A Psicologia das Multidões

LIVRO PRIMEIRO
A ALMA DAS MULTIDÕES

CAPÍTULO PRIMEIRO
Características gerais das multidões. Lei psicológica da sua unidade mental.

O que constitui uma multidão do ponto de vista psicológico. — Uma aglomeração numerosa de indivíduos não basta para formar uma multidão. — Caracteres especiais das multidões psicológicas. — Orientação fixa das ideias e sentimentos nos indivíduos que as compõem e desaparecimento da sua personalidade. — A multidão está sempre dominada pelo inconsciente. — Desaparecimento da vida cerebral e predominância da vida medular. — Abaixamento da inteligência e transformação completa dos sentimentos. — Os sentimentos transformados podem ser melhores ou piores do que os dos indivíduos de que a multidão se compõe. — A multidão é tão facilmente heróica como criminosa.

No sentido ordinário, a palavra multidão representa uma reunião de indivíduos quaisquer, quaisquer que sejam a sua nacionalidade, a sua profissão ou o seu sexo, e quaisquer que sejam também os acasos que os reúnem.

Do ponto de vista psicológico, a expressão multidão toma um significado completamente diferente. Em certas circunstâncias dadas, e só nessas circunstâncias, uma aglomeração de homens possui caracteres novos muito diferentes dos dos indivíduos que compõem essa aglomeração. A personalidade consciente desvanece-se, os sentimentos e as ideias de todas as unidades orientam-se na mesma direcção. Forma-se uma alma colectiva, transitória sem dúvida, mas apresentando caracteres muito nítidos. A colectividade torna-se então o que, à falta de melhor expressão, chamarei uma multidão organizada, ou, se preferirem, uma multidão psicológica. Forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões.

É visível que não é pelo simples facto de muitos indivíduos se encontrarem acidentalmente lado a lado que adquirem os caracteres de uma multidão organizada. Mil indivíduos acidentalmente reunidos numa praça pública sem qualquer objectivo determinado não constituem de modo nenhum uma multidão do ponto de vista psicológico. Para adquirirem os caracteres especiais, é necessária a influência de certos excitantes cuja natureza teremos de determinar.

O desaparecimento da personalidade consciente e a orientação dos sentimentos e dos pensamentos num sentido determinado, que são os primeiros traços da multidão em vias de se organizar, não implicam sempre a presença simultânea de vários indivíduos num só ponto. Milhares de indivíduos separados podem, em certos momentos, sob a influência de certas emoções violentas — um grande acontecimento nacional, por exemplo —, adquirir os caracteres de uma multidão psicológica. Bastará então que um acaso qualquer os reúna para que os seus actos revistam imediatamente os caracteres especiais dos actos das multidões. Em certos momentos, meia dúzia de homens pode constituir uma multidão psicológica, enquanto centenas de homens reunidos por acaso podem não a constituir. Por outro lado, um povo inteiro, sem que haja aglomeração visível, pode tornar-se multidão sob a acção de certas influências.

Quando uma multidão psicológica está constituída, adquire caracteres gerais provisórios, mas determináveis. A estes caracteres gerais juntam-se caracteres particulares, variáveis segundo os elementos de que a multidão se compõe e que podem modificar a sua constituição mental.

As multidões psicológicas são portanto susceptíveis de uma classificação e, quando chegarmos a ocupar-nos dessa classificação, veremos que uma multidão heterogénea, isto é, composta de elementos dissemelhantes, apresenta com as multidões homogéneas — isto é, compostas de elementos mais ou menos semelhantes (sectas, castas e classes) — caracteres comuns e, ao lado desses caracteres comuns, particularidades que permitem diferenciá-la.

Mas antes de nos ocuparmos das diversas categorias de multidões, devemos examinar primeiro os caracteres comuns a todas. Procederemos como o naturalista, que começa por descrever os caracteres gerais comuns a todos os indivíduos de uma família antes de se ocupar dos caracteres particulares que permitem diferenciar os géneros e as espécies que essa família encerra.

Não é fácil descrever com exactidão a alma das multidões, porque a sua organização varia não só segundo a raça e a composição das colectividades, mas também segundo a natureza e o grau dos excitantes a que essas colectividades estão submetidas. Mas a mesma dificuldade apresenta-se no estudo psicológico de qualquer indivíduo. Só nos romances se vê os indivíduos atravessar a vida com um carácter constante. Só a uniformidade dos meios cria a uniformidade aparente dos caracteres. Mostrei noutro lugar que todas as constituições mentais contêm possibilidades de carácter que podem manifestar-se logo que o meio muda bruscamente. Foi assim que, entre os Convencionais mais ferozes, se encontravam burgueses inofensivos que, nas circunstâncias ordinárias, teriam sido notários pacíficos ou magistrados virtuosos. Passada a tempestade, retomaram o seu carácter normal de burgueses pacíficos. Napoleão encontrou entre eles os seus servidores mais dóceis.

Não podendo estudar aqui todos os graus de organização das multidões, considerá-las-emos sobretudo na sua fase de completa organização. Veremos assim o que elas podem tornar-se, mas não o que são sempre. É só nesta fase avançada de organização que, sobre o fundo invariável e dominante da raça, se sobrepõem certos caracteres novos e especiais, e que se produz a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da colectividade numa direcção idêntica. É só então que se manifesta o que chamei acima a lei psicológica da unidade mental das multidões.

Entre os caracteres psicológicos das multidões, há alguns que elas podem apresentar em comum com indivíduos isolados; outros, pelo contrário, são-lhes absolutamente especiais e só se encontram nas colectividades. São estes caracteres especiais que vamos estudar primeiro, para bem mostrar a sua importância.

O facto mais impressionante que apresenta uma multidão psicológica é o seguinte: quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, por mais semelhantes ou dissemelhantes que sejam o seu género de vida, as suas ocupações, o seu carácter ou a sua inteligência, pelo simples facto de serem transformados em multidão, possuem uma espécie de alma colectiva que os faz sentir, pensar e agir de uma maneira completamente diferente daquela como sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente. Há ideias, sentimentos que só surgem ou se transformam em actos nos indivíduos em multidão. A multidão psicológica é um ser provisório, formado de elementos heterogéneos que por um instante se soldaram, exactamente como as células que constituem um corpo vivo formam pela sua reunião um ser novo manifestando caracteres muito diferentes dos que cada uma dessas células possui.

Contrariamente a uma opinião que surpreende encontrar sob a pena de um filósofo tão penetrante como Herbert Spencer, no agregado que constitui uma multidão não há de modo nenhum soma nem média dos elementos, há combinação e criação de caracteres novos, do mesmo modo que em química certos elementos postos em presença, as bases e os ácidos por exemplo, se combinam para formar um corpo novo possuindo propriedades completamente diferentes das dos corpos que serviram para o constituir.

É fácil constatar quanto o indivíduo em multidão difere do indivíduo isolado; mas é menos fácil descobrir as causas dessa diferença.

Para ao menos entrever essas causas, é preciso recordar primeiro esta constatação da psicologia moderna: que não é só na vida orgânica, mas também no funcionamento da inteligência, que os fenómenos inconscientes desempenham um papel absolutamente preponderante. A vida consciente do espírito representa apenas uma parte muito fraca junto da sua vida inconsciente. O analista mais subtil, o observador mais penetrante chega dificilmente a descobrir senão um número muito pequeno dos móveis inconscientes que o conduzem. Os nossos actos conscientes derivam de um substrato inconsciente criado sobretudo por influências de hereditariedade. Esse substrato encerra os inumeráveis resíduos ancestrais que constituem a alma da raça. Por detrás das causas confessadas dos nossos actos, há sem dúvida as causas secretas que não confessamos, mas por detrás dessas causas secretas há outras muito mais secretas ainda, pois que nós próprios as ignoramos. A maior parte das nossas acções quotidianas não são senão o efeito de móveis ocultos que nos escapam.

É sobretudo pelos elementos inconscientes que formam a alma de uma raça que todos os indivíduos dessa raça se parecem, e é principalmente pelos elementos conscientes, frutos da educação mas sobretudo de uma hereditariedade excepcional, que eles diferem. Os homens mais dissemelhantes pela sua inteligência têm instintos, paixões, sentimentos muito semelhantes. Em tudo o que é matéria de sentimento: religião, política, moral, afeições e antipatias, etc., os homens mais eminentes raramente ultrapassam o nível dos indivíduos mais ordinários. Entre um grande matemático e o seu sapateiro pode existir um abismo do ponto de vista intelectual, mas do ponto de vista do carácter a diferença é o mais das vezes nula ou muito fraca.

