Como o tempo era passado,
Nos jardins, no monte e prado,
De rosas e toda a flor,
El-rei, cheio de piedade,
Nas rosas da caridade
Viu a bênção do Senhor!
João de Lemos (1819 -1890) in “As Rosas de Santa Isabel”
A figura da Rainha Santa Isabel de Portugal mantém uma posição de destaque na memória coletiva portuguesa, e, esta proeminência é plenamente justificável, uma vez que a Rainha Isabel se revela uma personalidade cativante, não apenas pela sua profunda espiritualidade, mas também pelas virtudes inerentes ao seu temperamento. No entanto, observa-se que, por vezes, a sua relevância é subestimada em comparação com outras figuras santas e históricas igualmente queridas à Pátria portuguesa. Compreendo, assim, que a Rainha, de forma graciosa, reúne em si o serviço ao trono e ao altar – valores intrínsecos à nossa nação – acrescentando o singular atributo da sua feminilidade. A par de todas estes pontos agradáveis de ligação, no ano 2025 celebra-se o 400º aniversário da Canonização oficializada pela bula papal de Urbano VIII em 1625.
Este artigo não visa apresentar uma hagiografia exaustiva da Rainha Santa Isabel: em vez disso, explorará o impacto da vida e das lendas em torno da Santa na literatura portuguesa e, por inerência, na tradição popular, pois – em especial a literatura medieval – revela-nos as raízes da cultura portuguesa e permite-nos apreciar a evolução dos temas e conceitos fundamentais situando-os devidamente no contexto histórico literário. Contudo, o presente texto vai percorrer apenas alguns registos do século XVI até às produções literárias do século XXI.
Desde tenra idade, a Rainha Santa demonstrou propensão para a meditação, a solitude, a oração e o jejum. Contudo, a sua vida como rainha consorte de Portugal foi bastante ativa e participativa. Registros do século XIV indicam que a rainha acompanhou D. Dinis nos assuntos do reino, como evidenciado pela fórmula inicial de alguns documentos importantes: “Dom Denis, por graça de Deus rei de Portugal e do Algarve, en sembra (juntamente) com a rainha Dona Isabel, minha mulher…”. Isso demonstra o seu peso e influência na condução dos assuntos de Estado. Assim, Isabel de Aragão manifestou um notável interesse na participação das resoluções reais do Reino de Portugal, o que representava – à data – uma novidade para uma rainha consorte. Tal perspetiva desmistifica a imagem de mulher “sofrida” que erroneamente lhe é associada, revelando-a como uma mulher astuta, perspicaz; não desmentindo que de facto é dotada de uma vida em constante oração.
Não obstante, na atualidade, parece existir a tendência de desvirtuar a figura da Santa, desassociando-a dos seus valores católicos ao descrevê-la como insubmissa ao marido, simplesmente por ter convicções firmes. Não há nenhum indício que sustente a acusação de insubmissão – ela que permaneceu sempre ao lado de D. Dinis mesmo ciente das suas infidelidades. Pelo contrário, é digno de louvor que, na sua vida, a Rainha Santa sempre concretizou a plenitude de seus deveres de estado: apoiar o rei como mulher e participar da vida pública do reino como rainha. Além de uma vida dedicada à prática caritativa e à preocupação com o próximo, a Bula do Papa Urbano VII realça o papel daquela que foi frequentemente apelidada de “anjo da paz” como intermediária entre os reinos da Península Ibérica. A sua dedicação aos problemas políticos nacionais foi tal que, ao interferir na guerra civil entre o rei D. Dinis e o príncipe herdeiro D. Afonso, foi acusada pelo marido de favorecer os interesses do filho e enviada sob custódia para Alenquer. No entanto, manteve-se firme nas suas convicções e com a sua influência direta foi decisiva para a assinatura da paz em 1322, e, no ano seguinte, evitou o reacendimento do conflito ao colocar-se entre os exércitos prontos para a batalha.
