A palavra «inovação» espalhou-se bastante nos últimos 20 anos. Cruzamo-nos com ela nos debates políticos, nos jornais, na televisão, nos livros, etc. Poderíamos imaginar que ela surgiu de forma natural para substituir a palavra «progresso», como uma simples evolução da língua. Ou seja, que «inovação» seria apenas uma versão modernizada do conceito de progresso, e nada mais… Seria esquecer que a relação com as palavras não é a mesma que temos com uma ferramenta. Acostumados à comunicação moderna, tendemos a esquecer que, desde sempre, o ser humano mantém uma relação poética com a língua : somos falados pela língua mais do que falamos a língua. Por isso, essa substituição merece ser examinada com atenção. Palavras nunca são inocentes, e qualquer aparição, mudança ou desaparecimento tem um significado.
O que acontece então com as palavras «inovação» e «progresso»? Uma coisa interessante é que, ao contrário do que pensamos, «inovação» não é, de todo, uma palavra recente! Surgiu no século XIV, em baixo-latim. Na altura, ela tinha um uso jurídico específico e designava o que acrescentamos a um contrato já assinado para mantê-lo válido — ou seja, um aditamento contratual. Assim, «inovatio» em baixo-latim significava algo que permite preservar um contrato mesmo após uma modificação. Aliás, o latim «innovare» significa «voltar a», «restaurar». Ou seja, a origem da nossa palavra «inovação» tem etimologicamente a ideia de manter, de conservar. Como sinônimo de «progresso», já fica estranho…
No século XVI, o uso da palavra se expandiu para além do campo jurídico. Podemos encontrá-la muitas vezes na obra do filósofo e político italiano Maquiavel O Príncipe (escrito em 1513 e publicado em 1532). Como a palavra caiu em desuso por um tempo e só reapareceu recentemente, a maioria das traduções de O Príncipe não usaram «inovação», preferindo termos como «câmbio», «modificação» ou «novo». etc. Mas o texto italiano, ele, está cheio de palavras como «innovazioni», «innovatori», «innovare», «innovando». O que é que o filósofo diz a respeito da inovação? No capítulo 6 e 25, Maquiavel fala da inovação como uma ferramenta tanto útil como perigosa. Com efeito, ele avisa o príncipe que a inovação pode criar instabilidade num país, mas que quando a autoridade do governo está em perigo, a inovação pode ser útil para conservar e manter o seu poder. Novamente, vemos que a retórica da inovação está associada à ideia de conservação.
Em 1625, a palavra «inovação» foi usada pela primeira vez em relação à técnica, no ensaio político e moral do filósofo Francis Bacon. Bacon diz que o tempo é corruptor: deteriora a vida dos homens e o mundo; as forças más estragam o mundo, e a única maneira de impedir esta degradação é por meio da inovação. É impressionante como, ao retirar do discurso de Bacon sua dimensão moral e religiosa, poderíamos facilmente pensar que essa ideia é recente. Isto mostra até que ponto falamos da inovação exatamente na mesma perspectiva que Bacon: a inovação é a força que nos pode salvar da deterioração do presente. E outra vez, a retórica da inovação está intimamente ligada à ideia de conservação num presente de destruição.
Durante 300 anos, a palavra «inovação» quase desapareceu! Mas a partir dos anos 2000 voltou com muita força! No relatório da UE de 2010 por exemplo, a palavra «inovação» aparece mais de 300 vezes em 50 páginas. O que diz este relatório? Aponta que a Europa enfrenta desafios graves, que se intensificam com o tempo: escassez de recursos, mudanças climáticas, envelhecimento da população, etc. e só conseguirá superar esses desafios por meio da inovação. Assim criou um projeto chamado «UE 2020: a união da inovação». Dito doutra maneira: o que justifica a inovação não é uma certa ideia do futuro, que primeiro pensámos e que queremos realizar, mas o estado urgente e crítico do presente. Assim esta palavra de «inovação», que encontramos por todo o lado hoje em dia, enquanto acreditamos usá-la como sinônimo de «progresso», na verdade é uma ideia que vai ao oposto dele.
Kant, no texto O que é Esclarecimento? (1784), induz-nos a pensar que a ideia de progresso é consoladora, pois alivia a aflição do presente com a esperança de um futuro melhor e oferece um sentido aos sacrifícios necessários para alcançar este futuro. No entanto, aceitar sacrificar uma parte do presente para um futuro comum implica que este “futuro” seja delineado (senão como iremos acreditar nele?) e atraente (senão porque iremos trabalhar para sua realização?). Ora, o que não conseguimos fazer é precisamente abrir desta forma um futuro. Aí está a razão do porquê o «progresso», conceito escrito com maiúscula durante 200 anos, e que deu sentido aos projetos de tantos engenheiros, hoje desapareceu quase completamente da nossa vida, e foi substituído pela ideia de «inovação».
Esta substituição da palavra, que parecia inocente, na verdade diz muita coisa sobre o cansaço da nossa civilização, que já não tem a força de lançar a sua vontade em direção ao futuro; diz muita coisa também sobre uma ciência privada de visão pela técnica, porque o cientista pensa o que faz (daí uma certa visão do futuro) enquanto o técnico só apresenta um meio (daí a sua relação com o presente); ainda diz mais sobre a obsessão moderna pelo presente, e a nossa falta de paciência, uma virtude que só nasce da fé no futuro.
Resumindo e concluindo: a inovação é a resposta bulímica à crise do presente, num princípio de conservação; o progresso é a resposta a um chamamento do futuro, num princípio de edificação.