Ora são precisamente estas qualidades gerais do carácter, regidas pelo inconsciente e que a maioria dos indivíduos normais de uma raça possuem mais ou menos no mesmo grau, que, nas multidões, são postas em comum. Na alma colectiva, as aptidões intelectuais dos indivíduos, e por conseguinte a sua individualidade, apagam-se. O heterogéneo afoga-se no homogéneo, e as qualidades inconscientes dominam.

É justamente esta posta em comum de qualidades ordinárias que nos explica por que razão as multidões nunca poderiam realizar actos que exigissem uma inteligência elevada. As decisões de interesse geral tomadas por uma assembleia de homens distintos, mas de especialidades diferentes, não são sensivelmente superiores às decisões que tomaria uma reunião de imbecis. Não podem pôr em comum, com efeito, senão essas qualidades medíocres que toda a gente possui. Nas multidões, é a estupidez e não o espírito que se acumula. Não é toda a gente, como tantas vezes se repete, que tem mais espírito do que Voltaire; é certamente Voltaire que tem mais espírito do que toda a gente, se por «toda a gente» se deve entender as multidões.

Mas se os indivíduos em multidão se limitassem a pôr em comum as qualidades ordinárias de que cada um tem a sua parte, haveria simplesmente média, e não, como dissemos, criação de caracteres novos. Como se estabelecem esses caracteres novos? É o que devemos agora pesquisar.

Diversas causas determinam o aparecimento desses caracteres especiais às multidões, e que os indivíduos isolados não possuem. A primeira é que o indivíduo em multidão adquire, pelo simples facto do número, um sentimento de potência invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado. Será tanto menos inclinado a refreá-los quanto, sendo a multidão anónima e por conseguinte irresponsável, o sentimento da responsabilidade, que sempre retém os indivíduos, desaparece inteiramente.

Uma segunda causa, o contágio, intervém igualmente para determinar nas multidões a manifestação de caracteres especiais e ao mesmo tempo a sua orientação. O contágio é um fenómeno fácil de constatar, mas não explicado, e que é preciso ligar aos fenómenos de ordem hipnótica que estudaremos dentro de pouco. Numa multidão, todo o sentimento, todo o acto é contagioso, e contagioso a tal ponto que o indivíduo sacrifica muito facilmente o seu interesse pessoal ao interesse colectivo. É uma aptidão muito contrária à sua natureza, e de que o homem só é capaz quando faz parte de uma multidão.

Uma terceira causa, e esta de longe a mais importante, determina nos indivíduos em multidão caracteres especiais por vezes completamente contrários aos do indivíduo isolado. Refiro-me à sugestibilidade, de que o contágio mencionado acima não é aliás senão um efeito.

Para compreender este fenómeno, é preciso ter presentes no espírito certas descobertas recentes da fisiologia. Sabemos hoje que, por processos variados, um indivíduo pode ser colocado num estado tal que, tendo perdido toda a sua personalidade consciente, obedeça a todas as sugestões do operador que lha fez perder, e cometa os actos mais contrários ao seu carácter e aos seus hábitos. Ora as observações mais atentas parecem provar que o indivíduo mergulhado há algum tempo no seio de uma multidão actuante se encontra em breve colocado — em consequência dos eflúvios que dela se desprendem, ou por qualquer outra causa que desconhecemos — num estado particular, muito próximo do estado de fascinação em que se encontra o hipnotizado nas mãos do seu hipnotizador. A vida do cérebro estando paralisada no sujeito hipnotizado, este torna-se escravo de todas as actividades inconscientes da sua medula espinhal, que o hipnotizador dirige a seu bel-prazer. A personalidade consciente desvanece-se inteiramente, a vontade e o discernimento perdem-se. Todos os sentimentos e pensamentos se orientam no sentido determinado pelo hipnotizador.

Tal é aproximadamente também o estado do indivíduo que faz parte de uma multidão psicológica. Já não tem consciência dos seus actos. Nele, como no hipnotizado, ao mesmo tempo que certas faculdades são destruídas, outras podem ser levadas a um grau de exaltação extrema. Sob a influência de uma sugestão, lançará com uma impetuosidade irresistível a realização de certos actos. Impetuosidade ainda mais irresistível nas multidões do que no sujeito hipnotizado, porque a sugestão sendo a mesma para todos os indivíduos exagera-se ao tornar-se recíproca. As individualidades que, na multidão, possuiriam uma personalidade suficientemente forte para resistir à sugestão são em número demasiado pequeno para lutar contra a corrente. Quando muito poderão tentar uma diversão por uma sugestão diferente. Foi assim, por exemplo, que uma palavra feliz, uma imagem evocada a propósito, por vezes desviaram as multidões dos actos mais sanguinários.

Portanto, desaparecimento da personalidade consciente, predominância da personalidade inconsciente, orientação por via de sugestão e de contágio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido, tendência a transformar imediatamente em actos as ideias sugeridas, tais são os principais caracteres do indivíduo em multidão. Já não é ele mesmo, tornou-se um autómato que a sua vontade já não guia.

Assim, pelo simples facto de fazer parte de uma multidão organizada, o homem desce vários graus na escala da civilização. Isolado, era talvez um indivíduo culto; em multidão é um bárbaro, isto é, um instintivo. Tem a espontaneidade, a violência, a ferocidade, e também os entusiasmos e os heroísmos dos seres primitivos. Tende a aproximar-se ainda mais deles pela facilidade com que se deixa impressionar por palavras, imagens — que sobre cada um dos indivíduos isolados que compõem a multidão seriam completamente sem acção — e conduzir a actos contrários aos seus interesses mais evidentes e aos seus hábitos mais conhecidos. O indivíduo em multidão é um grão de areia no meio de outros grãos de areia que o vento levanta a seu bel-prazer.

E é assim que vemos júris proferirem veredictos que cada jurado individualmente desaprovaria, assembleias parlamentares adoptarem leis e medidas que cada um dos membros que as compõem reprovaria em particular. Tomados separadamente, os homens da Convenção eram burgueses esclarecidos, de hábitos pacíficos. Reunidos em multidão, não hesitavam em aprovar as proposições mais ferozes, em enviar para a guilhotina os indivíduos mais manifestamente inocentes; e, contrariamente a todos os seus interesses, renunciar à sua inviolabilidade e decimarem-se a si próprios.

E não é só pelos seus actos que o indivíduo em multidão difere essencialmente de si mesmo. Antes mesmo de ter perdido toda a independência, as suas ideias e os seus sentimentos já se transformaram, e a transformação é profunda a ponto de mudar o avarento em pródigo, o céptico em crente, o homem honesto em criminoso, o cobarde em herói. A renúncia a todos os seus privilégios que, num momento de entusiasmo, a nobreza votou na famosa noite de 4 de Agosto de 1789, certamente nunca teria sido aceite por nenhum dos seus membros tomado isoladamente.

Concluímos do que precede que a multidão é sempre intelectualmente inferior ao homem isolado, mas que, do ponto de vista dos sentimentos e dos actos que esses sentimentos provocam, ela pode, segundo as circunstâncias, ser melhor ou pior. Tudo depende da maneira como a multidão é suggestionada. Foi isto que os escritores que só estudaram as multidões do ponto de vista criminal perfeitamente desconheceram. A multidão é muitas vezes criminosa, sem dúvida, mas muitas vezes também é heróica. São sobretudo as multidões que se levam a fazer-se matar pelo triunfo de uma crença ou de uma ideia, que se entusiasmam pela glória e pela honra, que se arrastam quase sem pão e sem armas como na idade das cruzadas, para libertar da infiel o túmulo de um Deus, ou como em 93, para defender o solo da pátria. Heroísmos um pouco inconscientes, sem dúvida, mas é com estes heroísmos que se faz a história. Se só se devesse pôr a crédito dos povos as grandes acções friamente raciocinadas, os anais do mundo registariam bem poucos.

(continua no Capítulo II, se desejar prosseguir)

Aqui continua a tradução para português de Portugal de Psicologia das Multidões de Gustave Le Bon, prosseguindo directamente do fim do Capítulo I.

