Este ensaio nasce do entrelaçamento de três abordagens distintas, o ciclo das almas em Platão, a grelha tripartida de Bruno Oliveira Santos sobre os regimes modernos, e a concepção do Belo como critério civilizacional em Olavo de Carvalho, com o propósito de compreender, mais do que classificar, as mutações políticas profundas do nosso tempo.
O texto propõe uma leitura interpretativa que transcende o comentário político imediato, tentando identificar os pressupostos ontológicos que subjazem à ascensão e queda dos regimes. A análise ganha particular densidade ao problematizar o caso português, onde se coloca a hipótese de que a queda do Estado Novo não terá resultado da sua degeneração interna, mas antes da percepção, por parte de forças adversas, de que este se aproximava perigosamente da realização do belo comum.
O Crepúsculo das Almas Justas
Ensaios sobre o bem comum, o ciclo dos regimes e a queda da ordem espiritual nas cidades modernas
O que é que permite compreender o nascimento, ascensão e queda dos regimes políticos? Por que razão uns parecem durar séculos e outros colapsam em poucos anos? Estaremos perante forças históricas exteriores, fatalismos geopolíticos, ou expressões de uma lógica interna do próprio espírito das sociedades?
No Livro VIII da República, Platão estabelece uma correspondência directa entre a alma individual e o regime político. Tal como a alma pode degenerar do justo para o tirânico, os regimes também sofrem uma degradação cíclica: da aristocracia à timocracia, daí à oligarquia, à democracia e finalmente à tirania. Esta queda não é apenas política, mas espiritual: cada regime reflecte o predomínio de uma parte da alma, razão, vontade ou desejo, e o esquecimento progressivo do bem comum. Quando este desaparece da consciência colectiva, abre-se espaço ao caos.
Bruno Oliveira Santos, na sua obra Histórias Secretas da PIDE/DGS (Nova Arrancada, pp. 97-98), propõe uma grelha triádica para compreender os regimes do século XX:
O regime regressivo: que nega o presente em nome de uma ordem arcaica (por ex., os integralismos);
O regime utópico-progressista: que sacrifica o presente em nome de um futuro ideal (por ex., comunismos);
O regime conservador-reactivo: que procura preservar uma ordem existente, mas sem capacidade de projectar uma síntese superior.
Segundo esta leitura, todos os três tendem a fracassar: o primeiro por anacronismo, o segundo por violência, o terceiro por estagnação.
Muitos incluiem neste último o Estado Novo português.
Olavo de Carvalho introduz uma chave radicalmente distinta: a da percepção do Belo como marca das civilizações. Em O Jardim das Aflições, defende que a história humana não se mede pelo progresso técnico, mas pela aproximação ou afastamento da Verdade, do Bem e do Belo. Uma civilização perde-se quando deixa de amar o que é digno de ser amado, e substitui o eterno pelo efémero, o sublime pelo grotesco.
Nesse sentido, o critério civilizacional não é apenas político ou económico, mas estético-espiritual. A decadência de um regime começa no momento em que o Belo é ridicularizado ou ignorado, e não necessariamente quando o regime colapsa externamente.
Os modelos descrevem, implícita ou explicitamente, três concepções do tempo político:
O modelo platónico é cíclico, mas permite uma leitura ascendente, se a alma se reencontra com a justiça.
A tipologia de Bruno Santos é linear: um regime sucede a outro por esgotamento interno ou por força revolucionária.
Olavo de Carvalho propõe um tempo interior: não tanto um ciclo ou linha, mas uma oscilação espiritual contínua, em que a perda do sentido do Belo é o verdadeiro marco de decadência.
A tragédia das ideias reside frequentemente na sua concretização. Os sistemas, os regimes e as obras políticas que se aproximam de um ideal elevado tornam-se, por isso mesmo, intoleráveis para os que vivem da degradação permanente do espírito, da perpetuação da crise e da destruição de toda a transcendência.
O mundo moderno aprendeu a tolerar o erro, a deformidade e o grotesco, mas jamais perdoa a aproximação ao verdadeiro, ao justo ou ao belo. E sempre que um regime, uma doutrina ou uma cultura ousa tocar, mesmo que imperfeitamente, esse domínio sagrado, é destruído não por falhar, mas por estar perigosamente perto de realizar a ordem.