Após o falecimento do rei D. Dinis (datado a janeiro de 1325), os anos subsequentes da vida de Isabel de Portugal foram vividos com um espírito de clarissa, até ao seu falecimento em Estremoz, no dia 4 de julho de 1336. Sua predileção pela “senhora pobreza” — expressão carinhosa com que São Francisco de Assis designava o seguimento de Cristo pobre — e por uma existência marcada pelo cuidado e interesse pelos mais necessitados, pelos pobres e enfermos, revela uma profunda espiritualidade franciscana.
É comum, mas erroneamente, afirmado que nos últimos anos da sua vida a rainha pertenceu apenas à Ordem Terceira Franciscana (OSF – atualmente movimento secular). No entanto, alguns documentos sugerem que a Rainha Santa, após a viuvez, professou como clarissa. De fato, para a Igreja e para a nação portuguesa, constitui um elevado privilégio o facto de a piedosa soberana ter vestido o hábito de Clarissa. Há, inclusive, historiadores que a denominam “a régia clarissa”, e sabe-se que, nos onze anos posteriores ao óbito de D. Dinis, ela professou clarissa, ainda que apenas in articulo mortis.
Reza uma antiga tradição que foi num Convento da cidade de Estremoz que ela morreu. A piedosa Rainha, que possuía o dom de apaziguadora nos furores bélicos, agora, nos anos da sua viuvez, bondosa como sempre, quis ir, ainda uma vez, usar da sua poderosa intervenção no litígio entre Dom Afonso IV e o Rei de Castela. Para tal, dirigiu-se a Estremoz. Porém, sobreveio-lhe, lá mesmo, uma enfermidade a que não resistiu. E foi assim que, ao ir como mensageira da paz, partiu realmente para o Reino da verdadeira paz. Recolhida ao Mosteiro das Clarissas de Estremoz, foi de lá, numa humilde cela, que a sua bela alma voou ao céu, a receber as eternas recompensas.
Dali transportaram-na seus súbditos a pedido do filho mais velho D. Afonso IV, com grandes honras e dedicação, amortalhada no seu hábito de Santa Clara, para o régio Mosteiro de Coimbra (mosteiro régio, mandado construir pela própria e era contínuo ao Paço). Ali repousam os restos mortais, dentro de magnífico túmulo, onde mandara colocar no tampo a sua imagem, vestida de Clarissa. No túmulo, a representação da Rainha ainda a mostra como peregrina a Santiago de Compostela, acompanhada de uma esmoleira, evidenciando seu cuidado com os carenciados e a imagem de si que desejava transmitir.
Na transladação do seu corpo de Estremoz para Coimbra – viagem longa que demorou 7 dias – consta que a comitiva que o acompanhava sentiu um suavíssimo cheiro de flores. O perfume espiritual é uma graça concedida a alguns santos, tal como o S. padre Pio ou a Santa Teresinha do Menino Jesus. Após este fenômeno a população logo se referia ao corpo da Rainha Santa como “corpo santo beatificado”.
O povo, desde cedo, considerou-a santa, atribuindo-lhe inúmeros milagres. A pedido de D. Manuel I, devido ao intenso culto público, foi beatificada pelo Papa Leão X (15-4-1516) e, em 1625, foi canonizada por Urbano VIII. A Devoção popular foi sempre muito forte, porque ao acompanhar as deslocações que o rei fazia pelo reino; e nessas alturas dava esmolas aos pobres, a raparigas pobres e distribuía alimentos. Sem dúvida, o milagre das rosas, em que, segundo a tradição, flores apareceram no seu regaço em vez dos pães escondidos para os pobres, tornou-se o episódio mais emblemático da sua santidade; se bem que as suas ações caritativas e capacidades diplomáticas são particularmente valorizadas na bula de canonização.
Conforme recorda o Cancioneiro de Coimbra, de Afonso Lopes Vieira, a pedido de D. Manuel I, D. Isabel foi beatificada:
Ao Padre-Santo pediu
O Senhor Dom Manuel
Que Ihe confirmasse santa
A Rainha Isabel.
Esta Rainha tão santa,
Mulher d’El-Rei Dom Dinis,
Só fez por servir a Deus,
E ele fez quanto quis.
