Feminino e Feminismo: Manifesto de Mulheres Francesas sobre o #metoo

Há cerca de cinco anos atrás, um movimento de denúncias públicas de assédio sexual na área do entretenimento — e, mais tarde, na sociedade em geral — abalou algumas figuras poderosas da indústria de Hollywood. O movimento #metoo proporcionou contextos e plataformas para certos comportamentos de coacção relacionados com vida profissional e sexo serem trazidos a público, analisados e, nalguns casos, punidos criminalmente.

Findo esse período, o que restou? Algumas acusações bem sucedidas em relação a casos complexos de coacção em contexto laboral com vista ao usufruto sexual, como no caso de Harvey Weinstein, e outros indetermináveis ou constituídos por acusações falsas, como no caso que envolveu Johnny Depp e Amber Heard.

Em termos documentais — de literatura, de discurso, de criação de ideias — pouco se aproveita; muitos hashtags e coisas que mais, muitas proclamações de emancipação que muitas vezes redundam simplesmente em mais proclamações de emancipação. Mas existe um documento extraordinário que parece ser uma excepção nesse panorama criticamente desolador, que representa uma das posições articuladas mais avassaladoras, adultas, desafiantes e abrangentes desse período. Trata-se de um manifesto que se solidariza com verdadeiras acusações de abuso sexual mas que censura veementemente e eloquentemente a condenação da sedução erótica, da livre comunicação entre pessoas adultas, e argumenta a favor do “direito a importunar como fundamental à liberdade sexual”. Trata-se uma posição madura, consciente da complexidade das interacções eróticas e de como estas são feitas não de requerimentos burocráticos e anuimentos verbais, mas de dimensões orgânicas, físicas, químicas, complexas, extra-verbais e extra-lógicas, onde naturalmente a linguagem é muitas vezes também complexa e até ambígua.

Foi assinado por várias figuras da academia, do entretenimento e até do activismo feminista francês, entre as quais Catherine Deneuve, Catherine Millet e Ingrid Caven. Documento original aqui e tradução para inglês aqui. Em baixo, versão em português:

PARIS — A violação é um crime. Mas tentar engatar alguém, por mais persistente ou desajeitado que seja, não o é — nem a galanteria é um ataque de machismo.

O escândalo Harvey Weinstein desencadeou um despertar legítimo sobre a violência sexual a que as mulheres são sujeitas, particularmente nas suas vidas profissionais, onde alguns homens abusam do seu poder. Isso era necessário. Mas aquilo que deveria libertar vozes foi agora virado do avesso: estão-nos a dizer o que é apropriado dizer e sobre o que devemos permanecer em silêncio — e as mulheres que se recusam a alinhar são consideradas traidoras, cúmplices!

Tal como nos velhos tempos das caças às bruxas, o que estamos agora a testemunhar é puritanismo em nome de um suposto bem maior, que afirma promover a libertação e a protecção das mulheres, apenas para as escravizar a um estatuto de vítima eterna e reduzi-las a presas indefesas de demónios chauvinistas masculinos.

Denúncia e exposição pública

De facto, o #MeToo conduziu a uma campanha, na imprensa e nas redes sociais, de acusações públicas e de acusações formais contra indivíduos que, sem terem a oportunidade de responder ou defender-se, são colocados na mesma categoria que agressores sexuais. Esta justiça sumária já teve as suas vítimas: homens que foram disciplinados no local de trabalho, forçados a demitir-se e assim por diante, quando o seu único “crime” foi tocar no joelho de uma mulher, tentar roubar um beijo, falar sobre coisas “íntimas” durante um almoço de trabalho ou enviar mensagens carregadas de teor sexual a mulheres que não corresponderam ao seu interesse.

Esta febre de enviar os “porcos” para o matadouro, longe de ajudar as mulheres a emanciparem-se, serve na realidade os interesses dos inimigos da liberdade sexual — os extremistas religiosos, os reaccionários e aqueles que acreditam — na sua rectidão e na visão moral vitoriana que acompanha isso — que as mulheres são uma espécie “à parte”, crianças com rostos de adulto que exigem ser protegidas.

