Durante mais de duas décadas, Ricardo Araújo Pereira foi elevado pela imprensa e por grande parte do meio académico ao estatuto quase intocável de grande referência intelectual do humor em Portugal. Mas não apenas humorista, mas também pensador, comentador, farol moral. É, em si, este fenómeno de canonização mediática, revelador de muito mais do que apenas do talento do próprio. Revela a forma como, em Portugal, a crítica foi sendo substituída por reverência, e a verdadeira inteligência por um certo cinismo pós-moderno disfarçado de lucidez.
Não é que Araújo Pereira não tenha piada. Muitos acham que tem. Mas terá ele realmente tanta graça como a que lhe é atribuída? E, ainda mais importante, terá ele a densidade intelectual e cultural que grande parte do público atribui? A resposta, para mim e para um número crescente de pessoa é não, não tem. E o artigo recentemente publicado na @MinervaRevista_, com a precisão de quem desmonta uma peça gasta, vem finalmente colocar em palavras aquilo que muitos sempre sentiram mas poucos escreveram.
Ricardo Araújo Pereira tornou-se conhecido como um dos rostos do grupo Gato Fedorento, um coletivo humorístico que trouxe alguma inovação formal ao humor televisivo dos anos 2000, principalmente pelo uso de uma linguagem muito coloquial, de paródias sociais e de sátira a figuras políticas. Mas o fenómeno Gato Fedorento foi, desde o início, muito mais o produto de um contexto cultural que estava sedento de irreverência do que o resultado de uma genialidade transcendente.
A paródia que faziam era eficaz, mas nunca chegou a ser profunda, pois tocava no imediato, mas não perdurava no tempo. E, ao contrário de um grande satirista como Herman José nos seus melhores dias, nunca chegaram verdadeiramente ao cerne das questões. Preferiram o conforto da uma crítica alinhada com a opinião dominante e disfarçaram-na de ousadia.
Com o tempo, a transição de Araújo Pereira do humor para a crónica e o comentário político deu-lhe a nova roupagem do intelectual de esquerda com piada. E foi nesse preciso momento que começou a sobrevalorização mais gritante pois é muito comum em Portugal confundir-se fluência verbal com inteligência profunda. Muitas vezes basta saber falar bem, e Ricardo fala bem, escreve com ironia, tem boa memória e recorre com frequência a referências literárias ou filosóficas que são quase sempre bastante básicas, para se ser tido como profundamente inteligente. Sendo Portugal um país onde a elite cultural vive da aparência da erudição e não da verdadeira substância, essa característica bastou para o colocar num pedestal.
No entanto, ao lermos com atenção os seus textos e escutarmos os seus comentários, percebemos rapidamente que Araújo Pereira raramente se expõe ao risco da complexidade. As suas análises são pouco profundas, recheadas apenas de ironia fácil, sustentadas numa visão do mundo ideologicamente previsível e sem colocar qualquer desafio ao politicamente confortável. É um humorista que ri com os poderosos quando esses são de esquerda, but que ridiculariza sem piedade tudo o que cheire a conservadorismo, direita democrática ou religião, o que mostra facciosismo.
A sua cultura é selectiva e utilitária, sempre disfarçando alguma vulgaridade que a assola. Serve para brilhar em debates televisivos ou crónicas de jornal, mas raramente é acompanhada de pensamento próprio, coragem intelectual ou visão. Há nele aquilo a que podemos chamar de esperteza mas não chegando a ser verdadeira sabedoria.
Considerar Ricardo Araújo Pereira como alguém com grande coragem é o maior equívoco que uma grande parte das pessoas comete. Consideram-no corajoso por ser crítico, por ser mordaz, por mostrar não ter medo de dizer as verdades. Mas se essas verdades são aquelas em que a maioria das redações já acredita e as piadas são sempre contra políticos de direita que já por si são alvos fáceis, onde é que está o verdadeiro risco?
Nunca o vimos a fazer humor sobre o fanatismo do wokismo. Nunca o vimos desconstruir os dogmas das novas ideologias de género ou expor a hipocrisia das elites culturais progressistas. Nunca o vimos defender a liberdade de expressão quando esta entra em choque com os tabus do politicamente correto. Ele está sempre no lado seguro, o lado onde os aplausos são garantidos.
Um dos traços mais desconfortáveis da sua figura pública de Ricardo Araújo Pereira é a imagem de constante auto-satisfação. Há nele uma postura de quem acredita estar acima da crítica, não por mérito genuíno, mas porque durante anos foi blindado por uma imprensa que o endeusou, por universidades que o acolheram como grande pensador, e por um público que confundiu sarcasmo com génio. E é precisamente esta arrogância que lhe permite comentar tudo com um tom de condescendência, como que a insinuar que qualquer discordância revela ignorância. Essa postura cancela qualquer crítica, fecha portas ao debate plural e contribui para a ideia de que há vozes que estão acima do contraditório.
A sobrevalorização de Ricardo Araújo Pereira é, no fundo, a sintoma da forma como a cultura portuguesa se deixou capturar por figuras medianas com boa imprensa. É o reflexo de uma sociedade onde se confunde riso com reflexão, onde a repetição de slogans ideológicos substitui o pensamento crítico e onde os intelectuais pop são aceites sem contraditório.
Mas a culpa não é inteiramente dele. É sobretudo de todos nós porque é responsabilidade nossa, enquanto sociedade, desmontar estes mitos e exigir mais daqueles que ocupam, como Ricardo Araújo Pereira, espaços de influência pública.
Ele teve o seu mérito como humorista, mas a aura que lhe construíram ultrapassa largamente esse mérito, a ideia de que é um intelectual brilhante, um analista arguto ou um provocador lúcido é, como bem apontou a Revista Minerva, um exagero cultivado por um certo meio urbano, progressista e mediaticamente dominante.
Está na altura de desinchar este balão. Não por birra, mas por higiene cultural.