Todas as suas esmolas
Só em secreto as dava
E uma vez que, escondidas,
No regaço as levava,
Um cavaleiro privado
A El-Rei a delatava:
E El-Rei, de cobiçoso,
Acorreu, e perguntava:
— «Que levais aí, Senhora,
Nesse regaço tamanho?»
— «Eu levo cravos e rosas,
Que outras coisas não tenho!»
— «Nem sequer há maravilhas;
Menos cravos, em Janeiro!
Ou serão esmolas isso,
Ou isso será dinheiro?»
A Rainha não falou;
Só o regaço abriu
E eram cravos e rosas,
Que dinheiro… Não se viu.
[…]
Igualmente, várias crónicas medievais e poesias retratam o espírito nobre da rainha e o apreço que os portugueses lhe tinham. A primeira hagiografia parece datada de 1751, redigida por Frei Francisco Brandão, mas segundo afirma o autor, «tresladada de um livro escrito de mão que está no Convento de Santa Clara, de Coimbra». E Frei Francisco Brandão formula o seguinte parecer relativamente ao original: «É muito antiga e muito próxima da morte da Rainha Santa Isabel».
Em cada uma Quaresma, fazia extremadas esmolas a homens e a mulheres envergonçados. E em dia, que se diz Caena Domini, lavava a certas mulheres, pobres gafas, os pés, e lhos beijava; e vestia-as de cuecas, de pelotes e ceromes; e dava-lhes de calçar e contas, por amor de Deus. E assi em aquele dia fazia entrar um clérigo ordenado de missa e um gafo, os mais pobres que achassem, e dava-lhes de vistir.
(Crónica publicada por Fr. Francisco Brandão, in Monarquia Lusitana, VI Parte, Lisboa, 1751.)
Na produção literária medieval, é pertinente destacar que, entre as diversas obras atribuídas ao Rei Trovador e que se crê terem sido dedicadas à Rainha, sua esposa, uma em particular parece sintetizar o espírito de tributo, admiração e respeito que o monarca nutria pela rainha dada a sua contribuição na projeção de um futuro promissor para a nação:
Pois que vos Deus fez, mia senhor,
fazer do bem sempr’o melhor
e vos en fez tam sabedor,
ũa verdade vos direi:
se mi valha Nostro Senhor,
érades bõa pera rei!
E pois sabedes entender
sempr’o melhor e escolher,
verdade vos quero dizer,
senhor, que sêrvi’e servirei:
pois vos Deus atal foi fazer,
érades bõa pera rei!
E pois vos Deus nunca fez par
de bom sem nem de bem falar,
nem fará já, a meu cuidar,
mia senhor e quanto bem hei,
se o Deus quisesse guisar,
érades bõa pera rei!
Cancioneiro da Biblioteca nacional – cantiga de amor- v. 95
(consultado em: https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=516&pv=sim )
Não se sabe se D. Dinis compôs esta cantiga de amor ainda infante ou já como monarca, contudo dirigindo-se à sua senhora, D. Isabel, o trovador garante-lhe que as suas incomparáveis qualidades (o discernimento, a inteligência, o bom senso, a capacidade de se exprimir bem) a capacitam plenamente para a realeza.
Nos anos seguintes, e até aos dias de hoje, o milagre das rosas Milagre das Rosas permanece um tema recorrente na literatura e na tradição popular portuguesa. O rei D. João III, um grande devoto da Rainha Santa, determinou em 1556 que, anualmente, no dia 4 de julho, toda a comunidade universitária deveria comparecer ao Colégio das Artes. Lá, assistiam a uma oração pública em louvor da Rainha Santa, proferida por um dos padres da Companhia de Jesus. Essa vontade régia foi imediatamente incorporada aos estatutos da Universidade. Consequentemente, o Colégio das Artes dedicou boa parte de sua produção literária à bem-aventurada Rainha D. Isabel. Isso é comprovado com os diversos códices que reúne as obras dos Jesuítas — em poesia e prosa, em latim, grego ou até hebraico — abrangendo desde orações panegíricas até poemas, epigramas, odes, elegias e epitáfios. Com sua canonização em 1625, em plena União Ibérica, a Rainha Santa foi proclamada por Filipe III como co-padroeira de Portugal. A Universidade de Coimbra — em cuja fundação a Rainha Santa Isabel desempenhou um papel significativo — organizou, entre outras iniciativas, um certame poético em sua honra. Publicado em 1626, sob o título Santissimae Reginae Elisabethae Poeticum Certamen dedicat, & consecrat Academia Conimbricensis Ivssv illustrissimi D. Francisci de Britto de Menezes a Consilijs Catholicae Maiestatis, & eiusdem Academiae Rectoris (A Academia de Coimbra oferece e dedica à Santíssima Rainha Isabel este Concurso Poético por ordem do Mui Ilustre D. Francisco de Britto de Menezes, Conselheiro de Sua Majestade Católica e Reitor da mesma Academia), o concurso reuniu textos em diversas línguas e gêneros literários, como odes, canções e sermões. Essa coletânea ofereceu um testemunho da diversidade e popularidade da devoção à nova santa, visto que muitos poetas passaram a consagrar suas obras à recém-nomeada padroeira de Portugal.