CAPÍTULO II
Sentimentos e moralidade das multidões

§ 1. Impulsividade, mobilidade e irritabilidade das multidões. — A multidão é o brinquedo de todas as excitações exteriores e reflecte as suas incessantes variações. — As impulsões a que obedece são suficientemente imperiosas para que o interesse pessoal se apague. — Nada é premeditado nas multidões. — Acção da raça. — § 2. Sugestibilidade e credulidade das multidões. — A sua obediência às sugestões. — As imagens evocadas no seu espírito são tomadas por elas como realidades. — Por que estas imagens são semelhantes para todos os indivíduos que compõem uma multidão. — Igualação do sábio e do imbecil numa multidão. — Exemplos diversos das ilusões a que todos os indivíduos de uma multidão estão sujeitos. — Impossibilidade de conceder qualquer crédito ao testemunho das multidões. — A unanimidade de numerosos testemunhos é uma das piores provas que se podem invocar para estabelecer um facto. — Fraco valor dos livros de história. — § 3. Exageração e simplismo dos sentimentos das multidões. — As multidões não conhecem nem a dúvida nem a incerteza e vão sempre aos extremos. — Os seus sentimentos são sempre excessivos. — § 4. Intolerância, autoritarismo e conservadorismo das multidões. — Razões destes sentimentos. — Servidão das multidões perante uma autoridade forte. — Os instintos revolucionários momentâneos das multidões não as impedem de serem extremamente conservadoras. — São de instinto hostis às mudanças e ao progresso. — § 5. Moralidade das multidões. — A moralidade das multidões pode, segundo as sugestões, ser muito mais baixa ou muito mais alta do que a dos indivíduos que as compõem. — Explicação e exemplos. — As multidões têm raramente por guia o interesse que é, o mais das vezes, o móvel exclusivo do indivíduo isolado. — Papel moralizador das multidões.

Depois de termos indicado de uma forma muito geral os principais caracteres das multidões, resta-nos penetrar no detalhe desses caracteres.

Observar-se-á que, entre os caracteres especiais das multidões, há vários, tais como a impulsividade, a irritabilidade, a incapacidade de raciocinar, a ausência de juízo e de espírito crítico, a exageração dos sentimentos, e outros ainda, que também se observam nos seres pertencentes a formas inferiores de evolução, tais como a mulher, o selvagem e a criança; mas trata-se aqui de uma analogia que só indico de passagem. A sua demonstração sairia do quadro desta obra. Seria inútil, aliás, para as pessoas ao corrente da psicologia dos primitivos, e permaneceria sempre pouco convincente para aquelas que a não conhecem.

Abordo agora um após outro os diversos caracteres que se podem observar na maioria das multidões.

§ 1. — IMPULSIVIDADE, MOBILIDADE E IRRITABILIDADE DAS MULTIDÕES

A multidão, dissemos nós ao estudar os seus caracteres fundamentais, é conduzida quase exclusivamente pelo inconsciente. Os seus actos estão muito mais sob a influência da medula espinhal do que sob a do cérebro. Aproxima-se nisso dos seres completamente primitivos. Os actos executados podem ser perfeitos quanto à sua execução, mas, não sendo o cérebro a dirigi-los, o indivíduo age segundo os acasos das excitações. Uma multidão é o brinquedo de todas as excitações exteriores e reflecte as suas incessantes variações. É portanto escrava das impulsões que recebe. O indivíduo isolado pode estar submetido às mesmas excitações que o homem em multidão; mas como o seu cérebro lhe mostra os inconvenientes de ceder a elas, não cede. É o que se pode exprimir fisiologicamente dizendo que o indivíduo isolado possui a aptidão de dominar os seus reflexos, enquanto a multidão não a possui.

Estas diversas impulsões a que obedecem as multidões poderão ser, segundo as excitações, generosas ou cruéis, heróicas ou pusilânimes, mas serão sempre tão imperiosas que o interesse pessoal, o interesse da conservação ele mesmo, não as dominará.

Os excitantes que podem actuar sobre as multidões sendo muito variados, e as multidões lhes obedecendo sempre, estas são por consequência extremamente móveis; e é por isso que as vemos passar num instante da ferocidade mais sanguinária à generosidade ou ao heroísmo mais absoluto. A multidão torna-se muito facilmente carrasco, mas não menos facilmente mártir. É do seu seio que correram os torrentes de sangue exigidos pelo triunfo de cada crença. Não é preciso remontar às idades heróicas para ver de que, deste último ponto de vista, as multidões são capazes. Elas nunca regateiam a sua vida numa revolta, e há bem poucos anos que um general, tornado subitamente popular, teria encontrado facilmente cem mil homens prontos a fazerem-se matar pela sua causa, se lho tivesse pedido.

Nada pode pois ser premeditado nas multidões. Podem percorrer sucessivamente a gama dos sentimentos mais contrários, mas estarão sempre sob a influência das excitações do momento. São semelhantes às folhas que o furacão levanta, dispersa em todos os sentidos, depois deixa cair. Ao estudar noutro lugar certas multidões revolucionárias, mostraremos alguns exemplos da variabilidade dos seus sentimentos.

Esta mobilidade das multidões torna-as muito difíceis de governar, sobretudo quando uma parte dos poderes públicos caiu nas suas mãos. Se as necessidades da vida de cada dia não constituíssem uma espécie de regulador invisível das coisas, as democracias dificilmente durariam. Mas, se as multidões querem as coisas com frenesi, não as querem por muito tempo. São tão incapazes de vontade duradoura como de pensamento.

A multidão não é só impulsiva e móvel. Como o selvagem, não admite que algo possa interpor-se entre o seu desejo e a realização desse desejo. Compreende-o tanto menos quanto o número lhe dá o sentimento de uma potência irresistível. Para o indivíduo em multidão, a noção de impossibilidade desaparece. O indivíduo isolado sente bem que sozinho não poderia incendiar um palácio, saquear uma loja e, se for tentado, resiste facilmente à tentação. Fazendo parte de uma multidão, tem consciência do poder que o número lhe dá, e basta sugerir-lhe ideias de assassínio e de pilhagem para que ceda imediatamente à tentação. O obstáculo inesperado será quebrado com frenesi. Se o organismo humano permitisse a perpetuidade da fúria, poder-se-ia dizer que o estado normal da multidão contrariada é a fúria.

Na irritabilidade das multidões, na sua impulsividade e na sua mobilidade, assim como em todos os sentimentos populares que teremos de estudar, intervêm sempre os caracteres fundamentais da raça, que constituem o solo invariável sobre o qual germinam todos os nossos sentimentos. Todas as multidões são sempre irritáveis e impulsivas, sem dúvida, mas com grandes variações de grau. A diferença entre uma multidão latina e uma multidão anglo-saxónica é, por exemplo, impressionante. Os factos mais recentes da nossa história lançam uma viva luz sobre este ponto. Bastou, há vinte e cinco anos, a publicação de um simples telegrama relatando uma suposta injúria feita a um embaixador para determinar uma explosão de fúria de que saiu imediatamente uma guerra terrível. Alguns anos mais tarde, o anúncio telegráfico de um insignificante revés em Langson provocou uma nova explosão que trouxe a queda instantânea do governo. No mesmo momento, o revés muito mais grave de uma expedição inglesa diante de Cartum não produziu em Inglaterra senão uma emoção muito fraca, e nenhum ministério foi derrubado. As multidões são em toda a parte femininas, mas as mais femininas de todas são as multidões latinas. Quem se apoia nelas pode subir muito alto e muito depressa, mas roçando constantemente a rocha Tarpeia e com a certeza de ser dela precipitado um dia.

§ 2. — SUGESTIBILIDADE E CREDULIDADE DAS MULTIDÕES

Dissemos, ao definir as multidões, que um dos seus caracteres gerais é uma sugestibilidade excessiva, e mostramos quanto, em toda a aglomeração humana, uma sugestão é contagiosa; o que explica a orientação rápida dos sentimentos num sentido determinado.

Por mais neutra que se suponha, a multidão encontra-se o mais das vezes nesse estado de atenção expectante que torna a sugestão fácil. A primeira sugestão formulada que surge impõe-se imediatamente por contágio a todos os cérebros, e logo a orientação estabelece-se. Como em todos os seres suggestionados, a ideia que invadiu o cérebro tende a transformar-se em acto. Quer se trate de um palácio a incendiar ou de um acto de devoção a cumprir, a multidão presta-se a isso com a mesma facilidade. Tudo dependerá da natureza do excitante, e não mais, como no ser isolado, das relações existentes entre o acto sugerido e a soma de razão que pode ser oposta à sua realização.

Assim, errando sempre nos limites da inconsciência, submetendo-se facilmente a todas as sugestões, tendo toda a violência de sentimentos própria dos seres que não podem apelar às influências da razão, desprovida de todo o espírito crítico, a multidão não pode senão ser de uma credulidade excessiva. O inverosímil não existe para ela, e é preciso bem recordá-lo para compreender a facilidade com que se criam e se propagam as lendas e os relatos mais inverosímeis.

A criação das lendas que circulam tão facilmente nas multidões não é determinada apenas por uma credulidade completa. É-o ainda pelas deformações prodigiosas que os acontecimentos sofrem na imaginação de pessoas reunidas. O acontecimento mais simples visto pela multidão torna-se em breve um acontecimento transformado. Ela pensa por imagens, e a imagem evocada evoca por sua vez uma série de outras sem qualquer ligação lógica com a primeira. Concebemos facilmente este estado ao pensar nas bizarras sucessões de ideias a que por vezes somos conduzidos pela evocação de um facto qualquer. A razão mostra-nos o que nessas imagens há de incoerência, mas a multidão mal o vê; e o que a sua imaginação deformante acrescenta ao acontecimento real, confunde-o com ele. A multidão separa dificilmente o subjectivo do objectivo. Admite como reais as imagens evocadas no seu espírito e que o mais das vezes só têm uma parentela distante com o facto observado.

