Algumas Diferenças entre a Cidade Mediterrânea e a Cidade do Sul da China

A distinção, numa cidade litoral mediterrânea, entre zonas baixas de ruelas e praças e zonas altas de palácios (equivalentes ao agora e acrópole gregas) é também observável nas cidades litorais do sul da China? Sim, mas com algumas nuances. Mário Duarte Duque, numa entrevista ao canal de televisão de Macau, a TDM, dá algumas indicações de como essa distinção se processa, e também como em Macau e em parte na antiga Hong Kong, menos bem preservada, se mantém um traçado arquitectónico e de planeamento urbano muito semelhante às origens europeias e distintas das suas congéneres do sul da china. Essas cidades mantêm assim um aspecto análogo, não de forma idêntica ou tão sistemática, ao modelo mediterrânico clássico, mas com paralelos notáveis em algumas cidades costeiras do sul da China, especialmente em contextos históricos de defesa e topografia.

Modelo Mediterrânico (para contexto)

Nas cidades litorais gregas/romanas (ex.: Atenas), a distinção é clara e funcional:

  • Zona baixa (agora): Área comercial, cívica e popular com ruelas, praças, mercados e habitações.
  • Zona alta (acrópole): Citadela elevada, defensiva e simbólica, com templos, palácios ou estruturas administrativas/religiosas. A elevação proporciona defesa, visibilidade e prestígio.

Isso reflete não só uma topografia acidentada (colinas), a nível basilar, mas também necessidades defensivas e separação entre funções cívicas/religiosas e comerciais.

Nas cidades costeiras do sul da China (ex.: Quanzhou, Xiamen, Guangzhou, Fuzhou)

A China imperial tinha um planeamento urbano mais padronizado (muralhas quadrangulares ou retangulares, eixo norte-sul, influência cosmológica), mas a topografia montanhosa/húmida do sul (colinas, deltas fluviais e costa irregular) gerou variações. Não havia exatamente uma “acrópole grega” universal, mas cidadelas elevadas (citadel/acropolis type) existiam, especialmente em portos e zonas de defesa costeira.

  • Exemplos claros de distinção elevada/baixo:
    • Quanzhou (Fujian), importante porto marítimo histórico (Rota da Seda Marítima): Tinha estruturas como a Ancient Acropolis de Yongning (construída na dinastia Ming, ~1387, para defesa contra piratas japoneses — wokou). Era uma cidadela fortificada elevada/estratégica com muralhas, ruas em grelha, templos (Pujing) e funções administrativas/militares no topo ou centro elevado, enquanto o porto e áreas comerciais ficavam nas zonas baixas junto ao mar/rio. A cidade velha combinava bairros baixos densos com elementos elevados defensivos.
    • Outras “acrópoles” ou cidadelas Ming/Qing em Fujian/Guangdong serviam propósitos militares e administrativos em posições elevadas para vigilância costeira.
  • Guangzhou (Cantão) e delta do Rio das Pérolas: A cidade cresceu em planícies aluviais e áreas ribeirinhas baixas (com ruelas comerciais históricas como Xiguan), mas templos e estruturas administrativas/antigas ocupavam colinas ou posições mais altas para drenagem, defesa e simbolismo. A evolução urbana mostra expansão de núcleos elevados para baixos planos.
  • Xiamen/Gulangyu e Fuzhou: Topografia com colinas e ilhas leva a templos (ex.: Nanputuo) e construções antigas em encostas mais altas, enquanto o comércio e habitações populares ficam nas zonas baixas/portuárias. Gulangyu tem mistura colonial em terrenos variados.

Diferenças chave em relação ao Mediterrâneo

  • Menos polarização simbólica: Na China, templos e palácios/administração seguiam princípios feng shui e eixos cardeais, não necessariamente “alto = sagrado/defensivo” de forma rígida como na Grécia. Muitos centros eram planos ou murados uniformemente.
  • Foco em muralhas e água: Cidades chinesas costeiras enfatizavam muralhas completas, canais e portos. As “zonas altas” eram mais cidadelas militares (suo ou wei) do que acrópoles religiosas permanentes.
  • Evolução prática: No sul húmido e comercial, as cidades portuárias priorizavam acesso ao mar/rios (zonas baixas densas) com elementos elevados para proteção contra inundações, piratas ou ventos. Muitos “palácios” ou mansões de elite ficavam em colinas por ventilação e status.5

Em resumo, observa-se uma distinção semelhante em várias cidades litorais do sul da China, impulsionada pela topografia (colinas costeiras) e necessidades defensivas/comerciais — com zonas baixas mais densas e comerciais, e elevações com estruturas administrativas, templos ou fortificações. Não é tão universal ou icónico como o par agora-acrópole, mas é visível em portos históricos como Quanzhou. A urbanização moderna diluiu muito disso em megacidades planas. Para ver exemplos concretos, visite o centro histórico de Quanzhou ou colinas de Xiamen.