No período Quinhentista, a figura da Rainha continuou a exercer algum fascínio e as produções literárias do século XV e XVI dedicaram-lhe notável atenção. Certamente, que as devoções populares e a fé particular estavam em crescimento e firmavam-se cada vez mais no coração dos portugueses e das portuguesas. No Renascimento, destacam-se duas obras literárias: uma a que se refere indiretamente e outra, de caráter mais direto, que contribuiu significativamente para a intensificação da devoção à Rainha. A primeira obra mencionada é da autoria do historiador e humanista Damião de Góis, ao redigir a Crónica do Príncipe D. João, Góis faz referência a diversos acontecimentos, e em um deles retrata: “A Rainha Dona Isabel, mui piedosa e caritativa, socorria os pobres com tanta constância que parecia ser enviada por Deus para consolar os miseráveis.” Note-se que, embora este retrato seja discreto e a alusão à rainha indireta, é graças às descrições de Damião de Góis, Pedro João Perpinhão e Frei Marcos de Lisboa que atualmente é possível reconstituir o Milagre das Rosas o que, postumamente, facilitar as múltiplas adaptações modernas que hoje se realizam. A segunda obra foi publicada em Lisboa, em 1596, o Discurso sobre a Vida e Morte de Santa Isabel, Rainha de Portugal, e outras várias rimas, a obra é composta por seis cantos em oitavas e com as Várias Rimas que incluem sonetos, tercetos, éclogas, glosas, romances e emblemas, eleva a figura de Santa Isabel a um pedestal de grande devoção. Tal elevação contrapunha-se ao clima de insatisfação provocado pela perda da Independência e à evocação de D. Sebastião como um elemento presente no imaginário coletivo da Nação.
Nas primeiras estrofes, o poeta reconhece as misérias em que a pátria está imersa e recorda ainda o luto da tragédia de Alcácer Quibir, a exemplo do drama nacional, a estrofe 7:
Começar do destorço lusitano
E ruína total da glória altiva
Com que fez rico ao pobre mauritano
Sebastião, cuja morte inda hoje é viva;
Renovando-se sempre de ano em ano,
Qual águia que no mar a idade aviva,
Em outro mar de lágrimas que chora
Quem se deseja e sua sombra adora.
Contudo, o poeta, também, o transpõe para o plano pessoal e procurando consolo na recordação de glórias passadas, então, evoca a figura luminosa da Rainha Santa: «Vós, Isabel, sereis o meu cuidado; / Em vós empregarei meus pensamentos,/ Sendo por vós meu canto celebrado» (est. 13).
De facto, a literatura dos séculos XVI e XVII debruçar-se-ia predominantemente sobre a vida de D. Sebastião e o fenómeno do sebastianismo que se perpetuaram na memória coletiva até à atualidade e voltaria a ganhar ênfase na produção literária no século XX, com A Mensagem. As angústias da perda e a luta pela independência constituíam, também, o foco literário. Compreensivelmente, a figura da Rainha já não tinha tanta preponderância na produção literária; apesar de continuar a ser alvo de grande devoção entre o povo português.