As deformações que uma multidão faz sofrer a um acontecimento qualquer de que é testemunha deveriam, parece, ser inumeráveis e de sentidos diversos, pois os indivíduos que a compõem são de temperamentos muito diferentes. Mas não é assim. Em consequência do contágio, as deformações são da mesma natureza e do mesmo sentido para todos os indivíduos. A primeira deformação percebida por um dos indivíduos da colectividade é o núcleo da sugestão contagiosa. Antes de aparecer nas muralhas de Jerusalém a todos os cruzados, São Jorge não foi certamente visto senão por um dos assistentes. Por via de sugestão e de contágio, o milagre assinalado por um só foi imediatamente aceite por todos.

Tal é sempre o mecanismo destas alucinações colectivas tão frequentes na história, e que parecem ter todos os caracteres clássicos da autenticidade, pois se trata de fenómenos constatados por milhares de pessoas.

Não se deve, para combater o que precede, invocar a qualidade mental dos indivíduos de que a multidão se compõe. Essa qualidade é sem importância. Desde que estejam em multidão, o ignorante e o sábio são igualmente incapazes de observação.

A tese pode parecer paradoxal. Para a demonstrar a fundo, seria preciso retomar um grande número de factos históricos, e vários volumes não bastariam.

Não querendo, contudo, deixar o leitor sob a impressão de asserções sem provas, vou dar-lhe alguns exemplos tomados ao acaso entre os montes daqueles que se poderiam citar.

O facto seguinte é um dos mais típicos, porque é escolhido entre alucinações colectivas que grassaram numa multidão onde se encontravam indivíduos de todo o tipo, os mais ignorantes como os mais instruídos. É relatado incidentalmente pelo tenente de navio Julien Félix no seu livro sobre as correntes do mar, e foi outrora reproduzido na Revue Scientifique.

A fragata La Belle-Poule cruzava no mar para encontrar a corveta Le Berceau de que fora separada por uma violenta tempestade. Era pleno dia e pleno sol. De repente, a vigia assinala uma embarcação desarvorada. A tripulação dirige os olhares para o ponto assinalado, e toda a gente, oficiais e marinheiros, vê nitidamente uma jangada carregada de homens rebocada por embarcações sobre as quais flutuavam sinais de socorro. Não era contudo senão uma alucinação colectiva. O almirante Desfossés mandou armar uma embarcação para socorrer os náufragos. Ao aproximar-se, os marinheiros e os oficiais que a tripulavam viam «massas de homens agitar-se, estender as mãos, e ouviam o ruído surdo e confuso de um grande número de vozes». Quando a embarcação chegou, encontraram-se simplesmente diante de alguns ramos de árvores cobertos de folhas arrancados à costa vizinha. Diante de uma evidência tão palpável, a alucinação desvaneceu-se.

Neste exemplo vê-se desenrolar muito claramente o mecanismo da alucinação colectiva tal como o explicámos. De um lado, uma multidão em estado de atenção expectante; do outro, uma sugestão feita pela vigia assinalando um navio desarvorado no mar, sugestão que, por via de contágio, foi aceite por todos os assistentes, oficiais ou marinheiros.

Não é preciso que uma multidão seja numerosa para que a faculdade de ver correctamente o que se passa diante dela seja destruída, e os factos reais substituídos por alucinações sem parentesco com eles. Logo que alguns indivíduos se reúnem, constituem uma multidão e, mesmo que fossem sábios distintos, tomam todos os caracteres das multidões no que está fora da sua especialidade. A faculdade de observação e o espírito crítico possuídos por cada um deles desvanece-se imediatamente. Um psicólogo engenhoso, o Sr. Davey, fornece-nos um exemplo bem curioso, recentemente relatado pelas Annales des Sciences psychiques, e que merece ser contado aqui. O Sr. Davey tendo convocado uma reunião de observadores distintos, entre os quais um dos primeiros sábios de Inglaterra, o Sr. Wallace, executou diante deles, e depois de lhes ter deixado examinar os objectos e colocar selos onde quisessem, todos os fenómenos clássicos dos espíritas: materialização de espíritos, escrita em ardósias, etc. Tendo depois obtido destes observadores distintos relatórios escritos afirmando que os fenómenos observados só podiam ter sido obtidos por meios sobrenaturais, revelou-lhes que eram o resultado de burlas muito simples. «O mais espantoso da investigação do Sr. Davey», escreve o autor da relação, «não é a maravilha das truques em si mesmos, mas a extrema fraqueza dos relatórios que deles fizeram os testemunhas não iniciadas. Portanto», diz ele, «as testemunhas podem fazer numerosos e positivos relatos que são completamente erróneos, mas cujo resultado é que, se se aceitarem as suas descrições como exactas, os fenómenos que descrevem são inexplicáveis pela burla. Os métodos inventados pelo Sr. Davey eram tão simples que se fica espantado com a ousadia de os empregar; mas ele tinha um tal poder sobre o espírito da multidão que podia persuadi-la de que via o que não via.» É sempre o poder do hipnotizador sobre o hipnotizado. Mas quando se vê este poder exercer-se sobre espíritos superiores, previamente postos em guarda contudo, concebe-se até que ponto é fácil iludir as multidões ordinárias.

Os exemplos análogos são inumeráveis. No momento em que escrevo estas linhas, os jornais estão cheios da história de duas meninas afogadas retiradas do Sena. Essas crianças foram primeiro reconhecidas da maneira mais categórica por uma dúzia de testemunhas. Todas as afirmações eram tão concordantes que não restava qualquer dúvida no espírito do juiz de instrução. Mandou lavrar o acto de óbito. Mas no momento em que se ia proceder ao enterro, o acaso fez descobrir que as vítimas supostas estavam perfeitamente vivas e que, aliás, só tinham uma semelhança muito distante com as pequenas afogadas. Como em vários dos exemplos anteriormente citados, a afirmação da primeira testemunha, vítima de uma ilusão, bastara para suggestionar todas as outras.

Nestes casos semelhantes, o ponto de partida da sugestão é sempre a ilusão produzida num indivíduo por reminiscências mais ou menos vagas, depois o contágio por via de afirmação dessa ilusão primitiva. Se o primeiro observador for muito impressionável, bastará muitas vezes que o cadáver que julga reconhecer apresente — fora de qualquer semelhança real — alguma particularidade, uma cicatriz ou um detalhe de vestuário, que possa evocar a ideia de outra pessoa. A ideia evocada pode então tornar-se o núcleo de uma espécie de cristalização que invade o campo do entendimento e paralisa toda a faculdade crítica. O que o observador vê então já não é o objecto em si, mas a imagem evocada no seu espírito. Assim se explicam os reconhecimentos erróneos de cadáveres de crianças pela própria mãe, como o caso seguinte, já antigo, mas que foi recentemente recordado pelos jornais, e onde se vê manifestarem-se precisamente as duas ordens de sugestão de que indiquei o mecanismo.

«A criança foi reconhecida por outra criança — que se enganou. A série dos reconhecimentos inexactos desenrolou-se então.

E viu-se uma coisa muito extraordinária. No dia seguinte ao em que um escolar a tinha reconhecido, uma mulher exclamou: “Ah! meu Deus, é o meu filho.”

Levaram-na junto do cadáver, ela examina as roupas, constata uma cicatriz na testa. “É mesmo”, diz ela, “o meu pobre filho, perdido desde julho passado. Roubaram-mo e mataram-mo!”

A mulher era porteira na rua do Four e chamava-se Chavandret. Mandaram vir o seu cunhado que, sem hesitação, disse: “É o pequeno Philibert.” Vários habitantes da rua reconheceram Philibert Chavandret na criança da Villette, sem contar o seu próprio mestre-escola para quem a medalha era um indício.

Pois bem, os vizinhos, o cunhado, o mestre-escola e a mãe enganavam-se. Seis semanas mais tarde, a identidade da criança foi estabelecida. Era uma criança de Bordéus, morta em Bordéus e, pelos correios, trazida a Paris.»

Observar-se-á que estes reconhecimentos se fazem, o mais das vezes, por mulheres e crianças, isto é, precisamente pelos seres mais impressionáveis. Mostram-nos, ao mesmo tempo, o que podem valer em justiça semelhantes testemunhos. No que respeita às crianças, nomeadamente, as suas afirmações nunca deveriam ser invocadas. Os magistrados repetem como um lugar-comum que a essa idade não se mente. Com uma cultura psicológica um pouco menos sumária, saberiam que a essa idade, pelo contrário, mente-se sempre. A mentira é, sem dúvida, inocente, mas nem por isso deixa de ser mentira. Valeria mais decidir à sorte a condenação de um acusado do que a decidir, como tantas vezes se fez, segundo o testemunho de uma criança.

