76). Contudo, apesar disso, as questões acerca de qual ser a melhor forma de ação, ou o melhor caminho para o país, e mesmo de qual ser a melhor forma de ele próprio se pronunciar acerca de tais assuntos e de que posição tomar, nunca cessam de forma definitiva. E se isso é algo já percetível em “Easter, 1916”, então em The Tower adquire outras proporções. Até porque se os versos em que corações de um propósito só são comparados a uma pedra que perturba a corrente (Yeats 41-44) se podem referir aos rebeldes irlandeses, não deixam de trazer à mente a imagem do próprio Yeats que vai envelhecendo, isolado com a família em Thoor Ballylee (a torre), enquanto a Guerra Civil devasta o país. Aliás, a própria torre pode representar, em parte, o seu envelhecimento, até porque o poema “The Tower” começa imediatamente com a descrição de um sujeito poético velho, comparando-o a algo absurdo (Yeats 1), a uma caricatura (2), “Decrepit age that has been tied to me / As to a dog’s tail” (3-4). Não só isso, o sujeito poético pergunta aos antigos indivíduos relacionados com a torre se eles, tal como ele, também sentiram, nos seus últimos anos, a mesma raiva contra a velhice (98-101).

“[T]owards my chamber”

A torre de Yeats é um símbolo incontornável na sua poesia. Como nota Unterecker, “Like Eliot, Yeats tries to extend the meaning of the symbol to its furthest reaches” (41). Além disso, apesar de não podermos totalmente relacionar os símbolos de Yeats com a ideia de “correlativo objetivo” de Eliot (nem tem a sua obra a imensa ressonância da do autor de The Waste Land), o poeta irlândes cria um todo simbólico, que aliás já foi referido antes, em que ele próprio se imerge, que ele próprio vive, o que é diretamente claro na coleção The Tower. Por isso, será relevante o que observa Unterecker:

The Collected Works [de Yeats] were, I believe, to be what T. S. Eliot would call an objective correlative for the entirety of Yeats’s life and thought, a kind of literary equivalent for the total experience of a man, a total experience shaped, through art, into a form less perishable than flesh, a form freed from accident. (5)

No entanto, o todo da sua obra não é sempre composto dos mesmos temas ou interesses, ou não da mesma forma. Principalmente na sua fase mais inicial, há uma enorme tentativa de reviver a mitologia celta – uma das características do renascimento literário celta. Em The Tower, tal característica não é tão visível. O leitor vê agora um poeta isolado, meditando, refletindo e estudando na sua torre, enquanto no exterior o conflito não cessa.

A torre em que o poeta está isolado, e onde terá escrito a totalidade dos poemas incluídos na coleção, já foi acima associada ao envelhecimento do mesmo; todavia, ela representa, além disso, a passagem do tempo, algo de que Yeats está consciente, traçando o percurso da torre na história desde as suas origens no século XV até ao século XX. Por exemplo, em “Ancestral Houses” há a menção acima citada dos homens violentos que lhe deram origem (17-21). Já em “The Tower”, o sujeito poético, enquanto caminha pelas ameias, olha em volta e pensa em histórias antigas relacionadas com a torre e as suas proximidades: “I pace upon the battlement . . . and call / Images and memories / From ruin or from ancient trees” (18-24). É a partir daí que surgem as histórias de “Mrs. French” (26), da rapariga camponesa que faz parte de uma história de Anthony Raftery (35-49), de um antigo dono da casa (81), e dos homens de armas que já defenderam a torre em séculos passados (82-89).

Para além disso, as linhas 18-24, em que há uma convocação de vários elementos do passado, são comparáveis a algumas ideias presentes em “Tradition and the Individual Talent” (1919), em que Eliot compara a mente do poeta a um recetáculo onde são armazenados sentimentos, expressões e imagens que permanecem lá até ser constituído algo novo a partir dessas diversas partes (19). A partir daqui, é possível também estabelecer uma comparação com a peça de Yeats The Words upon the Window-Pane, representada pela primeira vez em 1930, em que há uma sessão espírita. É importante não esquecer, além disso, que Yeats, ao dialogar com a tradição irlandesa e europeia – quer de natureza literária, histórica ou mitológica – e ao subsequentemente ser visto como inserido na europeia – relembram-se as palavras de Ellmann, que se refere a ele como um escritor de importância europeia (240) – acaba por posicionar a Irlanda num lugar ainda mais destacado, dando-lhe uma maior visibilidade. Contudo, a importância de Yeats no mundo da literatura e até mesmo da política não significa que o poeta, ou seja – o homem principalmente enquanto poeta – não esteja ilhado.

Essa separação do resto do mundo é interessante de observar em “The Road at My Door”, onde, num poema intitulado “Meditations in Time of Civil War”, temos a primeira menção da Guerra Civil. No que será uma das partes mais fascinantes da coleção, principalmente devido ao contraste entre o mundo exterior, a guerra, e o interior, a filosofia, o reino da arte, entre outros, não se deixa de estar perante a parte mais curta do poema, sendo uma das secções curtas do volume, apesar da menção à guerra – ou talvez por isso mesmo. Nela, um “Irregular” – ou seja, pertencente às forças anti-tratado – perturba a vida do sujeito poético na torre. Ele começa por ser comparado a Falstaff, um bêbedo acorrentado aos prazeres terrenos em Henry IV, de Shakespeare, o que indicará não só que Yeats é mais favorável ao Tratado Anglo-Irlândes, mas que ele é claramente defensor da tradição e herança anglo-irlandesa. Yeats afirma, até, em Essays and Introductions, o seguinte:

