A Representação da Mulher como Vítima Passiva e sem Agência no Discurso Público Português

Sobre um relato de uma relação abusiva publicado na imprensa portuguesa em 2023, o padrão de representação da mulher como vítima passiva e sem agência que representa, e os atavismos de algumas elites intelectuais face aos dogmas do momento relacionados com o tópico.

O relato de uma relação abusiva de uma jovem estudante de direito, publicado há semanas na revista Visão, despertou vários tipos de reacções completamente distintas cuja variedade e carácter explosivo suscitam bons tópicos para debate, que vamos tentar aqui elencar. Primeiramente, dominam, como é natural — mesmo que tal não seja inteiramente justificado — as reacções de parabéns à pessoa por fazer o seu relato público da situação. Segundo, como também é natural — a “opinião pública” funciona assim e nada tem de novo que assim seja — juntam-se a este conjunto algumas reacções adversas, que vão desde o mero cepticismo quanto aos factos apresentados até ao insulto gratuito e ao dislate. Da nossa parte, entendemos intelectual e socialmente pertinente apresentar aquele que parece ser um ponto de vista também relevante: o da estranheza perante o facto de a mulher ser constantemente representada, neste tipo de peças na comunicação social e no discurso público, como uma criatura passivainertesem agênciavítima das circunstâncias, ao invés de como pessoa adulta, inteiramente responsável, que é — e como esta mensagem, obviamente, não é uma mensagem de “empoderamento” para ninguém, antes pelo contrário, e como de certo modo está em absoluta contradição com as correntes mais relevantes do feminismo clássico, que postulam a mulher como ser adulto e autónomo e não como ser dominado pelas circunstâncias. Para quem não sabe, lançar uma perspectiva destas, como a que lançamos, no charco intelectual que constitui o discurso público à portuguesa é o equivalente a receber uma fatwa. Tivemos o prazer de ser cobertos por insultosdifamaçõesataques pessoaisataques institucionais, campanhas de ódio e de assédio dirigido — tudo aquilo que os arautos da “tolerância e da inclusão” alegam combater.

É para nós um factor de curiosidade intelectual sermos participantes nestes fenómenos, que tornam bem claro como certas narrativas, no discurso público, não são questionáveis, e exigem do leitor uma subserviência acrítica acéfala aos deuses do vitimismo e do comércio da opressão. Não é esse o papel, porém, de uma publicação académica, nem é assim que em nenhuma universidade se devem abordar questões inteiramente abertas à dúvida, ao esgrimir de argumentos, ao debate entre pessoas crescidas. Por último, deixamos a questão: se desde um semi-conhecido comentador televisivo, Miguel Prata Roque, a dizer que se vai queixar à Comissão para a Igualdade Racia(?) por causa de um nosso artigo intitulado “como cozinhar racismo“, até à também comentadora, jornalista e directora da Revista Visão, Mafalda Anjos, que vem “denunciar“ a nossa posição acima descrita como de “misoginia (??) e sugere a apresentação de “queixa-crime (?!?), será possível que em Portugal, particularmente nas suas elites, se conviva muitíssimo mal com a liberdade de pensamento e de expressão e, consequentemente, com o debate académico sério, robusto e exigente? É uma hipótese a considerar.

Pela nossa parte, continuaremos a fazer exactamente o mesmo que sempre fizemos. E deixamos assim lançado o debate, a quem queira participar, sobre a questão em causa. Mas avisamos já que as “florzinhas de estufa”, os malcriados e os anões mentais é melhor ficarem lá fora: este é um espaço para adultos plenamente conscientes, não para pessoas incapazes da disciplina de pensamento que falar sobre estas questões requer.

Partilhar Artigo:

Mais Artigos

Há um “Patriarcado”? Vantagens e Desvantagens de Cada Sexo no Ocidente Hoje

Análise quantificada detalhada sobre vantagens e desvantagens de cada sexo no Ocidente hoje. Com base nestes dados, não é razoável nem sustentável afirmar que existe um “patriarcado” no sentido de um sistema estrutural de dominação masculina absoluta ou opressão sistémica das mulheres.

Desvio em Relação ao Objectivo Sexual

Freud lembra-nos como a aproximação das mucosas dos lábios em forma de beijo está tão distante do objectivo sexual normal da cópula como o uso de outras partes do corpo, concluindo-se que todas as perversões são relativas; excertos de Três Ensaios para a Teoria da Sexualidade, 1914.

Sobre Abraçar Jacarandás

Durante milhares de anos, o homem aproximava-se de uma árvore para sacar dela madeira, sombra, fruto, abrigo ou, em caso de extrema necessidade, um sítio onde enforcar alguém. O lisboeta contemporâneo aproxima-se para lhe transmitir afetos. É progresso, dizem. Não é. Eu diria antes que é o estágio terminal do conforto.

Excertos da Biografia de David Lynch

Excertos da biografia do cineasta David Lynch, Room to Dream, sobre crescer nos anos 50, a escola, amor platónico, o dia em que a música acabou, rock 'n' roll, masturbação, guardar úteros humanos em frascos, egoísmo, pais antigos e modernos.