O Farhud e a falsificação de Avi Shlaim

O Farhud foi um pogrom. Um pogrom antijudaico executado em Bagdade a 1 e 2 de Junho de 1941, em plena festa de Shavuot, numa orgia de violência que deixou mais de uma centena de judeus mortos, centenas de feridos, mulheres violadas, crianças mutiladas, casas destruídas e bairros reduzidos a escombros. O Estado iraquiano, então entregue a militares fascistas alinhados com a Alemanha nazi, permitiu que a sua população judaica fosse caçada como inimiga interna.

A propaganda alemã, cuidadosamente cultivada por Fritz Grobba, tinha preparado o terreno. Traduções árabes de Mein Kampf, rádios e jornais inundados de teorias conspirativas antissemitas, escolas militarizadas à imagem das Hitlerjugend e uma cultura política que identificava o judeu como traidor e ameaça. Nada disto é controverso entre historiadores. O Farhud é entendido de forma consensual como um produto do fascismo iraquiano, da influência nazi e do ressentimento nacionalista que fervia na época.

E, no entanto, há quem tente virar a história ao contrário.

Nos últimos anos, Avi Shlaim, historiador (à semelhança do inenarrável Pappé), conhecido pela sua posição profundamente crítica do sionismo, procurou reescrever a narrativa dos judeus iraquianos deslocando o eixo da violência. Na sua versão, a responsabilidade central pela destruição desta comunidade não residiria no antissemitismo iraquiano nem no trauma do Farhud, mas nos sionistas, através de supostas acções clandestinas que teriam forçado os judeus a emigrar para Israel com bombas lançadas entre 1950 e 1951.

O problema não é apenas a tese. É a manipulação necessária para a sustentar.

Shlaim apresenta o seu achado como prova definitiva de que as bombas foram obra sionista e que a emigração em massa dos judeus iraquianos só aconteceu porque esses ataques criaram pânico. Mas basta olhar para a cronologia, a documentação e os números para perceber que esta história é falsa.

Quando o Iraque aprova, em março de 1950, a lei que permite a renúncia da cidadania, dezenas de milhares de judeus registam-se de imediato para sair. Quando ocorre o primeiro dos atentados que Shlaim atribui a sionistas, já mais de metade da comunidade tinha assinado para emigrar. Os registos oficiais mostram que a decisão de fuga era estrutural, massiva e tomada muito antes dos ataques. A comunidade tinha vivido anos de vigilância, prisões arbitrárias, repressão económica, campanhas de ódio e um trauma fundador, o Farhud. O impulso para partir existia independentemente de qualquer operação clandestina, fosse ela real ou imaginada.

E é precisamente aqui que Shlaim comete o seu acto mais grave. Ele altera uma data, deslocando um atentado de março de 1951 para março de 1950, criando assim a impressão de que a violência antecede a emigração, quando na verdade ocorreu depois de o movimento de saída estar em plena marcha. Esta alteração não é um lapso, é a peça central da narrativa que ele quer impor. Sem esta adulteração, a tese ruiria.

Não menos grave é a forma como Shlaim instrumentaliza o Farhud. O pogrom de 1941, amplamente documentado e reconhecido por historiadores judeus, árabes e ocidentais, passa na sua tese para um lugar secundário. A brutalidade nazi em Bagdade, a juventude fascista al Futuwa, a cumplicidade do Estado iraquiano, a perseguição legal sistemática dos anos 40, tudo isto é empurrado para fora dos acontecimentos para abrir espaço à sua mentira preferida. A ideia de que os judeus expulsaram os judeus.

Mas a história não funciona assim. A realidade é mais teimosa do que qualquer ideologia.

As famílias que fugiram do Iraque não precisavam que um agente clandestino lhes explicasse que já não tinham futuro ali. Bastava lembrar os corpos mutilados nas ruas de Bagdade em 1941. Bastava lembrar as prisões, as humilhações, as leis discriminatórias, o confisco de bens, as suspeitas permanentes e o medo constante. Bastava saber, como todos sabiam, que a comunidade nunca recuperara verdadeiramente da ferida aberta pelo Farhud.

É insultuoso e intelectualmente desonesto sugerir que pessoas que viveram um pogrom precisaram de ser empurradas por bombas sionistas para abandonar um país que já as havia marcado a ferro e fogo. É igualmente desonesto fingir que o Farhud foi um incidente pontual num contexto idílico de convivência, quando foi um ponto de rutura histórica que selou para sempre a vulnerabilidade dos judeus num Estado cada vez mais nacionalista e hostil.

A tentativa de Shlaim de inverter a causalidade, e com ela a responsabilidade histórica, não é neutra. Ela conforta uma narrativa política muito útil a certos meios. A ideia de que os judeus no mundo árabe eram felizes até que o sionismo estragou tudo. A ideia de que as perseguições antijudaicas no mundo árabe são invenções ou exageros. A ideia de que, se houve violência, a culpa foi dos próprios judeus.

É o velho reflexo de sempre, culpar o judeu pelo que lhe é feito. O mesmo padrão que sustentou séculos de perseguições, expulsões e massacres.

A história do Farhud é clara. A documentação é vasta. A investigação independente é sólida. A conclusão é inequívoca. A destruição da comunidade judaica iraquiana começou com o antissemitismo iraquiano alimentado pelo fascismo local e pela propaganda nazi, e não com uma operação sionista.

Desmontar a falsificação de Shlaim não é um exercício académico. É um acto de memória. É impedir que o sofrimento de uma comunidade seja usado para servir conveniências ideológicas. É defender a verdade contra versões que tentam transformar vítimas em culpados.

A história merece rigor.
Os judeus do Iraque merecem justiça.
O Farhud merece ser contado como realmente foi, sem apagamentos, sem manipulações e sem inversões cínicas da realidade.