Voltando às observações feitas pelas multidões, concluiremos que as suas observações colectivas são as mais erróneas de todas e que o mais das vezes representam simplesmente a ilusão de um indivíduo que, por via de contágio, suggestionou os outros. Poder-se-iam multiplicar ao infinito os factos provando que é preciso ter a mais completa desconfiança do testemunho das multidões. Milhares de homens assistiram, há vinte e cinco anos, à célebre carga de cavalaria da batalha de Sedan, e contudo é impossível, perante os testemunhos oculares mais contraditórios, saber por quem foi comandada. Num livro recente, o general inglês Wolseley provou que até aqui se cometeram os mais graves erros sobre os factos mais consideráveis da batalha de Waterloo, factos que centenas de testemunhas contudo atestaram.

Tais factos mostram-nos o que valem os testemunhos das multidões. Os tratados de lógica fazem entrar a unanimidade de numerosos testemunhos na categoria das provas mais sólidas que se podem invocar para provar a exactidão de um facto. Mas o que sabemos da psicologia das multidões mostra que os tratados de lógica estão por refazer inteiramente neste ponto. Os acontecimentos mais duvidosos são certamente os que foram observados pelo maior número de pessoas. Dizer que um facto foi simultaneamente constatado por milhares de testemunhas é dizer o mais das vezes que o facto real é muito diferente do relato adoptado.

Decorre claramente do que precede que é preciso considerar como obras de pura imaginação os livros de história. São relatos fantásticos de factos mal observados, acompanhados de explicações feitas a posteriori. Amassar gesso é fazer obra bem mais útil do que perder tempo a escrever semelhantes livros. Se o passado não nos tivesse legado as suas obras literárias, artísticas e monumentais, não saberíamos absolutamente nada de real sobre esse passado. Conhecemos nós uma só palavra verdadeira acerca da vida dos grandes homens que desempenharam os papéis preponderantes na humanidade, tais como Hércules, Buda, Jesus ou Maomé? Muito provavelmente não. No fundo, aliás, a sua vida real importa-nos muito pouco. O que nos interessa conhecer são os grandes homens tais como a lenda popular os fabricou. São os heróis lendários, e de modo nenhum os heróis reais, que impressionaram a alma das multidões.

Infelizmente as lendas — mesmo quando fixadas pelos livros — não têm elas mesmas qualquer consistência. A imaginação das multidões transforma-as sem cessar segundo os tempos, e sobretudo segundo as raças. Há uma grande distância do Jeová sanguinário da Bíblia ao Deus de amor de Santa Teresa, e o Buda adorado na China já não tem quaisquer traços comuns com aquele que é venerado na Índia.

Nem sequer é preciso que os séculos tenham passado sobre os heróis para que a sua lenda seja transformada pela imaginação das multidões. A transformação faz-se por vezes em poucos anos. Vimos nos nossos dias a lenda de um dos maiores heróis da história modificar-se várias vezes em menos de cinquenta anos. Sob os Bourbons, Napoleão tornou-se uma espécie de personagem idílica, filantropa e liberal, amigo dos humildes, que, segundo os poetas, devia conservar a sua memória sob a palha durante muito tempo. Trinta anos depois, o herói bonacheirão tornara-se um déspota sanguinário que, depois de ter usurpado o poder e a liberdade, fez perecer três milhões de homens unicamente para satisfazer a sua ambição. Nos nossos dias, assistimos a uma nova transformação da lenda. Quando algumas dezenas de séculos tiverem passado sobre ela, os sábios do futuro, perante estes relatos contraditórios, duvidarão talvez da existência do herói, como por vezes duvidam da de Buda, e não verão nele senão algum mito solar ou um desenvolvimento da lenda de Hércules. Consolar-se-ão facilmente, sem dúvida, desta incerteza, pois, melhor iniciados do que hoje no conhecimento da psicologia das multidões, saberão que a história mal pode eternizar senão mitos.

§ 3. — EXAGERAÇÃO E SIMPLISMO DOS SENTIMENTOS DAS MULTIDÕES

Quaisquer que sejam os sentimentos, bons ou maus, manifestados por uma multidão, apresentam este duplo carácter de serem muito simples e muito exagerados. Neste ponto, como em tantos outros, o indivíduo em multidão aproxima-se dos seres primitivos. Inacessível às nuances, vê as coisas em bloco e não conhece as transições. Na multidão, a exageração dos sentimentos é reforçada por este facto: um sentimento manifestado propaga-se muito depressa por via de sugestão e de contágio, e a aprovação evidente de que é objecto aumenta consideravelmente a sua força.

A simplicidade e a exageração dos sentimentos das multidões fazem com que estas não conheçam nem a dúvida nem a incerteza. Como as mulheres, vão logo aos extremos. A suspeita enunciada transforma-se imediatamente em evidência indiscutível. Um começo de antipatia ou de desaprovação, que no indivíduo isolado não se acentuaria, torna-se imediatamente ódio feroz no indivíduo em multidão.

A violência dos sentimentos das multidões é ainda exagerada, sobretudo nas multidões heterogéneas, pela ausência de responsabilidade. A certeza da impunidade, certeza tanto mais forte quanto maior for a multidão, e a noção de uma potência momentânea considerável devida ao número, tornam possíveis à colectividade sentimentos e actos impossíveis ao indivíduo isolado. Nas multidões, o imbecil, o ignorante e o invejoso libertam-se do sentimento da sua nulidade e da sua impotência, que é substituído pela noção de uma força brutal, passageira, mas imensa.

A exageração, nas multidões, incide infelizmente muitas vezes sobre maus sentimentos, resíduo atávico dos instintos do homem primitivo, que o medo do castigo obriga o indivíduo isolado e responsável a refrear. É isso que faz com que as multidões sejam tão facilmente levadas aos piores excessos.

Não é contudo que, suggestionadas habilmente, as multidões não sejam capazes de heroísmo, de devoção e de virtudes muito elevadas. São mesmo mais capazes disso do que o indivíduo isolado. Teremos em breve ocasião de voltar a este ponto ao estudar a moralidade das multidões.

Exagerada nos seus sentimentos, a multidão só é impressionada por sentimentos excessivos. O orador que quer seduzi-la deve abusar das afirmações violentas. Exagerar, afirmar, repetir, e nunca tentar demonstrar nada por um raciocínio, são processos de argumentação bem conhecidos dos oradores das reuniões populares.

A multidão quer ainda a mesma exageração nos sentimentos dos seus heróis. As suas qualidades e virtudes aparentes devem sempre ser ampliadas. Observou-se muito justamente que no teatro a multidão exige do herói da peça qualidades de coragem, de moralidade, de virtude que nunca são praticadas na vida.

Falou-se com razão da óptica especial do teatro. Existe uma, sem dúvida, mas as suas regras na maioria das vezes nada têm a ver com o bom senso e a lógica. A arte de falar às multidões é de ordem inferior, sem dúvida, mas exige aptidões todas especiais. É muitas vezes impossível explicar pela leitura o sucesso de certas peças. Os directores de teatro, quando as recebem, estão eles próprios na maioria das vezes muito incertos do êxito, porque, para julgar, seria preciso que se pudessem transformar em multidão. Aqui também, se pudéssemos entrar em desenvolvimentos, mostraríamos a influência preponderante da raça. A peça de teatro que entusiasma a multidão num país por vezes não tem qualquer sucesso noutro, ou só tem um sucesso de estima e de convenção, porque não põe em jogo os resortes capazes de emocionar o seu novo público.

Não preciso de acrescentar que a exageração das multidões incide apenas nos sentimentos, e de modo nenhum na inteligência. Já mostrei que, pelo simples facto de o indivíduo estar em multidão, o seu nível intelectual baixa imediatamente e consideravelmente. É o que um magistrado erudito, o Sr. Tarde, constatou igualmente nas suas pesquisas sobre os crimes das multidões. Não é pois senão na ordem do sentimento que as multidões podem subir muito alto ou descer, pelo contrário, muito baixo.

§ 4. — INTOLERÂNCIA, AUTORITARISMO E CONSERVADORISMO DAS MULTIDÕES

As multidões, não conhecendo senão sentimentos simples e extremos, as opiniões, ideias e crenças que lhes são sugeridas são aceites ou rejeitadas por elas em bloco, e consideradas como verdades absolutas ou erros não menos absolutos. É sempre assim com as crenças determinadas por via de sugestão, em vez de terem sido geradas por via de raciocínio. Toda a gente sabe quão intolerantes são as crenças religiosas e que império despótico exercem sobre as almas.