Contudo, regista-se uma remanescência de sua presença na produção literária do século XIX, no período do Romantismo, com o poeta ultrarromântico João de Lemos (1819-1890), um miguelista obstinado e adepto da Monarquia absoluta, ansiou sempre ardentemente por sua restauração. O poema em questão, “As Rosas de Santa Isabel”, está citado na epígrafe do presente artigo. Acredita-se que este regresso se deve ao facto de o Romantismo na literatura, ao rejeitar o racionalismo e o classicismo, recupera e idealiza a Idade Média como uma época de valores de heroísmo, fé e sentimentos intensos, servindo de inspiração para a construção de uma identidade nacional e reforçando seus pensamentos evasivos. Ainda no século XIX, em 1883, o poeta e político liberal e republicano Teófilo de Braga – inspirado pela leitura de Hegel – está interessado em registar a cultura e tradição oral portuguesa publica Contos Tradicionais Portugueses inclui uma versão popular da lenda das rosas. É plausível que muitos outros autores oitocentistas tenham, indiretamente, refletido sobre a vida da rainha e do midiático milagre.
No século XX, José Régio figura central do modernismo português e fundador da Geração Presença conhecido por viver a fé católica de modo muito particular parece compreender a essência da Rainha Santa Isabel em sua peça de teatro “A Rainha Santa Isabel”, publicada em 1946. José Régio aborda uma dualidade entre a obediência conjugal e a vocação espiritual, expressa na frase: “Entre o dever de esposa e o dever de santa, há um abismo que só Deus pode atravessar.” No entanto, ele a descreve essencialmente como — já a conhecemos — bondosa, discreta e preocupada com o Reino de Deus: “A caridade é o meu reino. E nele sou rainha.” e “Não é o milagre que me faz santa. É o amor que não mede.” Ainda no XX, o poeta popular Henrique Rego escreveu o fado “Rainha Santa” que integra o repertório de Alfredo Marceneiro, e que culmina de forma bastante singela e poética:
Santa Isabel, se algum dia
Seu nome de eras famosas
Fosse esquecido afinal,
milagre faria
De nunca mais haver rosas
Nos jardins de Portugal.
milagre faria
De nunca mais haver rosas
Nos jardins de Portugal.
Atualmente, no século XXI, o milagre das rosas ainda está presente na memória coletiva do povo português e, também, é alvo de produção literária, nomeadamente, num género literário pouco desenvolvido no ensaio – o romance histórico. Neste pequeno estudo sobre as referências à Rainha Santa Isabel na literatura portuguesa seria uma grande lacuna se não mencionasse o conhecidíssimo trabalho da Isabel Stilwell que, em 2017, pública Isabel de Aragão – Entre o Céu e o Inferno: A rainha que Portugal imortalizou como Rainha Santa.
Não obstante, e ciente dos debates em teoria da literatura, bem como das fronteiras tênues entre a literatura e a história, considero que a definição de um romance histórico em termos da sua natureza literária e historiográfica revelava-se ambígua. Sobre essa questão, o ensaísta Manuel Gusmão discorreu extensivamente acerca dos diálogos entre literatura, história e ficção. Tais questões fundamentais parecem residir nas bases da própria literatura, visto que Aristóteles, em Poética, chegou à seguinte conclusão: o historiador narra o que de fato aconteceu, enquanto o poeta narra o que poderia ter acontecido. Desse modo, a poesia possui um caráter mais filosófico por procurar o universal – aquilo que qualquer indivíduo poderia experimentar ou sentir –, ao passo que a história restringe-se ao concreto. Assim sendo, afigura-se mais plausível que o milagre das rosas se perpetue na memória coletiva do povo português, não tanto pelas crónicas medievais ou pela prosa, mas, sobretudo, pela lírica medieval e pelo fato de diversos poetas no século XVI terem consagrado as suas obras à Rainha Santa Isabel.
Bibliografia
Adoradoras, Clarissas. (1976). In A ordem de Santa Clara em Portugal (pp. 70 – 72). Braga: Editorial Franciscana.
(1981). In M. E. Ferreira, Poesia e Prosa medievais (pp. 40-41). SL: Editora Ulisseia.
