A consciência nacional Portuguesa em 1580

“A crise sucessória aberta com a morte do Cardeal D. Henrique, de que as negociações referidas são um prenúncio, legou-nos também numerosos traços confirmativos do antagonismo pelo castelhano, sobre este se fundando algumas enérgicas afirmações de portuguesismo. Certo que não  faltaram também as deserções, os entendimentos com Filipe, e a Nação não ofereceu uma resistência total, mas não se devem perder de vista as circunstâncias dramáticas do País, depois de Alcácer-Quibir. Empobrecido, com as principais casas endividadas, com as suas elites  dispersas, sem gente de guerra, sem armas, sem capitães. Por cúpula os desentendimentos entre os pretensores e a enorme atividade corruptora dos agentes de Castela. Um simples documento bastará para se fazer uma ideia do estado a que chegara o País. Referimo-nos a um  depoimento de Cristóvão de Moura: “la tierra está como se puede imaginar, sin gente, sin presidios, sin armas y sin dinero”. Se se constituem os castelhanizantes, alguns factos são, todavia, sintomáticos para podermos avaliar o sentir geral do País. D. Jorge de Ataíde,  ex-Bispo de Lamego, oferece os seus préstimos a Cristóvão de Moura, mas com receio de que lhe acarretem o nome de Castelhano, “a mor infâmia que pode ter um fidalgo português”, e D. João de Mascarenhas esconde cuidadosamente do filho – disposto a lutar – a sua adesão a  Castela. Estes factos não são isolados, antes se enquadram numa atitude generalizada de receio dos fidalgos castelhanizantes pela forma como a sua parcialidade será encarada publicamente. Pedro Álvares de Nogueira, um contemporâneo, escreveu no Livro das Vidas dos Bispos de  Sé de Coimbra: “a maior parte dos fidalgos como estavão penhorados com as dadivas e promessas pretendião que logo tomassem por Rey sua Majestade mas isto encubertamente pello odio que conhecião que os Portuguezes tinhão aos Castelhanos”. Em alguns dos membros do Clero e da  Nobreza, até quando facilitaram o advento de Filipe, como escreveu o prof. Hernani Cidade, o “anti-castelhanismo, se bem moderado pela ganância ou pelo comodismo, era ainda assim o suficiente para repelir a absorção por Castela, o domínio parcial ou integral do Castelhano  A sujeição, mesmo gostosa, ao rei espanhol, neto do Portuguesíssimo Rei D. Manuel, não significa teoricamente sujeição a Castela ou Castelhanos, nem praticamente a ela arrastaria – pensava-se no tempo”.  É preciso não esquecer que se para muitos a titularidade da Coroa em  Príncipe não natural é sentida como um divórcio entre o Estado e a Nação, outros também não encaravam Filipe como estrangeiro. […] Na sua esmagadora maioria, os Portugueses não queriam a união peninsular. Este facto é certificado por múltiplos testemunhos contemporâneos,  provenientes de círculos diversos. Relatando as alterações em Portugal por morte de D. Henrique, diz um manuscrito coevo: “O povo todo este tempo, ainda que nunca foy ouvido, sempre insistio em não se unir com castella nas cortes e fora dellas com moito esforso, e desejo  pedindo, e buscando guerra ate as molheres, o que parece cousa de espanto, porque a elle so vinha o maior mal della”. Não obstante o seu arguto sentido político e o conhecimento das nossas dificuldades lhe fazerem duvidar de uma possível resistência, Saint Gouard corrobora  este depoimento ao comunicar para França que os Portugueses diziam “se sujeitariam antes ao diabo do que a el-rei de Castela”, verdadeira heresia só superada pela afirmação daquele deputado de Évora às Cortes de Almeirim: “Se Deus Nosso Senhor fosse Castelhano, eu não o  queria pera Rey de Portugall”. Monsenhor Roberto Fontana numa nota cifrada de 18 de Outubro de 1578 informa também para Roma que quanto “maiores são as pretensões do Rei Católico, muito maior o ódio aos Castelhanos”, e o Núncio Sauli, acreditado perante o Cardeal Rei e  “tido por muito espanhol”, comunicava: “O Povo odeia que o Rei Católico suceda neste Reino e fala muito licenciosamente”. Semelhantes testemunhos são plenamente corroborados por outros. Gioan Francesco Morosini, embaixador veneziano, por exemplo, alude a essa época ao  “odio immortale che ha regnato, regna i regnerà sempre fra Castigliani e Portughesi” e prognostica que “don Antonio s´era alzato re con grandissimo applauso di tutto il popolo”. E Lorenzo Priuli, embaixador veneziano em França, em carta à Senhoria, de 23 de Fevereiro de  1580, relatando uma conversa com o embaixador de Inglaterra em França, esclarece serem as vistas de Filipe II quanto a Portugal contrárias ao desejo da nação. Mais elucidativos que todos os outros são os depoimentos de Cristóvão de Moura e do próprio Filipe II. O primeiro,  na sua correspondência, insiste na oposição do povo, chega a referir-se aos populares como “dañados”, conta ao seu amo que pelas ruas era olhado como um touro, que era considerado um Judas e alude ainda ao “natural y envejecido odio que el pueblo tiene con castellanos”  Quanto ao segundo, não tinha ilusões sobre o sentir dos futuros súbditos, e reconhece numa carta a Cristóvão de Moura: “La verdad es que aborrecen la union, como Martim Gonçalez y que, se viesen la ocasión de poderla impedir sin peligro lo hariam como lós demás”. Se a estes  depoimentos quiséssemos juntar outros de Espanhóis não seria isso difícil, a começar pelo de Ribadeneyra. Ao condenar a guerra de conquista de Portugal, registava o ódio “y aborrecimiento tan entrañable que nos tienen los portugueses”. […] Os sintomas de antagonismo vão  desde a prosa tanto maçuda do Testamento do Reino de Portugal à simples quadra:

“Viva El-Rey D. Henrique

Nos infernos muitos anos

Pois deixou em testamento

Portugal aos Castelhanos.”

A animadversão ao castelhano encontra-se até na origem do grande florescimento da sátira  em Portugal no séc. XVII, período em que ela se funde “com o panfleto político e o manifesto de resistência”, como observa com justiça o Dr. Luís de Sousa Rebelo. […] D. Garcia de Silva y Figueroa, embaixador de Filipe III ao Châh Abbâs (1618-1619), tendo levado cerca de  dez anos para se descumbir de sua missão, tais as dificuldades levantadas pelas autoridades Portuguesas no Oriente, exprimia a opinião de que os Portugueses com seu ódio à Monarquia Espanhola nem sequer queriam ser chamados espanhóis ou confundidos com eles. Damián Salustio  referindo-se a Portugal caracterizou “la gente plebeya, como enemigos eternos de la nación castellana”; Sallas Barbadillo interrogava-se sobre a razão porque “quieren tan mal los Portugueses a los Castellanos” […]. O anticastelhanismo da nação revelado em observações,  picantes, mofas, chufas, troças cruéis, ficou refletido inclusivamente na imagem que do Português tinham os espanhóis do séc. XVII. Escritores daquela nação, por exemplo, fizeram chegar até nós as palavras daquele Frade Português que dizia: “Os moros son proximos, y os  jodeos son proximos, y os castejaos ainda son proximos”. Ou daquele outro que ao celebrar a Batalha de Aljubarrota – a grande vitória da véspera de Nossa Senhora de Agosto – excluía os castelhanos do grémio de Cristo: “Estábamos os christianos de un cabo del río, y los  castellanos de la otra parte”. É ainda um autor espanhol – Pelicer – quem nos conta o episódio da moça severamente repreendida pela patroa por ter chamado castelhano a um homem honrado (…)”.

 – “Consciência Nacional Portuguesa”, de Martim de Albuquerque.