Não tendo qualquer dúvida sobre o que é verdade ou erro e tendo por outro lado a noção clara da sua força, a multidão é tão autoritária como intolerante. O indivíduo pode suportar a contradição e a discussão, a multidão nunca as suporta. Nas reuniões públicas, a mais leve contradição da parte de um orador é imediatamente acolhida por uivos de fúria e violentas invectivas, depressa seguidas de vias de facto e de expulsão, se o orador insistir. Sem a presença inquietante dos agentes da autoridade, o contraditor seria mesmo frequentemente massacrado.

O autoritarismo e a intolerância são gerais em todas as categorias de multidões, mas apresentam-se nelas em graus muito diversos; e aqui reaparece novamente a noção fundamental da raça, dominadora de todos os sentimentos e de todos os pensamentos dos homens. É sobretudo nas multidões latinas que o autoritarismo e a intolerância estão desenvolvidos num alto grau. Estão-no a ponto de terem destruído inteiramente esse sentimento da independência individual tão poderoso no anglo-saxão. As multidões latinas só são sensíveis à independência colectiva da seita a que pertencem, e a característica dessa independência é a necessidade de subjugar imediatamente e violentamente aos seus credos todos os dissidentes. Nos povos latinos, os jacobinos de todas as idades, desde os da Inquisição, nunca puderam elevar-se a outra concepção da liberdade.

O autoritarismo e a intolerância são para as multidões sentimentos muito claros, que concebem facilmente e aceitam tão facilmente quanto os praticam, desde que lhos imponham. As multidões respeitam docilmente a força e são mediocremente impressionadas pela bondade, que para elas não é senão uma forma da fraqueza. As suas simpatias nunca foram para os mestres bonacheirões, mas para os tiranos que as esmagaram vigorosamente. É sempre a estes últimos que erguem as estátuas mais altas. Se pisam de bom grado o déspota derrubado, é porque, tendo perdido a sua força, entra na categoria dos fracos que se desprezam porque não se temem. O tipo do herói querido das multidões terá sempre a estrutura de um César. O seu penacho seduz-as, a sua autoridade impõe-se-lhes e o seu sabre mete-lhes medo.

Sempre pronta a sublevar-se contra uma autoridade fraca, a multidão curva-se com servidão perante uma autoridade forte. Se a força da autoridade for intermitente, a multidão, obedecendo sempre aos seus sentimentos extremos, passa alternadamente da anarquia à servidão, e da servidão à anarquia.

Seria aliás desconhecer profundamente a psicologia das multidões acreditar na predominância dos seus instintos revolucionários. Só as suas violências nos iludem neste ponto. As suas explosões de revolta e de destruição são sempre muito efémeras. As multidões são demasiado regidas pelo inconsciente, e demasiado submetidas por consequência à influência de hereditariedades seculares, para não serem extremamente conservadoras. Abandonadas a si próprias, depressa se cansam dos seus desregramentos e dirigem-se instintivamente para a servidão. Foram os mais orgulhosos e os mais intratáveis dos jacobinos que aclamaram com mais energia Bonaparte, quando este suprimiu todas as liberdades e fez sentir duramente a sua mão de ferro.

É difícil compreender a história, sobretudo a das revoluções populares, quando não se percebe bem os instintos profundamente conservadores das multidões. Elas querem bem mudar os nomes das suas instituições, e por vezes até realizam revoluções violentas para obter essas mudanças; mas o fundo dessas instituições é demasiado a expressão das necessidades hereditárias da raça para que não voltem sempre a elas. A sua mobilidade incessante só incide sobre coisas completamente superficiais. De facto, têm instintos conservadores tão irredutíveis como os de todos os primitivos. O seu respeito fetichista pelas tradições é absoluto, o seu horror inconsciente por todas as novidades capazes de mudar as suas condições reais de existência é completamente profundo. Se as democracias tivessem possuído o poder que têm hoje na época em que foram inventados os ofícios mecânicos, o vapor e os caminhos-de-ferro, a realização dessas invenções teria sido impossível, ou só o teria sido ao preço de revoluções e massacres repetidos. É feliz, para os progressos da civilização, que o poder das multidões só tenha começado a nascer quando as grandes descobertas da ciência e da indústria já estavam realizadas.

§ 5. — MORALIDADE DAS MULTIDÕES

Se tomarmos a palavra moralidade no sentido de respeito constante de certas convenções sociais e de repressão permanente dos impulsos egoístas, é bem evidente que as multidões são demasiado impulsivas e demasiado móveis para serem susceptíveis de moralidade. Mas se, no termo moralidade, fizermos entrar o aparecimento momentâneo de certas qualidades tais como a abnegação, a devoção, o desinteresse, o sacrifício de si mesmo, a necessidade de equidade, podemos dizer que as multidões são pelo contrário por vezes susceptíveis de uma moralidade muito elevada.

Os raros psicólogos que estudaram as multidões só as consideraram do ponto de vista dos seus actos criminosos; e, vendo até que ponto esses actos são frequentes, consideraram-nas como tendo um nível moral muito baixo.

Sem dúvida é muitas vezes assim: mas porquê? Simplesmente porque os instintos de ferocidade destrutiva são resíduos das idades primitivas que dormem no fundo de cada um de nós. Na vida do indivíduo isolado, seria perigoso satisfazê-los, enquanto a sua absorção numa multidão irresponsável, e onde por consequência a impunidade é assegurada, lhe dá toda a liberdade para os seguir. Não podendo exercer habitualmente esses instintos destrutivos sobre os nossos semelhantes, limitamo-nos a exercê-los sobre os animais. É da mesma fonte que derivam a paixão tão geral pela caça e os actos de ferocidade das multidões. A multidão que esquarteja lentamente uma vítima sem defesa dá prova de uma ferocidade muito cobarde; mas, para o filósofo, esta ferocidade está bem próxima da dos caçadores que se reúnem aos pares para terem o prazer de assistir à perseguição e ao esventramento de um infeliz cervo pelos seus cães.

Se a multidão é capaz de assassínio, de incêndio e de toda a sorte de crimes, é igualmente capaz de actos de devoção, de sacrifício e de desinteresse muito elevados, muito mais elevados mesmo do que aqueles de que é capaz o indivíduo isolado. É sobretudo sobre o indivíduo em multidão que se actua, e muitas vezes até ao sacrifício da vida, invocando sentimentos de glória, de honra, de religião e de pátria. A história está cheia de exemplos análogos aos das cruzadas e dos voluntários de 93. Só as colectividades são capazes de grandes desinteresses e de grandes devoções. Quantas multidões se fizeram massacrar heroicamente por crenças, ideias e palavras que mal compreendiam. As multidões que fazem greves fazem-nas muito mais para obedecer a uma palavra de ordem do que para obter um aumento do magro salário de que se contentam. O interesse pessoal é raramente um móvel poderoso nas multidões, enquanto é o móvel quase exclusivo do indivíduo isolado. Certamente não foi o interesse que guiou as multidões em tantas guerras, na maioria das vezes incompreensíveis para a sua inteligência, e em que se deixaram massacrar tão facilmente como as cotovias hipnotizadas pelo espelho que o caçador maneja.

Mesmo para os perfeitos patifes, acontece muito frequentemente que o simples facto de estarem reunidos em multidão lhes dá momentaneamente princípios de moralidade muito estritos. Taine observa que os massacradores de Setembro vinham depositar na mesa dos comités as carteiras e as joias que encontravam nas suas vítimas, e que poderiam facilmente roubar. A multidão ululante, agitada e miserável que invadiu as Tulherias durante a Revolução de 1848 não se apoderou de nenhum dos objectos que a deslumbraram e de que um só teria representado pão para muitos dias.

Esta moralização do indivíduo pela multidão não é certamente uma regra constante, mas é uma regra que se observa frequentemente. Observa-se mesmo em circunstâncias muito menos graves do que as que citei. Já disse que no teatro a multidão quer no herói da peça virtudes exageradas, e é de observação banal que uma assistência, mesmo composta de elementos inferiores, se mostra geralmente muito pudica. O boémio profissional, o alcoviteiro, o vadia debochado murmuram muitas vezes diante de uma cena um pouco ousada ou de uma conversa leve, contudo muito anódina junto das suas conversas habituais.