Os homens, por seu lado, são chamados a assumir a sua culpa e a quebrar a cabeça à procura de “comportamentos inadequados” que tivessem no passado, há 10, 20 ou 30 anos, e pelos quais agora devem arrepender-se. Estas confissões públicas, e a investida na esfera privada por procuradores autoproclamados, conduziram a um clima de sociedade totalitária.

Esta febre de enviar os “porcos” para o matadouro … serve os interesses dos inimigos da liberdade sexual.

A vaga de purga parece não conhecer limites. O cartaz de um nu de Egon Schiele é censurado; são feitos apelos à remoção de um quadro de Balthus de um museu com o argumento de que é um elogio à pedofilia; incapazes de distinguir entre o homem e a sua obra, dizem à Cinémathèque Française para não realizar uma retrospectiva de Roman Polanski e outra dedicada a Jean-Claude Brisseau é bloqueada. Uma universidade classifica o filme Blow-Up de Michelangelo Antonioni como “misógino” e “inaceitável”. Perante este revisionismo, mesmo John Ford (The Searchers) e Nicolas Poussin (The Abduction of the Sabine Women) estão em risco.

Já há editores a pedir a alguns de nós que tornem as personagens masculinas menos “sexistas” e mais contidas na forma como falam de sexualidade e de amor, ou que façam com que os “traumas vividos pelas personagens femininas” sejam mais evidentes! Beirando o ridículo, na Suécia foi apresentado um projecto de lei que exige consentimento explícito antes de qualquer relação sexual! A seguir teremos uma aplicação para smartphone que adultos que queiram dormir juntos terão de usar para verificar precisamente quais os actos sexuais que o outro aceita ou não.

A liberdade essencial de ofender

O filósofo Ruwen Ogien defendeu a liberdade de ofender como essencial à criação artística. Da mesma forma, defendemos uma liberdade de incomodar como indispensável à liberdade sexual.

Hoje somos suficientemente educados para entender que os impulsos sexuais são, por natureza, ofensivos e primitivos — mas também somos capazes de distinguir entre uma tentativa desajeitada de engatar alguém e aquilo que constitui uma agressão sexual.

Acima de tudo, estamos conscientes de que o ser humano não é um monólito: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipa profissional e gostar de ser o objecto sexual de um homem, sem ser uma “puta” ou uma cúmplice vil do patriarcado. Ela pode garantir que o seu salário seja igual ao de um homem mas não se sentir para sempre traumatizada por um homem que se esfrega contra ela no metro, mesmo que isso seja considerado uma ofensa. Pode até considerar esse acto como a expressão de uma grande privação sexual, ou até como um não-evento.

A diferença entre uma tentativa desajeitada de engatar alguém e aquilo que constitui uma agressão sexual.

Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além da denúncia de abusos de poder, assume a face de um ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer “não” a uma proposta sexual não pode existir sem a liberdade de incomodar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de incomodar de outras formas que não o encerramento no papel de presa.

Para aquelas de nós que decidiram ter filhos, achamos que é mais sensato educar as nossas filhas de forma a que estejam suficientemente informadas e conscientes para viverem plenamente as suas vidas sem serem intimidada ou culpabilizadas.

Incidentes que podem afectar o corpo de uma mulher não afectam necessariamente a sua dignidade e não devem, por mais difíceis que sejam, necessariamente torná-la uma vítima perpétua. Porque não somos redutíveis aos nossos corpos. A nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que prezamos não está isenta de riscos e responsabilidades.

*A carta foi co-escrita por cinco mulheres francesas: Sarah Chiche (escritora/psicanalista), Catherine Millet (autora/crítica de arte), Catherine Robbe-Grillet (actriz/escritora), Peggy Sastre (autora/jornalista) e Abnousse Shalmani (escritora/jornalista). Foi assinada por cerca de 100 outras. Ver a lista completa de signatárias.

In. https://worldcrunch.com/opinion-analysis/full-translation-of-french-anti-metoo-manifesto-signed-by-catherine-deneuve. Tradução por ChatGPT.