Recentemente, um famoso político português afirmou que só 20% dos ciganos é que trabalha e a média na União Europeia é de 54%. Ora como ninguém se dedicou a verificar isto, fui eu. Isto e o resto do relatório!
Este estudo da FRA não é sobre percepções vagas, é um inquérito comparável sobre direitos, condições de vida e integração de ciganos ou roma e nómadas em permanente deslocação em 13 países europeus, avaliam o progresso face às metas da UE para 2030 em áreas como a discriminação, pobreza, educação, emprego, saúde e habitação.
fonte de informação:
https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/fra-2025-roma-survey-2024_en.pdf

Mas vá, vamos já ao que interessa. André Ventura não mentiu, retratou bem a realidade, embora de forma não totalmente exata à décima. Mas os números são reais. Se não fossem, em princípio, já saberíamos.
Vamos lá! Em Portugal, de acordo como estudo só 21% dos ciganos entre os 20 e os 64 anos declarou ter como atividade principal trabalho pago.
E aqui é que a coisa fica ainda mais feia. Não estamos a falar de um número mau mas estável. Estamos a falar de uma queda contínua e brutal, e disso o Ventura nem falou!
Em 2016 eram 38% (no início da geringonça 1.0), depois passaram para 31% (2019-21), e em 2024 para 21%. Ou seja, menos 17 pontos percentuais em oito anos. é abismal porque o número já era vergonhoso. Felizmente, relembro, não faltaram estudos do CES e companhia sobre a comunidade cigana.
Para dar e vender.
O contraste com o resto da Europa é também vergonhoso A média europeia neste indicador está nos 47% em 2024. Portugal, com os seus 21%, aparece 26 pontos abaixo da média. Nem sequer é um bocadinho abaixo. É um desvio gigantesco. É estar no fundo, e sem desculpa estatística que disfarce o descalabro.
Pior! Enquanto a maioria dos países melhora ou pelo menos recupera nos anos mais recentes, Portugal anda para trás em marcha acelerada. Há países a subir para os 50, 60 e até perto dos 70%. Portugal faz o contrário, vai descendo, descendo, descendo, até encostar aos 21%. É o género de resultado que não aponta para um problema conjuntural. Aponta para falhanço estrutural.
E depois há o outro número que torna isto ainda mais embaraçoso, é que na população geral em Portugal, a taxa é de 78%. Portanto, o país onde 78% da população em geral trabalha é o mesmo país onde, neste gráfico, apenas 21% da comunidade cigana declara o trabalho como atividade principal. A diferença é de 57 pontos percentuais. Não é uma diferença. É, repito, um abismo.

Aqui, o retrato é ainda mais deprimente: em Portugal, só 8% dos jovens ciganos entre os 20 e os 24 anos completaram pelo menos o ensino secundário superior em 2024.
E o pior é que nem sequer se pode vender isto como estagnação. Houve queda: Portugal vinha de 10% e desceu para 8%. Ou seja, já partia de um nível miserável e ainda conseguiu piorar.
O contraste com a realidade nacional é esmagador. Na população geral em Portugal, o valor está nos 89%. Portanto, temos um país em que quase 9 em cada 10 jovens atingem esse nível de escolaridade, mas dentro da comunidade cigana o número fica reduzido a 8 em cada 100. É uma diferença de 81 pontos percentuais, um fosso obsceno.
Também face à média europeia, Portugal volta a aparecer na cauda, a média da UE neste grupo está nos 28%, já de si nada brilhante, mas ainda assim muito acima do caso português. Portugal fica 20 pontos abaixo da média europeia.
Estamos a fazer um bom trabalho….

Discriminação! Não ficamos bem na fotografia. Mas também não há um efeito CHEGA. em 2019-21, 62% das pessoas ciganas disseram ter sentido discriminação nos últimos 12 meses em áreas centrais da vida por serem ciganos, subiu para 63% em 2024, não é material. Mas em absoluto, é elevado.
Sim, é um valor brutalmente acima da média europeia, que está nos 31%. Ou seja, Portugal surge com mais do dobro da média da UE.
Traduzindo isto para português simples, em Portugal, quase dois terços dos inquiridos da comunidade cigana dizem sentir discriminação, quando na média europeia isso acontece a cerca de 3 em cada 10. Portanto, enquanto noutros países os números oscilam, em Portugal o retrato fica cristalino, muita discriminação, persistente e acima da norma europeia.
Motivos? Não sei. Acho que é uma pescadinha de rabo na boca.

Em relação aos objetivos propostos pela UE para melhorar a vida da comunidade cigana em diferentes pontos, Portugal, a par da França, está longe de os poder atingir. Relembro que a meta é 2030.
Este quadro é retirado do resumo do estudo em português, para quem preferir:
https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/fra-2025-roma-survey-2024_pt.pdf

Curiosamente, no ano passado o Polígrafo já tinha chumbado esta afirmação de Ventura.
Diz o Polígrafo: “Ao contrário do que diz o deputado e líder do Chega, há um estudo bem mais recente sobre a comunidade cigana em Portugal, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em junho de 2024. Baseia-se nos resultados do Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente em Portugal (ICOT), realizado em 2023.
Entre as principais conclusões do estudo destaca-se que “no mercado de trabalho, a população de etnia cigana tinha uma menor proporção de ativos (61,3%, para 70,8% na população total), posicionando-se maioritariamente no primeiro quintil da distribuição de rendimentos, ou seja, nos 20% da população com rendimentos mais baixos (72,6%)”.
Baseia-se num estudo do INE:
https://www.ine.pt/xportal/xmain?
xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=673365018&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt
Só que “ativos” não quer dizer que trabalhem: eu aliás fui ver as tabelas do INE e a esmagadora maioria está desempregada! Coisas do português!

Estão a ver: o Ventura disse que só 14% da comunidade cigana trabalhava, na verdade, a percentagem é de 15,2%.
O Polígrafo enganou os portugueses. Porquê? Porque nos deu o número com os desempregados.
Vergonha alheia.

Em conclusão: Não tenho muito a dizer. O tema é delicado. Só reafirmar que o Ventura acerta quando aponta para os números. eles mostram falhanços sérios de integração em Portugal, no emprego, na escola e noutros indicadores. Mas reconhecer a realidade não obriga a defender discriminação, obriga, isso sim, a exigir integração a sério, com respeito pelos costumes do país, pelos hábitos básicos de convivência, pela escolarização, pelo trabalho e pelo cumprimento da lei.