Portanto, se as multidões se entregam muitas vezes a baixos instintos, dão também por vezes o exemplo de actos de moralidade elevados. Se o desinteresse, a resignação, a devoção absoluta a um ideal quimérico ou real são virtudes morais, pode-se dizer que as multidões possuem muitas vezes essas virtudes num grau que os mais sábios dos filósofos raramente atingiram. Praticam-nas sem dúvida inconscientemente, mas que importa. Não nos lamentemos demasiado que as multidões sejam guiadas sobretudo pelo inconsciente, e que raciocinem pouco. Se raciocinassem por vezes e consultassem os seus interesses imediatos, talvez nenhuma civilização se tivesse desenvolvido à superfície do nosso planeta, e a humanidade não teria história.

CAPÍTULO III
Ideias, raciocínios e imaginação das multidões

§ 1. As ideias das multidões. — As ideias fundamentais e as ideias acessórias. — Como podem coexistir simultaneamente ideias contraditórias. — Transformações que as ideias superiores devem sofrer para serem acessíveis às multidões. — O papel social das ideias é independente da parte de verdade que podem conter. — § 2. Os raciocínios das multidões. — As multidões não são influenciáveis por raciocínios. — Os raciocínios das multidões são sempre de ordem muito inferior. — As ideias que associam não têm senão aparências de analogia ou de sucessão. — § 3. A imaginação das multidões. — Potência da imaginação das multidões. — Pensam por imagens, e essas imagens sucedem-se sem qualquer ligação. — As multidões são impressionadas sobretudo pelo lado maravilhoso das coisas. — O maravilhoso e o lendário são os verdadeiros suportes das civilizações. — A imaginação popular foi sempre a base do poder dos homens de Estado. — Como se apresentam os factos capazes de impressionar a imaginação das multidões.

§ 1. — AS IDEIAS DAS MULTIDÕES

Estudando na nossa obra anterior o papel das ideias na evolução dos povos, mostramos que cada civilização deriva de um pequeno número de ideias fundamentais muito raramente renovadas. Explicámos como essas ideias se estabelecem na alma das multidões; com que dificuldade aí penetram, e o poder que possuem quando aí penetraram. Vimos finalmente como as grandes perturbações históricas derivam o mais das vezes das mudanças dessas ideias fundamentais.

Tendo tratado suficientemente este assunto, não voltarei a ele agora e limitar-me-ei a dizer algumas palavras das ideias acessíveis às multidões e sob que formas estas as concebem.

Pode-se dividi-las em duas classes. Numa colocaremos as ideias acidentais e passageiras criadas sob influências do momento: o entusiasmo por um indivíduo ou uma doutrina, por exemplo. Na outra, as ideias fundamentais a que o meio, a hereditariedade, a opinião dão uma estabilidade muito grande: tais como as crenças religiosas outrora, as ideias democráticas e sociais hoje.

As ideias fundamentais poderiam ser figuradas pela massa das águas de um rio desenrolando lentamente o seu curso; as ideias passageiras pelas pequenas vagas, sempre cambiantes, que agitam a sua superfície, e que, embora sem importância real, são mais visíveis do que a marcha do próprio rio.

Nos nossos dias, as grandes ideias fundamentais de que viveram os nossos pais estão cada vez mais vacilantes. Perderam toda a solidez, e, ao mesmo tempo, as instituições que repousavam sobre elas se viram profundamente abaladas. Formam-se diariamente muitas dessas pequenas ideias transitórias de que falei há pouco; mas muito poucas delas parecem visivelmente crescer e dever adquirir uma influência preponderante.

Quaisquer que sejam as ideias sugeridas às multidões, só podem tornar-se dominantes com a condição de revestirem uma forma muito absoluta e muito simples. Apresentam-se então sob o aspecto de imagens, e só são acessíveis às massas sob essa forma. Essas ideias-imagens não estão ligadas entre si por qualquer laço lógico de analogia ou de sucessão, e podem substituir-se umas às outras como os vidros da lanterna mágica que o operador retira da caixa onde estavam sobrepostos. É por isso que se pode ver nas multidões coexistirem lado a lado as ideias mais contraditórias. Segundo os acasos do momento, a multidão estará sob a influência de uma das diversas ideias armazenadas no seu entendimento, e poderá por conseguinte cometer os actos mais dissemelhantes. A sua ausência completa de espírito crítico não lhe permite aperceber as contradições.

Não é um fenómeno especial às multidões; observa-se em muitos indivíduos isolados, não só entre os seres primitivos, mas em todos aqueles que por algum lado do seu espírito — os sectários de uma fé religiosa intensa, por exemplo — se aproximam dos primitivos. Observei-o num grau curioso em hindus letrados, educados nas nossas universidades europeias, e tendo obtido todos os diplomas. Sobre o seu fundo imutável de ideias religiosas ou sociais hereditárias sobrepusera-se, sem as alterar de modo nenhum, um fundo de ideias ocidentais sem parentesco com as primeiras. Segundo os acasos do momento, umas ou outras apareciam com o seu séquito especial de actos ou de discursos, e o mesmo indivíduo apresentava assim as contradições mais flagrantes. Contradições, aliás, mais aparentes do que reais, pois só as ideias hereditárias são suficientemente poderosas no indivíduo isolado para se tornarem móveis de conduta. Só quando, por cruzamentos, o homem se encontra entre impulsos de hereditariedades diferentes é que os actos podem ser realmente de um momento para o outro completamente contraditórios. Seria inútil insistir aqui nestes fenómenos, embora a sua importância psicológica seja capital. Considero que são precisos pelo menos dez anos de viagens e observações para chegar a compreendê-los.

As ideias não sendo acessíveis às multidões senão depois de terem revestido uma forma muito simples, devem, para se tornarem populares, sofrer muitas vezes as transformações mais completas. É sobretudo quando se trata de ideias filosóficas ou científicas um pouco elevadas que se pode constatar a profundidade das modificações que lhes são necessárias para descerem de camada em camada até ao nível das multidões. Essas modificações dependem das categorias das multidões ou da raça a que essas multidões pertencem; mas são sempre redutoras e simplificadoras. É por isso que, do ponto de vista social, não há praticamente hierarquia das ideias, isto é, de ideias mais ou menos elevadas. Pelo simples facto de uma ideia chegar às multidões e poder agir, por maior ou mais verdadeira que tenha sido na sua origem, é despojada de quase tudo o que fazia a sua elevação e a sua grandeza.

Aliás, do ponto de vista social, o valor hierárquico de uma ideia é sem importância. O que é preciso considerar são os efeitos que produz. As ideias cristãs da Idade Média, as ideias democráticas do século passado, as ideias sociais de hoje, não são certamente muito elevadas. Filosoficamente, não se podem considerar senão como erros bastante pobres; e contudo o seu papel foi e será imenso, e contarão durante muito tempo entre os factores mais essenciais da conduta dos Estados.

Mesmo quando a ideia sofreu as transformações que a tornam acessível às multidões, só age quando, por processos diversos que serão estudados noutro lugar, penetrou no inconsciente e se tornou um sentimento, o que é sempre muito demorado.

Não se deve acreditar, com efeito, que é simplesmente porque a justeza de uma ideia é demonstrada que ela pode produzir os seus efeitos, mesmo nos espíritos cultivados. Percebe-se depressa isso vendo quanta pouca influência tem a demonstração mais clara sobre a maioria dos homens. A evidência, se for fulgurante, poderá ser reconhecida por um ouvinte instruído; mas este novo convertido será depressa reconduzido pelo seu inconsciente às suas concepções primitivas. Reveja-o ao cabo de alguns dias, e ele servir-lhe-á novamente os seus antigos argumentos, exactamente nos mesmos termos. Está, com efeito, sob a influência de ideias anteriores tornadas sentimentos; e são só estas que actuam sobre os móveis profundos dos nossos actos e dos nossos discursos. Não pode ser de outro modo com as multidões.

Mas quando, por processos diversos, uma ideia acaba por penetrar na alma das multidões, possui uma potência irresistível e desenrola toda uma série de efeitos que é preciso sofrer. As ideias filosóficas que conduziram à Revolução francesa levaram perto de um século a implantar-se na alma das multidões. Conhece-se a sua força irresistível quando aí se estabeleceram. O ímpeto de um povo inteiro para a conquista da igualdade social, para a realização de direitos abstractos e de liberdades ideais, fez vacilar todos os tronos e abalou profundamente o mundo ocidental. Durante vinte anos os povos precipitaram-se uns sobre os outros, e a Europa conheceu hecatombes que teriam aterrorizado Gengis Khan e Tamerlão. Nunca o mundo viu a tal ponto o que pode produzir o desencadeamento de uma ideia.

É preciso muito tempo às ideias para se estabelecerem na alma das multidões, mas não lhes é preciso menos tempo para de lá saírem. Assim as multidões estão sempre, do ponto de vista das ideias, atrasadas várias gerações em relação aos sábios e aos filósofos. Todos os homens de Estado sabem hoje o que contêm de erróneo as ideias fundamentais que citei há pouco, mas como a sua influência é ainda muito poderosa, são obrigados a governar segundo princípios cuja verdade já não acreditam.