Neste ponto, o caso português, frequentemente omitido ou falsificado nas leituras contemporâneas, impõe-se como exemplificação grave e reveladora.
O Estado Novo, com todas as suas imperfeições, logrou, por momentos, conjugar ordem social, moralidade pública, soberania nacional e sentido de missão histórica. Essa aproximação, gradual, parcimoniosa, silenciosa, a um “belo comum” reconhecível nas instituições, na economia moral, no princípio de autoridade e na unidade espiritual da nação, foi o bastante para que se tornasse insuportável aos olhos de uma modernidade já vencida por forças dissolventes.
Assim, talvez não tenha sido pelas suas falhas, mas justamente pelos seus acertos, ou melhor, pelo que prometia realizar se deixado amadurecer, que o regime foi atacado e destruído.
Interna ou externamente, houve quem discernisse nesse modelo uma possibilidade concreta de superação do ciclo degenerativo, e por isso o combateu com todas as armas da subversão, da mentira e da desintegração moral.
Não há regime nem figura histórica imune ao tempo ou ao juízo. Mas há momentos e homens que merecem ser revisitados à luz de critérios mais exigentes do que os da propaganda ou da caricatura.
Se aceitarmos que o Belo Comum não é um ideal estético, nem uma simetria social, mas antes a manifestação espiritual e orgânica da ordem, então talvez devamos considerar que o Estado Novo português representou, no seu tempo, uma tentativa, incompleta, como todas, de o servir.
Essa aproximação não se deu por via de retóricas artísticas ou de manifestações populares encenadas. O que se tentou, em vez disso, foi devolver à vida política um princípio de coesão espiritual: o culto do dever, a centralidade da família, a dignidade do trabalho, a estabilidade da autoridade. Elementos esses que, longe de serem apenas formas tradicionais, procuravam dar continuidade a uma alma nacional que resistira a séculos de fragmentação e declínio.
No centro desse esforço estava a figura de António de Oliveira Salazar. O seu entendimento do poder político distinguia-se por um traço raro: a convicção de que governar era, antes de tudo, servir. Não servia ideologias, nem massas, nem apetites de glória pessoal. Servia um bem que julgava acima de si: a Nação.
Por isso, o seu silêncio era mais eloquente que o discurso; a sua previsibilidade mais firme que qualquer teatralidade; a sua prudência mais corrosiva, para os inimigos, do que a violência. Compreendia que a autoridade só é legítima se for moral, e que o Estado deve ser reflexo da alma do povo, não dos seus vícios, mas da sua vocação mais alta.
O Estado Novo funde os três ciclos, mas não para os repetir, para os ordenar hierarquicamente e superá-los num princípio espiritual: o Belo Comum.
Isto é, Salazar:
restabelece a força da autoridade (mas subordinada à moral);
usa a palavra para formar e unir (mas não para seduzir ou competir);
aplica a técnica para servir uma ideia de bem comum (e não como fim em si).
Não é uma fusão no sentido híbrido, é uma fusão ordenada, em que cada ciclo é reintegrado, reorientado e disciplinado à luz de um princípio superior: a ideia de que a política é serviço e não domínio, e que a Nação é uma realidade orgânica, espiritual e histórica, não uma abstração nem uma arena de disputa.
Assim, poderíamos dizer que:
O Estado Novo manifesta os três ciclos, mas propõe, ainda que imperfeitamente, uma nova ordem política, em que o poder se encontra ao serviço de um bem moral e espiritual comum.
Essa seria a “quarta via”.
Não se trata de canonizar. Trata-se de reconhecer que, no Portugal do século XX, houve um regime que, apesar dos seus limites e erros, parece ter pressentido que não há reconstrução possível sem enraizamento espiritual. E que o horizonte do político não deve ser a vitória ou a popularidade, mas a restauração, ainda que imperfeita, daquilo que um povo tem de mais alto: a sua ligação à Verdade.
Este não é um julgamento sentimental nem saudosista. É o reconhecimento de que, na história dos povos, a realização do bem é sempre uma ameaça para os que vivem da sua negação.
Resta saber se ainda há almas dispostas a sofrer pelo Bem, ou se nos resignámos à irreversibilidade da queda.
