Nasci integrado no cerne da margem sul. E passava os meus dias numa taxa de permuta constante entre fingir-me ou não um mosqueteiro ao serviço de sua majestade, provavelmente D’Artagnan. Também resolvia problemas de matemática. Fiz ditados e aprendi, pelo pulso do meu avô, a dividir e a multiplicar. Não fugi ao instrumento de funcionamento do sistema e, antes que desse por isso, estava já sentado na escola. Ensinaram-me a resolver equações. Passei, depois, para sistemas lineares ligeiramente maiores. De seguida, estava já a esboçar alguns rabiscos para maximizar funções. Até que cheguei ao conjunto dos imaginários. O vento bateu no tempo que voou e já me vou, hoje, dedicando a algumas primitivas.
Treinaram-me, nos entretantos, para resolver problemas hipotéticos com dados limpos e variáveis, por vezes, por mim definidas, não havendo grande margem de escolha para essa definição. Pareceram esquecer-se, todavia, que o mundo, lá fora, é bruto. Áspero. E que não vem com um enunciado. Isto é, que habita, algures por aí, uma dimensão mais crua, mais fria. Íntima. E não tão elegante quanto gostaríamos. A que se aprende no tropeço dos dias. E essa não cabe nos livros. No que toca à emoção, a imprecisão é consideravelmente superior e a nós mesmos tem, ainda, muito por explicar. Aquilo que é certo é que nenhum livro me preparou, um dia, para fazer face às emoções. À extensão tão vasta do que provamos sentir nas veias.
Ora, cresci, até certo ponto, com a convicção discreta de que a vida tem capítulos bem demarcados. Que há um momento para aprender, outro para começar e outro, na fronteira destes dois, para, finalmente, ser. Passei até a acreditar que esta falsa metamorfose se tratava de uma espécie de linha invisível, diante da qual alguém, que nunca soube bem quem, me diria que estou pronto. O que descobri, contudo, foi uma sucessão de contradições a este raciocínio. Que vivemos num estado provisório permanente, como se a existência fosse sempre uma preparação para algo que nunca coincide com o presente. E o mais inquietante não é esta demora, que sabe nos dentes a uma perpetuidade, mas a suspeita de que não há, afinal, conclusão prevista.
A modernidade especializou-se na arte da suspensão. Tudo é uma fase. Um percurso, um processo. A linguagem da maturidade foi substituída pela linguagem do aperfeiçoamento contínuo. Parece já não haver idade adulta como um território estável, mas, em vez disso, uma atualização permanente, aquém até da sabedoria que esses anos levam no bolso.
Tudo aquilo que se encontra subjacente ao conceito de academia tem, neste âmbito, diversas pontas por limar. O próprio saber, que deveria ser um parto de ideias sazonadas, transforma-se numa produção mensurável, que insistimos em tornar dimensível. E o pensamento, que nasce da demora, passa a justificar-se por estimadores.
É importante notar que a educação consiste, incontestavelmente, num pilar indispensável para uma sociedade íntegra e coesa. Parece, todavia, estar ligeiramente estagnada. Viciada em formar máquinas de guerra, altamente capazes de criar e produzir, porém, muitas das vezes, com graves deturpações na arte de ser e de pensar. De saber falhar. Fala-se das competências do século, ao passo que se estimulam eufemismos pedagógicos, enquanto se falha no básico: ensinar alguém a lidar com a perda, com a frustração e com a incerteza. Ou, simplesmente, com o vazio dos dias comuns. E continuamos a chamar-lhe ensino. A sentar crianças em filas, como peças de uma fábrica meticulosa, quando o mundo já não cabe num horário de cinquenta minutos. Muito menos vezes quatro, cinco ou seis.
Mora, nesta atmosfera, algo de estranhamente familiar. A continuidade que sentimos no nosso interior, que se esboça como uma teia de processos invisíveis. A vida parece continuar mediante regras que nos escapam. E vamos, nos entretantos, parecendo permanecer dentro de algo maior que nós. Conservo, no entanto, o esforço para tornar plausível a utopia de que existe para este ciclo um fim, recusando esta opacidade de forma absoluta e tentando reescrever a noção de que somos inteiros. Que seremos capazes de aceitar a própria plenitude. Que não precisamos de compreender o todo. Que devemos existir sem permissão. Que podemos, a qualquer instante, simplesmente e por si só, estar completos.
Posto isto, então, talvez, arrisquemos ressuscitar, dentro de nós mesmos, a ingenuidade outrora inerente aos nossos tempos de infância, como se nos trouxesse, numa bandeja, a estranha quietude que surge ao interromper esta etapa interminável de hesitações. De medo. Deambular nos consórcios da formatação de intelectos é regressar a José Mário Branco. E é recordar a Queixa das Almas Jovens Censuradas, segundo a qual nos dão o «prémio de ser assim, sem pecado e sem inocência».