§ 2. — OS RACIOCÍNIOS DAS MULTIDÕES

Não se pode dizer de uma forma absolutamente absoluta que as multidões não raciocinam e não são influenciáveis por raciocínios. Mas os argumentos que empregam e os que podem actuar sobre elas são, do ponto de vista lógico, de uma ordem tão inferior que só por analogia se podem qualificar de raciocínios.

Os raciocínios inferiores das multidões são, como os raciocínios elevados, baseados em associações; mas as ideias associadas pelas multidões não têm entre si senão laços aparentes de analogia ou de sucessão. Encadeiam-se como as do esquimó que, sabendo por experiência que o gelo, corpo transparente, se derrete na boca, conclui que o vidro, corpo igualmente transparente, deve derreter-se também na boca; ou as do selvagem que se figura que comendo o coração de um inimigo corajoso adquire a sua bravura; ou ainda do operário que, tendo sido explorado por um patrão, conclui imediatamente que todos os patrões são exploradores.

Associação de coisas dissemelhantes, não tendo entre si senão relações aparentes, e generalização imediata de casos particulares, tais são as características dos raciocínios das multidões. São raciocínios desta ordem que sempre lhes apresentam aqueles que sabem manejá-las; são os únicos que podem influenciá-las. Uma cadeia de raciocínios lógicos é totalmente incompreensível para as multidões, e é por isso que se pode dizer que não raciocinam ou raciocinam mal, e não são influenciáveis por um raciocínio. Fica-se por vezes espantado, na leitura, com a fraqueza de certos discursos que tiveram contudo uma influência enorme sobre as multidões que os escutavam; mas esquece-se que foram feitos para arrastar colectividades, e não para serem lidos por filósofos. O orador, em comunicação íntima com a multidão, sabe evocar as imagens que a seduzem. Se conseguir, o seu objectivo está atingido; e vinte volumes de arengas — sempre fabricadas a posteriori — não valem as poucas frases que chegaram aos cérebros que era preciso convencer.

Seria supérfluo acrescentar que a impotência das multidões para raciocinar correctamente impede-as de ter qualquer traço de espírito crítico, isto é, de serem aptas a discernir a verdade do erro, a emitir um juízo preciso sobre seja o que for. Os juízos que as multidões aceitam não são senão juízos impostos e nunca juízos discutidos. Neste ponto de vista, numerosos são os homens que não se elevam acima da multidão. A facilidade com que certas opiniões se tornam gerais deve-se sobretudo à impossibilidade em que a maioria dos homens se encontra de formar uma opinião particular baseada nos seus próprios raciocínios.

§ 3. — A IMAGINAÇÃO DAS MULTIDÕES

Do mesmo modo que para os seres em que o raciocínio não intervém, a imaginação representativa das multidões é muito poderosa, muito activa, e susceptível de ser vivamente impressionada. As imagens evocadas no seu espírito por uma personagem, um acontecimento, um acidente, têm quase a vivacidade das coisas reais. As multidões estão um pouco no caso do dorminhoco cuja razão, momentaneamente suspensa, deixa surgir no espírito imagens de uma intensidade extrema, mas que se dissipariam depressa se pudessem ser submetidas à reflexão. As multidões, não sendo capazes nem de reflexão nem de raciocínio, não conhecem o inverosímil: ora são as coisas mais inverosímeis que geralmente são as mais impressionantes.

É por isso que são sempre os lados maravilhoso e lendário dos acontecimentos que mais impressionam as multidões. Quando se analisa uma civilização, vê-se que é, na realidade, o maravilhoso e o lendário que são os seus verdadeiros suportes. Na história, a aparência sempre desempenhou um papel muito mais importante do que a realidade. O irreal aí predomina sempre sobre o real.

As multidões, não podendo pensar senão por imagens, só se deixam impressionar por imagens. Só as imagens as aterrorizam ou as seduzem, e tornam-se móveis de acção.

Por isso as representações teatrais, que dão a imagem na sua forma mais nitidamente visível, têm sempre uma enorme influência sobre as multidões. Pão e espectáculos constituíam outrora para a plebe romana o ideal da felicidade, e ela não pedia mais nada. Ao longo dos séculos este ideal pouco variou. Nada impressiona mais a imaginação das multidões de todas as categorias do que as representações teatrais. Toda a sala experimenta ao mesmo tempo as mesmas emoções, e se essas emoções não se transformam imediatamente em actos, é porque o espectador mais inconsciente não pode ignorar que é vítima de ilusões, e que riu ou chorou por aventuras imaginárias. Por vezes contudo os sentimentos sugeridos pelas imagens são tão fortes que tendem, como as sugestões habituais, a transformar-se em actos. Contou-se muitas vezes a história desse teatro popular que, só representando dramas sombrios, era obrigado a fazer proteger à saída o actor que representava o traidor, para o subtrair às violências dos espectadores indignados dos crimes, contudo imaginários, que esse traidor cometera. É aí, creio, um dos indícios mais notáveis do estado mental das multidões, e sobretudo da facilidade com que se suggestionam. O irreal tem quase tanta acção sobre elas como o real. Têm uma tendência evidente a não os diferenciar.

É sobre a imaginação popular que se funda o poder dos conquistadores e a força dos Estados. É sobretudo actuando sobre ela que se arrastam as multidões. Todos os grandes factos históricos, a criação do Budismo, do Cristianismo, do Islamismo, a Reforma, a Revolução, e, nos nossos dias, a invasão ameaçadora do Socialismo, são consequências directas ou longínquas de impressões fortes produzidas na imaginação das multidões.

Assim, todos os grandes homens de Estado de todas as idades e de todos os países, incluindo os mais absolutos déspotas, consideraram a imaginação popular como a base do seu poder, e nunca tentaram governar contra ela. «Foi fazendo-me católico», dizia Napoleão ao Conselho de Estado, «que acabei a guerra da Vendéia; fazendo-me muçulmano que me estabeleci no Egipto, fazendo-me ultramontano que ganhei os padres em Itália. Se governasse um povo de judeus, restabeleceria o templo de Salomão.» Talvez nunca, desde Alexandre e César, nenhum grande homem tenha sabido melhor como a imaginação das multidões deve ser impressionada. A sua preocupação constante foi impressioná-la. Pensava nisso nas suas vitórias, nas suas arengas, nos seus discursos, em todos os seus actos. No seu leito de morte ainda nisso pensava.

Como se impressiona a imaginação das multidões? Veremos em breve. Limitamo-nos por agora a dizer que nunca é tentando actuar sobre a inteligência e a razão, isto é, por via de demonstração. Não foi por meio de uma retórica sábia que António conseguiu amotinar o povo contra os assassinos de César. Foi lendo-lhe o testamento e mostrando-lhe o cadáver.

Tudo o que impressiona a imaginação das multidões apresenta-se sob a forma de uma imagem impressionante e bem nítida, desligada de toda a interpretação acessória, ou não tendo outro acompanhamento senão alguns factos maravilhosos ou misteriosos: uma grande vitória, um grande milagre, um grande crime, uma grande esperança. É preciso apresentar as coisas em bloco, e nunca indicar a sua génese. Cem pequenos crimes ou cem pequenos acidentes não impressionarão de modo nenhum a imaginação das multidões; enquanto um só grande crime, um só grande acidente as impressionará profundamente, mesmo com resultados infinitamente menos mortíferos do que os cem pequenos acidentes reunidos. A epidemia de gripe que, há poucos anos, fez perecer, só em Paris, 5.000 pessoas em algumas semanas, impressionou muito pouco a imaginação popular. Esta verdadeira hecatombe não se traduzia, com efeito, por alguma imagem visível, mas só pelas indicações semanais da estatística. Um acidente que, em vez dessas 5.000 pessoas, tivesse feito perecer só 500, mas no mesmo dia, numa praça pública, por um acidente bem visível, a queda da torre Eiffel, por exemplo, teria pelo contrário produzido na imaginação uma impressão imensa. A perda provável de um transatlântico que se supunha, por falta de notícias, afundado em alto mar, impressionou profundamente durante oito dias a imaginação das multidões. Ora as estatísticas oficiais mostram que só no ano de 1894 se perderam 850 navios à vela e 208 a vapor. Mas destas perdas sucessivas, muito mais importantes como destruição de vidas e de mercadorias do que poderia ter sido a do transatlântico em questão, as multidões não se preocuparam um só instante.

Não são pois os factos em si que impressionam a imaginação popular, mas bem a maneira como são apresentados e repartidos. É preciso que pela sua condensação, se me posso exprimir assim, produzam uma imagem impressionante que encha e obsede o espírito. Quem conhece a arte de impressionar a imaginação das multidões conhece também a arte de as governar.