. . . all my family names are English, and . . . I owe my soul to Shakespeare, to Spenser and to Blake, perhaps to William Morris, and to the English language in which I think, speak, and write, . . . everything I love has come to me through English. (519)

Yeats dá, certamente, importância às suas raízes, e aqui assemelha-se de novo a Eliot na sua procura por origens em Inglaterra, algo muito presente em Four Quartets. Aliás, como refere Allison, ele não aprovava, sequer, a adoção do irlandês como língua nacional, argumentando que tal medida significaria algo apenas artificial (196). No entanto, “The Road at My Door” não se resume, de modo algum, a estes aspetos. Este “Falstaffian man” (2), o homem brincalhão, refletirá talvez também a falta de seriedade de alguns dos envolvidos na guerra, uma atitude que perturba o sujeito poético, o que é visível quando o mesmo nos diz que o “Irregular” começou a contar piadas sobre a Guerra Civil (3), “como se morrer com um tiro fosse a mais excelente brincadeira debaixo do sol”[4] (4-5). Em seguida, o sujeito poético queixa-se também do tenente à sua porta, juntamente com os seus homens (6-8), enquanto a sua atenção está, não neles, mas no mau tempo, na chuva, numa pereira quebrada pela tempestade (9-10). Ele está, de facto, apesar de fisicamente no mesmo local, noutro lugar. Na terceira estrofe, a sua atenção fixa-se já não no lado negativo da natureza, mas nos pintinhos da galinha-d’água (11-12), após o que se volta de novo para dentro de casa (14), o que representará também um virar-se para dentro de si mesmo. A torre sendo uma estrutura alta, este poema poderá talvez significar, além disso, que o nosso poeta se considerava, de certa forma, acima de todo o conflito que se ia desenrolando à sua volta, e na verdade não escolhendo fazer verdadeiramente parte de nenhum dos lados. A mesma terceira estrofe parece, até, querer indicar que o seu lado é simplesmente isso: o seu próprio lado.

Conclusão

O nacionalismo de Yeats é, portanto, mais fácil de ser entendido se a arte for o principal foco do leitor, através da qual será possível tentar compreender a importância da mitologia celta, da ascendência anglo-irlandesa, do ocultismo, e da vida política. Mesmo no senado irlandês, como nota Allison, os seus discursos tratavam sobretudo de assuntos culturais e artísticos (195). Escreve o mesmo: “He was concerned about the preservation of historic and ancient monuments, Irish manuscripts, national treasures and artifacts in the National Museum . . . He sought to preserve the architectural heritage . . .” (195). Portanto, até nessa posição nos poderá lembrar do homem que envelhece, isolado, na sua torre. Apesar de incursões na política, Yeats deu sempre especial atenção à arte, a algo superior, e não apenas passageiro. Mesmo “Among School Children”, também de The Tower, que reflete alguns aspetos do seu cargo enquanto senador, dificilmente poderia ser descrito como um poema político, havendo várias referências a filósofos (p.ex., 41, 43, 45), à antiguidade em geral e a seus temas (p.ex., 47), e mesmo ao Renascimento (26) – para além de ser escrito em ottava rima. Quase tudo neste poema revolve, no entanto, em torno do contraste entre a infância e a velhice – sendo que este último problema já foi aqui analisado. Então, o que é muitíssimo relevante perceber é que o nacionalismo de Yeats vai além de questões políticas, e que será impossível compreender tal nacionalismo sem ser dada a devida atenção ao centro que faz todo o resto da sua obra mover-se: a arte.

Bibliografia

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Ellmann, Richard. Yeats: The Man and the Masks. Oxford University Press, 1979.

Allison, Jonathan. “Yeats and Politics”. The Cambridge Companion to W. B. Yeats, editado por Marjorie Howes e John Kelly. Cambridge University Press, 2006.

Kwakkelstein, Michael. “Leda and the Swan.” Museum Boijmans Van Beuningen, 10 jun. 2025.

“Leda and the Swan: After Michelangelo.” The National Gallery, 10 jun. 2025.

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The Nobel Prize in Literature 1923. NobelPrize.org. Nobel Prize Outreach 2025. Tue. 10 Jun 2025. https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1923/summary/

O’Leary, Joseph S. “The troubled heart: Yeats’s persona in ‘Meditations in Time of Civil War’.” Journal of Irish Studies, outubro 2016, pp. 54-65.

Unterecker, John. A Reader’s Guide to W. B. Yeats. Thames and Hudson, 1969.

Yeats. W. B. The Collected Works in Verse and Prose of William Butler Yeats. Shakespeare Head Press, 1908.

Yeats, W. B. Essays and Intoductions. The Macmillan Company, 1961.

Yeats, W. B. The Collected Poems of W. B. Yeats. Wordsworth Editions, 2008.

Notas:

  1. Utilizo aqui a palavra “torre” em português e sem estar em itálico, uma vez que não se trata do título da coleção de poemas, mas sim da própria torre presente nela, tendo o objetivo de evocar o seu simbolismo. Em letra minúscula tal como aparece ao longo do volume – p. ex., “and a more ancient tower” (“Meditations in Time of Civil War” II 1).
  2. Tradução minha. No original: “leadership of the few”.
  3. Tradução minha. No original, “tyranny of time”.
  4. Tradução minha. No original, “As though to die by gunshot were / The finest play under the sun.”