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Sobre o uso das cores no olhar quotidiano medieval, usando a vila de Guimarães

Baseando-me no artigo “Um esboço das cores da cidade, entre o público e o privado, na Idade Média” de Maria da Conceição Falcão, vou demonstrar o uso variado das cores no olhar quotidiano, usando a vila de Guimarães como um exemplo prático. Vamos analisar esta particularidade.

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Uma das primeiras questões que nos surge à tona é o nível da escuridão na vila. É certo que, em todo o caso, muitos seriam os tons de cinzentos que poderiam calcorrear a vila, nomeadamente no local das ferrarias. Havia em Guimarães uma Rua das Forjas, a 11/Jun/1322 [abaixo]…

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…Não devemos esquecer o Castelo, tendencialmente daquela cor, assim como as muralhas e as instituições concelhias – cinzento, preto, ornamentos em branco, tal como as fachadas de muitas das casas do povo. No entanto, esta é uma visão redutora, claro está. Os traços danatureza logo sobressair-se-iam como, datado de 24/Mai/1324, uma Rua do Gado [associado ao rosado dos porcos, ao vermelho da crista e barbelos do galo, ao eventual castanho dos bois], onde se cortava a carne e o peixe – temos, pois, mais uma exposição do vermelho, assim…

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…como é mencionado uma Fonte [azul cristalino da água], próxima ao rio “onde lavam as tripas”: mais vermelho e mais azul, em meio à vegetação que, certamente, seria mais verde que a nossa. Não nos esqueçamos do vinho das adegas e do azeite dos lagares – mais duas tonalidadesde cor. No interior do muro, uma Quinta dos Sapateiros [onde ficaria a Judiaria décadas mais tarde] era próxima a um poço – os sapatos podiam adotar tons de cor diversos. Esverdeado era certamente também o rio Merdeiro que, não obstante feio, seria malcheiroso, como o nome…

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…o infere. A 7/Jun/1301, no testamento da moradora Maria Martins, vemos a doação de uma sua saia negra. Também era negra uma Rua Escura [documentada para Guimarães em 3/Fev/1330], um local com fraca exposição à luz mas que tinha, segundo o documento o conta, casas de…

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…múltiplos andares: as casas-torre. Ora, se a Idade Média seria tendencialmente escura, por que razão nomear um local com expressa menção? Claramente dever-se-á ao facto de que, contrariamente à vária língua, o “completamente escuro” era esporádico. De facto, algumas são asprovas a respeito da luz, do amarelado, como as lâmpadas que alumiavam a capela do Abade de Tolões todo o dia e noite [12/18/1301]. O fogo – o laranja – também seria certamente frequente na Guimarães Medieval: vejam-se os fornos [como os do segundo documento, de 19/Jun/1329…

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…próximos à Porta da Freira, na cinta de muralhas da vila]. Ademais, após a destruição da vila na Guerra Civil de 1319-1324, esta ganhou uma artéria que se passou a chamar, ainda anos mais tarde, de Rua Queimada.

Há outras cores mais excêntricas. A 10/Fev/1345, um anel de…

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…rubi encastoado de ouro foi legado aos cónegos de Guimarães. Eram também vermelhos os tecidos anexos aos pergaminhos (tive a possibilidade de tocar em alguns na Torre do Tombo). No já mencionado testamento de Maria Martins, há também a doação de um pelote vermelho, de uma…

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…mala de brocado de ouro e carmesim; nas legações ao Abade de Tolões, também as roupagens das montarias eram vermelhas. O tom doirado [não se dizia amarelo] tem uma presença tão frequente na documentação que dispensa comentários. Mais torrado, eis o barro das olarias [queBraga documenta com uma Rua das Olarias]. A 9/Nov/1333, temos a informação de um tabardo [peça de roupa] verde jalne – amarelo-ouro -, além de um que repartido em duas cores: uma metade vermelha e uma metade roxa [gramelim]. Ademais, para a fisionomia dos vimaranenses,…

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…temos um Fernão Mendes Ruivo, datado em 9/Jun/1306. De facto, o homem tem a sua importância enquanto transmissor de cores: para este período, temos pelo menos quatro pintores em Guimarães – João Moniz, Domingos Durães, Martim Baião e Gonçalo Rodrigues.

A documentação,saliente-se, é muito matreira a respeito desta temática – as cores NÃO interessavam à exposição, num documento onde o espaço ter-se-ia de poupar. Mediante estas pistas estáticas, podemos claramente evidenciar a variedade existente na Idade Média que, aplicado a locais demuito maior dimensão, poder-se-ia ter acesso a documentos mais satisfatórios.