Hoje é dia de acabar com o mito de que o embargo a Cuba é a raiz de todos os males. Com factos e números, imagine-se, vou provar que os nossos camaradas comunistas andam a comer gelados com a testa. Há décadas!

Primeiro ponto, Cuba não está isolada do mundo. Tu que já foste lá de férias mamar umas piña coladas tens obrigação de saber isso.
O embargo dos EUA não é um bloqueio naval nem uma proibição mundial de comércio.
É apenas e só:
A proibição de empresas americanas negociarem livremente com Cuba
Um conjunto de restrições financeiras ligadas ao sistema bancário dos Estados Unidos
Limitações a exportações específicas dos Estados unidos para Cuba.
Aliás, mesmo com o embargo, os EUA mantêm exceções para alimentos, medicamentos, dispositivos médicos e produtos agrícolas, muitos dos quais são regularmente exportados pelos próprios Estados Unidos para Cuba.
Não há por isso nenhum embargo que impeça a querida Espanha, ou Venezuela, China ou outro de ter relações comerciais com Cuba.

Então vamos lá! Balança de pagamentos. Só está até 2020, embora o documento oficial cubano seja relativo ao ano de 2024 (sim, eu deixo sempre as fontes no final das threads, no worries).
A tabela mostra a balança de pagamentos de Cuba entre 2017 e 2020 e revela três coisas muito simples sobre a economia cubana.
Primeiro, Cuba tem um enorme défice no comércio de bens. Importa muito mais do que exporta. O saldo negativo ronda 7 a 9 mil milhões de dólares por ano. Isto significa que o país depende fortemente do exterior para comprar combustíveis, maquinaria, alimentos e outros bens essenciais.
Segundo, esse buraco é compensado pelos serviços, que geram grandes entradas de divisas. Entre 2017 e 2019 a balança de serviços traz para Cuba entre 9 e 11 mil milhões de dólares por ano. Aqui entram sobretudo turismo e exportação de serviços profissionais, como as missões médicas.
No conjunto, a conta corrente foi positiva até 2019, mas em 2020 passou para défice (-529 milhões USD), essencialmente por causa do colapso do turismo durante a pandemia.
A leitura é clara, Cuba não vive das exportações de bens; vive de serviços e de transferências externas para financiar as suas importações.
Nota deliciosa, as contas são apresentadas em dólares americanos!

Ah e tal, estão a matar à fome o povo cubano com o embargo. Não estão, infelizmente Cuba produz pouco, exporta pouco, e tem um desiquilibrio com o exterior insustentável.
Esta tabela é das mais úteis para desmontar a conversa do embargo queisola Cuba.
Ela mostra exportações, importações e saldo comercial de mercadorias ao longo dos anos E a leitura é muito simples.
Cuba continua a importar massivamente do resto do mundo.
Em 2024, por exemplo:
Exportações: 1 474 milhões USD
Importações: 8 071 milhões USD
Ou seja, Cuba comprou ao exterior 5 vezes mais do aquilo que vendeu.
Se existisse um verdadeiro bloqueio económico, isto seria impossível.
O saldo comercial é estruturalmente negativo.
Em 2024 o défice foi (-) 6 596 milhões USD.
Isto significa que Cuba depende do exterior para se abastecer de alimentos, combustíveis, maquinaria e bens industriais.
Mais uma vez, um país que importa 8 mil milhões de dólares por ano não está isolado do mundo.
Isto não é recente. Desde os anos 80 que o padrão é sempre o mesmo.
Cuba importa muito mais do que exporta.
Por exemplo:
1985 → défice de –2 mil milhões
2008 → défice de –10,5 mil milhões
2015 → défice de –8,3 mil milhões
2023 → défice de –7,3 mil milhões
Ou seja, o problema não é falta de comércio.
O problema é outro.
Cuba vende pouco ao mundo e compra muito.
Cuba não está bloqueada.
Cuba está dependente das importações.

Partilho quadro das relações comerciais externas de Cuba por país, onde não falta, claro, Portugal com os seus 83 milhões de €.
O maior parceiro comercial? A China.


Fontes de informação:
PART 515—CUBAN ASSETS CONTROL REGULATIONS
31/subtitle-B/chapter-V/part-515
ANUARIO ESTADÍSTICO DE CUBA 2024
files/publicaciones/2025-09/05-cuentas-nacionales_aec2024.pdf
Em conclusão: Há décadas que nos vendem a fábula do embargo que estrangula Cuba, como se a ilha estivesse cercada por uma frota americana a impedir que um saco de arroz entrasse no porto de Havana. Depois abre-se a contabilidade oficial e descobre-se um país que importa milhares de milhões por ano de meio mundo, da Europa à Ásia, passando pela América Latina, e até dos próprios Estados Unidos.
Ou seja, comércio há. O que não há é produção que se veja.
Mas em Portugal a cangalhada do PREC prefere continuar a repetir os mesmos slogans dos anos 70 enquanto ignora números e factos.
O problema nunca foi o embargo. O problema é bem mais simples, e bem mais incómodo para quem vive de mitologia ideológica, quando o Estado manda em tudo, ninguém produz nada.
Depois, pronto, chamam-lhe bloqueio.
Cuba representa hoje o Portugal de 2011 sem a ajuda financeira da Troika ( sim, Cuba não é membro do FMI). Falida. Sem dinheiro, sem produção, na miséria.
Suponho que é este o modelo que os anti-troika / anto- Passos queriam para Portugal. Suponho, não, tenho a certeza.
